Lady Diana e a Duquesa de Devonshire: Similaridades que vão além do sangue

O longa metragem ‘A Duquesa’, que teve sua estréia no ano de 2008, contém algumas passagens muito familiares à vida marital de Diana, Princesa de Gales. No ápice do filme, podemos quase que ouvir ecoar a máxima outrora proferida por ela: ”Haviam três pessoas neste casamento”.

Qualquer um que não esteja familiarizado com a produção, que conta com atores como Keira Knightley e Ralph Fiennes em seu elenco, pode ser perdoado por acreditar que o título do mesmo, trata-se de uma história sobre Camilla, que por anos, amargamente participou do triângulo amoroso entre Charles e Diana. No entanto, o filme não narra a vida da mãe do futuro monarca britânico ou da mulher que suplantou-a como esposa de Charles, e sim, de uma antepassada de Diana que faleceu há mais de 200 anos: Georgiana Cavendish, a Duquesa de Devonshire. E há de se dizer que, ambas as mulheres, compartilham muito em comum, conforme veremos neste artigo.

Diana e Georgiana eram ambas Spencers, criadas na luxuosa mansão da família, em Althorp. Ambas foram adolescentes tímidas que floresceram após serem catapultadas pela fama de casamentos muito bem orquestrados com homens mais velhos, mais ricos, e que não as amavam. Ao invés disso, eles tomaram amantes, nas quais – para a infelicidade de ambas – todos teriam conhecimento. Ambas estas mulheres se tornaram ícones da moda – com a duquesa envolvida com nomes como Gainsborough e Reynolds, e sua sobrinha-trineta, Diana,  com Mario Testino, dois séculos depois.

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A jovem Georgiana Spencer com sua mãe, Margaret Georgiana Spencer (Pintado por Sir Joshua Reynolds). Diana quando bebê, sendo segurada por sua mãe, Frances Shand Kydd. Fotografia tirada em meados de 1961.

Conforme visto, Diana, princesa de Gales, não foi o primeiro membro da família aristocrática de Spencer a conquistar o coração de seu país, mas não o de seu marido. Em 1774, sua antepassada Lady Georgiana Spencer, casou com o Duque de Devonshire, que, assim como Charles séculos depois, havia sido considerado como o solteiro mais cobiçado na Inglaterra. Georgiana, assim como Diana, encontrou consolo para sua vida pessoal, através do carinho e apelo público, quando tornou-se óbvio que seu matrimônio com William Cavendish, 5º Duque de Devonshire, jamais teria o seu tão sonhado ”felizes para sempre”.

Georgiana e Diana sofreram a humilhação de verem-se presas em um ‘ménage à trois’ deveras público, buscando fuga através de seus supostos distúrbios alimentares, bem como vícios destrutivos, como o consumo de bebidas e algumas drogas.

A autora Amanda Foreman, cujo livro mais vendido, intitulado ‘Georgiana Duquesa de Devonshire’ lançado em 1998, serviu de inspiração para o filme acima citado, diz: “Você não pode negar que há semelhanças extraordinárias. Assim como Diana, Georgiana tinha esta capacidade de fazer as pessoas se sentirem especiais. Mas ela teve um lado obscuro que tornou-se bastante auto-destrutivo”.  

Lady Georgiana Spencer tinha apenas 17 anos quando casou-se com o Duque de 26 anos de idade. Já Diana, tinha apenas 19 anos, quando casou-se com o Príncipe Charles, de 32 anos. No final de sua vida, Diana foi conhecida por muitos como ‘Lady Di’, já Georgiana, era carinhosamente chamada por seus amigos de ‘G’ (fonética parecida com ‘Di’ em inglês). Todos os movimentos das vidas destas duas mulheres, eram um prato cheio para os tabloides ingleses do dia. No caso de Georgiana, ao invés de Paparazzis, ela teve que lutar contra os caricaturistas agressivos que aproveitavam seus penteados para fazer grandes sátiras. Diana assumiu causas públicas como a de pacientes com AIDS e vítimas de minas terrestres, já Georgiana, arrecadou dinheiro e recrutou membros para o partido Whig, até seus últimos dias de vida.

