Encarnando (e encenando) uma Rainha – Resenha da minissérie Elizabeth R, da BBC

O filme Mary Queen of Scots (estrelando Saoirse Ronan no papel de Mary, e Margot Robbie como Elizabeth I) sequer estreou, e alguns leitores e amigos já vieram me questionar sobre o porquê de eu ter me queixado acerca do figurino utilizado no longa, nas imagens promocionais e no trailler oficial, há pouco divulgados. De acordo com alguns, o figurino é ”decente”, segundo outros, ”honesto” seria a palavra que definiria melhor. A realidade é que, para mim, está bem longe disso.

Para começar, é preciso mencionar que, tenho ciência de que o figurino não é a parte fundamental – e tampouco a primordial – na produção de um filme. No entanto, em produções de cunho histórico, ele pode representar um fator bastante importante em sua análise geral. Explico. Uma produção televisiva ou cinematográfica, tem como função, transportar o telespectador para seu entorno. Isso é construído através de diversos fatores, um bom script, elenco, fotografia, trilha sonora e claro, não menos importante: o figurino. Imaginem comigo: Como seria assistir um longa ambientado no século X, e notar que os atores estão trajando peças em jeans, roupas com zíper, cadarços e etc?

Com certeza iria despertar alguns comentários jocosos ou transtornados, que tirariam a imersão requerida no processo de assistir à uma produção cinematográfica.

É por este motivo, que destaco a importância de um bom figurino em uma produção de cunho histórico; porque, através dele, conota-se que houve trabalho e preocupação na entrega deste material. Retornando ao longa ‘Mary Queen of Scots’, eu realmente não creio ser o pior figurino de uma produção de caráter histórico, já assistida por mim. Convenhamos, se eu consegui assistir à primeira temporada das série televisiva Reign – com seu figurino de baile debutante, com peças adquiridas em fast-fashions -, eu me sinto ousada o suficiente para dizer que assistirei a este filme brincando. Porém, assistir é uma coisa, apreciá-lo em sua totalidade, outra. Mas claro, minhas linhas aqui neste artigo, não serão dedicadas à queixas sobre um filme que sequer foi lançado – mas que, de antemão, posso esperar o melhor roteiro, uma vez que teve seu script adaptado através de uma biografia de Mary Stuart, escrita pelo historiador John Guy. Eu o utilizei como exemplo, para poder abrir análise sobre outra produção dramatúrgica – esta sim, à qual dedicarei o artigo.

Posso dizer que, desde que assisti à minissérie Elizabeth R, que estreou na BBC há mais de 30 anos atrás (de 17 de fevereiro a 24 de março de 1971), meu padrão para produções de cunho histórico, ficou bastante alto. Gosto de dizer que merecia parte dos Royalties desta minissérie, de tanto que a divulgo entre amigos, leitores e conhecidos de meu entorno. Mas todos estes elogios, não são em vão! Eu realmente gosto muito desta produção (que aborda o reinado de Elizabeth I, desde sua ascensão ao trono, até sua morte), não apenas pelo figurino, mas por saber que houve um incansável trabalho de pesquisa por trás dela. A equipe de produção da BBC 2, não apenas consultou historiadores britânicos acerca dos pormenores da vida da última rainha Tudor, como também teve acesso a registros primários da época, construindo uma Elizabeth enquanto personagem, de acordo com os registros de pessoas que conviveram lado a lado com ela, durante sua vida. É uma Elizabeth no melhor estilo citado por Ernst Kantorowicz, em seu livro ‘Os Dois Corpos do Rei’; onde é possível ao telespectador, ter acesso à corporação monárquica em seu cenário mais amplo, através dos dois corpos da rainha, o natural (quando nos deparamos com uma Elizabeth cínica, assustada, debochada e risonha) e o político (a Elizabeth poliglota, erudita, irritadiça, e às vezes, até um pouco agressiva).

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As muitas faces de Glenda Jackson, para a minissérie da BBC, Elizabeth R (1971).

É uma das mais espetaculares construções de um personagem que eu já vi. Glenda Jackson, a atriz britânica – com então 34/35 anos de idade – que fez renascer a última rainha Tudor, entrou completamente no personagem, lendo tudo o que pudesse encontrar sobre Elizabeth I. Ela queria compreender a trajetória desta rainha, para poder interpretá-la de modo que julgasse digno de seu legado enquanto monarca. Desde os palavrões (como God’s death) que Elizabeth I falou em vida, chocando a todos os seus cortesãos, e que Jackson reproduziu com um afiado, cortante e levemente rebuscado sotaque inglês, até as crises de pânico e momentos de alegria da vida da rainha – este foi um retrato construído sob muita pesquisa e trabalho árduo.

