”O Garanhão da Rainha” – O Relacionamento entre a Rainha Vitória e John Brown

A rainha Vitória sempre adorou passar seu tempo nas Highlands – terras escocesas. Nas terras altas, na Osborne House, a rainha desfrutava das idílicas paisagens locais, do ar fresco, e da companhia de montanheses simples – longe do clima de afetação da corte, das adulações reais e dos tantos protocolos.

Entre os locais, a rainha nutria grande respeito por nomes como Smith; Grant; Ross; Thompson, e especialmente por um homem alto – e de modos vistos como sendo um tanto controversos – chamado John Brown. A rainha avistou Brown pela primeira vez em 1850, durante sua estada em Balmoral; ela tinha 31 anos idade.

Nascido em Crathie, no dia 08 de dezembro de 1826, na região escocesa de Aberdeenshire – famosa por ser cortada por diversos rios e córregos – John Brown era filho de um homem de mesmo nome, e de Margaret Leys. Tanto ele, quanto outros irmãos, ingressaram aos serviços da família real em Balmoral, atuando em diversas funções – especialmente com os cuidados dos cavalos locais.

Castelo de Balmoral, na Escócia.

De acordo com a jornalista e historiadora Julia Baird, em sua biografia ‘Vitória, a rainha: Biografia íntima da mulher que comandou um Império’, desde o primeiro momento, Brown chamou a atenção da rainha. De acordo com a monarca, ele era: ‘‘Um rapaz alto, de boa aparência, de 23 anos, com o cabelo crespo, muito bem-humorado e disposto.’’ (apud BAIRD, 2016, p. 312).

Quando o príncipe Alberto era vivo, Brown era seu servo; em morte, o homem tornou-se criado pessoal de Vitória – e há quem diga, até mais que isso. A rainha adorava desfrutar da companhia de Brown, de quem era inseparável. Durante o dia cavalgava ao seu lado; fazia caminhadas; conversava sobre todos os assuntos, e durante à noite, chegou a colocá-lo para dormir em um aposento próximo ao seu.

Na época, a relação próxima que Vitória nutriu com Brown por quase 20 anos, não passou despercebida por seus contemporâneos. Comentários – sejam em jornais ou através de boca a boca – especulavam que a rainha poderia ter se casado em segredo com seu criado, ou até mesmo, engravidado dele. Tais boatos, sem qualquer fundamentação, seguidos da falta de documentação acerca de tal relacionamento, até os dias de hoje seguem aguçando a curiosidade popular.  

Mas qual foi, de fato, a natureza do relacionamento da rainha com seu ‘‘tão querido Brown’’? Neste texto, saberemos um pouco mais a respeito deste assunto.

– Uma Rainha Solitária:

Detalhe de uma pintura retratando o Príncipe Alberto de Saxe-Coburgo-Gota, em 1842, por Franz Xaver Winterhalter. A tela faz parte do acervo da Royal Collection.

Na ocasião do falecimento de seu marido, o príncipe consorte Alberto de Saxe-Coburgo-Gota, Vitória isolou-se em um luto que alarmou seus ministros, corte e povo. A rainha alienou-se dos assuntos de estado, entregando-se à uma tristeza que parecia nunca findar.

Nessa constante entre perda, luto e solidão, existiu a figura de John Brown, um homem que, conforme anteriormente mencionado, teve uma ligação com o falecido príncipe consorte. Foi nos afazeres rotineiros que Brown se fez presente perante à monarca, ajudando a amenizar sua dor do luto. Era ele que, à noite, lhe levava um copo de água em seus aposentos, e que durante as manhãs, recebia suas primeiras ordens do dia.

De acordo com os pesquisadores Philippe Alexandre e Béatrix de L’aulnoit em sua biografia intitulada ‘Victoria – A Última Rainha (1819 – 1901)’:


‘‘É Brown que lhe ata o avental negro para que o vestido de seda não fique manchado de tinta quando se senta à secretária. É ele quem lhe abre um chapéu à primeira gota de chuva. É ele que, em viagem, parte em busca de alguma bagagem extraviada. É ele que, de excursão à Balmoral, corre a buscar à choupana vizinha, água quente para o chá quando a lareira não quer acender-se.’’ (ALEXANDRE e DE L’AULNOIT, 2002, p. 298).

