”Ela é minha morte, e eu sou a dela” – O Relacionamento de Maria e Ana Bolena [PARTE I]

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Conhecida por seus detratores como ”a concubina”, ”a prostituta”, ”a meretriz”, ”aquela mulher” e etc., Ana Bolena, a segunda esposa de Henrique VIII, causou um profundo impacto na vida de sua enteada, Maria. No entanto, ao contrário do que dita o senso comum, a natureza do relacionamento de ambas as mulheres, era muito mais complexa do que se costuma sugerir.

De acordo com a historiadora britânica, Linda Porter, durante seu envolvimento com Henrique VIII, Ana não apenas alterou o relacionamento de Maria com o monarca e com Catarina de Aragão, como também interferiu na própria visão da jovem acerca de quem era ou passaria a ser. De princesa à bastarda, na época, Maria viu tudo o que até então conhecia e vivenciara acerca de si e de sua vida, mudar abruptamente, após o casamento de seu pai com a antiga dama de companhia de sua mãe, uma mulher de nome Ana Bolena.

As experiências que Maria vivenciaria com a anulação do matrimônio de seus pais, deixariam marcas que ela carregaria para o resto de sua vida. Durante seu breve reinado como rainha consorte henricana, Ana tentou aproximar-se de Maria, apenas para em cada tentativa, revoltar-se com a jovem e com a recusa desta em aceitá-la como legítima consorte do monarca inglês. Com o passar dos anos, e evolução do relacionamento de Henrique VIII e Ana Bolena, Maria teve sua saúde emocional afetada, sendo frequentemente acometida pelo que os médicos da época diagnosticavam como sendo ”crises de melancolia”.

Ana Bolena – filha do diplomata inglês, Thomas Bolena e de sua esposa Elizabeth Bolena – foi uma inglesa que teve passagem por cortes européias como a dos Países-Baixos e da França. De acordo com as palavras de Porter, Ana possuía abundância de presença, estando bem ciente dos efeitos que seus modos e jeito causavam nos homens à sua volta. Para seus detratores, Ana ficou conhecida como não muito mais que uma ‘oportunista’, ou ‘prostituta que seduzira o rei, alienando-o das atenções de sua devota e legítima esposa’, ‘destratando Maria e a relegando à bastardia’.

Mas qual exatamente foi a real influência de Ana – direta ou indireta – na vida de Maria, durante os anos em que se envolveu com Henrique VIII? 

No artigo de hoje iremos, através de análises acerca dos registros primários do período, adentrar um pouco mais no complexo relacionamento de Maria e sua primeira madrasta, Ana Bolena.

Maria, de Princesa à Bastarda:

O período que compreende o início do relacionamento de Henrique VIII com sua amante de longa data, Ana Bolena, permanece um tanto obscuro na perspectiva dos registros históricos. Pouco se sabe a respeito de Ana Bolena ou de seu relacionamento com Maria nessa época.

Não existem registros sobreviventes acerca do momento exato em que Ana Bolena cedeu às investidas sexuais de Henrique VIII; sequer é possível saber quando o monarca, de fato, passou a compreender que desposar sua amante, poderia representar uma solução – em termos dinásticos – para o seu já antigo dilema sucessório. O que sabemos é que, a partir do verão de 1527, Henrique passou a consultar seus ministros acerca de uma possível anulação de seu matrimônio com sua então consorte, a princesa espanhola, Catarina de Aragão. Diante das circunstâncias, não é difícil de acreditar que, nesse período, Ana pôde ter vislumbrado a oportunidade de tornar-se consorte do monarca inglês.

Paralelamente a este cenário, temos Maria, a única filha e herdeira legítima do casal real, que permanecia – dentro do possível – alheia às rusgas e conflitos no relacionamento de seus pais. A jovem – de modo itinerante – vivia em sua própria corte, em palácios ou solares adjacentes, onde recebia uma instrução supervisionada à distância por sua mãe.