A intenção, não foi a de entregar uma produção realizada às pressas, visando lucro rápido e fácil, e sim, a de estabelecer a longos passos, uma relação de comprometimento com aquele que realmente daria (e dá) a palavra final: O público. É claro que há equívocos na série, como por exemplo, personagens construídos sob o sólido (e às vezes, impenetrável) senso comum inglês, acerca de suas próprias figuras históricas, como foi o caso de Maria I – com seu retrato tipicamente pintado na trama, como o de uma soberana fanática e carente; mesmo assim, de modo geral, não há muito o que reclamar.

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À esta altura, posso abordar o que realmente gostaria de falar desde o início deste artigo: O figurino em Elizabeth R. Talvez, minha vontade de passear tanto em torno deste tema no artigo, seja porque, o figurino desta minissérie, é uma das partes mais notórias desta produção como um todo. Neste quesito, posso salientar que nada foi poupado.  Não é equivocado mencionar que, Elizabeth R, era um série em grande estilo, com uma estreia em grande estilo – uma vez que a produção estreou no 481° aniversário do nascimento da rainha Elizabeth I. Deste modo, por ter a monarquia em mente, e toda a promoção e clamor em torno deste tema no Reino Unido, o investimento em torno da imagem régia de Elizabeth I enquanto rainha, foi o mais abundante em toda a produção. A BBC disponibilizou, apenas para Jackson, 200 vestidos diferentes, e todos primorosamente confeccionados à mão.  Todos estes 200 exemplares, foram usados para uma minissérie de apenas 6 episódios. Eles foram confeccionados pela figurinista, Elizabeth Weller, que dispôs da recheada carteira da BBC da década de 70, para colocar em prática tudo o que havia aprendido com sua empreitada de estudos sobre a última rainha Tudor.

Waller se empenhou tanto para desenvolver as roupas que Glenda usaria, que estudou a fundo, diversos dos mais famosos retratos da rainha. Durante os episódios, é possível ver reproduções bastante precisas dos trajes vistos no Ditchley Portrait, Clopton Portrait, Armada Portrait, Darnley Portrait, e até outros menos conhecidos, como o Sieve Portrait, de 1580-83. Outro detalhe digno de nota, foi o estudo acerca dos tecidos e estampas utilizados na época. Este trabalho de pesquisa, resultaria em vestidos bastante semelhantes aos vistos nos retratos, e tão realistas, que eram pesados como os verdadeiros teriam sido; os vestidos utilizados por Elizabeth I, não raramente pesavam mais de 10kg. Eles eram adornados por pedras e gemas preciosas bastante pesadas, além de possuírem estruturas que ocasionariam na sustentação e volume dos mesmos, como o farthingale, o bumroll, que agregavam bastante peso a ser sustentado por uma única pessoa.

Isso tudo refletiu em Jackson. Acostumada com as calças bocas de sino e tecidos leves da década de 70, a moda elizabetana muitas vezes passou a machucar sua pele e corpo, causando vergões, a deixando sem ar, impedindo-a de ficar em pé, e até de passar por corredores ou portas mais estreitas. Isso conferiu à atriz, um leve vislumbre do que teria sido sentir o ”peso da coroa” – ao contrário de Elizabeth I, que interpretou a imagem de rainha, de sua coroação até o resto de sua vida, quando as luzes do estúdio se apagavam, Jackson podia por fim se ”livrar” de toda aquela atuação. É claro que, devido a isso, Glenda em muitas cenas (conforme podem ver nas fotos), é vista atuando sentada e realizando mais movimentos faciais que corporais – uma vez que era impedida de mover fluidamente os braços. Nada disso afetou em absoluto sua atuação ou a capacidade criativa de Waller, que ganhou um Emmy pelo figurino da minissérie. Weller trabalhou ao lado da também figurinista e designer, Jean Hunnisett, que a ajudou a confeccionar todos estes figurinos. Esse processo criativo, mais tarde fez parte do livro de Jean, intitulado ”Period Costume for Stage & Screen: Patterns for Women’s Dress 1500-1800.’’

