Como foi a vida de Elizabeth logo após a execução de Ana Bolena?

A extensão da sombra que a morte de Ana Bolena causou sobre a vida de Elizabeth é incalculável. Embora seja poético imaginar a jovem, ostentando a memória de sua falecida mãe em todos os cantos, a realidade é que não há certeza se ela acreditava ou não nos crimes que levaram Ana Bolena ao cadafalso, no dia 19 de Maio de 1536.

Embora o senso comum e Hollywood, muitas vezes perpetue a ideia de que Ana Bolena levou Elizabeth em seus braços, a fim de apelar por sua vida diante de Henrique VIII, a verdade é que a jovem quase certamente não encontrava-se no Palácio de Greenwich, quando Ana Bolena foi presa, e sim, há aproximadamente 32 km de distância, em Hundson, Hertfordshire.
Uma vez que a residência ficava no campo, consideravelmente distante de Londres, segundo aponta o historiador David Loades, em seu livro ‘Elizabeth – The Struggle for the Throne’, é provável que os eventos ocorridos em Tower Hill, tenham sido abafados entre a household da jovem, por alguns dias.

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Na época da execução de Ana, Elizabeth contava com apenas dois anos e meio de idade. Ela era uma criança belíssima, e embora possuísse os negros pares de olhos Bolena emoldurando sua ovalada face, ela lembrava muito mais seu pai em aparência, com seu adunco e protuberante nariz, e seus belos cabelos ruivos.

Sob um nível mais mundano dos acontecimentos, a repercussão da queda de Ana, logo foi sentida dentro da household de Elizabeth. Havia um perpétuo estado de alerta, pelo qual Lady Bryan, prima de Ana Bolena e governanta de Elizabeth, enfrentava poucos meses após a espada do carrasco ter tocado o pescoço da segunda consorte henricana.

Na realidade, devido às consequências do comunicado do Arcebispo Thomas Cramner, que ditava que o casamento de Ana Bolena com o rei, havia sido anulado devido ao seu relacionamento anterior com Thomas Percy, a princesa Elizabeth teria que ser considerada ilegítima, assim como sua meio-irmã, Maria, havia sido antes dela. Foi especificamente estabelecido no ato de Julho de 1536, que regulava a sucessão, que ela era ”…Ilegítima… e totalmente barrada, excluída e banida de reivindicar, desafiar ou demandar qualquer herança como legítima herdeira por descendência linear [a partir do rei]’’. Após ser declarada ilegítima, Henrique ao menos a reconheceu como sua filha, e mesmo com a drástica queda de status, a jovem deveria ser tratada com às devidas honras.

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Ao passo de todos estes acontecimentos, os arranjos domésticos de Elizabeth, foram ameaçando acarretar à completa anarquia. Desde seu nascimento, os cuidados de Elizabeth foram supervisionados por sua dama de mais alto escalão, Margaret Lady Bryan, que também cuidou de Maria quando criança. No entanto, agora a pobre mulher encontrava-se frustrada pela repentina reviravolta do destino. Ela não mais sabia como dirigir-se à jovem, assim como toda a sua household. Deste modo, Bryan – assim como muitos empregados – tinha dúvidas se estava subordinada a ela, tendo por consequência, que escrever a Thomas Cromwell, pedindo ajuda sobre como proceder com a queda de hierarquia.

De fato, a household de Elizabeth sempre foi uma verdadeira bagunça. Mesmo em 1535, quando Ana ainda era viva, houve uma grande confusão após ser descoberto que ”muitos dos servos da princesa, possuíam mais servos do que era permitido pelos estatutos reais assinados por Henrique”. Naquele momento, a situação parecia estar se agravando, uma vez que todos os servos estavam buscando se auto-afirmar e conseguir regalias. Um exemplo em particular, foi Sir John Shelton, o proprietário do local onde Elizabeth e Lady Bryan estavam residindo, que era primo de Ana Bolena e havia sido indicado como mordomo da jovem. Shelton estava gerando certo incômodo, insistindo que elaborados banquetes fossem servidos para a jovem todos os dias na mesa principal, e não em seus aposentos, para que, deste modo, ele e seus amigos, pudessem se banquetear dos ricos restos mais tarde. No entanto, não era adequado que uma criança de sua idade, comesse muito do que era servido à mesa. Lady Bryan temia que se ela comesse todos os tipos de carnes, frutas e tomasse o vinho que lhe era servido todos os dias, isto pudesse afetar sua saúde, uma vez que era crença comum na época, que certos alimentos deveriam ser evitados por crianças muito pequenas. Foi nesta época que Elizabeth tornou-se bastante desobediente. Neste momento, a jovem também sentia muita dor em um dente da frente que estava nascendo bem devagar, o que fazia com que Bryan tivesse ainda mais dificuldade em fazer com que a jovem obedecesse às suas ordens, além de ter pena de chamar sua atenção quando fosse necessário.

