Tudo o que você Sempre quis Saber sobre a História dos Espartilhos

Convenhamos, o espartilho está envolto em uma má reputação. E de forma injusta, segundo aponta Valerie Steele, diretora e curadora-chefe do museu do instituto da moda e tecnologia. Segundo Steele, esta roupa de baixo de séculos de idade, não é algo tão ruim ou limitativo quanto as pessoas atualmente chegam à acreditar.

Com diversas festas revivalistas virando à esquina, é natural se descobrir fuçando fotos de antigos e belos espartilhos na internet, atrás de ideias para nossas próprias inspirações. Deste modo, utilizaremos algumas explicações de Steele, que também é autora do livro ‘The Corset: A Cultural History’ a fim de sanar algumas dúvidas bastante comuns. Aqui estão os 4 principais fatos mal compreendidos sobre cinturas finas e espartilhos:

1- Cinturas de 30 centímetros são mitos:

 

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Detalhe de uma fotografia da modelo ‘Pixee Fox’, que removeu seis costelas em uma tentativa de quebrar o recorde da cintura mais fina do mundo.

Embora o chamado “Tight Lacing” (Laço Apertado em tradução literal) tenha sido popular durante o final do século XIX, as mulheres raramente reduziam a cintura mais de 3 ou 7 centímetros. Geralmente um espartilho com uma cintura de 50 centímetros seria utilizado com um espaço nas costas, de modo que a cintura da mulher no corset, mediria de fato, entre 55 e 66 centímetros. Porém, de onde essas histórias de damas da corte e suas cinturas obscenamente diminutas de 30 centímetros, são provenientes? Simples. Literatura de fantasia e fetiche comum da época!

“Muitas pessoas acreditam que a cintura de 40 centímetros, era algo típico, quando, é claro, a maioria dos espartilhos não eram menores do que nos anos 20”, diz Steele. ”A maioria das pessoas iria reduzir suas cinturas em alguns pares de centímetros. Você poderia reduzir 10 centímetros ou mais, mas a maioria das mulheres não iria diminuir mais do que isso”. 

2. Os corsets (ou espartilhos) não deformaram fígados ou desenvolveram doenças que ameaçavam à vida:

 

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Um espartilho longo confeccionado pela marca CK na Bélgica, em meados de 1890. Objeto pertencente à coleção de L. Hidic.

Ao longo dos anos, os corsets receberam o crédito de causar diversos problemas de saúde. Foi dito que eles deformavam os órgãos internos e causavam câncer. Outras doenças atribuídas aos corsets eram de natureza falsa e sexista, como por exemplo, a “histeria”. Também não há registro de uma mulher que tenha tido uma costela cirurgicamente removida para que pudesse vestir melhor um espartilho – isso por sua vez, torna-se um mito ainda mais absurdo, se considerarmos que, em meados de 1800, as cirurgias eram particularmente mortais.

Claro, os corsets não eram exatamente as peças mais saudáveis para uso diário. Eles, de fato, forçavam os órgãos a se deslocarem, causavam indigestão, constipação e, eventualmente enfraqueciam os músculos das costas. Eles também não deixavam muito espaço para os fetos nos ventres das mulheres. Mas eles não eram mortíferos. Eles também não impediram as mulheres de executarem suas tarefas diárias – não tanto quanto os saltos altos fazem atualmente.

“A maioria das pessoas atualmente pensa que os espartilhos são extremamente perigosos e que causaram todos os tipos de problemas de saúde, do câncer à escoliose”, diz Steele. “E isto é bastante impreciso. A maioria das doenças que foram creditadas aos corsets, de fato, teve outras causas. O uso do corset não causava escoliose, esmagamento do fígado, câncer ou tuberculose. Porém, isto não significa que os espartilhos não estavam isentos de causar alguns problemas de saúde, mas isto significa que a maioria das pessoas atualmente, são extremamente ingênuas em acreditar nas acusações médicas mais absurdas e antiquadas sobre a corseteria”.

“Por exemplo, a idéia do fígado deformado parece ser um erro baseado no fato de que há muita variação na forma dos fígados humanos. Quando os médicos faziam autópsias, eles viam uma aparência mais estranha destes fígados, e pensavam: “Isto foi causado pelo espartilho!”.

3 – Homens não forçavam mulheres a usar corsets:

 

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Corset confeccionado em seda e damasco, por Madame Lemay, aprox. 1901. Objeto pertencente à coleção de M. Talkington.