É ao lado de Brown que Vitória ameniza a dor do luto pelo falecimento de Alberto, e chega a ‘‘sentir mais gosto pela vida’’, além de inclusive ‘‘voltar a sorrir’’ (ALEXANDRE e DE L’AULNOIT, 2002, p. 300).

No entanto, a amizade recíproca de Brown, não lhe vem sem um custo. Em meados do século XIX, a Europa experimentou uma onda de moralismo no seio das famílias da época, e o mesmo não seria diferente com Vitória. Embora satisfeita com a companhia de seu servo, a mesma nutre seus próprios questionamentos. Para o reverendo Wellesley, Vitória indaga: ‘‘Não será pecado aceitar o reconforto e o afeto de outro homem que não o Alberto?’’ (STRACHEY, 2015 p.326). Talvez a resposta do reverendo tenha – em algum grau – lhe fornecido consolo, haja visto que ele lhe responde que a dor do luto tem seu tempo e depois, a vida retorna aos seus conformes.

Carte de visite intitulado ‘Rainha Vitória [montando] em ‘Fyvie’ com John Brown em Balmoral”, retrato feito em 1863, por George Washington Wilson.

E assim o foi. Ao lado de Brown, o luto – mesmo que sempre existente – deu lugar à retomada de sua rotina e de sua vontade de viver.

No entanto, por mais que a consciência da monarca pudesse estar tranquila a respeito de sua amizade com o servo, segundo o chanceler do tesouro, ela causava falatório e furor em Londres e na Europa. Brown era uma figura que chamava atenção inclusive dos membros da realeza estrangeira, que estavam de passagem pelo reino. Durante sua visita à Inglaterra em 1864, a imperatriz da Áustria, Sissi, não pôde deixar de reparar na figura do homem, andando sempre ao lado de Vitória.

A presença de Brown ao lado da rainha, tampouco se limitava a Balmoral ou aos outros castelos, casas e palacetes do reino. No outono de 1865, durante uma visita ao lar da duquesa de Atholl em Dunkeld Cottage, a rainha – por carta – pediu à anfitriã que hospedasse o servo no local.

– Uma companhia do além:

Cena do clássico filme mudo alemão, Dr. Mabuse (1922), dirigido por Fritz Lang. Fotografia: Bettmann / Corbis

Uma faceta também explorada por historiadores e pesquisadores acerca do relacionamento da monarca com seu encarregado, é o caráter mediúnico deste. É quase consenso entre os biógrafos da rainha, que a mesma acreditava que o espírito de seu marido estava – direta ou indiretamente – próximo de John Brown.

Para Vitória, Brown tinha uma conexão forte com o espírito de Alberto. Era ele quem Alberto ouvia em vida, e para a rainha, isso o ligava ao falecido. De acordo com o biógrafo de Vitória, Lytton Strachey, quando Brown estava por perto, a rainha acabava acreditando que o espírito de seu falecido marido estava mais próximo dela. Com efeito, a monarca passou a buscar na figura do empregado, uma resposta ou inspiração para questões diárias – políticas ou privadas – suscitadas por ela acerca de sua vida.

Assim sendo, a amizade de Vitória com Brown não se sustentava apenas devido à solidão da monarca em seu dia a dia, como também, através da crença de um elo mediúnico entre um criado com seu antigo mestre.

Fotografia de Sir Arthur Conan Doyle, tirada em 1 de Junho de 1914, tirada pelo fotógrafo Arnold Genthe.

É preciso ter em mente que tal crença mediúnica não era uma exclusividade de Vitória. Durante o século XIX, uma nova febre no que tange os assuntos sobrenaturais, chegou à Europa, vinda dos Estados Unidos. Por lá, a moda era conhecida como ‘espiritualismo’, e reuniu como adeptos, diversos nomes proeminentes do país. O espiritualismo, nada mais era, que a crença de que os mortos poderiam se comunicar com os vivos.

Com o crescente interesse dos assuntos espiritualistas no Reino Unido, muitas pessoas passaram a fazer encontros com sessões mediúnicas em suas casas. Entre essas pessoas, estava o escritor inglês, Sir Arthur Conan Doyle. A própria rainha e seus filhos, participaram de sessões espíritas na Osborne House.

