Entendendo ‘O Dia Internacional da Mulher’

Celebrado mundialmente, o Dia Internacional da Mulher, marca todo o progresso que as mulheres fizeram em sua batalha pela igualdade de direitos trabalhistas e sociais, e reconhece até onde elas ainda necessitam chegar.

O objetivo do Dia Internacional da Mulher é chamar a atenção para as questões sociais, políticas, econômicas e culturais que as mulheres enfrentam, além de defender o avanço das questões de gênero em todas estas áreas.
Os organizadores da celebração afirmam: “Através da colaboração proposital, podemos ajudar as mulheres a avançar e libertar o potencial ilimitado oferecido às economias de todo o mundo”. 
O dia também é frequentemente utilizado para reconhecer mulheres cujo as contribuições sociais e políticas, foram significativas para o avanço de seu gênero.

Powerloom_weaving_in_1835
O maquinário ”Roberts loom” em um galpão de tecelagem, em 1835. Os têxteis eram a indústria líder da Revolução Industrial e as fábricas mecanizadas, alimentadas por uma roda de água central ou máquina a vapor, eram o novo local de trabalho para as massas proletárias.

Para compreendermos a luta e reivindicação feminina dos direitos trabalhistas, precisaremos voltar um pouco no tempo, até o período histórico que ficaria conhecido como ‘A Revolução Industrial’. Com a invenção do maquinário a vapor, teve início um período conhecido na história como a Revolução Industrial, época em que houve um aumento em massa na produção de produtos diversos. Este processo teve início na Inglaterra, no século XVIII, meados de 1760, e caracterizou-se por uma mudança da população das áreas rurais para os centros urbanos. Comerciantes especializados já não mais eram necessários. Os donos das fabricas queriam uma mão-de-obra barata, uma vez que o funcionamento das máquinas não exigia muita habilidade. Deste modo, com os salários mais baixos e a mão-de-obra dobrada, foi necessário que a mulher passasse a integrar como membro da massa trabalhadora nas usinas e indústrias. Elas trabalhavam por menos da metade dos salários dos homens, e não havia regulamento para tornar o local de trabalho um lugar mais agradável ou seguro para elas e para as outras pessoas.

De meados do século XIX, até o século XX, diversas reivindicações e protestos ocorreriam entre mulheres operárias, que exigiam melhor qualidade de vida e direitos trabalhistas. A jornada de trabalho enfrentada por elas, era de cerca de 15/16 horas diárias, isso, excluindo a dupla jornada enfrentada por elas, que além da vida atrás das máquinas, tinham na maioria das vezes, que cuidar de seus lares e famílias. Os salários baixos eram parte das pautas de protesto, uma vez que equivaliam a um terço do valor recebido pela mão-de-obra masculina.

Há uma calorosa discussão entre historiadores, a respeito de qual foi a inspiração para a data comemorativa do ‘Dia Internacional das Mulheres’, e chega-se a dois eventos dignos de destaque. O primeiro ocorreu com uma longa greve de costureiras, que durou de 22 de novembro de 1909 a 15 de fevereiro de 1910, e o segundo, ocorreu no ano de 1911, quando uma fábrica têxtil, de nome ‘Triangle Shirtwaist Factory’, pegou fogo em decorrência das péssimas condições de segurança do local, chegando a matar 146 pessoas aproximadamente. Deste número de vítimas, 129 eram mulheres, nas quais 90 delas, em desespero, jogaram-se pelas janelas do edifício. É necessário salientar que, a maioria destas jovens mulheres era imigrante, tendo entre 16 a 24 anos, e trabalhando em condições desumanas.

A ideia de um Dia Internacional da Mulher foi também inspirada pelo Dia Nacional da Mulher, nos Estados Unidos, ocorrido em 28 de fevereiro de 1909, declarado pelo Partido Socialista da América.

Captura de Tela 2018-03-08 às 15.49.37No ano seguinte, o Partido Internacional Socialista reuniu-se na Dinamarca, onde seria aprovada a ideia de um ‘Dia Internacional da Mulher’. Deste modo, no próximo ano, o que seria considerado o primeiro ‘Dia Internacional da Mulher’- ou, como foi chamado pela primeira vez, ‘Dia Internacional das Mulheres Trabalhistas’ – foi celebrado com manifestações na Dinamarca, Alemanha, Suíça e Áustria. Celebrações frequentemente incluíam marchas e outras manifestações. Especialmente nos primeiros anos, o Dia Internacional da Mulher estava diretamente relacionado com os direitos das mulheres trabalhadoras. Só a Áustria-Hungria ocorreram mais de 300 manifestações para acabar com a discriminação de gênero e garantir o direito das mulheres de trabalhar, votar e o de serem educadas e preparadas para ocupar cargos públicos.

