A Trágica Vida de Sissi Imperatriz da Áustria [Parte IX]

Ao chegar em Viena, Elisabeth é recebida por Franz Joseph, que demonstra sincera alegria com seu retorno. Logo em seguida, a grã-duquesa russa, Maria Pavlovna visita a família imperial. No entanto, devido à uma doença no pulmão, ela logo se vê obrigada a se recuperar na Itália.

Na presença de Sissi, ela conta as experiências vividas na Rússia, com o assassinato do Czar. O medo que ela narra de perder seus familiares em São Petersburgo a qualquer momento, vítima de ataques dos anarquistas, é ofuscado por sua surpresa ao notar o modo diferente como Franz Joseph é recebido pelo povo ao atravessar o paço de Schobrunn em uma carruagem aberta. Ela então pergunta:

– Como? Sem escolta?

– Para quê? O povo fica satisfeito em ver seu imperador! – diz Sissi.

– Feliz e invejável país! – diz, por fim, a grã-duquesa.


A estada na Inglaterra acabou por refletir nos hábitos de Sissi. Ela, que outrora cavalgava com frequência, não deixou de fazê-lo, mas passou a preferir longas caminhadas. Uma vez que apreciava caminhadas rápidas, as únicas capazes de acompanhar a imperatriz eram a condessa Festétics e a Marquesa Furstenberg. Sissi poderia chegar a ficar cinco horas caminhando por longas distâncias.

As longas caminhadas da Imperatriz não se restringem somente à Viena. Quando retorna à Buda, chega a fazer caminhadas de seis horas, mesmo nos dias em que participa de banquetes na corte durante à noite. Tais caminhadas se mostram um problema para a segurança da imperatriz, uma vez que sua escolta nunca sabe onde ela irá parar com seus passeios a pé – uma vez que, as caminhadas de Sissi não possuíam metas ou trajetos definidos, já que ela caminhava sem destino.

No mês de setembro (1883), Franz Joseph realiza uma excursão rumo ao Trieste e à Dalmácia. O progresso imperial foi incentivado pelo primeiro-ministro, o Conde Taaffe, que via nessa viagem, um modo do imperador reparar qualquer má impressão causada pela revolta suprimida neste mesmo ano. Embora discordando da decisão de Taaffe acerca da viagem, Sissi resolve acompanhar o Imperador. No Trieste, o casal imperial é recebido por um clima de medo e apreensão, devido os revoltosos locais. Na ocasião, uma estátua do imperador é pichada com os dizeres: Morte a Franz Joseph!

O clima de apreensão parece não cessar, e durante uma visita oficial do imperador a um hospital local, Sissi pede-lhe para sentar à esquerda na carruagem imperial. Tal pedido tinha um porquê de ser; ao sentar-se nesse local, Sissi acreditava que estaria dificultando a mira de possíveis ataques contra o imperador.

Ao retornar à Hungria, a imperatriz narra de modo irritado para sua filha Valéria, os eventos vividos na viagem. Ao encontrar Taaffe – que agradece o fato do imperador e da imperatriz terem voltado a salvo da excursão – a imperatriz reponde de modo impessoal:

‘’Só temos que agradecer a Deus se tudo acabou bem…’’ – retirando-se logo em seguida.

Seja na Hungria ou na Áustria, as caminhadas continuam sendo parte da rotina da imperatriz. No entanto, ao contrário de outrora, Festétics e Furstenberg passam a sentir cada vez mais dificuldade em acompanhá-la e para tal, é resolvido que uma dama de companhia mais jovem seria recrutada para segui-la em seus passeios. Elisabeth exige que a dama em questão seja húngara. A jovem escolhida foi uma dama húngara de nome Sarolta Majlath.

Nesse interim, outro hobby desenvolvido pela imperatriz foi a esgrima – esporte no qual passou a desempenhar com habilidade, treinando sempre que possível com seus professores. Nessa época, devido à atividade física constante e seus distúrbios alimentares (como comer pouco e não jantar) Sissi emagrece ainda mais – magreza esta, notada inclusive pelo príncipe Alexandre de Hesse, na ocasião de seu encontro com a imperatriz em Baden-Baden.
 
Com o passar dos meses, Elisabeth se torna mais magra e pálida e passa a queixar-se de dores nos pés. A fim de dar um tempo nas caminhadas, ela então, resolve voltar a andar de cavalo. Em um desses passeios, enquanto andava por Murszteg, seu cavalo prende a pata em um buraco, e a mesma quase caí de um precipício, sendo socorrida por um operário que passava no momento pela localidade. Ao saber do incidente de sua mãe, Valéria lhe escreve um poema:

Ó São Jorge, ó cavaleiro
Que nos salvas do perigo
que muito protegestes minha mãe!
Eu peço-te confiante
Para que satisfaça meu rôgo
proteja sempre a estimada existência
daquela que me deu à luz


Foi ainda durante essa época – mais precisamente no dia 02 de Setembro de 1883 – que nasceu no palácio de Laxemburgo, uma menina de nome Isabel Maria da Áustria, a neta de Sissi. A menina é filha de Rudolfo, o príncipe herdeiro, e sua consorte Estefânia da Bélgica.