Embora também não haja registros de quando Maria passou a tomar ciência da delicada situação em que se encontrava o casamento e a posição de sua mãe (e à sua própria), segundo destaca Porter, a jovem (com então 11 anos de idade) provavelmente soube dos eventos acerca da anulação marital de seus pais, de modo gradual – conforme os eventos foram ocorrendo.

O primeiro contato de Maria com a mulher que viria a se tornar sua madrasta, ocorreu provavelmente no ano de 1522, durante um espetáculo dado em honra dos embaixadores imperiais, que haviam chegado ao reino inglês com o intuito de finalizar os detalhes do tratado de casamento entre a jovem princesa de seis anos, e seu primo materno, Carlos V. É pouco provável que Maria tenha prestado especial atenção à Ana, uma vez que esta, na ocasião, era apenas uma das muitas damas presentes no evento.

Assim como para Maria – que estaria ajudando seu pai a formar uma aliança com o Sacro Império no continente – esse evento teve grande importância para Ana Bolena. Foi nessa ocasião que a jovem dama deu início oficialmente às suas relações dentro da corte inglesa. No local, Ana interpretou uma das virtudes (a perseverança) em uma apresentação denominada Chateau Vert. Tal apresentação consistia em um enorme castelo de madeira, pintado de verde, onde as oito virtudes – mantidas em cárcere – aguardavam pelo resgate de jovens liderados pelo monarca Henrique VIII. Como pode ser visto, tal evento estava de acordo com a perspectiva cavalheiresca do amor cortês do período.

Uma vez que Maria era muito jovem na época em que tais festividades ocorreram, é difícil saber se ela assistiu às apresentações como todos os presentes, ou se dispôs de um cronograma desenvolvido especialmente para ela. Porter, no entanto, acredita que a jovem tenha, de fato, assistido ao Chateau Vert, uma vez que sua tia materna – uma mulher também chamada Maria – estava presente no local, interpretando uma das oito virtudes (a beleza).

 É de conhecimento comum que Henrique VIII nutria profundo carinho e cuidado por sua filha Maria. Quando pequena, o monarca costumava referir-se a ela como sendo ‘’a maior pérola do reino’’, além de frisar seu orgulho ao embaixador veneziano Giustiniani, quando em uma visita mencionou que a jovem ‘nunca chorava’.

Em 1525, aos nove anos de idade, Maria partiu para o marquesado de Gales, onde assumiria os mesmos deveres de um príncipe herdeiro ao trono, embora sem o título formal. Maria, como única filha legítima de seu pai, cresceu envolta ao receio deste, de que um dia pudesse herdar à coroa. Embora, ao contrário da França, não existisse na Inglaterra nenhuma legislação que impedisse a ascensão de uma mulher ao poder, havia um consenso implícito que isso não era algo desejável, além de não haver moldes legais para um regime do sexo feminino no reino. Tendo isso em mente, as preocupações acerca de uma possível sucessão masculina, eram os assuntos que rondavam a mente de Henrique, durante a partida da jovem para Gales.

Embora na época Maria não tivesse conhecimento, o agravante relacionado à questão da fragilidade de uma sucessão feminina, fez com que Henrique VIII passasse a considerar um rompimento em seu matrimônio com Catarina de Aragão.

Uma vez que os receios de Henrique acerca da questão da sucessão, eram mais antigos que seu relacionamento com Ana Bolena e sua efetiva aparição na corte inglesa, a antiga dama de companhia de Catarina, não foi a causadora direta para o fim do enlace do monarca com sua esposa espanhola. Segundo salienta a historiadora britânica, Linda Porter:

A crescente afeição de Henrique por Ana, explica o momento de suas mudanças para anular formalmente seu casamento com Catarina, mas não foi o principal motivo para o rompimento. (PORTER, p.53)