A cereja do bolo de todo este cuidado com o figurino, foi talvez, a própria falta de limites interpretativos de Jackson, que se recusou a utilizar uma peruca com recuo para a alta testa elizabetana. Com medo de que o material ficasse muito falso e pudesse ser facilmente notado pelos telespectadores, a atriz resolveu raspar boa parte do cabelo acima da testa, para desempenhar o papel. De acordo com Jackson:

“Eu não via sentido em tentar convencer as pessoas de que eu estava tentando interpretar outro personagem, quando 15 centímetros da minha testa se enrugavam de uma maneira não natural, porque não era pele, e sim, plástico.” ¹

Nas cenas finais de Elizabeth, a atriz também chegava horas antes dos outros atores, para passar por um demorado processo de maquiagem, que consistia no uso de próteses faciais e uma grossa camada de tinta branca no rosto.

É claro que não apenas Glenda e a equipe de produção da série merecem louros. Os atores contratados para a série (muitos dos quais se tornariam ícones do cinema britânico), eram em peso da Royal Shakespeare Company, estando portanto, bastante familiarizados com as técnicas interpretativas necessárias para seus personagens. Como são diversos os nomes, realizarei menção honrosa a Robert Hardy (1925 -2017), que interpretou Robert Dudley, um favorito da rainha Elizabeth I – mais tarde na vida, ele interpretaria Cornélio Fudge, na saga de filmes Harry Potter.

Todo este processo criativo teve um preço caro a se pagar. A minissérie, escrita por John Hale, Rosemary Anne Sissons, Julian Mitchell, Hugh Whitemore, John Prebble, e Ian Rodger, e produzida por Roderick Graham e Christopher Sarson, custou aos bolsos da BBC, mais de 1 milhão de libras, fazendo com que algumas restrições acerca dos cenários, fossem realizadas. Embora saibamos que algumas mannors e palácios Tudor tenham sido utilizadas como locação – como por exemplo, Penshurst Place e Chiddingstone -, assim como na outra minissérie Tudor da BBC, ‘As Seis Esposas de Henrique VIII”, os principais cenários e gravações foram realizados dentro de estúdio – algo mais barato, mas menos atraente, especialmente ao público moderno. Embora este seja um aspecto negativo, há um lado positivo, uma vez que temos mais atenção aos diálogos que ocorrem no desenvolver da trama.

Independentemente dos pormenores, não há risco em mencionar que Elizabeth R, foi um reflexo dos anos dourados da dramaturgia britânica, onde os detalhes eram lidos com atenção e cuidado por toda a equipe produtiva e atores; época onde as pessoas passavam mais tempo desenvolvendo roteiros e figurinos, visando o agrado do telespectador. O reflexo disso, é um comentário feito pela própria atriz, Glenda Jackson, anos depois, durante uma exibição sobre Elizabeth I, em Londres. A atriz, que ganharia dois Emmys pela minissérie (um como melhor atriz, e outro por seu excelente desempenho continuado na liderança de uma série dramática), mencionou que a rainha Elizabeth I permanece uma de suas heroínas, mas pareceu duvidar que a BBC irá novamente realizar um drama histórico tão caro:

“Elizabeth R representou a BBC em seu auge. Tudo era muito rigoroso naquela época. Me ensinaram como escrever corretamente a assinatura da Elizabeth, eu fui ensinada à montar a cavalo com a sela lateral. Eu inclusive fui ensinada a usar o arco e flecha. É desnecessário dizer que, na primeira vez eu acertei na mosca, mas depois disso, nunca mais consegui…’’²

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 ¹ Entrevista concedida por Glenda Jackson à Nancy Mills, para o site, SF Gate, no dia 06 de Julho, de 1995. Disponível em: [https://www.sfgate.com/entertainment/article/Glenda-s-Queenly-Past-Resurfaces-Jackson-s-3029651.php]

² Entrevista concedida por Glenda Jackson, ao correspondente artístico do jornal The Telegraph, Nigel Reynolds, em 29 de Abril do ano de 2005. Disponível em: [https://www.telegraph.co.uk/news/uknews/1428629/Glenda-Jacksons-costume-drama.html]

Bibliografia:

Elizabeth 40 years on. BBC. Disponível em:
[http://www.bbc.co.uk/blogs/aboutthebbc/2011/02/elizabeth-r-40-years-on.shtml] – Acesso em Novembro de 2018.

Glenda Jackson’s Costume Drama. Telegraph. Disponível em:
[https://www.telegraph.co.uk/news/uknews/1428629/Glenda-Jacksons-costume-drama.html]. Acesso em Novembro de 2018.

Elizabeth R, BBC, 1971. Kent Film Office. Disponível em:
[https://kentfilmoffice.co.uk/1971/08/elizabeth-r-1971/]. Acesso em Novembro de 2018.

Elizabeth R. Television Heaven. Disponível em:
[http://www.televisionheaven.co.uk/elizabeth_r.htm]. Acesso em Novembro de 2018.

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