O século XIX foi tão marcado pelo interesse das pessoas nos assuntos ocultos, que o renomado advogado estadunidense John Templeton Strong, chegou a dizer acerca das famosas reuniões espiritualistas ocorrendo em seu país:

‘‘O que eu diria a quem predissesse que o século XIX, tão orgulhoso de suas luzes, terminaria com centenas de milhares de pessoas nesse país acreditando poder se comunicar com seus avós?’’ (apud DEL PRIORE, 2014, p.37)

Assim sendo, o interesse de Vitória nos assuntos ocultos, também era um reflexo da grande onda espiritualista que ocorreu na Europa e no mundo na época. Ela poderia, de fato, acreditar que Brown estivesse ligado ao espírito de seu falecido marido, mas assim o fez, não por loucura – como muitos vieram a sugerir posteriormente – mas devido ao apelo popular que o assunto tinha na época.

– O Garanhão da Rainha:

Esboços de John Brown aos 23 anos de idade e um outro Ghillie, feitos pela rainha Vitória.

Independentemente dos temas nos quais Brown trazia conforto à rainha, o principal fator acerca da manutenção da amizade e elo com o criado, se baseou no efeito que sua companhia causava à Vitória. A presença do empregado fazia com que a monarca exclamasse: ‘‘Que alívio ter Brown permanentemente comigo!’’(apud ALEXANDRE e DE L’AULNOIT, 2002, p. 298)

Ao todo, Vitória conviveu com Brown por quase tanto tempo quanto outrora havia convivido com Alberto (18 anos e 21 anos, respectivamente). Ele foi seu amigo mais próximo. Assim sendo, a amizade entre os dois acabou por proporcionar a Brown, certas liberdades nas quais a rainha não tinha por costume permitir aos outros. À rainha agradava o modo franco e a falta de afetação com que Brown se dirigia a ela. Enquanto até mesmo os filhos da monarca tinham receio em dirigir-lhe à palavra em determinadas ocasiões, o criado e amigo, ao contrário, assim sempre o fez e sem maiores problemas.

Os modos vistos como ‘‘grosseiros’’ e ‘‘rudes’’ do homem, eram motivos de comentários de contemporâneos. Lorde Cowley em Balmoral, chega a exclamar: ‘‘Que animal este Brown!’’ Certo dia, Brown foi tentar prender um broche no xale que estava no pescoço de Vitória, quando a mesma acaba se movimentando e, por consequência, se arranhando com a agulha do mesmo. Eis que Brown exclama: ‘‘Arre mulé, num consegue dexá tua cabeça parada!’’ (apud BAIRD, 2016, p. 313).

Fotografia de John Brown em 1873, por George Washington Wilson.

Com Vitória, Brown dispunha de uma liberdade que rompia com diversos protocolos dos círculos da realeza no período. Ele poderia repreendê-la caso achasse por bem; opinar sobre os locais onde deveria passear, entre outras coisas. Entretanto, de acordo com o biógrafo Lytton Strachey, em seu livro ‘Rainha Vitória’, tal obediência por parte da monarca, tinha menos a ver com uma personalidade dócil e passiva, e mais com estratagemas psicológicos desenvolvidos por ela mesma:

‘‘Essa excentricidade à primeira vista era extraordinária; mas, no fim das contas, não chega a ser algo estranho para uma senhora viúva permitir que um criado indispensável e de confiança tenha em relação a ela uma atitude de autoridade que é expressamente proibida aos parentes e amigos: o poder de um inferior continua sendo, por um estratagema psicológico, o nosso próprio poder, mesmo quando ele é exercido sobre nós. Quando Vitória obedecia com humildade às ordens abruptas de seu ajudante, para saltar de seu pônei, ou colocar seu xale, não estaria assim dando um exemplo dos mais elevados de sua própria força de vontade?’’ (STRACHEY, 2001, p.326).

Um episódio onde a autoridade de Brown para com a corte e assuntos políticos pode também ser destacado, ocorreu quando o presidente da câmara de Portsmouth visitou Osborne, a fim de convidar a rainha para revistar um destacamento de voluntários. Brown então apareceu na porta, comunicando o presidente sobre a resposta da monarca, com as seguintes palavras: ‘‘A Rainha diz, craro que não!’’ (apud BAIRD, 2016, p. 314).

Por anos, Vitória lutou entre ceder e ir contra a opinião e conselho de outros homens – sejam eles de seu conselho privado; seus ministros, ou até seu marido. Acatar as ordens dessas pessoas – ao contrário das de Brown – poderia parecer à rainha, uma tentativa destes em podar sua autoridade.