Nem uma semana após o primeiro ‘Dia Internacional da Mulher’, ocorreu o incêndio acima citado, na ‘Triangle Shirtwaist Factory’, na cidade de Nova York. Esse incidente inspirou muitas mudanças nas condições de trabalho industrial, e desde então, a memória daquelas que morreram foi frequentemente invocada como sedo parte do Dia Internacional da Mulher.

Em 1914, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, o 8 de março tornou-se um dia de manifestações feitas por mulheres contra a guerra, ou por mulheres expressando solidariedade internacional naquele momento de guerra.

Em 1917, entre os dias 23 de fevereiro à 8 de março no calendário ocidental – as mulheres russas organizaram uma greve, que acabou por ser um começo chave para cadeia de eventos que resultaram no derrubamento do czar. Foi um protesto contra a deterioração das condições de vida, a falta de alimentos básicos e a escassez de bens. O movimento foi liderado pela feminista russa, Alexandra Kollontai, no último domingo de fevereiro (8 de março, de acordo com o calendário gregoriano). Em comemoração a esta manifestação, a União Soviética celebrou o Dia da Mulher em 23 de fevereiro (8 de março) desde 1922.
O acontecimento foi especialmente popular por muitos anos na Europa Oriental, e gradualmente tornou-se mais uma parte da celebração internacional.

Captura de Tela 2018-03-08 às 15.49.44Foi apenas em 1945, que a ONU (Organização das Nações Unidas) assinou um tratado internacional onde declarava o que seriam os princípios igualitários entre homens e mulheres a se candidatarem em cargos dentro da organização, e que levaria posteriormente – juntamente às investidas dos movimentos feministas – à celebração e reconhecimento do dia ’08 de Março’, difundido mundialmente como o ‘Dia das Mulheres’. Em suma, as Nações Unidas passaram então a celebrar o Ano Internacional da Mulher em 1975 e, em 1977, e ficaram oficialmente responsáveis ​​pela honra anual dos direitos das mulheres, conhecido como Dia Internacional da Mulher, um dia “para refletir sobre os progressos realizados, para pedir mudanças e para comemorar atos de coragem e determinação [feitos] por mulheres comuns que desempenharam um papel extraordinário na história dos direitos das mulheres. ”

Em 2011, o 100º aniversário do Dia Internacional da Mulher resultou em muitas celebrações em todo o mundo, e foi dada mais do que a atenção habitual ao Dia Internacional da Mulher.
Em 2017 nos Estados Unidos, muitas mulheres comemoraram o Dia Internacional da Mulher, tirando o dia de folga, em um “Dia sem Mulheres” em protesto. A marcha aconteceu em Washington e visava destacar o poder econômico e o valor das mulheres e suas contribuições para a sociedade nos meios de trabalho remunerado e não remunerado. O protesto também buscava chamar atenção para as injustiças econômicas que as mulheres enfrentam, como salários mais baixos, discriminação de gênero, assédio sexual e insegurança no trabalho.
Considerando-se o sistema educacional (no qual as mulheres ainda representam cerca de 75% dos professores das escolas públicas) e alguns outros postos mais específicos de funções, em algumas cidades, nem todas as mulheres puderam deixar seus trabalhos no dia em questão, mas aquelas que não tiraram o dia de folga usaram vermelho para honrar o espírito da greve.

Compreendendo melhor o incêndio da ‘Triangle Shirtwaist Factory’ e sua influência no Dia Internacional da Mulher:

Quando falamos sobre o Dia Internacional da Mulher, o famoso e muito trágico acontecimento do dia 25 de marco de 1911, é sempre tido como o marco principal para explicar a existência da data comemorativa em questão.

Captura de Tela 2018-03-08 às 15.49.50Conforme explicamos acima, os motivos para a institucionalização da data foram bastante diversos, e o primeiro Dia Internacional da Mulher ocorreu devido à uma série de fatores. No entanto, o incêndio na fábrica Triangle Waist Company, sem dúvidas, foi o que pôs a data em evidência.

