‘Jamais chegaremos ao reino dos céus longe de dissabores’ – A carta clandestina de Catarina de Aragão, para sua filha Maria, em 1534

No ano de 1534, Maria Tudor, encontrava-se no cerne dos interesses da coroa, ao se negar a realizar o juramento de lealdade, requerido através do Ato de Supremacia, criado no mesmo ano. O Ato de Supremacia, consistia em um ato criado por Henrique VIII, e aprovado pelo Parlamento, que declarava que o monarca inglês, era ‘o único chefe supremo na terra, da Igreja na Inglaterra’¹. Uma das cláusulas anexas deste documento, exigia por conseguinte, que todos os súditos ingleses realizassem um juramento de lealdade, reconhecendo o casamento do monarca com sua segunda consorte, Ana Bolena, como legítimo. A questão para Maria –  filha de Henrique VIII através de seu então recém-anulado casamento com Catarina de Aragão – era politicamente complexa diante de tais interesses. Caso a jovem aceitasse o casamento de seu pai com Ana Bolena, segundo as cláusulas deste documento e do Primeiro Ato de Sucessão (1534), ela estaria afirmando sua própria bastardia, atentando contra sua legitimidade e legalidade da união de seus pais, algo que ela não faria. 

Qualquer pessoa que se negasse a realizar o juramento referente ao Ato de Respeito ao Juramento de Sucessão, seria acusada de traição. Diante de sua abstenção, o caso de Maria não era diferente, tendo portanto, que lidar de modo bastante cauteloso com os interesses do rei e os seus próprios. Foi nesta época em que o número de missivas clandestinas, trocadas entre Catarina de Aragão e Maria, cresceu consideravelmente.

Após a anulação de seu casamento com o monarca inglês, Catarina ficou em exílio nos castelos ingleses de Buckden, More e Kimbolton, proibida de ver sua filha. A separação entre mãe e filha, por conseguinte, partiu da crença do próprio monarca de que, tal afastamento, encorajaria uma atitude de submissão vinda da jovem, e uma possível conciliação a partir de seus interesses políticos para com a mesma. Sempre que possível, estas mulheres trocavam correspondências escondidas dos olhos do rei, sendo transportadas através de amigos ou emissários que poderiam realizar visitas à antiga rainha consorte inglesa.

Talvez o aspecto principal deste documento, tenha sido o modo como ele foi escrito. Trata-se de uma correspondência com caráter mais intimista, onde Catarina coloca-se primeiramente, como uma mãe, lutando pelos interesses de sua filha. No desenrolar da carta, podemos notar os pequenos conselhos maternos e demonstrações de afeto, acalentando Maria diante da situação em que vivia. Na época, Maria vivenciava algumas situações de extrema pressão psicológica, vindas de seu pai e sua madrasta Ana Bolena, e as palavras de sua mãe, indicavam a força pela luta de um ideal, beirando à crença católica do martírio conjunto.

Isolada na household de sua meio-irmã, Elizabeth, sob os cuidados dos tios de sua madrasta, Sir John e Lady Anne Shelton, as correspondências que a jovem de 17 anos de idade recebia de sua mãe, eram os sinais de afeto que lhe faltavam. No local, ela seria pouco mais que uma servente – a fim  de lembrá-la de sua condição de bastarda. O pouco contato que Henrique VIII (que realizava visitas para Elizabeth no local) mantinha com Maria, também a deixava instável acerca do caminho que deveria trilhar no âmbito dos interesses reais.

Foi neste difícil período, onde Maria tentava lidar com as consequências legais de seus atos para com o rei, que o discurso contido na carta de Catarina, pode ter sido o baluarte de uma crença de vida que se estenderia até o período de seu próprio reinado. No documento abaixo, notamos nitidamente as instruções que Catarina fornece à sua filha, sobre como se portar diante deste cenário e de possíveis represálias vindas do rei ou de terceiros. A antiga rainha ensina à jovem, o que provavelmente pode ter aprendido outrora, como filha dos reis católicos: a manter-se convicta diante de seus ideais, mas sem desagradar a Deus.

“Filha,
Ouvi notícias hoje, em que percebo (se forem reais) que muito se aproxima o tempo em que Deus Todo-Poderoso se encarregará de lhe provar; e estou muito contente com isso, uma vez que confio que ele olha por ti com muito amor. Eu lhe suplico, aceite suas vontades com um coração alegre; e certifique-se de que, sem falhar, ele não irá permitir que pereça, caso tome cuidado em não ofendê-lo. Eu lhe peço, boa filha, que se ofereça a ele…. e se esta senhora [Shelton] vier a você como é dito, se ela lhe trouxer uma carta do Rei, tenho certeza que nesta mesma carta, você será alertada sobre o que fazer. Responda com poucas palavras, obedecendo ao rei, seu pai, em tudo, cuide apenas para não ofender a Deus e perder sua própria alma; e não siga adiante com discussões e disputas sobre o assunto. E onde quer que esteja e sob qualquer companhia, observe os mandamentos do rei.
Mas uma coisa eu desejo especialmente a ti, pelo amor que tem para com Deus e comigo, mantenha seu coração e corpo casto de toda companhia vil e devassa, [não] pensando ou desejando qualquer marido pelo bem do senhor; sequer se determine a qualquer modo de vida, até que este tormento fique no passado. Pois ouso certificar-me de que a ti será reservado um bom final, e melhor do que possas desejar…. E agora deve seguir em frente, e provavelmente eu devo segui-la. Eu não me apressarei com isso; pois quando fizerem o máximo que puderem, então eu terei os resultados… Jamais chegaremos ao reino dos céus longe de dissabores. Filha, onde quer que você vá, não me faça sofrer, porque se eu assim puder, não lhe farei…
Sua amorosa mãe,
Catarina, a Rainha”.² 

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¹ The Act of Supremacy, 1534; C 65/143, m. 5, nos. 8 and 9.

²BL, Arundel 151, fol. 195; LP VI, 1126.

Bibliografia: 

WHITELOCK, Anna. Mary Tudor: England’s First Queen; Bloomsbury Publishing, 1 Março de 2010.

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