Philippa de Lancaster – A rainha inglesa de Portugal (Parte 1)

“Volve a nós o teu rosto sério, Princesa do Santo Gral, Humano ventre do Império, Madrinha de Portugal”!

 Philippa de Lancaster é uma daquelas muitas figuras femininas que, embora tenham tido grande influência, acabam sendo deixadas de lado pela historiografia. Tornou-se costume dizer que rainhas tradicionais como ela ‘não fizeram história’, mas isso não poderia estar mais longe da verdade. Por isso, considero que o resgate da memória de tais figuras seja fundamental para compreendermos todo o cenário político e dinástico daquele que foi um dos períodos mais conturbados da história, que teve como pano de fundo a fome, a temida peste e a devastadora Guerra dos Cem anos.

Philippa de Lancaster, fosse como filha, mãe, esposa, rainha ou irmã, legou ao seu reino de matrimônio uma forte influencia cultural e pessoal, sendo uma figura fundamental para a construção da Dinastia dos Avis, que governou Portugal de 1375 à 1580.

Nascimento e primeiros anos:

Philippa de Lancaster nasceu em 31 de março de 1360, como um membro ilustre da prestigiada Dinastia dos Plantageneta. Seu pai era John de Gaunt, que então detinha o título de Conde de Richmond, como o terceiro filho do rei Eduardo III e de sua esposa, a Boa rainha Philippa de Hainault. Sua mãe, por sua vez, era a filha mais nova do Duque de Lancaster.

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O casamento de John de Gaunt e Blanche de Lancaster em de 1359.

John de Gaunt e Blanche de Lancaster casaram-se em 20 de maio de 1359. Ambos os noivos eram jovens, belos e saudáveis, e o matrimônio foi um enorme evento que durou quatorze dias de festejos e justas. Todos os que presenciaram o casamento acreditavam que um futuro promissor estaria ao alcance do jovem casal que ali se unira. De certa forma, eles representavam o ideal perfeito de amor cortês medieval. John com sua juventude e virilidade e Philippa, com sua beleza e graciosidade representavam a união entre o poder e glória da coroa inglesa e a riqueza e o prestígio da Casa de Lancaster.

Embora o casamento sem dúvidas tenha sido organizado de forma que beneficiasse ambas as famílias, todos os relatos afirmam que o casal estava de fato apaixonado. Diferente de alguns casos, onde os noivos só se encontravam no momento da cerimônia, John e Blache se conheciam desde a infância devido a amizade entre seus pais, e ambos eram muito próximos. John parecia estar completamente encantado com sua esposa e o sentimento era retribuído por ela. No entanto, era um período de conturbadas guerras e logo o casal se viu separado, quando John de Gaunt precisou se unir ao pai e aos irmãos em mais uma das muitas investidas feitas pela Inglaterra contra a França.

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Philippa de Hainault, rainha da Inglaterra.

Toda a família real adorava Blanche tanto quanto seu marido, e assim que os homens partiram para a guerra, a rainha chamou sua jovem nora para junto de si. Blanche, que na época estava grávida, partiu para corte, onde seriam feitos os preparativos para o nascimento do primeiro filho do casal.  Lá, cercada pelos cuidados da família do marido, Blanche deu à luz sua primeira filha.

A pequena princesa foi batizada como Philippa, em homenagem a rainha, sua avó, que também era sua madrinha. A bela e saudável bebê herdou a aparência de sua mãe, ostantando uma tez rosácea pálida, cabelos loiros – que mais tarde torna-se-iam arruivados – e olhos claros, cor de avelã.

John de Gaunt, que estava em plena campanha militar, só conheceria a sua primogénita após o fim das hostilidades, que terminaram com a assinatura do tratado de Brétigny, em 8 de Maio de 1360, marcando o triunfo da Inglaterra.