Maria foi descrita como sendo de temperamento calmo e cabelos loiros, sendo recebida na família com ânimos mistos. Enquanto a arquiduquesa Estefânia era vista chorando por ter dado à luz uma menina, Rudolfo, ao contrário, se mostra feliz, dizendo:

‘’Não faz mal uma menina; é muito mais bonita!’’

Uma inscrição feita no diário de Valéria, irmã de Rodolfo, é digna de nota. Segundo ela: ‘’Até mamãe não a achou horrível’’. Tal comentário provavelmente se devia ao fato da notória pouca afinidade que a imperatriz nutria por crianças e bebês pequenos.

Embora Sissi tivesse um bom relacionamento e proximidade com sua filha Valéria, a mesma se entendia melhor com seu pai. Segundo seus escritos em seu diário, era o imperador Franz Joseph que ‘’a entendia completamente’’. Embora amasse sua mãe, Valéria não nutria os mesmos gostos e predileções que ela, embora compartilhassem uma afinidade em comum: A escrita de poemas. Valéria, assim como Sissi, amava escrever. No entanto, a jovem não entendia a predileção da mãe pela Hungria, e muitas vezes se incomodava em ter que falar em húngaro com ela ou com o pai – uma vez que Sissi requisitou que o imperador também falasse com a filha no idioma. Mesmo outrora tendo requisitado falar em alemão com o pai – por receio de magoar a mãe – Valeria acaba cedendo e se comunicando com ele no idioma húngaro.

No ano seguinte, em abril de 1884, as constantes caminhadas de Sissi começam a refletir em sua saúde. Com dores no ciático, devido ao esforço repetitivo, a imperatriz resolve partir rumo à Amsterdã, a fim de encontrar o doutor Johann Georg Mezger. Em Amsterdã, Sissi ficou hospedada no Doelenhotel. Uma vez que amava o mar, ela também teve quartos temporários em Zandvoort. Nessa época, suas dores nos nervos e no ciático haviam atingido um dos seus auges desde o início de suas caminhadas. Como diagnóstico, curiosamente, o médico incentivou as cavalgadas, a esgrima e os passeios pela praia, mas alertou que seu quadro poderia não se curar definitivamente. Ela também foi recomendada a receber massagens como parte do tratamento.

O tratamento com o Doutor Mezger era um tanto mais brusco, diferente do modo como a imperatriz estava acostumada a ser tratada por outros médicos. Isso a deixa com um quadro de nervosismo amplificado e faz com que Mezger tenha que lhe dar alta antes do tempo previsto. Nessa altura, a imperatriz parou de comer, passando a beber apenas leite.

Os danos que as caminhadas constantes de Sissi causam em seu corpo não se restringem apenas às dores. Em carta, a imperatriz relata à Valéria que seus joelhos ficam inchados com tais passeios. De acordo com a imperatriz, o mar é o que a acalma, e por esse motivo, ela passa a dormir toda noite, admirando-o.

É possível que o quadro de anorexia nervosa da imperatriz tenha sido agravado pelo modo como Mezger a tratava. Em uma das consultas, o médico disse que Sissi havia envelhecido e que tinha rugas. Sempre preocupada com sua aparência, ela pode ter tido um gatilho com tal afirmação, o que a levou a ficar com um quadro instável e ainda mais agudo da doença. No entanto, em uma época onde doenças e distúrbios com fundo psicológico ainda não eram muito compreendidos, teria sido um tanto complicado para Mezger – ou qualquer outro médico do período – estar ciente destes detalhes acima exemplificados.

No final do tratamento, em meados de junho, Elisabeth segue rumo à Alemanha, em Feldafing. À esta altura, ela está mais bronzeada e animada, embora – segundo Valéria – continue com o temperamento inquieto. Nesse interim, Mezger fez com que a Imperatriz voltasse a comer. O ato de comer com mais regularidade, fez com que Sissi abandonasse os jejuns que praticava constantemente há anos, com o intuito de se manter magra.

O argumento usado por Mezger foi o de que, caso a imperatriz continuasse a ficar sem comer, ela ‘’ficaria velha’’ dentro de um prazo de dois anos. Nessa época, Elizabeth e Valéria se aproximam mais. Mãe e filha possuem um temperamento parecido que, segundo a própria Valéria, se torna uma barreira para uma relação melhor – haja vista que, segundo ela, a mãe tem ‘’o mesmo caráter duro e inquieto’’.

No ano de 1884, Franz Joseph passa a frequentar com mais assiduidade o burghteather, em Viena. Lá ele assiste às peças com seu filho Rodolfo, e às vezes, com a Imperatriz. Entre idas e vindas, uma atriz em especial, de nome Katharine Schratt, chama sua atenção. Franz a acha muito parecida com Sissi, só que mais alegre e menos entristecida. Essa foi a impressão do imperador, apenas ao assistir suas peças e antes de ser introduzido à presença de Schratt fora dos palcos. Seria Schratt que, anos mais tarde, ficaria conhecida na corte por ser a mais querida amiga e confidente do imperador…

Continua…

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