Entretanto, embora não tenha sido o agent provocateur da anulação do casamento de Henrique VIII, Ana Bolena foi um dos pivôs para a mesma. Quando passou a chamar a atenção do rei e rejeitar todas às suas investidas para tornar-se sua amante, os eventos tomaram um rumo diferente do que Henrique VIII inicialmente havia planejado. Ao se recusar a se tornar rainha em tudo, menos no nome, Ana estreitou as estratégias de Henrique, se favorecendo de um já bastante desfavorável, contexto em relação ao casamento do monarca com Catarina de Aragão. No meio dos vinte e tantos anos de idade, ela estava no lugar certo, na hora certa, e com o apelo adequado para as ”grandes questões” (Great Matter) do monarca, em relação aos seus sucessores. Aos 40 anos de idade, a rainha Catarina – que não mais se deitava com Henrique – não iria fornecer um herdeiro do sexo masculino. Ana, por sua vez, era bem mais jovem, e teria muitos anos pela frente, até ser considerada – segundo os padrões do período – velha demais para dar à luz um herdeiro.

O natal de 1530 foi marcado pela crescente presença e influência de Ana Bolena na corte inglesa. Nas festividades também estavam presentes Maria e Catarina. No ápice das campanhas inglesas empreendidas por Henrique contra Roma e acerca da anulação de seu divórcio com sua consorte, Maria passou a ser a única constante tratada na vida do casal. A presença de Ana junto ao rei, somadas com seus muitos encontros não tão reservados, representou um escândalo à reputação de Catarina enquanto rainha consorte, sendo por ela considerado, um afronte pessoal à sua reputação. De acordo com a historiadora inglesa, Ana Whitelock, ao questionar o monarca acerca de seu relacionamento com Ana, Catarina recebeu do marido uma resposta curta e direta:

”Não havia nada de errado entre seu relacionamento com Ana, e ele iria desposa-la independentemente do que ela ou o Papa pudessem dizer…’’ (WHITELOCK, p. 46)

Nesse período, Ana passou a ser menos cautelosa acerca de seus comentários sobre a rainha e seu séquito. Segundo Whitelock, ela disse à uma das damas de companhia espanholas de Catarina, que ‘‘desejava que todos os espanhóis afundassem no mar”, adicionando que ”ela não se preocupava nada com a rainha ou com qualquer outro membro de sua família, e preferiria vê-la enforcada, a ter que confessar que ela era sua rainha e senhora”. (WHITELOCK p. 46)

Nesse interim, o relacionamento de Maria e Henrique não sofreu grandes alterações. Hospedada no palácio de Richmond, a jovem, no dia 30 de julho, escreveu uma carta ao monarca, requisitando uma visita antes que este se ausentasse da corte por quatro meses, em suas sazonais expedições de caça. De acordo com Whitelock, as visitas de Henrique à filha, se estenderam também para o verão seguinte, onde passaram ‘bons momentos juntos’ (WHITELOCK, p. 47)

A distância de Henrique para com sua filha, mostraria, no entanto, ser proporcional ao aumento de influência de Ana para com ele e para com a corte. Segundo Eustace Chapuys, embaixador imperial na Inglaterra, com o passar do tempo, Henrique passou a recusar-se visitar a filha e tais recusas tinham como intuito agradar Ana que ”a odiava tanto quanto à rainha, ou mais, uma vez que notava que o monarca nutria afeto por ela’’.

Ciente da próxima relação que Maria nutria com Catarina, Henrique passou a ver na jovem e em sua influência perante a rainha, uma moeda de troca para seus interesses, a fim de avançar em seu relacionamento com Ana Bolena. O monarca passou a questionar Catarina de Aragão acerca de qual presença lhe era mais necessária: a dele ou a de sua filha. Henrique salientava que, caso Catarina fosse visitar a jovem, ela deveria permanecer ao seu lado permanentemente, abdicando de seus status real e de sua companhia ao seu lado. Tal pressão psicológica tinha um porquê de ser; Henrique queria que Catarina cedesse aos seus planos, abdicando sua posição enquanto rainha consorte, através da ausência sentida de sua única filha. No entanto, a resposta obtida a ele por Catarina, foi uma negativa, uma vez que a rainha salientou que ‘’ela jamais o abandonaria por sua filha, ou por qualquer pessoa no mundo’’.