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Também havia o problema da falta de roupas decentes para ela. Enquanto viva, Ana Bolena encarregava-se com muito esmero para que roupas e tecidos da mais fina qualidade, não faltassem em grande quantidade no guarda-roupa de sua filha. No entanto, uma vez que jazia morta e Elizabeth havia crescido demasiadamente nos últimos meses, este tornou-se um problema aparente. Não havia sequer um vestido, kirtle, lenços, camisolas, meias, sapatos, luvas ou mangas que lhe servissem. Lady Bryan tentou faze-la usá-las tanto quanto pôde, tendo por fim, que implorar ao rei por roupas adequadas à jovem. É sabido que houve certa indulgência por parte do rei ao apelo de Bryan, mas isto devia-se à forte contenção de gastos em que o reino passava. Diante do início das revoltas e levantes populares no norte, que ficariam conhecidas como ‘As Peregrinações da Graça’, as pestes que assolavam o reino, e o recente casamento com Jane Seymour, não havia muito o que pudesse ser feito no momento.

Neste meio tempo, o relacionamento do monarca com sua primogênita Maria, continuava instável. Isto porque a jovem, em obediência a fé de que tanto era devota, continuou a não aceitar seu pai como chefe supremo da igreja da Inglaterra.
Quando tornou-se rainha, Jane mostrou singular apreço por Maria, especialmente por ter nutrido grande admiração por Catarina de Aragão. É necessário salientar que, Jane também pensou em Elizabeth, mandando buscá-la para a corte sempre que possível e intercedendo em seu nome ao rei.
Quando Jane engravidou, no início de 1537, ela perguntou carinhosamente ao rei, se este não poderia ordenar que Maria retornasse à corte, a fim de fazer-lhe companhia. Na época, a rainha tinha aproximadamente 27 anos de idade, e Maria, 21. O soberano então respondeu-lhe: ”Nós a teremos aqui, querida, se isto lhe fizer feliz!”

Uma vez que Maria estava na corte a serviço da rainha, ficou acordado que ela voltaria a ter seu antigo status, embora não fosse novamente colocada na linha de sucessão. Quando o chefe da casa de Elizabeth, Sir Thomas Bryan, deu as notícias a ela, a criança, que não tinha nem quatro anos de idade, com um semblante sério, perguntou: ”Como isto pode ter acontecido; ontem eu era princesa, e hoje, sou apenas lady Elizabeth?’’

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Embora Elizabeth houvesse experimentado a abrupta mudança de seu título, conforme mencionado acima, ela não foi esquecida dos grandes eventos da corte, sendo sempre convocada a comparecer. Foi então que, no dia 15 de Outubro de 1537, a jovem foi chamada a comparecer à capela do Palácio de Hampton Court, onde ocorreria o batismo de seu meio-irmão, a quem Jane Seymour havia dado à luz três dias antes.

Devido à praga, que havia atacado violentamente as redondezas, resultando em um grande número de mortos, a quantidade de pessoas que atenderiam à cerimônia, diminuiu drasticamente, e as que viviam nas áreas mais afetadas, sequer foram convocadas a comparecer. Elizabeth compareceu ao local, sendo carregada no colo por Eduardo Seymour, irmão de Jane. Nos braços de lady Elizabeth, estava o robe de batismo que seria colocado em Eduardo, como um símbolo da limpeza de seus pecados, e que seria usado como uma mortalha, caso ele viesse a falecer dentro de um mês. Embora tivesse seu status em parte, restaurado dentro da corte, lady Maria ficou insatisfeita por ter tomado lugar apenas no final da procissão que levaria à capela. Ela participou da cerimônia como madrinha de Eduardo, e após o final da mesma, deixou a capela dando a mão para sua pequena irmã, a fim de não mais ficar na retaguarda do séquito real.
Não sabemos qual foi a reação do monarca ao encontrar Elizabeth, uma vez que, quando a procissão chegou até ele, o mesmo apenas tinha olhos para Eduardo, e ao segurar o príncipe herdeiro em seu colo, foi dito que Henrique começou a chorar.