No ano seguinte, a temida peste assolou mais uma vez os reinos da Europa. A epidemia não discernia suas vítimas, levando para os braços da morte tanto nobres, quanto plebeus, e a família real perdeu dois membros – as princesas Mary e Margaret –, bem como vários súditos da alta nobreza, incluindo o Duque de Lancaster, avô materno da pequena bebê Philippa, e posteriormente sua filha mais velha, Matilda, Condessa de Hainault. Como não haviam outros requerentes, toda a herança dos Lancaster passou a pertencer a Blanche, e consequentemente, ao seu marido. Assim, John de Gaunt tornou-se Duque de Lancaster, assumindo o título ancestral da família de sua esposa. Com essa inesperada volta da roda da fortuna, o terceiro filho do rei passou a encabeçar a mais poderosa casa senhorial do reino, que detinha o maior patrimônio em castelos, palácios e terras, espalhados de norte a sul da Inglaterra e no País de Gales.

Devido à isso, Philippa de Lancaster passou a infância entre as várias propriedades da família, crescendo rodeada da atenção da mãe. Quando Phillipa tinha três anos e meio, nasceu a segunda filha dos Duques de Lancaster, a ruiva Elizabeth, que seria a sua companheira de brincadeiras. Quatro anos depois, nasceria o tão esperado herdeiro varão, o pequeno menino foi batizado como Henry e recebeu a alcunha de ‘Bolingbroke’ devido ao seu local de nascimento. Tal como o ocorrido com sua irmã mais velha, o novo bebê só conheceria o pai tempos depois, pois o mesmo estava mais uma vez em campanhas bélicas à serviço do Rei.

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Suposta representação de Blanche de Lancastert  no quadro “The Lady and the unicorn” (1484 e 1500)

Philippa, – então com sete anos –, recebia muita atenção da mãe que, por ter sido uma das primeiras damas da nobreza inglesa a aprender a ler e a escrever, se empenhou em ensinar pessoalmente a filha os mesmos talentos. Ela também garantiu que a filha compartilhasse de sua devoção religiosa.

Tragicamente, Blanche de Lancaster morreu após um último parto, em 12 de Setembro de 1368. O bebê também não sobreviveu. Ela deixou três órfãos pequenos. Henry, o mais novo, com ano e meio, e Phillipa e Elizabeth, com oito e cinco anos respectivamente. Todas a família sentiu muito a perda da figura materna, especialmente Philippa, por ter sido muito apegada a mãe. Ela acabou por encontrar consolo nas orações e na grande devoção que a mãe lhe transmitira.

O viúvo John de Gaunt, profundamente entristecido com a perda da esposa, mandou construir um túmulo em alabastro e trasladou o corpo de sua duquesa para a catedral de São Paulo, em Londres. A partir de então, todos os anos, em setembro, a família Lancaster se reunia junto da sepultura de Blanche, prestando homenagens e recordando a data da sua morte.

Infelizmente, as tragédias estavam apenas começando. No ano seguinte, Philippa viu de perto os dolorosos últimos dias de sua avó e madrinha, a rainha Philippa de Hainault. A morte da boa rainha foi mais uma perda dolorosa para a família Lancatser, especialmente as crianças, que ainda não haviam terminado o luto pela mãe e já sofriam a perda da avó, que lhes era tão querida quanto a figura materna fora outrora.

O Duque de Lancaster, preocupando-se com a educação dos filhos órfãos tendo em conta quer as suas prolongadas ausências em missões diplomáticas e militares,   decidiu buscar tutores que fossem de confiança e estivessem aptos para preparar as crianças para o futuro sob sua condição de netos do rei.

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Katherine Swynford

O pequeno Henry de Bolingbroke, então com três anos, passaria a viver com a sua tia‑avó, Lady Wake, e mais tarde, em 1377, teria como tutor o cavaleiro francês William de Mountendre. Quanto as meninas, sua educação ficaria sob os cuidados de Lady Katherine Swynford, que havia sido uma dama de confiança da duquesa Blanche.

Tendo em conta a refinada educação recebida por Katherine na corte e a sua ligação com a falecida duquesa e às filhas, John de Gaunt viu nesta dama as qualidades necessárias para a exigente função de educar as duas princesas… e outros atributos que fariam com que tempos depois , ele a tomasse como sua amante.

