A Aparência de Lady Jane Grey – A Rainha dos Nove Dias

Jane Grey subiu ao trono da Inglaterra, sem uma coroação e unção tradicionais e ‘reinou’ por nove turbulentos dias, diante de um intrincado golpe de estado encabeçado por John Dudley, promovido com base em uma carta patente deixada por Eduardo VI em seu leito de morte.
Antes destes acontecimentos, a jovem Jane experimentou uma vida mais pacata, sem qualquer aspiração de um dia vir a ocupar o trono inglês. Talvez por este motivo, existam poucos registros obre a jovem.

A intenção do artigo de hoje, é trabalhar com a escassa quantidade de registros primários, a fim de tentar descobrir como foi a aparência da rainha dos nove dias.

ladyjane.

Conforme mencionado por Eric Ives, biógrafo de Lady Jane Grey, ”a frustração imediata no caso de Jane Grey, é que contamos com apenas um relatório detalhado sobre sua aparência”.

A mais detalhada descrição de Lady Jane Grey foi escrita por Baptisa Spinola, um comerciante genovês, que testemunhou sua procissão na Torre de Londres a fim de ser proclamada Rainha da Inglaterra, em 10 de julho de 1553. Spinola não apenas descreveu o evento, como também esteve perto o suficiente da jovem, para descrever minuciosamente sua aparência: –

”Hoje vi Lady Jane Gray seguindo em uma grande procissão para a Torre. Ela agora é chamada de Rainha, mas não é popular, pois os corações das pessoas estão com Maria, a filha da rainha espanhola. Esta Jane é muito pequena e magra, mas bonita e graciosa. Ela tem estatura pequena e um nariz bem feito, boca flexível e lábios vermelhos. As sobrancelhas são arqueadas e mais escuras que os cabelos, que são quase vermelhos. Seus olhos são brilhantes e de cor marrom avermelhada. Fiquei tão perto de sua graça, que percebi que sua tonalidade de pele era clara, mas com sardas. Quando ela sorriu, ela mostrou seus dentes, que são brancos e alinhados. Uma figura sobretudo animada e graciosa. Ela trajava um vestido de veludo verde estampado em ouro, com volumosas mangas. Sua touca era uma coifa branca com muitas jóias […] A nova Rainha estava usando chopines muito altos para fazê-la parecer muito maior – que estavam escondidos em suas vestes -, uma vez que ela era muito pequena e estreita”.

Baptisa Spinola, 10 de julho de 1553.

No entanto, já faz mais de quatro anos, que a historiadora Leanda de Lisle, anunciou pela primeira vez que esta famosa descrição de Jane era uma falsificação, criada por Richard Davey. O Dr. Stephan Edwards, que também realizou suas próprias pesquisas a respeito da carta de Spinola, concorda com a historiadora.

Existem outros registros contemporâneos de Jane, mas são frustrantemente vagos em termos de sua aparência, ou sequer fazem menção a isso.
No entanto, surgiram novas evidências a respeito da aparência de Jane, em Novembro de 2013, quando o Dr. Edwards anunciou em seu site, ‘Some Gray Matter’, a descoberta de duas cartas que mencionam a jovem. Edwards escreve que, “Em meu conhecimento, nenhuma destas cartas já foi publicada em inglês, e nenhum historiador que escreveu sobre Jane Grey ou a disputa da sucessão de 1553, já os citou. Eles  estão apresentados aqui, creio eu, pela primeira vez na era moderna”.

As cartas aparecem no terceiro volume de “Lettere di Principi”, parte da série de “uma coleção de cartas para/ou sobre, uma grande variedade de governantes, nobres e príncipes europeus do início do século XVI da igreja católica Romana”, que foi publicado em 1577, por Giordano Ziletti.