Segundo Steele, na grande maioria das vezes, o uso de espartilhos pelas mulheres, era por vontade própria das mesmas. Na realidade, muitas vezes os homens protestavam contra seu uso, afirmando que causavam histeria e outros problemas de saúde mencionados acima. As mulheres usavam o espartilho porque isto as faziam sentir-se atraentes e adequadamente vestidas, diz Steele, e estes dois fatores, eram importantes indicadores de status. No entanto, os corsets foram destinados a remodelar o corpo natural para o que as mulheres perceberam que seria a figura mais ideal – o que significa algo equivalente ao ‘sexualmente desejável’. É provável que os homens não tenham oprimido as mulheres ao exigir que elas usassem espartilhos, mas elas certamente usaram para impressioná-los e afirmar sua posição entre outras mulheres.

“O espartilho foi associado ao alto status e à respeitabilidade, indicando que você não era uma mulher relaxada”, diz Steele. “Além disso, aumentava as curvas sexualmente dimórficas do corpo feminino. Ele atuava como um protótipo de um sutiã, além de enfatizar as diferenças das medidas entre a cintura e quadril, o que fazia você parecer mais jovem, mais magra e curvilínea – algo que muitas mulheres buscam até os dias de hoje. Porém, atualmente, ao invés de recorrer a um espartilho, muitas mulheres buscam um cirurgião plástico”.

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Corset encontrado nas vestimentas da efígie funerária da rainha Elizabeth I da Inglaterra. aprox. 1603

Na Europa da metade do século XVI, os corsets, chamados de “payre of bodyes” achatavam e empurravam os seios para cima e moldavam o tronco em um cilindro delgado, graças ao desossamento feito de chifres, tecido rígido ou ossos de baleia, com ‘barbatanas’ de madeira achatada que atravessava seu centro. Porém, no século XVII, os espartilhos assumiram a forma semelhante a um cone, muitas vezes feito de duas peças separadas de tecido, conhecidas como ‘suspensões’, mantidas juntas na frente com a barbatana. Por um breve período de tempo, de 1800 à 1830, a ‘cintura império’ no período napoleônico, pareceu libertar os troncos e cinturas femininas, uma vez que os espartilhos se tornaram menores e mais próximos dos sutiãs modernos.

A era vitoriana reviveu o desejo de uma cintura fina e silhuetas de ampulheta, e os espartilhos, agora estendendo-se abaixo da cintura e incorporando estruturas em aço, criaram esta forma. As curvas tornaram-se mais exageradas, com grande ombros e enormes saias de aro sobre camadas de crinolina. Além disso, após a Revolução Industrial, com a implantação de uma nova tecnologia de fabricação, isto permitia que os corsetes fossem produzidos em massa, tornando-os mais acessíveis à todas as camadas sociais, algo que, anteriormente era diferente – uma vez que os mesmos, eram feitos sob medida para as mulheres.

4 – Cinturas Eduardianas. Finas, pero no mucho:

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Fotografia da atriz francesa Polaire. Nela podemos notar a cintura borrada, no espaço onde o fotógrafo apagou o resto da silhueta da atriz.

O período eduardiano saudou uma nova forma de corset. Esta década na virada do século (1901-1910) representou um momento de grande transição na moda, já que as elaboradas vestimentas da era vitoriana ficaram um pouco mais antiquadas e, em seguida, totalmente fora de moda e contexto.

Foi nesta época que surgiram os corsets de frente reta (ou Swan Bill), e o de cintura em ‘S’ (S-line), que acreditavam manter a pressão fora da barriga da mulher. No entanto, estes espartilhos forçaram as mulheres a inclinarem-se de modo desajeitado, com os quadris para trás e seios para frente, criando uma forma de S nas costas. Claro, estes corsets provavelmente foram muito piores para a saúde, uma vez que colocavam todo o tipo de tensão na coluna vertebral, forçando uma postura muito desconfortável. No entanto, se uma mulher fosse se vestir como uma autêntica eduardiana, seria este o tipo de espartilho que ela usaria.

No entanto, engana-se quem pensa que estas cinturas exageradamente finas das mulheres eduardianas, eram apenas frutos de bons e apertados corsets. É comum olharmos para as fotos das mulheres desta época e pensarmos: “uau, as mulheres tinham cintura tão pequena antigamente!” Porém, existiam alguns outros truques pouco citados para a obtenção de tais silhuetas, entre eles, a edição de fotos.

Está bem documentado – mas talvez não seja tão conhecido por todos – que a edição de fotos era um fator extremamente comum neste período. Foram publicados manuais e guias de técnicas para artistas de estúdio de retratos. A edição envolvia raspagem, desenho e pinturas diretamente nos negativos. As edições comuns incluíam a suavização da pele, e dos ângulos das clavículas, além da remoção de manchas nos ombros e rostos dos fotografados. Aliás, você não acreditou realmente que as pessoas desta época tinham a pele do rosto tão perfeita, não?

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Ilustração onde podemos ver como era realizada a técnica nas fotos do período.