Mas nesse meio tempo, Katherine se encarregou de sua função com determinação. As meninas receberam os ensinamentos considerados necessários para as jovens do seu status social, e ela procurava incutir em suas pupilas qualidades como a modéstia, castidade, humildade e recato. Elas foram treinadas na leitura, escrita e no estudo das Sagradas Escrituras. Além do inglês e do latim, elas aprenderam francês, bem como a  costurar e bordar e tiveram lições de música e dança, para poderem, quando fossem mais velhas, participar em festas e bailes.

O Duque de Lancaster não permaneceu viúvo por muito tempo, casando-se com D. Constança de Castela, pretendente ao trono castelhano, envolvendo assim sua família no contexto político da Península Ibérica, cenário secundário da Guerra dos Cem Anos.

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A decapitação de Pedro I de Castela

Em Março de 1369 Henrique de Trastâmara assassinou seu irmão, Pedro, o Cruel, usurpando-lhe o trono. As filhas de Pedro, Constança e Isabel, conseguiram fugir, mas sendo Henrique de Trastâmara aliado dos franceses, elas tiveram que buscar auxílio na Inglaterra.

Lá, a herdeira que se considerava a rainha legítima ao trono do maior reino ibérico, buscou forjar uma aliança com a casa real visando apoio para reconquistar sua herança. Foi assim que, em Setembro de 1369, em a jovem Constança, de dezoito anos, casou-se com o Duque de Lancaster, então com 32 anos, no que foi nitidamente um casamento de conveniência mútua: as infantas de Castela viajariam com toda a segurança pela Inglaterra, enquanto John de Gaunt poderia reclamar o trono de Castela, em nome da sua mulher.

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D. Constança de Castela

Em Janeiro de 1372, com aval do monarca e do Parlamento inglês, os duques de Lancaster passaram a se intitular rei e rainha de Castela. No mês seguinte, a madrasta de Philippa foi solenemente recebida em Londres e atravessou a cidade num majestoso cortejo, escoltada pelo próprio Príncipe Negro e acompanhada por diversos grandes senhores.

O duque fazia questão de que a sua jovem esposa usufruísse do status de rainha de Castela e se apresentasse como tal, presenteando-a com pérolas, rubis e outras jóias, das quais a mais esplendorosa foi uma bela coroa em ouro, ornamentada com diamantes e pérolas, oferecida pelo próprio rei Eduardo III.

A jovem Philippa então descobriu-se como membro de uma outra família real, pois na corte dos Lancaster se refugiaram muitos partidários de Pedro, o Cruel, que exilados de Castela, procuravam assegurar o apoio da Inglaterra numa tentativa de recuperar o trono para sua filha.

Após esse segundo casamento do pai, a família aumentou e Philippa teve diversos irmãos. No entanto, esses irmãos não nasceram de sua madrasta, D. Constança, e sim de sua governanta, Lady Katherine, que nessa altura havia enviuvado de sir Hugh Swynford. Enquanto D. Contança teria apenas uma filha sobrevivente, – a princesa Catarina -, lady Katherine Swynford foi mãe de quatro crianças, três meninos e uma menina, cuja paternidade o duque reconheceu publicamente, concedendo aos filhos John, Henry, Thomas e Joan o sobrenome Beaufort, que era o nome de um de seus castelos favoritos. O pai de Philippa orgulhava-se bastante destes seus descendentes, mesmo os bastardos, pois eram todos saudáveis, robustos e belos.

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Brasão de armas dos Beaufort

Diferente do estereótipo de uma amante invasiva, lady Katherine não gostava de receber atenção por seu caso com o Duque e buscando discrição, se retirava para sua mansão em Kettlethorpe sempre que se descobria grávida, e lá permanecia até o momento do parto, recebendo a visita do duque após o nascimento das crianças.

 

Apesar disso, o adultério era de conhecimento público, e iam claramente contra os rígidos preceitos morais determinados pela Igreja. Philippa de Lancaster, que recebeu da mãe sólidos princípios religiosos acabou por crescer em uma casa onde marido, esposa e amante viviam juntos sob o mesmo teto. É possível que perante este complexo panorama familiar, as princesas Philippa e Elizabeth tenham desenvolvido suas naturezas díspares – enquanto a irmã mais velha se tornou uma jovem ponderada, firme cumpridora das suas devoções e do dever que sua posição demandava, a mais jovem, que era bastante extrovertida, revelou-se muito rebelde e instável.