Para uma mulher que viveu seus primeiros anos alheia à uma figura masculina (haja visto que perdeu seu pai quando tinha meses de idade) e que enfrentou um posterior luto vitalício pela perda do marido, a rainha pode ter visto em Brown, a companhia na qual havia sido privada de manter. A monarca acreditava – como a maioria das mulheres em seu período – na submissão feminina perante os homens, não conseguindo, portanto, dissociar uma imagem masculina de afeto, de uma figura potencial de poder. De acordo com Strachey, Vitória ‘‘gostava de sua força, de sua solidez, do sentimento de segurança física que ele lhe dava; ela gostava até mesmo de suas maneiras rudes e de seu linguajar de camponês.’’ (STRACHEY, 2001, p.326).

No início de seu reinado, Vitória era apelidada de senhora Melbourne, e depois, passaram a chamá-la de senhora Brown. De acordo com o diplomata John Ponsonby: ‘‘JB é tão insistente, como se estivesse no castelo de Windsor. Se falta alguma coisa, insiste e obtém-na’’.

Para a rainha, a figura de poder que Brown representava, também lhe servia de proteção. Um evento digno de nota, ocorreu em 1872, quando um jovem de 17 anos, de nome Arthur O’Connor disparou uma arma descarregada na direção de Vitória, nos jardins do Palácio de Buckingham. Na mesma hora, Brown rapidamente salta da carruagem e desarma O’Connor. A arma só estava carregada para assustar e fazer barulho. O jovem foi preso e condenado em seguida. Vitória, ficou muito grata a Brown por sua proteção e ato de coragem. Como agradecimento, a rainha mandou fazer uma medalha de ouro em sua homenagem, além de lhe conferir uma renda anual de 25 libras. Brown também recebeu o título de escudeiro – primeiro escalão da hierarquia nobiliárquica.

– Intrigas em Família:

Fotografia intitulada ‘Rainha Vitória, Princesa Louise e seu servo John Brow, Osborne, 1863. Autor desconhecido.

Se a popularidade de Brown não escapou do olhar recriminatório de seu povo, tampouco assim o fez com os filhos da monarca. Conforme a relação entre Vitória e seu servo era comentada em jornais pelo mundo – seja chamando-o de seu médium; seja aludindo a algo mais – a tensão entre a rainha e seus filhos aumentava.

Eduardo, Alfred, Louise e Leopoldo em especial, odiavam Brown. O primogênito, Eduardo, sempre se mostrou chocado com as notícias dos tabloides acerca do modo como a mãe explicitava sua amizade com seu criado. Para ele e para a maioria dos filhos de Vitória, a relação de um criado com seu mestre deveria ser distante e protocolar. Como resposta, o príncipe herdeiro então passa a proibir a presença de Brown em sua casa. Isso faz com que a rainha pare de frequentar qualquer uma das propriedades do filho. Vitória também passa a alienar o primogênito dos assuntos políticos, controlando as informações fornecidas a ele por seus ministros.

Não só Eduardo se mostra indignado com os atos da mãe perante Brown, como também, os outros filhos da monarca. A filha de Vitória, Alice, se choca com o modo com que a mãe mostra abertamente a amizade que tem com o serviçal, e como sempre o elogia para os outros. Até a primogênita Vicky pede que a mãe se afaste do homem, temendo que tal amizade pudesse colocar a monarquia em risco.

Mas Vitória deixa que falem. Ela se alegra com a presença de seu ghillie. Em
1867, ela o nomeia como servidor escocês da rainha – em suma, meio criado, meio secretário. Com o passar dos anos, Brown ganha residências; recebe condecorações e dinheiro, como gratidão aos serviços sempre prestados à Vitória.

Um Affair Real?

Pintura datada de 1883, intitulada ‘John Brown com cachorros em Osborne. Por Charles Burton Barber.

Conforme vimos através destas linhas, a ligação de Brown para com Vitória, pode ser explicada através de inúmeros fatores – seja pela ausência de uma figura masculina em sua vida; pelos assuntos espirituais relacionados a Alberto, entre outras coisas. Mas o quê mais?

