Elizabeth Woodville morreu de peste, é o que diz uma carta recente encontrada nos Arquivos Nacionais

Pesquisador diz que isso poderia explicar o funeral extraordinariamente austero de Elizabeth Woodville, a avó de Henrique VIII.

Uma carta de 500 anos descoberta nos Arquivos Nacionais revelou que a Rainha Branca Elizabeth Woodville, a avó de Henrique VIII, pode ter morrido de peste.

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Eduardo IV e Elizabeth Woodville

Elizabeth, a esposa de Eduardo IV, mãe de Eduardo V e avó materna de Henrique VIII, morreu em 08 de junho de 1492, depois de passar seus dois últimos anos a Abadia de Bermondsey, em Londres. Ela tinha 55 anos, e estava doente, sendo assim, na época, sua morte não foi considerada inesperada. Nenhuma causa da morte mortis foi registrada na época.

Ela havia escrito seu testamento dois meses antes, e nele, ela solicitou um funeral modesto, além de pedir para ser enterrada ao lado de seu falecido segundo marido, o rei Eduardo IV, escrevendo: Eu, Elizabeth, pela graça de Deus Rainha da Inglaterra, esposa do mais vitorioso e abençoada Príncipe, o falecido Eduardo, o Quarto, desejo ser enterrada sem entradas pomposas ou despesas caras.” Um registro de um manuscrito mostra que seu enterro foi certamente tão modesto quanto ela havia pedido.

Suas três filhas mais jovens, Anne, Catherine e Bridget, estiveram presentes, bem como um de seus seu genros, o marquês de Dorset, Edmund de la Pole e alguns outros parentes. Também estava presente Lady Grace, uma das filhas ilegítimas de Eduardo IV, que serviu como Dama de companhia da Rainha Viúva durante toda sua vida. Foi uma despedida silenciosa para uma mulher que  em um dos períodos mais turbulentos da história inglesa e que já havia sofrido o suficiente em sua vida.

Seu corpo foi levado em privado através do rio Tamisa até o Castelo e lá foi recebido às onze da noite por um sacerdote e um funcionário. Uma estrutura construída em torno do caixão tinha quatro candelabros de madeira e era forrado com um tecido de pano preto, bordado com feios de além de quatro castiçais de madeira e prata, cada contendo os estandartes da rainha falecida. Não houve toques de sinos, nem recepção formal pelo decano da Capela de São Jorge, e ela parece ter sido enterrada quase que imediatamente sem qualquer forma de cerimônia, o que causou certo ressentimento entre os que esperavam um funeral digno de uma consorte real.

No entanto, enquanto procurava transcrições e traduções de documentos venezianos relacionados à Inglaterra, Euan Roger, especialista nos Arquivos Nacionais, se deparou com uma carta do embaixador veneziano em Londres, escrita 19 anos depois da morte da rainha. A carta, datada de julho de 1511, mostra o embaixador, Andrea Badoer, afirmando que “a rainha-viúva, mãe do rei Eduardo, morreu de peste e o rei está perturbado”.

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Eduardo V e seu irmão, Ricardo de Shrewsbury

O embaixador só poderia estar se referindo a Elizabeth Woodville, mãe dos príncipes da Torre, entre os quais estava o jovem rei jamais coroado, Eduardo V. Essa parece ser a única referência conhecida sobre a morte de Elizabeth e a única que menciona a  causa da morte como peste, mas Roger acredita que, se a rainha de fato morreu dessa maneira, isso explica o motivo pelo qual os relatos de seu funeral são tão modestos.

Embora Elizabeth tivesse pedido um funeral simples, as cerimônias após sua morte foram tão escassas que chocaram os observadores. Seu corpo foi transportado pelo Tamisa por apenas cinco pessoas, sendo discretamente enterrado no Castelo de Windsor, sem sinos ou nenhum dos habituais ritos funerários.

A historiografia tradicional tende a ver nisso uma base para a suposta animosidade entre a rainha viúva e a nova família real, – mais especificamente, o rei Henrique VII e sua poderosa mãe, Margaret Beaufort. Embora tampouco exista muito base para essa suposição, ela tornou-se popular entre os estudiosos do período, mas com a descoberta dessa carta, as coisas mudam um pouco.

Conforme apontado por Roger: “A menos que houvesse uma necessidade específica de pressa – como a morte por uma doença contagiosa – parece inconcebível que uma jornada tão secreta e rápida fosse necessária. O enterro imediato ao chegar em Windsor sugere fortemente que o relato veneziano posterior sobre a peste como a causa da morte de Woodville era verdadeiro, e  o que estava por trás da pressa não era o pedido de Elizabeth por um simples funeral, mas sim, o medo de infecções e do ar miasmático”.

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Trecho da carta de 1511, escrita por Andrea Badoer, afirmando que Elizabeth Woodville havia morrido de peste.

O arauto da época comentou que “não havia embalsamento no corpo” – geralmente, um cadáver era lavado, eviscerado e embalsamado para o funeral. Segundo Roger, isso também é um forte indício da hipótese da peste ter sido real,  pois faz sentido que ela tenha sido enterrada o mais cedo possível, e portanto, não havia tempo disponível para se vestir e preparar seu cadáver de forma adequada.

Durante o final do século XV e início do século XVI, a Inglaterra sofreu surtos regulares de peste e doença do suor. Os embaixadores venezianos na Inglaterra regularmente comentavam em suas cartas sobre isso, e Badoer fazia pedidos constantes de ser substituído e enviado para outro lugar. Em novembro de 1517, Badoer solicitou uma substituto; em julho de 1518, dois de seus servos haviam morrido de peste e ele mesmo havia sofrido com a doença do suor.

Na carta, Roger diz que Badoer conhecia o “profundo medo da doença” de Henrique VIII – particularmente da peste negra, que pode ter reivindicado a vida de sua avó. Roger observa que os temores do rei provavelmente foram exacerbados pela morte de seu irmão mais velho, o Príncipe Arthur, que morreu da doença do suor em 1502, de sua mãe, Elizabeth de York, em 1503, e de seu filho, o príncipe Henrique, em 1511, apenas alguns meses antes do relato de Badoer.

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Elizabeth Woodville, Rainha da Inglaterra

A possível morte da avó por causa da peste e a lembrança de tal evento na corte, parecem ter permanecido claramente nos pensamentos do rei por vários anos depois – os rumores de tal medo se tornaram ressonantes na corte  e o constante medo Henrique VIII de doenças contagiosas  era famoso – ele era reconhecidamente hipocondríaco.

É curioso para nós pensar que, a morte dessa avó possa ter causado uma impressão tão grande em seu polêmico neto, tanto quantos as mortes de sua mãe, pai, irmãos e avó paterna causaram, mas também acaba por nos lembrar que, apesar de todas as falhas e de suas ações conturbadas e drásticas, Henrique VIII era um ser humano, como qualquer outro, e sendo assim, estava passível aos mesmos tipos de sentimentos humanos como medo e perda.

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Túmulo de Eduardo IV e Elizabeth Woodville na capela de St. George no Castelo de Windsor.

Fontes:

The Guardiam. ‘White Queen’ died of plague, claims letter found in National Archives, acesso em 25/04/2019.

HIGGINBOTHAM, Susan. The Woodvilles: The Wars of the Roses and England’s Most Infamous Family. 2013, The History Press.

2 comentários Adicione o seu

  1. Zenilde vieira disse:

    Gosto muito das publicações sobre a família TUdor.

  2. Magda Soares disse:

    Fantástica história, que a “Historia” não conta !.

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