Adolescência e referências culturais:

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O Livro da Duquesa, por Geoffrey Chaucer, escrito em homenagem à memória de Blanche de Lancaster.

A corte dos Lancaster cultivava o estudo e a educação, e contava com a presença frequente de trovadores convidados pela duquesa Constança e dos muitos escritores patrocinados por John de Gaunt. Dentre esses, se destacava o famoso Geoffrey Chaucer, que era casado com a irmã de Lady Katherine Swynford. Chaucer tinha em Philippa uma das suas ouvintes mais atentas, pois a jovem possuía um grande gosto pela leitura que lhe fora incutido pela mãe, de quem herdara o encanto e a inteligência.

 

Além de Chaucer, outros escritores recebiam atenção da filha do duque e a colocavam a par das novidades culturais e científicas. Neste pequeno círculo literário tinham lugar disputas corteses entre a ‘Ordem da Folha’ e a ‘Ordem da Flor’, sendo esta última, – com o símbolo da rosa – , liderada pela própria Philippa, para quem o galante poeta francês Eustache Deschamps compôs o poema:

“Quem quiser conhecer

O doce nome de que se ouve falar

E o país onde estará

Será na ilha de Albion

Em Lancaster se encontrará

Traça P.H. e E.L.I.P.P.A.

Junte todas as oito letras

E saberás o nome da flor valorosa

Que tem o corpo gentil, belos olhos e doce rosto

E que nunca poderei alcançar.”

Philippa, como sua filha mais velha do Duque, usufruía de um esplendor das jóias, baixelas e mobiliário. Aos treze anos, ela recebeu de presente do pai botões e fios feitos ouro para adornar os vestidos e redes de pedras preciosas para enfeitar o cabelo. O tom dourado das suas tranças, que herdara da mãe, era especialmente admirado, por corresponder aos ideais de beleza da época. Assim, ela cresceu para ser uma jovem bela, educada e amada.

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John de Gaunt, Duque de Lancaster

Quando Philippa completou 16 anos, seu pai, o Duque de Lancaster tornou-se a figura mais importante do cenário político inglês. A principal causa desta ascensão foi a morte de seu irmão mais velho, em 8 de Junho de 1376. Edward, o Príncipe Negro, príncipe de que nunca chegou a ser rei, deixava como herdeiro do trono o seu filho Richard, que contava com apenas nove anos.

 

A saúde do próprio rei estava bastante deteriorada por essa altura, e ele passou boa parte de suas funções reais para John de Gaunt, que agora era seu filho mais velho. Na Câmara dos Comuns, surgiram rumores de que o duque de Lancaster daria um golpe de Estado para suceder a seu pai no trono. No entanto, apesar do crescimento de seu poder político, John de Gaunt sempre manifestou sua lealdade para com o jovem herdeiro do trono, provando que eram infundadas as ideias daqueles que o acusavam de querer trair a confiança do sobrinho. Assim, no verão do ano de 1377, Phillipa de Lancaster presenciou duas cerimónias na Abadia de Westminster: o funeral do avô e a coroação do primo, que subiu ao trono como Richard II.

No ano seguinte, Philippa, então com dezoito anos, sua irmã Elizabeth e a madrasta de ambas, D. Constança, foram feitas damas da prestigiada Ordem de Cavalaria da Jarreteira, que havia sido criada pelo falecido rei.

 

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Ilustração do Palácio de Savoy, residêncial ducal dos Lancaster em Londres.

Devido aos compromissos do duque, que pertencia ao Conselho Régio, a família Lancaster passou a residir em Londres pela maior parte do tempo. Eles instalaram-se naquele que era considerado o mais belo palácio de Inglaterra, a residência ducal de Savoy, que ficava localizada entre a City e Westminster. Ali, a jovem donzela passeava pelo belíssimo jardim, nas margens do Tamisa e desfrutava de uma abundancia de frutas e flores. Portanto, Philippa de Lancaster passou sua juventude em um ambiente extremamente requintado.