Conforme os anos foram passando, Elizabeth foi crescendo profundamente ligada ao irmão, cujo a mãe havia falecido apenas nove dias após seu batismo. A jovem dava-lhe presentes que ela mesma havia confeccionado, como uma camisa em cambraia, e quase sempre recebia presentes em retribuição, como um colar ou um par de meias. Quando ficou velha o suficiente para aprender a escrever, ela lhe enviava cartas, rigorosamente revisadas por seu tutor, onde expressava seu terno amor por seu pequeno irmão. Eles não ficavam muito em companhia um do outro, uma vez que viviam em casas separadas com suas próprias cortes itinerantes, e ambos viajavam tanto quanto o rei, mudando-se de palácio em palácio, casa de campo à casa de campo. Eles seguiam viagem para outra residência real de acordo com as estações do ano, eventos, ou quando estes locais precisassem ser limpos e renovados com ar puro.

Mesmo sendo ilegítima, é geralmente assumido por todos os historiadores, que Elizabeth recebeu uma ótima educação nos moldes renascentistas. Em comparação com o programa de estudos que Henrique recebeu no início de sua vida, suas irmãs receberam uma educação mais limitada. Embora elas tenham aprendido um pouco de latim e francês, a ênfase foi dada em assuntos não acadêmicos, como música e dança. A geração seguinte de princesas Tudor, não sofreu tal discriminação de gênero, uma vez que, quando Maria passou a ter idade para estudar, a mudança no pensamento daquela geração, já estava enraizada na corte. Thomas More por exemplo, tinha filhas que já contavam com um currículo exemplar, que incluía leituras clássicas, geometria, línguas clássicas, teologia e astronomia.

A educação de Elizabeth diferiu consideravelmente da recebida por sua meia-irmã Maria, uma vez que ela recebeu alguns ensinos pós-reforma. Todos os seus educadores tinham que ser reformadores em perspectiva religiosa, e a própria Elizabeth depois diria à sua irmã que, ”ela nunca havia aprendido a doutrina da antiga religião”. Assim como Maria, ela lia a bíblia e os trabalhos de São Cipriano, mas ela também era familiar com alguns autores modernos, como por exemplo, o protestante alemão, Philipp Melanchton.

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Enquanto os meses iam passando, sua household – que mudava com intervalos irregulares de Windsor para Enfield e de Richmond para Greenwich, Hatfield, Eltham, Hundson, Hertford, Rickmansworth, Ashridge ou Havering – Lady Elizabeth ia crescendo perfeitamente contente. Lady Bryan, sua governanta, foi uma mulher competente e bondosa, que a protegeu tanto quanto pôde do fato de não ter uma mãe presente, e de possuir um status decadente. No entanto, após o nascimento de Eduardo, Bryan teve que ser transferida, a fim de cuidar do príncipe herdeiro. A governanta que tomou seu lugar quando Elizabeth completou quatro anos de idade, foi Katherine Champernowne – mais tarde, esposa do primo e atendente de Elizabeth, John Ashley. Kat, como era carinhosamente chamada por Elizabeth, era uma mulher altamente erudita, menos sensível e mais discreta, porém, bastante devota à jovem e ao seu cargo. Em retribuição a todo o carinho recebido por ela, Elizabeth viu em Kat uma figura parecida com a de uma mãe que nunca conheceu, devotando grande carinho à sua pessoa. Ela permaneceu sempre muito próxima dela, durante sua infância e adolescência.