Era de comum conhecimento, que existiam na época, boatos de que Brown nutria um relacionamento de caráter afetivo com a monarca. Atualmente, pouco restou de Brown nos diários da soberana – amplamente censurados e editados por sua filha mais jovem, Beatrice. A maioria das biografias sobre a monarca, tratam o relacionamento de Vitória com seu servo, através de uma leitura mais cética. Para muitos biógrafos, a ligação de Vitória para com Brown, era de caráter amistoso e mediúnico. Grosso modo, as análises não estão equivocadas; Brown assim o foi. Ele era o faz tudo da rainha, a ajudava em diversas tarefas quotidianas, além de ser uma presença física que constantemente lhe evocava a memória de seu falecido marido. Mas pode ter existido algo mais?

A biógrafa que, até o momento, mais explorou a análise da relação de Vitória e Brown sob uma perspectiva mais romântica, foi a jornalista e historiadora, Julia Baird. Ao contrário da maioria dos biógrafos da rainha, que se mantiveram (e se mantém) reticentes a esse respeito – dada à escassez de documentação – Baird conseguiu analisar com um pouco mais de ênfase tal faceta, ao se deparar com a descoberta de um registro da época que, até então, permanecia desconhecido ao público

O maior acervo de registros sobre a vida de Vitória e sua família, são os Arquivos Reais no Castelo de Windsor, na Inglaterra. Fundados pelo monarca George V em 1914, os arquivos são uma coleção privada e sem direito de acesso público. Seus registros estão isentos das leis de liberdade de informação e das regras que tangem os Arquivos Nacionais da Grã-Bretanha – que tradicionalmente permitem a liberação da maioria dos documentos do governo, após 30 anos. O processo pelo qual os guardiões decidem quem pode entrar no local, permanece obscuro. A sensação entre muitos pesquisadores, é a de que pode haver material retido.

Entretanto, os arquivos reais não são os únicos meios para se analisar a vida e reinado de Vitória. O registro encontrado por Baird – e que nos fornece uma nova perspectiva acerca do relacionamento da monarca e Brown – não partiu dos arquivos reais, e sim, da documentação pessoal de Sir James Reid, o médico particular da rainha. Tais registros ainda se encontram sob a posse de seus familiares – longe do crivo dos guardiões dos arquivos reais.

Fotografia da Princesa Beatrice, datada de fevereiro de 1886. Tirada no estúdio Walery, em Londres, Inglaterra.

Atualmente, sob uma análise dos diários de Vitória (conforme mencionado anteriormente, bastante editados por Beatrice), Brown aparece para o leitor, como sendo um mero ajudante a quem a rainha recorria quando precisava descer do cavalo, atravessar um rio fundo a galope, ou arrumar seu xale. Mas, esse foi apenas um dos muitos papéis desse homem na vida da monarca. Para os próprios filhos da rainha, Brown não era apenas um ajudante fiel. Eles o chamavam de ‘‘o garanhão da rainha’’.

Lord Derby foi um dos contemporâneos de Vitória, que visava entender mais a natureza do relacionamento entre a rainha e seu encarregado. Ele elencou em seu diário as atividades consideradas ‘‘suspeitas’’, que a rainha fazia ao lado de Brown:

‘‘Longos passeios solitários a cavalo em partes isoladas do parque: presença constante no quarto dela: mensagens privadas enviadas por ele a pessoas de nível: escape à observação enquanto ele conduz o cavalo dela ou guia seu pequeno coche: tudo mostra que ela escolheu esse homem para um tipo de amizade que é absurdo e impróprio à sua posição. As princesas – talvez irrefletidamente – brincam com o assunto e falam dele como ‘‘amante da mamãe’’. (apud BAIRD, 2016, p.313)

Catherine Walters, uma das mais notórias amantes do príncipe Eduardo, também falou acerca da relação entre a rainha e Brown. Ela contou a um amigo, alguns supostos detalhes sobre o caráter da relação entre ambos. A informação lhe foi cedida pelo escultor Joseph Edgar Boehm, que havia passado um tempo em Balmoral, esculpindo para a rainha uma estátua de Brown. Segundo Walters:

 ‘‘Brown era um sujeito grosso e mal-educado… Tinha influência desmedida sobre a rainha, a quem tratava com pouco respeito, aproveitando-se de todas as maneiras de sua posição junto a ela. Todo o palácio dizia que ele era ‘‘o garanhão da rainha’’. Fisicamente era um belo homem, embora de rude estofo, e tinha belos olhos (como os do finado príncipe consorte, dizia-se), e a rainha que havia amado apaixonadamente o marido, meteu na cabeça que o espírito do príncipe encarnara de alguma maneira em Brown e, quatro anos após a viuvez, estando muito infeliz, concedeu-lhe todos os privilégios… Costumava ir com ele à uma pequena casa nos montes, onde, a pretexto de proteção e ‘‘para cuidar dos cães dela’’, ele tinha um quarto próximo ao dela, ficando as damas de companhia no outro extremo da casa… Boehm viu familiaridades dele para com ela suficientes para não lhe deixar dúvidas de que lhe eram permitidos ‘‘todos os privilégios conjugais.’’ (apud BAIRD, 2016, p. 316).