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Retrato de William Cavendish, quinto Duque de Devonshire, pintado em Roma por Pompeo Batoni, 1768. Fotografia de Charles, Príncipe de Gales, no Palácio de Buckingham, 1974, por Allan Warren.

Conforme citado, as famílias Spencer e Cavendish faziam parte do partido político britânico de nome Whig (uma junção dos pensamentos e ideais liberais do Reino Unido, que andava em discordância ao partido conservador de Tory). No entanto, a posição de William como um dos mais importantes Duques da nação, tornou seu envolvimento político uma manobra insustentável. Deste modo, foi Georgiana quem se tornou o rosto público por trás das ambições políticas de sua família. Ela se tornou a primeira mulher a aparecer em plataformas políticas, e durante a campanha eleitoral de 1784, ela ficou famosa por trocar beijos por votos nas reuniões de campanhas eleitorais (vide Charge no final do artigo).

Enquanto a administração da imagem pública de ambas era magistral, o controle que tinham sobre suas vidas privadas ficava para trás, como sendo de natureza menos impressionante. Diana e Georgiana tiveram que lidar com a presença de outras mulheres em seus casamentos. No caso de Diana, foi a antiga namorada de Charles, Camilla Parker Bowles. Já Georgiana, sem querer criou seu próprio ménage à trois quando convidou Lady Elizabeth Foster (conhecida como Bess) para viver sob seu teto. Bess tornou-se sua amiga mais próxima, mas em pouco tempo o Duque estava igualmente fascinado pela mulher. Ele e Bess se tornaram amantes, e três anos depois de Georgiana morrer, ele se casou com ela. No caso de Charles, ele casou-se com Camilla quase oito anos após a morte de Diana.

Georgiana decidiu tolerar a situação e encontrou-se em meio ao triângulo amoroso mais conhecido da Inglaterra do século XVIII, e Diana por sua vez, sem ter muita escolha, protagonizou o triângulo amoroso mais conhecido da Inglaterra no século XX. Sobre Georgiana, Amanda Foreman diz: ”Sua baixa auto-estima permitiu que a situação continuasse. Ela estava desesperada por agradar. Isso significava que ela era facilmente uma vítima”.  Como sabemos, estas características também encaixam-se perfeitamente no comportamento enfrentado por Diana, que contava com baixa auto-estima para lidar com o romance e temperamento de seu marido.

Assim como Diana, Georgiana também buscou e encontrou consolo em uma série de amantes, no caso desta segunda, incluindo Charles Grey, o 2º Conde Grey, um proeminente político Whig, que seria eleito primeiro-ministro (o chá Earl Grey leva seu nome). Mas enquanto os costumes sociais permitiram que William produzisse uma série de filhos fora do casamento, quando Georgiana deu à luz a filha de Gray, o Duque insistiu para que a criança (um antepassado da duquesa de York) fosse entregue aos pais de Gray (contando com Georgiana como sua muito atenta ‘madrinha’).

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Georgiana Spencer com seus irmãos, Henrietta e George, por Angelica Kauffman, 1774. O retrato foi pintado pouco antes do casamento de Georgiana com o Duque de Devonshire. Fotografia de Diana ao lado de seu irmão mais novo, Charles Spencer.

“Contra todas as probabilidades, ela [Georgiana] conseguiu recuperar sua reputação e sua posição social enquanto tinha seus trinta e poucos anos”, diz Foreman. Diana também tentaria tal façanha após o escândalo da ‘Guerra dos Waleses’ (conflito público entre Diana e Charles, que levaria à inúmeras entrevistas e matérias concedidas por ambos, a respeito de seu relacionamento), mas morreria pouco tempo depois.

Apesar das pressões particulares de suas vidas, Diana e Georgiana foram dedicadas aos seus filhos. Georgiana teve três com o Duque, duas meninas e, finalmente, em 1790, o herdeiro masculino há muito aguardado – isso foi um dever que Diana realizou muito mais rapidamente e, em seu caso, o nascimento de uma garota não teria representado o desastre que seria para Georgiana. Elas seriam lembradas com muito carinho por seus filhos. Depois que sua mãe morreu, a filha mais velha de Georgiana, também chamada de Georgiana, escreveu: “Queria espalhar violetas sobre seu leito de morte, assim como ela espalhou doçuras sobre minha vida, mas eles não me deixariam”. Já no caso de Diana, seu primogênito, o príncipe William, diria: ”Nossa mãe era um raio de luz em um mundo cinzento”. 

