Navio do século XVI pode ter contado com tripulação inglesa de ascendência africana

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Restos da embarcação Mary Rose. Foto por: Avanti Media/Channel 4

Novas evidências revelaram que o navio de guerra de Henrique VIII, foi um verdadeiro caldeirão tripulado por marinheiros da Europa continental e, possivelmente, de terras distantes como o norte da África.

As descobertas foram baseadas em esqueletos recuperados através dos destroços do navio Mary Rose, e revelam a multicultural natureza da Inglaterra durante o período Tudor.

A análise dos restos mortais de seis marinheiros que morreram lutando contra os franceses, revela que dois deles vieram do Mediterrâneo, enquanto outros dois poderiam ter suas origens traçadas a partir da África.

O Mary Rose foi o principal navio de Henrique VIII, tendo afundado ao liderar um ataque na Batalha de Solent – conflito travado entre a França e Inglaterra, durante as Guerras Italianas, no ano de 1545.

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Reconstrução facial do rosto de ”Henry”, um dos marinheiros que serviu a bordo do Mary Rose (Oscar Nilsson)

O Mary Rose Museum, em Portsmouth encomendou um projeto de pesquisa de um ano, envolvendo cientistas de diversas universidades britânicas, a fim de descobrir mais detalhes acerca da tripulação deste navio.

Foram utilizadas as mais recentes técnicas de pesquisa a fim de revelar detalhes e informações sem precedentes acerca de onde vieram estes homens, como eles eram e com quem se pareciam.

As análises dos esqueletos do navio consubstanciam o passado da tripulação, oferecendo mais evidências de que a Inglaterra Tudor era um local com uma movimentada diversidade étnica.

Um dos restos em questão, provém de um membro da tripulação apelidado de “Henry”, encontrado com outros três jovens no navio. Inicialmente, acreditavam que o adolescente – devido ao porte corporal e constituição muscular – trabalhava protegendo a madeira do navio com vernizes, a fim de deixá-la à prova d’água.

Embora o DNA extraído dos dentes de Henry esteja longe de ser completo – uma vez que se degradou com o passar dos séculos – os pesquisadores dizem que foram capazes de analisar o que restou e comparar seus resultados com informações genéticas de povos modernos, revelando semelhanças com habitantes do Marrocos, Mozabitas e povos do oriente próximo.

Além disso, a equipe analisou o DNA mitocondrial de Henry – que é muito mais abundante do que o DNA nuclear, quase sempre herdado apenas da mãe. É possível classificar as pessoas em grupos com base na coleção de mutações em seu DNA mitocondrial – e no caso de Henry, este acabou por ser um grupo muito raro. No entanto, o real significado desta descoberta segue sendo um enigma, uma vez que tal característica pode ser encontrada em populações de diversas partes do mundo, em particular no Sul da Europa, Norte da África e Oriente Próximo, significando que suas origens maternas permanecem nebulosas.

No entanto, mesmo que Henry tenha raízes no norte da África, parece que foi a Inglaterra o local que ele chamou de lar, uma vez que as análises de isótopos de oxigênio em seus dentes, coincidem com o de um habitante que levou a vida no oeste chuvoso ou sul do país.

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O Dr. Onyeka Nubia e a Dra. Alexzandra Hildred ao lado do crânio de ”Henry” e do Arqueiro Real (ao fundo). Foto por: Avanti Media/Channel 4

A segunda descoberta significativa, veio a partir dos restos de um arqueiro real, um soldado de alta patente que foi encontrado preso sob um canhão no convés principal. O arqueiro foi encontrado com uma espada, ele carregava consigo um pente, e usava um bracelete de couro com as armas reais de Catarina de Aragão e os brasões da Inglaterra. Uma vez que ele serviu um reino conhecido por seus arqueiros com grandes habilidades, há muito foi presumido que o homem seria inglês. No entanto, através das análises químicas de seus dentes, foi constatado que o mesmo também seria proveniente do norte da África.

Especialistas dizem que os resultados sugerem que ele cresceu em um clima quente, e pesquisadores observam que ele poderia ter vindo do Norte da África – embora o sul da Europa também seja uma possibilidade. Onde quer que tenha crescido, a equipe disse que parecia ser muito longe da costa, uma vez que havia pouco sinal, através das evidências, de que sua dieta foi elaborada a partir de frutos do mar.

Os resultados completos do estudo serão apresentados em uma nova exposição no Mary Rose Museum, intitulada: The Many Faces of Tudor England (Em tradução literal:  As Muitas Faces da Inglaterra Tudor).

”Com base em novas provas científicas derivadas da análise de isótopos, bem como o teste de DNA extraído através de dentes e ossos, a exposição leva você a uma viagem de descobertas, explorando o contexto e antecedentes de toda uma tripulação’’ – Disse a Dra. Alexzandra Hildred, chefe de pesquisas do museu.

”Também se considera que os achados do Mary Rose podem nos informar acerca da diversidade e globalização na Inglaterra Tudor, de 500 anos atrás’’.

Os achados do Mary Rose não são os primeiros registros documentados de pessoas com herança africana vivendo na Inglaterra do século XVI. Em seu livro Black Tudors, a historiadora Dra. Miranda Kafmann forneceu provas de centenas de africanos que habitaram o país durante este período. Acerca da questão da tripulação marroquina, a historiadora ressaltou que, uma vez que o navio afundou pouco antes dos comerciantes ingleses iniciarem negociações no Marrocos, é mais provável que seus parentes tenham antes viajado para a Espanha ou Portugal, até seguir rumo à Inglaterra.

O Dr. Onyeka Núbia, autor de Blackamoores, um livro sobre os africanos na Inglaterra Tudor, participou de um documentário sobre a pesquisa, que será transmitido nesse domingo. Núbia também enfatizou a diversidade da sociedade Tudor, acrescentando que  as ideias sobre etnia na época, eram relativamente fluidas e muito diferentes em relação aos pontos de vista sobre raça que surgiram após o século XVIII.

Nubia advertiu que a proporção de pessoas a bordo do Mary Rose – que tinham heranças genéticas além das costas britânicas – não era necessariamente representativa de toda a Inglaterra na época. No entanto, ele salientou que as descobertas da equipe apoiam – através de uma vasta gama de evidências – que a Inglaterra do século XVI foi o lar de pessoas de muitas etnias. Isso não era algo raro’ – disse ele.

A nova evidência também contará com um documentário do canal 4, intitulado ”Skeletons of the Mary Rose: The New Evidence’’ (Esqueletos do Mary Rose: A Nova Evidência), que irá ao na Inglaterra, no domingo, dia 17 de março, às 20:00 horas.


Referências:

The Guardian. Mary Rose crew might have included sailors of African heritage. Disponível em:
[https://www.theguardian.com/science/2019/mar/14/mary-rose-crew-might-have-included-sailors-african-heritage]. Acesso em 14 de Março de 2019.

Independent. African sailors aboard Henry VIII’s warship reveal hidden diversity of Tudor England. Disponível em: [https://www.independent.co.uk/news/science/archaeology/henry-viii-african-sailors-ship-tudor-history-diversity-a8822546.html fbclid=IwAR3TshfTy360JJvx4eIpHUCvagFVvLov0McmnSs_E8Xgtuc4k6D0ESrqOyw]. Acesso em 14 de Março de 2019.

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