Elizabeth mal via Henrique VIII, mas tinha orgulho dele e ficava entusiasmada com a atenção que lhe era dada quando o monarca a visitava ou vice e versa. De tempos em tempos, ele enviava um cortesão para lhe trazer notícias de Elizabeth, ou lhe mandava presentes e dinheiro. Em dezembro de 1539, quando ela tinha seis anos, ele enviou Thomas Wriothesley, para visitá-la no castelo de Hertford e para desejar-lhe um feliz natal. Segundo Thomas, ”Ela deu-me um humilde agradecimento, perguntando novamente sobre o bem-estar de sua majestade, com a profundidade e maturidade de alguém com quarenta anos de idade’’.

Com o status controverso de Elizabeth, também tornou-se incerta suas chances de casamento com algum príncipe estrangeiro – o dever habitual de uma princesa do século XVI. Em 1538, por exemplo, haviam boatos de que Elizabeth seria prometida a um dos sobrinhos de Carlos V. Porém, quando o boato chegou ao imperador, ele meramente ”observou sobre a vida e morte de sua mãe’’, o que tornava tudo deveras desencorajador. Embora as chances de um acordo marital fossem remotas, os membros do conselho de Henrique tristemente admitiram que ”era propício que fosse obtido através da princesa, amizades e importantes alianças maritais’’. Mas era improvável que, tanto Elizabeth quanto Maria, conseguissem algum bom partido no continente, a não ser que obtivessem ”maior estima real’’.

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Não sabemos quais os verdadeiros pensamentos e sentimentos de Elizabeth em relação à sua mãe, e este, é apenas um dos muitos mistérios que cercam a vida destas duas mulheres. No entanto, conforme visto acima, a jovem Elizabeth continuou a levar uma vida onde lhe foi permitido que se desenvolvesse e se relacionasse com pessoas que lhe seriam muito queridas. A respeito da memória de Ana na vida de Elizabeth, foi dito que, uma vez que era rainha, o consistente favor real que a mesma conferiu ao filho de Henry Norris, o Barão Norris de Rycote, ocorreu devido ao fato de que ela estava ciente de que o pai deste, havia morrido por uma causa nobre, e em justificativa da inocência de sua mãe. Mas nunca saberemos ao certo. Há apenas dois momentos em que temos registros de que Elizabeth mencionou sua mãe pelo nome.
Quando ela subiu ao trono, a mesma não fez nenhum esforço para que o veredicto de sua mãe fosse revertido (em contraste de sua irmã, Mary Tudor, que após ascender ao trono, tomou medidas para reverter o status do casamento de seus pais, a fim de declara-lo nulo e válido). Também não há nenhuma indicação que seus sentimentos por seu pai, tenham sido afetados pelo tratamento que este outrora havia dado à sua mãe.

Segundo a historiadora, Anne Somerset:

”Não é indubitavelmente surpreendente quando consideramos que suas memórias pessoais sobre sua mãe, que foi arrancada de sua vida quando tinha apenas dois anos e meio de idade, fossem negligentes ou não-existentes. Sua imagem de Ana deve ter sido baseada em fofocas, sussurros ou boatos. Inevitavelmente a imagem deve ter sido incompleta, pois no geral, parece que, durante a infância e adolescência de Elizabeth, o assunto de Ana Bolena foi fortemente evitado. Uma observação reveladora feita em 1549, pelo irmão de Jane Seymour, Thomas, mostra que, mesmo naquela época, a menção do nome de Ana Bolena poderia provocar arrepios e risadas silenciosas. Quando Seymour disse a um dos servos de Elizabeth, que ele iria partir brevemente para Boulougne (local que ele e muitos de seus contemporâneos pronunciavam com uma sonoridade semelhante a de ‘’Boleyn’’) o mesmo adicionou em tom jocoso: ”Nenhuma palavra sobre a Bolena!’’ e o insípido calafrio, dá uma indicação da conspiração silenciosa que desencadeou a memória de Ana”.


Bibliografia:

STARKEY; David. Elizabeth the Struggle for the Throne. Harper Perennial (September 25, 2007).

HIBBERT; Christopher. The Virgin Queen (The Personal History of Elizabeth I).

SOMERSET; ANNE. Elizabeth I. Anchor; (January 7, 2003). Da Capo Press; (June 21, 1992).

FRASER; Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Best Seller (27 de fevereiro de 2009).

 

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