A partir de tal resposta e posicionamento de Catarina, Henrique resolveu excluí-la de suas próximas investidas acerca do Great Matter. Em seguida, Henrique viajou por várias semanas com Ana Bolena e sua comitiva real, deixando Catarina sozinha. Tal atitude marcaria para o povo, o início do rompimento público do monarca para com sua consorte. (WHITELOCK, p. 48).

Ana Bolena, de amante à rainha:

Após uma disputa com Roma, que levaria seis anos, no dia 23 de maio de 1533, o recém-instituído Arcebispo de Canterbury, Thomas Cranmer, declara o casamento de Henrique VIII com Catarina, nulo e sem efeito. Seis dias após o anúncio de Cranmer, Henrique desposa Ana Bolena. No dia 1 de junho do mesmo ano, Ana é coroada rainha consorte inglesa, e no dia 07 de setembro, ao invés de um herdeiro varão, Ana dá à luz uma menina, a quem seria chamada de Elizabeth.

Embora o monarca inglês tenha desposado outra mulher e tido outra filha, Maria continuou com sua casa real, sendo declarada herdeira do rei até o ano seguinte, quando Henrique VIII tornou-se o Chefe Supremo da Igreja da Inglaterra, através do Ato de Supremacia de 1534. Foi nesse ano que, com o Primeiro Ato de Sucessão entrando em vigor, Maria foi declarada bastarda e apenas os filhos obtidos através do matrimônio de Henrique VIII com Ana Bolena seriam considerados legítimos.

Uma semana após o nascimento de Elizabeth, o camareiro de Maria, Sir John Hussey recebeu do monarca as instruções acerca das diminuições de seus títulos e de suas honrarias (WHITELOCK p.55). Segundo as instruções, Maria teria que deixar de usar o título de princesa o quanto antes, além de ter seus brasões retirados das roupas de seus servos, sendo estes, substituídos pelos brasões do rei. A jovem Maria passou então, do status de princesa inglesa, para o título de Lady, sendo vista apenas como uma filha bastarda de Henrique VIII.

Insatisfeita com a situação, Maria escreveu uma carta para o monarca, questionando acerca da decisão do mesmo:

Essa semana, meu camareiro veio e me mostrou que havia recebido uma missiva de Sir William Paulet, mordomo de sua Casa Real… em que estava escrito que ‘a senhora Maria, a filha do rei, deve ser removida para o local supracitado’ – deixando de fora o título de princesa. Quando ouvi, eu não pude sequer imaginar, confiando em verdade, que sua graça não estava a par da mesma carta e quanto ao abandono do título de princesa, pois duvido, não de sua bondade, mas que sua graça não me aceite como sua filha legal, nascida de um verdadeiro matrimônio.

Portanto, se eu dissesse o contrário, eu deveria em minha consciência, deparar-me com o desagrado de Deus, que certamente espero que sua graça não o faça.

E em todas as outras coisas, sua graça sempre me terá como filha e humilde e obediente serva, como sempre, filha do pai…

Por sua mais humilde filha 

Maria, a Princesa. (WHITELOCK, p.55)

A assinatura de Maria como princesa, foi um duro golpe, não apenas em Henrique, mas em Ana Bolena. Ao colocar-se como princesa e legítima filha de seu pai, Maria não só foi contra as ordens do rei, como também questionou a legalidade de seu casamento com Ana e o status de seus filhos com ela. Maria estava disposta a obedecer Henrique, enquanto sua vontade não intervisse na vontade de Deus. Segundo a jovem: ”pelo tempo em que vivesse, ela iria obedecer suas ordens, mas não iria renunciar aos seus títulos, direitos e privilégios, que Deus, a natureza e seus próprios pais haviam lhe legado…’’ (WHITELOCK, p.56).

Assim sendo, Maria era princesa e sua mãe rainha, porque Deus e a natureza assim queriam. Isso fazia de Ana, uma usurpadora do trono de sua mãe, e de Elizabeth, uma bastarda de seu pai, algo que Ana não estava disposta a aceitar. Em seguida, Maria foi enviada para a casa de Sir John e Lady Anne Shelton, tios paternos de Ana Bolena. No lar dos tios de sua madrasta, Maria atuaria como um tipo de serva, exercendo a função de dama de companhia para sua própria meia-irmã, Elizabeth, que também residia no local.