De todos esses paralelos, Foreman disse em uma entrevista que, o que mais ressoa através do tempo, é a forma como estas duas mulheres utilizaram seus status de celebridade. Como Diana, Georgiana “literalmente não conseguiu sair de sua casa sem ver-se cercada de pessoas”, disse a autora. ”Ela absolutamente lutou para encontrar uma maneira de ser ela mesma quando todos estavam tentando ditar isso a ela”.  Felizmente para ambas, a política (para Georgiana) e as causas sociais (para Diana) foram válvulas de escape vindas de suas próprias naturezas.

O status de celebridade de Georgiana, também incomodava a seu marido, assim como o de Diana incomodou Charles. ”Era horrível para ele ir ao teatro e tornar-se objeto de admiração e híbrida excitação em massa”, diz Foreman. “Este não era ele. Ele não conseguia entender por que alguém gostaria disso”. Mas isso não soa um pouco como os relatos da mídia e discursos do próprio Charles a respeito da celebridade e popularidade de Diana?

Em todo modo, o fim de vida destas duas mulheres, tão parecidas e ligadas pelo mesmo sangue, não poderia ser mais diferente. Enquanto Diana morreu presa à armadilha de seu próprio sucesso, Georgiana libertou-se de suas amarras após sofrer uma infecção ocular que deixaria cicatrizes em seu rosto. Estas cicatrizes a libertaram de seus medos, enquanto as cicatrizes internas de Diana, jamais seriam curadas. Todas as inibições a respeito de Georgiana ser ou não bela o suficiente, ou de fato estar ou não no cargo certo, deixaram de assombrá-la, enquanto que o estigma de fracasso pessoal Diana foi com ela para seu túmulo, uma vez que seu trágico e repentino fim a impediu de reconstruir sua vida.

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Inimigos eventuais (As charges e os Paparazzis): Charge publicada a respeito de Georgiana, Duquesa de Devonshire, intitulada ””THE DEVONSHIRE, or Most Approved Method of Securing Votes”, (A DEVONSHIRE ou o mais aprovado método de garantir votos). Por Thomas Rowlandson, 1784. Ao lado, capa do tabloide britânico, The Mirror, a respeito do envolvimento de Lady Diana com Dodi Al-Fayed, retratando o beijo entre o casal. Datado de 10 de Agosto de 1997.

Georgiana morreu cercada de sua família, em sua cama, em Londres, na Devonshire House, no ano de 1806, vítima de insuficiência hepática aguda. Já Diana, faleceria em um trágico acidente de carro em Paris, no ano de 1997, longe de toda a sua família.

Estas mulheres, membros da mesma família, que mesmo separadas por séculos de distância, tiveram vidas tão semelhantes, mas principalmente, deixaram para sempre um legado em seus períodos e corações de seu povo.


Bibliografia:

Artigo do tabloide virtual ‘The New York Times’, intitulado: ”Once upon a time, a Spencer Married well, not wisely”:
(http://www.nytimes.com/2008/09/07/movies/moviesspecial/07kant.html). Acesso em Fevereiro de 2018.

Artigo do Tabloide virtual ”Daily Mail”, intitulado: ”The first Queen of Hearts: Like her descendant Diana, the Duchess of Devonshire married a man who loved only his mistress”:
(http://www.dailymail.co.uk/femail/article-1052266/The-Queen-Hearts-Like-descendant-Diana-Duchess-Devonshire-married-man-loved-mistress.html) Acesso em Fevereiro de 2018.

Artigo do Tabloide virtual ”The Telegraph”, intitulado: ”Princess Diana and the Duchess of Devonshire: Striking similarities”:
(http://www.telegraph.co.uk/news/uknews/theroyalfamily/2530446/Princess-Diana-and-the-Duchess-of-Devonshire-Striking-similarities.html). Acesso em Fevereiro de 2018.

 

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