Políticas e negociações de casamento:

Para uma princesa de tão ilustre linhagem e de tão refinada educação, não faltaram pretendentes, mas o casamento de Philippa foi sucessivamente adiado, conforme seu pai ia alterando as negociações diplomáticas que pretendia selar com a concessão da mão de sua filha mais velha. Por essa altura, já haviam sido feitas negociações para casar Philippa com Gaston Fébus, Conde de Foix, com Carlos VI de França; e com o Duque do Luxemburgo.

Dessa forma, Philippa chegou aos 23 anos como uma cobiçada donzela. Nesse ano, sua mão foi negociada tanto com John, Conde de Penthièvre e pretendente ao ducado da Bretanha, quanto com o herdeiro do duque de Brabante. Nenhuma dessas negociações foi firmada e Philippa permaceu solteira, aguardando por um casamento que seu pai considerasse oportuno.

child-marriage.jpgEmbora Philippa permanecesse solteira, ambos os seus irmãos mais jovens foram casados, pois o Duque de Lancaster usou seus filhos mais jovens para unir-se as grandes casas inglesas. Elizabeth foi prometida ao pequeno John Hastings, Conde de Pembroke. O casamento ocorreu em 1380, e a noiva de dezesseis anos, recebeu de presente do pai um anel de ouro com um rubi. A irmã de Filipa tornou-se  assim Condessa de Pembroke, e o seu marido, que tinha apenas oito anos, seria a partir de então educado na Casa de Lancaster. No entanto, Elizabeth nunca aceitou tal matrimônio, que não chegaria a se consumar, e acabou por ser seduzida por John Holland, com quem casou escondida algum tempo depois. Quanto ao seu pequeno marido, ele foi colocado sob guarda da avó, a condessa de Norfolk, e acabou morrendo em um acidente ocorrido num torneio.

Já Henry de Bolingbroke, herdeiro de John de Gaunt, casou-se  aos treze anos com Mary, filha do falecido Humphrey de Bohun, que tinha sido grande amigo do duque. A pequena Mary de Bohun, de apenas oito anos, permaneceu confiada aos cuidados da mãe até que completou catorze anos, quando então foi enviada para viver com o marido, a fim de que eles pudessem iniciar seu convívio como um casal.

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Revolta Camponesa de 1381

No entanto, nem tudo eram flores, afinal de contas, era o século XIV, um período fértil para agitações e revoltas sociais. Em uma dessas situações, o pai de Philippa de Lancaster se viu em meio a um conflito com os habitantes de Londres, que encontravam vários motivos para se oporem quer às políticas e a conduta pessoal do tio do rei.
O agravamento deste conflito culminou na Revolta Camponesa, em Junho de 1381, quando se alastrou uma revolta campesina provocada pelo aumento dos impostos cobrados às já muito pobres populações rurais.

O duque tinha partido para a fronteira escocesa, chefiando um exército ao serviço do rei. Katherine Swynford tinha ficado em Londres, no castelo de Savoy, com os pequenos Beaufort; e a duquesa Constança e Elizabeth de Lancaster estavam em Hertford. Philippa tinha se dirigido para a Abadia de Barking, procurando um ambiente de recolhimento e oração junto das freiras, na companhia de outras damas da nobreza e da família real que habitualmente frequentavam o convento. Foi só depois que ela soube dos terríveis acontecimentos que assolaram Londres e que a obrigariam a se refugiar ainda mais ao norte.

Peasants-Revolt-Facts-Featured-466x310Em 13 de Junho, os rebeldes revoltosos avançaram sobre Londres, e atacaram o castelo de Savoy. O duque de Lancaster, embora ausente, era símbolo do poder senhorial que oprimia as populações com severos impostos, forçando os camponeses a um status de perpetua servidão. Assim, ele e os seus foram os principais alvos da ira dos revoltosos.