Mas dentre as evidências coletadas por Baird, a mais notória é o registro fornecido pelo médico Sir James Reid. De acordo com a historiadora – que visitou o lar da família Reid, a fim de analisar os registros fornecidos pelo médico – ”o profissional era de grande confiança de Vitória, e a atendeu desde 1881 até o final de sua vida; ela morreu em seus braços.’’ (BAIRD, 2016, p. 317). Os registros fornecidos por Reid foram escritos em letras nítidas e estavam muito bem organizados, a fim de dispor suas atividades diárias com a rainha.

Em uma quinta-feira (22 de março) durante o ano de 1883, ao abrir a porta dos aposentos reais, ele viu a rainha flertando com John Brown, enquanto a mesma “caminhava um pouco”. Segundo Reid, ao abrir a porta dos cômodos de Vitória em Windsor, ele avista a seguinte cena:

‘‘Brown erguendo o kilt, diz: ‘‘Ah, achei que estava aqui.’’

Ela responde rindo e erguendo a saia: ‘‘Não, está aqui!’’

De acordo com Baird, o médico não esclarece o que estava ‘‘aqui ou acolá’’; ele apenas achou a nota interessante o suficiente para reproduzi-la em suas anotações. (apud BAIRD, 2016, p. 317)

Durante o século XIX, com o moralismo vitoriano em plena ascensão, o simples ato de exibir um membro – qualquer que fosse – para um homem, era considerado algo ultrajante.

Foi Sir James também, que anos mais tarde, após a morte de Vitória, serviu como mediador na compra de cerca de 300 cartas usadas para chantagear o filho mais velho da monarca, Eduardo VII. As cartas foram originalmente trocadas entre a rainha e o gerente da propriedade de Balmoral, na Escócia. Sir James passou seis meses negociando as missivas; não sabemos quanto dinheiro gastou na empreitada, mas a mesma foi bem-sucedida. Os documentos foram então queimados, assim como as anotações de James a respeito. Tudo o que se sabe sobre o conteúdo das cartas – segundo as palavras de Sir James – é que eram ‘‘muito comprometedores’’.

Talvez nunca saibamos a verdadeira natureza da relação entre Vitória e Brown, mas segundo Baird, uma coisa é certa, ela estava muito distante de uma simples amizade. No entanto, dado à falta de documentos a respeito, qualquer suposição além disso, é mera conjectura.

– A despedida de um querido amigo:

Estátua de John Brown, em Balmoral, Escócia.

Em 1883, Brown apanha um resfriado que insiste em não cessar. Ele estava realizando uma vigília na neve, a fim de proteger a rainha de possíveis atentados vindos de irlandeses. Logo em seguida, ele contrai erisipela – uma infecção bacteriana cutânea – e uma escamosa protuberância nasce em seu rosto. Diante da piora em seu quadro de saúde, Brown é obrigado a repousar, o que faz com que a rainha fique frustrada devido à sua ausência, dizendo:


‘‘Não passei bem à noite, contrariada por Brown não poder servir-me…’’

Conforme passam os dias, o estado de Brown apenas piora, e o leva a ter uma crise de delirium tremens*. Por fim, no dia 27 de março, o homem falece. Por anos, foi ele a pessoa responsável por ajudar Vitória a administrar o sentimento de solidão que a ausência de Alberto havia lhe ocasionado, mas agora, a rainha estava novamente só.