Durante os primeiros meses de sua estada em Hatfield, a vida de Maria permaneceu a mesma, com a jovem dependendo do bom humor de seu pai, ou de seus rompantes de raiva, para conjecturar acerca de sua situação e futuro. Essas oscilações de humor do monarca, afetaram profundamente a vida da jovem, até que no final do verão, ela ficou seriamente enferma. Esse seria um dos muitos quadros de ”febres’’ e ”melancolias’’ de Maria, reportados pelos médicos reais ao monarca inglês, durante o período de seu relacionamento com Ana. A pedido do embaixador de Carlos V, Eustace Chapuys, Henrique enviou seu próprio médico à Maria, a fim de que o mesmo a examinasse. No dia 02 de setembro de 1534, o médico real, William Butts, escreveu ao Primeiro-Ministro de Henrique, Thomas Cromwell, alertando-o da seguinte situação:

Eu encontrei minha senhora Maria no dia de hoje, às 7 horas, com um estado de saúde mediano, parecido à sua antiga enfermidade. Fiz com que o médico da mãe dela fosse enviado junto do farmacêutico. A causa desse boato do embaixador, como posso entender, provém de dois fatores: que ela [Maria] estava enferma em sua cabeça e estômago. Minha senhora Shelton chamou o Sr. Michael, que deu-lhe pílulas, ao que ela ficou então muito doente e ele tão perturbado, que disse que nunca ministraria nada a ela sozinho; isso significou muito ao embaixador.  

De acordo com a opinião médica atual, com base em seus registros médicos, Maria sofria de dismenorreia, que pode ter sido agravada por um quadro de endometriose ou cistos nos ovários – embora seja difícil precisar. No entanto, no final do mês, as fortes dores de cabeça e estômago pareceram cessar e Maria teve uma melhora. Em todo modo, as reclamações acerca de novas crises de dor, continuaram até 1535.

Embora muito provavelmente as dores tenham sido em decorrência de problemas ginecológicos, segundo Porter, elas podem ter se agravado devido a um forte quadro de stress psicológico:

Embora isso possa ter sido causado devido à sua condição ginecológica, os sintomas foram indubitavelmente agravados pelo estresse. O próprio Dr. Butts deixou isso claro para o rei, quando disse a Henrique que a doença dela só surgia por tristeza e problemas; e que, ao mesmo tempo, ela ficaria bem caso estivesse livre para fazer o que quisesse. (PORTER, p.103)

De acordo com Whitelock, o período em que a jovem passou em Hatfield ao lado de Elizabeth, foi repleto de angústias, uma vez que sempre ia aos seus aposentos a fim de chorar (WHITELOCK, p.58). Enquanto estava em Hatfield, a jovem vivia mais como uma prisioneira que como hóspede, sendo o tempo todo vigiada e proibida de comunicar-se mesmo que por cartas, com sua mãe, que encontrava-se em exílio. Foi nessa época que Catarina apelou para seu sobrinho Carlos V, e para o Papa, alertando-os do modo como ela e Maria estavam sendo tratadas. De acordo com Catarina, ela e sua filha estavam sendo mantidas aprisionadas ”como as mais miseráveis criaturas do mundo’’. (PORTER, p.98)

Então, teria sido Maria enviada para Hatfield, sob às ordens de Ana Bolena?

Para a historiadora Linda Porter, não é claro de quem partiu a decisão de enviar Maria para atuar como serva de Elizabeth; no entanto, Porter não descarta a forte influência de Ana Bolena em tal assunto:

Ele colocou suas duas filhas na mesma Casa Real, em parte por razões econômicas, mas também para manter Maria em vigilância. Não está claro se ele propôs que Maria servisse de dama de companhia de Elizabeth, ou se a ideia foi de Ana Bolena, mas esse é o tipo de atitude que Ana poderia ter tomado. (PORTER, p.92).