De acordo com Edwards, o autor e o destinatário das cartas são desconhecidos, mas ele acha que eles foram escritos por um membro da embaixada diplomática veneziana. Na primeira carta, datada ou escrita em 24 de julho de 1553, na tradução de Edwards, o autor escreve o seguinte sobre Jane: –

“A primeira filha da Duquesa de Suffolk é uma linda e graciosa jovem de ótimo intelecto, escritos e hábitos louváveis, chamada Jane”.

Não está claro se o autor testemunhou os eventos mencionados em sua carta e realmente viu Jane, ou se ele recebeu os detalhes de uma testemunha ocular. Dois eventos são descritos em que uma opinião a respeito da aparência de Jane, poderia ter sido formada, embora, no contexto da carta, a descrição de Jane se refira a uma explicação de quem ela era em termos dinásticos, e não no contexto destes eventos.

Primeiramente, há detalhes do casamento de Jane com Guildford Dudley, em 25 de maio de 1553: –

“Então, finalmente, o casamento foi realizado com tanto esplendor que não vi nada semelhante neste reino. Jane não encontrava-se para jantar em público em um dos dias das comemorações, no que o Embaixador da França e o de Veneza tomaram seu lugar entre duas Marquesas, uma à direita e outra à esquerda. Em outra mesa encontravam-se duas baronesas. A mesa dos embaixadores foi servida como se Jane estivesse presente, isto é, com os Lordes e cavalheiros honrados, se ajoelhando cerimoniosamente em direção aos embaixadores, como seria realizado ao rei em um banquete solene”. 

Depois, houve uma descrição da procissão de Jane para a Torre: –

“Esta Lady Jane veio no dia 10 de julho de Syon para a Torre de Londres pela água, acompanhada por grandes Lordes, homens e mulheres; entrando na Torre com os homens à frente, e as senhoras prosseguindo. O mais perto dela entre os Lordes era Northumberland, e entre as damas, a mãe, que com a maior antecedência, segurava a capa de seu vestido. Agora você diga-me se isso parece ser uma monstruosidade. Ver uma criança como Rainha, [que] por certo motivo a mãe, pai e nenhum deles foi rei ou rainha. Para falar com ela e servi-la de joelhos. Não apenas todos os outros, mas seu pai e mãe! Para ter um bom marido sem outros dotes além da beleza, o pai dele [do marido] sequer era primogênito. O marido estava com o chapéu na mão, não só na frente da Rainha, mas na frente do pai e da mãe; todos os outros Senhores fazendo um show de si mesmos, ajoelhando-se no chão”.

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Outros registros da chegada de Jane à Torre, não incluem nenhuma descrição de sua aparência física. O que mais conhecemos de Jane em termos físicos, é que a capa de seu vestido, foi carregada por sua mãe, a duquesa de Suffolk.

O autor de ‘The Chronicle of Queen Jane and of Two Years of Queen Mary, and Especially of the Rebellion of Sir Thomas Wyat,’ gravou os detalhes de seu encontro com Lady Jane. Rowland Lee, “um funcionário na Royal Mint”, de acordo com De Lisle, jantou na casa de Nathaniel Patridge, onde Jane estava hospedada, em 29 de agosto de 1553. Tanto ele quanto seu anfitrião ficaram surpresos ao encontrar Jane sentada à mesa quando eles chegaram, e ele mais tarde registrou sua conversa em sua crônica:

”No 13 dia de Novembro, nós fomos levados da torre a pé, diante de todos, com o machado diante de todos […] seguidos por Lord Gilforde Dudley (trecho em branco), seguido por Lady Jane (trecho em branco), e em seguida, Lord Ambrose Dudley e Lord Harry Dudley.