Vitória recebe a notícia em seu quarto de vestir, e fica devastada, procurando fotografias de seu outrora amigo de anos, enquanto lágrimas emolduram seus olhos. Ao seu neto ”Georgie” (futuro George V) ela escreve: ‘‘Perdi o meu amigo mais querido, o meu melhor amigo, que ninguém no mundo poderá jamais substituir. Não esqueças nunca o melhor e mais fiel amigo da tua pobre avózinha que se sente muito infeliz…’’ – (apud STRACHEY, 2001, p. 381)

Na ocasião de seu falecimento, Vitória buscou enaltecer a memória de Brown, assim como fazia quando pessoas que lhes eram queridas iam embora. Ela mandou cunhar moedas e broches memoriais em sua homenagem. Em seus diários das Highlands, o nome de Brown também foi constantemente citado. Ela guardou um busto dourado dele em sua escrivaninha em Windsor – onde poderia continuar olhando para seu outrora tão querido amigo. Durante anos, flores foram deixadas no monumento erguido em homenagem a John Brown, em Balmoral, na Escócia.

– Conclusão:

Vitória e John Brown eternizado nas telas por Dame Judi Dench e Billy Connolly no longa-metragem ‘Mrs Brown’, de 1997.

No final das contas, não importa realmente qual a natureza do sentimento que Vitória construiu e nutriu por Brown por quase duas décadas de sua vida; o maior escândalo na época, foi a rainha ter alimentado qualquer tipo de sentimento por um servo – algo visto como um escândalo. Brown deveria ser apenas um empregado, pronto para servi-la quando precisasse; mas ele foi mais do que isso – algo que incomodou muitos amigos, familiares, políticos e cortesãos no período.

Segundo Vitoria, ele era ‘‘O melhor e mais verdadeiro coração que já bateu…’’. Brown era ‘‘seu braço forte’’; seu ‘‘apoio’’. Em seus comentários, vistos por tantos como sendo de caráter grosseiro, Vitória viu uma sinceridade que – devido à sua posição – muitas vezes lhe era negada. A morte de Brown foi um duro golpe para a rainha – o segundo grande golpe em sua vida, após a morte de Alberto – diria ela.

Décadas depois, na ocasião do falecimento de Vitória, seu corpo foi sepultado trajando o véu que vestira no dia do enlace com o príncipe Alberto. Seu caixão guardou consigo diversos mementos de seu marido e filhos, e da vida que viveram como família. Mas não só… em segredo, Vitória também pediu que Sir James Reid colocasse em um dos dedos de sua mão, o anel de casamento da mãe de Brown. Além do anel, Vitória também pediu para colocarem em sua mão, uma fotografia de Brown, com uma mecha de seu cabelo e um lenço… E assim descansou a rainha do Reino Unido, em companhia de todos a quem ela um dia amou; Seu marido, seus filhos, e seu: ‘‘Mais fiel e amado Brown, aquele amigo que lhe era mais dedicado do que qualquer um!’’

Glossário:

Delirium Tremens: Estado de confusão mental que ocorre de modo breve quando há abstinência de álcool em um usuário.

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Filmes recomendados pela página:

A JOVEM RAINHA VITÓRIA. Adquira: AQUI.

SUA MAJESTADE, A SRA. BROWN. Adquira: AQUI.

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Bibliografia e Referências:

ALEXANDRE, Philippe; DE L’AULNOIT, Béatriz. Victoria: a última rainha (1819 – 1901). Tradução de Fátima Gaspar e Carlos Gaspar. 2ª ed. Lisboa, Portugal: Bertrand, 2002.

BAIRD, Julia. Vitória, a rainha: a biografia íntima da mulher que comandou um império. Tradução de Denise Bottman. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

DEL PRIORE, Mary. Do Outro Lado – A História do Sobrenatural e do Espiritismo. São Paulo: Planeta, 2014.

INTERNET. A Queen’s Forbidden Love. The New York Times. Disponível em:

< https://www.nytimes.com/2014/09/01/opinion/a-queens-forbidden-love.html &gt; Acesso em 02 de Outubro de 2020.

INTERNET. O que os Arquivos Reais não querem que você saiba sobre as rainhas da Inglaterra. Tudor Brasil. Disponível em:

< https://tudorbrasil.com/2017/01/04/o-que-os-arquivos-reais-nao-querem-que-voce-saiba-sobre-as-rainhas-da-inglaterra/ > Acesso em 02 de Outubro de 2020.

SHEARMAN, Deidre. Os Grandes Líderes – Rainha Vitória. Tradução de Achille Picchi. São Paulo: Nova Cultural, 1987.

STRACHEY, Lytton. Rainha Vitória. Tradução de Luciano Trigo. Rio de Janeiro: Record, 2001.


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