No entanto, mesmo diante de tais considerações, o biógrafo e historiador inglês, Eric Ives, destaca que isso não significa que Ana não teve uma parcela de culpa na história. De acordo com Ives, as cartas de Chapuys estão repletas de ofensas proferidas por Ana à Maria, além das fortes ameaças acerca de conter o ‘orgulhoso sangue espanhol’ de sua enteada. De acordo com Whitelock, um exemplo digno de nota, ocorre quando Ana descobre que Maria continuava a intitular-se princesa, recusando-se a reconhecer Elizabeth como legítima princesa inglesa:

“Assim que Ana Bolena ficou sabendo disto, ela rapidamente entrou em cena, instruindo sua tia que, caso Maria continuasse a se comportar deste modo, ela deveria passar fome, e caso ela usasse o título banido de princesa, deveria ter suas orelhas batidas ”como a maldita bastarda que era”. 

Além das ameaças de agressões físicas, houve também ameaças verbais, como quando Henrique VIII deixou a corte rumo à Calais, para encontrar Francisco I. Em sua ausência, Ana fez menção acerca de ”aproveitar tal oportunidade para matar Maria”. Ao ser questionada por seu irmão George Bolena sobre a ira que tal atitude causaria no rei, Ana respondeu de modo direto que ”não se importava, mesmo que tal ato a fizesse ir para a fogueira”.

No entanto, o verdadeiro motivo por trás do modo como Ana tratava sua enteada, pode ter tido menos a ver com um ódio que ela nutria pela jovem, e mais pelo temor de sua posição e influência, tanto com Henrique VIII, quanto perante o reino.

Enquanto Henrique VIII via no comportamento de Maria o reflexo de alguém desobediente às suas vontades, de acordo com Ives, a sensação de Ana era diametralmente oposta. De acordo com o biógrafo, Ana fazia uso de uma linguagem ameaçadora, inclusive chamando a jovem de nomes como ”bastarda” e ”prostituta”, porque sentia-se ameaçada pelo comportamento da enteada. Ela estava ciente da fragilidade de sua posição no reino e no poder que o repúdio de Maria poderia representar para sua própria segurança.

Segundo a lei canônica do período – fato amplamente conhecido na corte – um filho nascido de um casal que na época era, aparentemente, legalmente casado, permanecia legítimo mesmo que a união fosse posteriormente declarada como sendo inválida. Assim sendo, Maria, ao se recusar a reconhecer o status e legitimidade de Elizabeth, estava efetivamente declarando sua pretensão ao trono e a fragilidade da união de Ana Bolena com o monarca inglês.

Neste momento a Inglaterra tinha um rei, duas rainhas e duas princesas. Maria era vista por muitos, como a legitima herdeira de Henrique VIII e Catarina de Aragão, como sua legitima rainha. Enquanto mãe e filha defendiam suas posições, Ana Bolena fazia o possível para manter-se intacta na posição que ocupava – tendo o rei como seu leal marido e defensor. A cada tentativa frustrada de Ana em fazer com que Maria reconhecesse a legitimidade de Elizabeth, e abdicasse de auto-intitular-se princesa, seu ódio pela jovem e seus rompantes de raiva aumentavam.

Embora soubesse que o posicionamento de Maria era importante para a sua situação enquanto rainha, Ana também sabia do perigo que a jovem corria em desagradar suas vontades. Ao mencionar: ”Ela é minha morte e eu sou a dela”, Ana deixava bastante claro que aquele era um jogo no qual ela não queria – e nem poderia – apostar baixo.

CONTINUA…

BIBLIOGRAFIA:

Whitelock; Anna. ”Mary Tudor: England’s First Queen”. Bloomsbury Paperbacks, England, 2010.

Letters and Papers, Foreign and Domestic, Henry VIII, Volume 5, 1531-1532 – [1 Oct. Archive number 1377] .

IVES; Eric. The Life and Death of Anne Boleyn. Wiley-Blackwell; 22 de Julho de 2005.

PORTER; Linda. Mary Tudor: The First Queen. Piatkus Books; 5 de Fevereiro de 2009.

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