Aqueles que o serviam e que não conseguiram fugir, pagaram com suas vidas. Entre estes encontravam-se Grenefeld, escudeiro do duque, que teve a cabeça cortada e o seu físico e cirurgião pessoal, o frade franciscano William de Appleton, que foi executado fora da Torre de Londres. Outra das vítimas, em Londres, foi o idoso arcebispo de Cantuária. Felizmente, o irmão de Philippa, Henry de Bolingbroke, que tinha ficado na Torre de Londres, um dos locais poupados pelos revoltosos e conseguiu se salvar. Quanto a lady Katherine Swynford, ela conseguiu fugir do Castelo de Savoy com os filhos a tempo. Os rebeldes incendiaram a magnífica residência londrina dos Lancaster, destruindo todo o mobiliário, as tapeçarias, a baixela de ouro e prata, jóias e roupas.

Ao ser informada das alarmantes notícias, Philippa deixou a abadia e partiu para o castelo de Hertford, onde se reuniu a madrasta e as irmãs. Temendo por sua segurança, as mulheres decidiram procurar um refúgio seguro, e dirigiram ‑ se para o norte de Inglaterra, escoltadas por alguns cavaleiros, tentando alcançar os castelos do duque na região do Yorkshire.

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Castelo de Pontefract

Ao anoitecer, elas chegaram até Pontefract, onde  inesperadamente, o alcaide da cidade se recusou deixá-las entrar, temendo que os camponeses locais se enfurecessem ao saber que ele dera abrigo à família do duque de Lancaster.

Por isso, Philippa e as outras damas foram obrigadas a fazer uma perigosa cavalgada durante noite a dentro, atravessando os campos, apenas sob a luz das tochas, até finalmente serem recebidas com todas as honras no castelo de Knaresborough, por Richard Brynnand, que seria posteriormente recompensado por ter acudido as mulheres, ao contrário do alcaide de Pontefract, que foi duramente punido pelo duque.

Algum tempo depois, o John de Gaunt retornou e reencontrou com a mulher e as filhas. Ele então pediu que D. Constança lhe perdoasse por suas infidelidades. A duquesa ficou feliz com o arrependimento do marido e lhe perdoou. Dessa forma, lady Katherine Swynford deixou de ser governanta das filhas do duque. Ela foi recompensada pelos bons serviços prestados as princesas Philippa e Elizabeth com uma renda de 200 marcos anuais, e retirou-se, discreta e orgulhosamente com os filhos para a sua mansão de Kettlethorpe. Afastada, mas nunca esquecida, a ex-amante do duque viria a se tornar, anos mais tarde, sua terceira esposa legítima.

O Castelo de Hertford passou a ser a residência da família nos arredores de Londres. Nessa época, Philippa acompanhou a significativa mudança que ocorreu nas atitudes do pai, que passou a rejeitar qualquer tipo de teorias heréticas e intensificou o seu culto à Virgem e aos santos com o seu nome – S. João Evangelista e S. João Batista. Com essa experiência, Philippa aprendeu que manter o amor e a confiança do povo era essencial para garantir um governo seguro. Ela levaria essa lição até o fim de seus dias e faria o possível para garantir que seus filhos também a aprendessem.

Casamento à vista:

Em meio a toda essa confusão, Philippa permanecia solteira. Ainda pacientemente aguardando por um casamento que fizesse jus a ambição política do pai, Philippa ia alternando seu tempo em períodos na corte usufruindo de sua posição como prima do rei e em temporadas passadas em conventos. No entanto, ela não estava ficando mais jovem e a cada dia a questão de seu matrimônio tornava-se mais imperativa. Em uma época em que damas de sua posição eram prometidas e se casavam na mais tenra idade, Philippa, então com quase 26 anos, parecia estar perdendo todos os seus anos férteis enquanto o pai não encontrava um marido que achasse digno dela.

A grande revolta marcou o fim dos quatro anos em que o duque de Lancaster foi a pessoa mais influente em Inglaterra, utilizando a sua força política e diplomática para defender os interesses do jovem rei. Entretanto, dentre os vários cenários políticos em que o pai de Philippa estava envolvido, começavam a ganhar cada vez mais destaque os reinos ibéricos, especialmente Portugal.