O retoque não parava por aí – estrategicamente colocando seus modelos à frente de fundos lisos e mais escuros, era bastante simples para um fotógrafo experiente mudar a própria forma do corpo do fotografado.

Uma vez que sabemos para onde olhar e o que procurar, notar o retoque agora, torna-se algo bastante óbvio. Ele está lá, nas bochechas lisas e perfeitas das faces das mulheres eduardianas, e em seus ombros incrivelmente inclinados e na famosa cintura da atriz Polaire. Aliás, ela é frequentemente citada como sendo um terrível exemplo da ”horrível” tortura que as mulheres supostamente suportavam nesta época. Porém, ela foi mais uma das muitas pessoas que tiveram seus corpos editados por exímios fotógrafos do período.

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Pôster onde mostram a transição de estilo da mulher vitoriana para a eduardiana, com sua coluna em S.

5 – A Evolução de um Costume:

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Corset longo utilizado no início da década de 1910. Objeto proveniente da coleção de L. Hidic, corsetsandcrinolines.com, via The Antique Corset Gallery.

Entre 1908 e 1914, a moda favoreceu uma forma mais natural, mas os espartilhos ficaram ainda maiores e mais complicados de usar, estendendo-se até a coxa e criando uma cintura mais alta.

“Você está se afastando do que os grandes escritores de moda vitoriana e eduardiana descreveram como “o ideal de Venus” e caminhando para “o ideal de Diana”, que era mais magra e mais atlética”, diz Steele. “Então, cada vez mais, as pessoas começaram a dizer que não precisavam usar um espartilho, que seu corpo já era ideal. Muitas vezes, quando você lê velhas entrevistas, as atrizes diziam: “Eu não preciso usar um espartilho”, mas você olha para a fotografia delas e pensa: ‘Querida, você está usando um espartilho!’ “.

Nos anos 1910 e 1920, à medida que as mulheres se interessavam mais por esportes e roupas que permitiam uma maior liberdade de movimentos, a silhueta socialmente desejável mudou para uma figura mais fina e mais simplificada. Foram aplicados novos elásticos para moldar roupas íntimas, que reduziram os quadris sem o uso de estruturas de aço.

“Na década de 1910, o espartilho sem estruturas rígidas virou moda”, diz Steele. “Se você tivesse um espartilho com estrutura rígida, seus movimentos não poderiam ser executados de modo fluído. Deste modo, as pessoas passaram a utilizar espartilhos sem estruturas rígidas, que eram apenas faixas elastizadas. E começou a existir um movimento gradual para a dieta e o exercício como forma de controlar a aparência do seu corpo. Nos anos 20, é claro, suas roupas estavam mostrando mais seu corpo. Você não conseguia mais se esconder atrás do seu corset”.

Enquanto estas novas cintas de controle de quadris e sutiãs de suporte de seios se tornaram o pedido do dia, os espartilhos voltaram a aparecer no final da década de 1930 – após a Segunda Guerra Mundial, eles voltaram novamente para o New Look da Dior, que enfatizava a cintura pequena, com busto cheio e saias grandes e fluídas. Eles saíram de moda novamente, quando o estilo mutante dos anos 60 trouxe de volta as saias curtas, a figura feminina dos anos 20, e o movimento Hippie abraçou os tipos de corpos mais naturais.

Até o movimento punk dos anos 70, os espartilhos eram estritamente roupas de baixo, e nunca pretendiam ser utilizados em público. Em sua busca pelo chocante, os punks começaram a usar lingerie antiquada como roupa comum. Designers da alta costura, como Vivienne Westwood e Jean Paul Gaultier, rapidamente mesclaram esta tendência com o visual descaradamente sexy, tirado da pornografia bondage das primeiras décadas, e levaram para a passarela. Então, nos anos 80, estrelas do pop, como Cyndi Lauper e Madonna trouxeram definitivamente a moda para à América.

Atualmente considerado um objeto de fascínio e elegância, usado por diversas pessoas e grupos sociais, que vão desde o romântico ao gótico, os espartilhos continuam a encantar pessoas por todo o mundo. Envoltos em mitos e lendas, eles são, nada mais, nada menos, que o reflexo do gosto, corpo e ousadia das mulheres ao redor do tempo.

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Sharon den Adel, vocalista da banda de metal sinfônico holandesa, Within Temptation, utilizando um espartilho de modelo overbust. Estes espartilhos tornaram-se adereços famosos dentro das subculturas de bandas de metal da atualidade.

Bibliografia: 

https://redthreaded.com/blogs/redthreaded/that-waist-photo-editing-at-the-turn-of-the-century

https://www.collectorsweekly.com/articles/everything-you-know-about-corsets-is-false/

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