Presas atrás de portas trancadas e fora do alcance das escadas dos bombeiros, muitas jovens mulheres morreram tentando desesperadamente escapar das chamas, algumas inclusive saltando das janelas do nono andar da fábrica até o pavimento abaixo. No ano anterior, essas mesmas mulheres fizeram uma tentativa malsucedida de greve no distrito, na esperança de obter reconhecimento sindical e melhores salários – condições essas, que seus patrões se recusaram a conceder.

Conforme apontou Jane Hodges, Diretora da Mesa de Gênero da Organização Internacional do Trabalho (OIT) em uma recente participação da 55ª Sessão do Comitê sobre o Status da Mulher: “Essas mulheres não podiam subir e conversar com o dono [da fábrica]. Elas eram mal pagas, trabalhavam longas horas, – um sábado neste caso -, e as portas estavam trancadas. Elas não tinham direitos, nenhuma proteção legislativa, nenhuma representação. (…) E se [elas] tivessem tido um trabalho digno naquela época? E se tivessem o direito de se organizar? Elas não morreriam por causa da falta de direitos. 
É por isso que a busca pelo trabalho decente não é apenas um conceito, é uma pauta real e é relevante. ”

Captura de Tela 2018-03-08 às 15.49.55Apesar de toda a tragédia que envolveu o caso, a comissão criada para investigar este incêndio e, em geral, as condições dos trabalhadores nas fábricas têxteis, foi de uma enorme influência para a legislação trabalhista do estado.

Hoje, o impacto do incêndio ainda é sentido em todo o mundo. O acontecimento deu ênfase ao recém-declarado Dia Internacional da Mulher. Ele influenciou fortemente os ideais fundadores da OIT e continua a inspirar a organização em busca da justiça social e melhores condições de trabalho, sempre que possível. O prédio onde aquelas pessoas morreram, hoje é parte do campus da Universidade de Nova York, e hospeda uma série de exposições e atividades comemorativas sobre o Dia Internacional da Mulher.

Hoje, o Dia Internacional da Mulher é celebrado em mais de 100 países e é um feriado oficial no Afeganistão, na Armênia, no Azerbaijão, na Bielorússia, em Burkina Faso, no Camboja, na China (apenas para mulheres), em Cuba, na Geórgia, Guiné-Bissau, Eritreia, Cazaquistão, Quirguistão, Laos, Madagáscar (apenas para mulheres), Moldávia, Mongólia, Montenegro, Nepal (apenas para mulheres), Rússia, Tajiquistão, Turquemenistão, Uganda, Ucrânia, Uzbequistão, Vietnã e Zâmbia.

Conclusão:

Conforme visto acima esta data não trata-se de comemoração. Trata-se de memória, luta, sangue e esperança de igualdade. Há séculos mulheres faziam dupla jornada, seja tecendo em suas casas, tirando leite de bezerros e vacas, vendendo legumes em feiras, lavando para fora, enquanto tinham filhos e um lar que as esperava para ser mantido, ou até mesmo, sendo escravizadas. Porém, apenas quase dois séculos após a Revolução Industrial, com muitas vidas perdidas e sangue derramado, algum direito de gênero passou a ser discutido entre todos.

Que esta data viva, não apenas como um motivo de comemoração, mas como um lembrete de luta, de tudo o que foi conquistado, e tudo o que nós, enquanto mulheres, ainda precisamos conquistar, em pleno século XXI.

Que todas essas vidas perdidas, de mulheres, irmãs, filhas e mães, não tenham-se ido em vão. Que o longo caminho a se trilhar, seja de união entre todas nós, porque parafraseando o poema de Aitor Cuervo Taboada, que mais tarde tornaria-se um ditado popular: Mulher bonita, é a que luta!

Imagem de capa:

Women’s demonstration for bread and peace – March the 8th, 1917, Petrograd, Russia.

Bibliografia:

GOLDMAN, Wendy. Mulher, Estado e Revolução. São Paulo: Boitempo; Iskra, 2015.

HOBSBAWM, ERIC J.; Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo. Forense Universitária; Edição: 6, Brasil.

https://www.historyonthenet.com/what-were-the-working-conditions-during-the-industrial-revolution/

https://www.thoughtco.com/internationalwomensday3529400https://iwd.uchicago.edu/page/international-womens-day-historyhttp://www.ilo.org/global/about-the-ilo/newsroom/features/WCMS_152708/lang–en/index.htm

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