Lady Jane usava um gorro de tecido preto, abaixado; o gorro alinhado com veludo e aparado pelo mesmo tecido em um capelo francês, todo negro…”

Os dois relatos da execução de Jane nas crônicas, novamente não incluem muitos detalhes de sua aparência. O primeiro menciona apenas o fato de que ela estava usando o mesmo vestido que trajou no julgamento, carregando um livro na mão, e rezando enquanto caminhava rumo ao cadafalso: –

“Esta senhora, não sentindo-se nada envergonhada, ou temendo sua morte, que então se aproximava, tampouco com a visão da carcaça morta de seu marido, quando este foi levado para a capela, chegou, sendo levada pelo tenente, no mesmo vestido que estava em seu julgamento, seu semblante nada envergonhado, tampouco seus olhos, nada úmidos de prantos, embora suas damas, a senhora Elizabeth Tylney e a Senhora Eleyn tenham chorado terrivelmente; ela carregou um livro em sua mão até o momento de chegar ao cadafalso…”

O segundo registro, intitulado “O fim da senhora Jane Dudley no cadafalso na hora de sua morte, filha do Duque de Suffolk”, inclui apenas os detalhes físicos de que Jane apertou as mãos durante o discurso no andaime, ajoelhando-se para rezar, e depois entregou seus pertences às suas damas e a Master Brydges, o irmão do Tenente da Torre.

“E então ela apertou as mãos, na qual segurava um livro seu… Depois ela se ajoelhou e virou-se para Feckenam, dizendo: ”Devo entoar este salmo?” […] Ela então levantou-se e deu a sua dama, senhorita Tilney, suas luvas e lenço, e seu livro para Master Brydges, o irmão do Tenente da torre; imediatamente ela desatou parte de seu vestido. O carrasco foi até ela a fim de ajudá-la neste tarefa; ela desejava que ele a deixasse em paz, voltando-se para suas duas damas, que a ajudaram, com seu lenço no pescoço, dando-lhe um tecido para tapar seus olhos”. 

Eric Ives nos fornece uma análise detalhada de outras descrições de Jane em seu livro, ‘Lady Jane Grey: A Tudor Mystery’:

“O comentário do embaixador francês, Antoine de Noailles, foi positivo, mas pouco informativo -” virtuosa, sábia e bonita”, “bem afeiçoada”. Roger Ascham, o famoso educador, registrou liricamente a conversa que teve com ela, mas apenas observou que ela sorria. Em uma elegia publicada para ela em 1560, Sir Thomas Chaloner, que era ativo na vida pública e conheceu Jane, comparou-a à Vênus: “Se tivesse visto seu rosto, um pretendente poderia arder em paixão”. No entanto, Chaloner, escreveu versos em latim (atividade na qual ele era conhecido), com todas as convenções que se aplicavam em tais escritos. Richard Grafton, outro que a conheceu, descreveu Jane como “aquela bela dama, que a natureza havia não apenas embelezado, mas a quem Deus havia dotado de dons singulares”. Por outro lado, em 1616, Francis Godwin escreveu que ela era “bonita”, mas não notável, e isso provavelmente refletiu um comentário de seu pai, Thomas Godwin (1517-90), que tornou-se bispo elizabetano de Bath e Wells. Ainda assim, o católico italiano, Girolamo Pollini, a classificou como “muito atraente”.

A recém-descoberta carta de Edwards (datada ou escrita em 24 de julho de 1553) nos dá uma outra opinião sobre a aparência de Jane. Ao contrário de outros registros contemporâneos, ele realmente refere-se à sua aparência física, descrevendo-a como ”bonita e agradável”. Embora não esteja claro se o autor realmente encontrou Jane pessoalmente, a fim de formar tal opinião, ou se recebeu os detalhes descritivos de alguém que o fez, ele endossou outros registros de que Jane era considerada bela por alguns dos que a conheceram. O escritor também ouviu falar da reputação da jovem, comentando sobre seu ”belo intelecto, escritos e hábitos louváveis”. Como esta carta está datada após o fim do breve reinado de Jane, haveria alguma necessidade de falsa lisonja? Este interessante documento, em muito acrescenta a respeito de nosso conhecimento sobre a aparência de Jane, embora não seja confiável o suficiente para solucionar tal mistério.

Fontes:
Artigo traduzido com base no texto publicado na página ‘On the Tudor Trail’: AQUI.

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