John de Gaunt havia expandido sua influência inglesa nos reinos cristãos peninsulares, buscando estreitar laços com Portugal, que poderia tornar- se um aliado útil na gurra dinástica em Castela pelos direitos de sua esposa, D. Constança. Ele então iniciou negociações diplomáticas com o rei D. Fernando, através do representante galego do monarca, João Fernandes Andeiro. No entanto, as coisas também estavam prestes a mudar em Portugal.

João Fernandes Andeiro acabou por se envolver sentimentalmente com a rainha de Portugal, D. Leonor Teles, conquistando uma forte influência na corte portuguesa. A rainha sequer disfarçava seu indiscreto relacionamento com João Fernandes Andeiro e a escandalosa gravidez de D. Leonor Teles de um suposto filho do amante, que, caso fosse menino, poderia vir a herdar o trono, acabou por levar o reino peninsular a uma crise dinástica encabeçada por D. João, Mestre de Avis.

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D. João, Mestre de Avis – Futuro D. João I de Portugal.

João de Avis era o mais jovem dos irmãos bastardos do rei de Portugal e aparentemente não representava nenhum grande perigo na disputa pela sucessão do trono português. Entre 1381 e 1382, a saúde do rei se deteriorou visivelmente. Sua única herdeira era D. Beatriz, que era então a rainha consorte de Castela.
No entanto, também havia os infantes D. João e D. Dinis, filhos do nunca comprovado casamento de D. Pedro I com D. Inês de Castro. Ambos era irmãos e rivais de D. Fernando e fizeram várias tentativas de se aproximarem do trono. Suas tentativas sempre foram barradas pela eficaz rainha Leonor Teles, que queria garantir a regência para si própria depois que ficasse viúva.
João, mestre de Avis, encabeçou a oposição a rainha Leonor Teles após a morte de D. Fernando. Ele foi aclamado como Regente e defensor dos Reinos na cidade de Lisboa e após isso, a rebelião se espalhou por todo o país, o dividido entre os partidários do mestre de Avis, que encarnava o sentimento nacionalista da independência, e os defensores da legitimidade de D. Beatriz.

D. Leonor, por sua vez, foi encarcerada no Mosteiro de Santa Clara de Tordesilhas,  onde morreu três anos depois. Apesar disso tudo, as negociações entre Inglaterra e Portugal se mantiveram através de Fernão Afonso de Albuquerque, mestre de Santiago, e do chanceler Lourenço Anes Fogaça, ambos diplomatas com grande experiência nos assuntos britânicos.

De volta a Inglaterra, Philippa permanecia em sua rotina de dividir seus dias entre a corte e os conventos. Em Abril de 1384, estava ela na casa de sua família, quando os embaixadores do mestre de Avis solicitavam uma audiência particular com John de Gaunt. O duque e a duquesa, que acompanhavam com atenção os acontecimentos em Portugal, prontamente receberam os embaixadores, e conseguiram para eles uma audiência com o próprio rei. Os embaixadores negociaram com Conselho Régio inglês um pedido de ajuda militar feito por D. João, mas Richard II e os seus conselheiros adiaram a decisão por algum tempo.

Enquanto eles aguardavam a reposta real, o Duque de Lancaster convidou os embaixadores do mestre de Avis para um esplêndido banquete. A duquesa Constança foi uma excelente anfitriã, juntamente com a sua filha Catarina e com Philippa. As duas jovens mostraram toda a sua graça e refinada educação, causando uma impressão muito favorável aos embaixadores.

Ainda naquele ano, as tropas castelhanas invadiram o reino de Portugal, tentando conquistar a decisiva cidade de Lisboa. Os seus habitantes, protegidos pela muralha, resistiram heroicamente aos difíceis meses pelos quais se prolongou o cerco, até que por fim, seus inimigos desistiram e regressaram, desmoralizados para Castela. Tal acontecimento tornou imprescindível a escolha de um governante que pudesse defender o reino. Sendo assim, as Cortes foram convocadas em Coimbra. Lá, os argumentos foram favoráveis ao mestre de Avis, e ele acabou sendo aclamado rei e entronizado em 6 de Abril de 1385, passando a reinar em Portugal com o título de D. João I, tornando-se assim o primeiro rei da dinastia de Avis. O novo rei preparou-se para o confronto iminente com Castela, pois o rei certamente não desistiria de recuperar o trono de sua mulher, D. Beatriz, por muitos considerada única e legítima sucessora de D. Fernando.

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Batalha de Aljubarrota

Em setembro de 1385, chegou na Inglaterra a surpreendente notícia da vitória de D. João I sobre o rei de Castela, considerada por muitos – inclusive por ele – como milagrosa.

D. João I sabia que as circunstâncias que o tinham levado à vitória na Batalha de Aljubarrota foram excepcionais, e que a humilhante derrota sofrida pelos castelhanos iria certamente resultar em novos ataques a Portugal. Por esse motivo, ele propôs uma aliança inglesa com o duque de Lancaster. Ele se ofereceu para apoiar reivindicação das pretensões de D. Constança ao trono castelhano, pois se o marido de D. Beatriz fosse afastado, a ameaça contra autonomia nacional de Portugal também terminaria.

No entanto, devido a incerteza do novo governo de D. João I, o duque de Lancaster mostrou-se exitante de entrar numa aliança que lhe acarretaria avultadas despesas sem certeza de retorno. Foi então que a duquesa Constança se colocou de joelhos, juntamente com a sua filha Catarina, diante todos os presentes e lhe implorou:

 

“Senhor, depois de tantas andanças neste mundo em guerras e trabalhos alheios, parece-me que melhor seria agora trabalhardes por vossa honra, cobrando a herança que é minha e de vossa filha. O reino de Castela pertence- me por direito, e não aos filhos do traidor bastardo que matou o meu pai!”

katswynfordQuer John de Gaunt tenha sido comovido pelas lágrimas da esposa, quer ele tenha se encontrado incapaz de negar tal apelo público, o fato é que duque acabou cedendo e tomou finalmente a decisão de partir para Espanha. Ele solicitou ao rei e ao Parlamento permissão que fosse autorizada e financiada uma expedição militar à Península Ibérica, com o objectivo de reclamar os seus direitos ao trono e conquistá-lo, estabelecendo uma paz perpétua entre Castela e Inglaterra. Em maio do mesmo ano, foram estipulados, no Palácio de Windsor, os termos do tratado que deu início à histórica aliança entre Inglaterra e Portugal, confirmada e perpetuada ao longo de vários séculos. Ficou então acordada a amizade e ajuda mútua em caso de guerra, bem como cláusulas relativas aos interesses comerciais de ambos os reinos. John de Gaunt foi por muito tempo o maior senhor de Inglaterra. Agora, só lhe faltava ostentar uma coroa, e ele se preparava para ir lutar por ela.

spain-medieval-ship-grangerFoi dessa forma que, em 22 de Abril de 1386 – um domingo de páscoa – os duques de Lancaster despediram-se da Inglaterra e embarcaram rumo à Espanha, levando com eles as princesas Philippa e Catarina.

Henry de Bolingbroke, –  que ficaria responsável pela administração das propriedades da família – , subiu a bordo se despedir do pai e das irmãs. Ali, no convés do navio, os três irmãos Lancaster encontraram-se pela última vez, não sabendo ainda que no futuro, cada um deles acabaria por ostentar coroas de distintos reinos. Para as filhas do duque, a viagem era uma novidade que lhes criava grandes expectativas. Catarina ia finalmente pisar no solo daquele que poderia vir a ser, – por direito ou pela guerra -, o seu reino. Já Philippa estava ciente de que finalmente iria se casar, quer fosse em Castela ou em Portugal, para selar alguma aliança que o pai precisasse realizar. A sorte havia sido lançada, agora era uma questão de saber até onde o destino os levaria.

 

Fontes:

SERRANO, Joana Bouza. AS AVIS: As grandes rainhas que partilharam o trono de Portugal na segunda dinastia. – Esfera dos Livros; 2009.

DEL HIERRO, María Pilar Queralt. Rainhas na Sombra. – Versal Editora; 2016.

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