Parceiras no trono e na sepultura – Uma breve análise do reinado e legado de Maria I e Elizabeth I

A Abadia de Westminster, em Londres, Inglaterra, é um lar digno de seus inúmeros ”hóspedes” seculares; com sua arquitetura gótica, teto abobadado, iluminação precária, e seu piso de pedra – recuado por séculos e séculos de passadas de turistas e fiéis, admirados com sua suntuosidade – este é um recinto majestoso, que serviu como local de descanso final de inúmeros monarcas ingleses na história.

Desbravando o local por algum tempo, no final da ala leste da nave, pode-se entrar na grandiosa Lady Chapel de Henrique VII. É neste local que jaz o túmulo de Elizabeth I. Em seu eterno descanso, esta, que foi a última monarca da dinastia Tudor, não permanece só, e sim, ao lado de outra também grande rainha, sua meio-irmã e predecessora, Maria I.

Maria e Elizabeth foram as primeiras rainhas inglesas a serem coroadas e ungidas. Elas, que tiveram seus reinados recordados de modo tão distinto, compartilham a companhia em uma pequena vala subterrânea, coroada por um grandiosa efígie em mármore, desta última rainha.

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Abadia de Westminster.

O corpo de Elizabeth I, foi desenterrado a mando de seu sucessor, James I, em 1606 – poucos anos após sua ascensão ao trono. Ele se encontrava sepultado na vala de Henrique VII e sua esposa, Elizabeth de York – avós paternos destas duas mulheres. Os restos foram transladados para a ala oeste, local menos nobre na capela, onde Maria I jazia sepultada.
Acima destes dois corpos, um monumento sagrando à memória de Elizabeth foi erguido. Apenas duas pequenas placas mencionam a presença de sua meio-irmã.

Quando visitei o local, ao vislumbrar a efígie, pude parar e ajoelhar-me por alguns minutos, perto do monumento funerário. Tive imensa vontade de tocar aquela fria pedra, como se ao encostar meus dedos, pudesse adquirir o poder de resgatar um passado há muito distante, e vidas há muito apagadas; mas hesitei. Fechei os olhos por uns instantes, e depois, apenas admirei. Por fim, toquei o chão, responsável por levar embora os últimos invólucros mortais destas rainhas, e cheguei ao seguinte questionamento: Por que duas pessoas tão semelhantes, e ao mesmo tempo distintas – mulheres, irmãs, rainhas – tornaram-se figuras tão polarizadas na historiografia inglesa?

Foi então que pude avistar e ler duas placas, um tanto escondidas no monumento funerário, que traziam os seguintes dizeres:

”Partners both in throne and grave, here rest we two sisters Elizabeth and Mary, in [the] hope of one resurrection.’’

”Parceiras tanto no trono como na sepultura, aqui descansa as duas irmãs, Elizabeth e Maria, na esperança de uma ressureição’’.

A intenção do artigo de hoje, é trabalhar o por quê estas duas rainhas, que descansam em um mesmo túmulo, não são contempladas pela historiografia inglesa, como tendo mais similaridades que apenas o sangue que carregavam nas veias.

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Inscrição no túmulo de Elizabeth I e Maria I na Abadia de Westminster.

Legados Opostos – A Imagem de Maria I e Elizabeth I:

Os reinados de Maria I e Elizabeth I, são geralmente trabalhados de modo isolado, ou até mesmo dicotômico pelos historiadores. Elizabeth I é a Gloriana, a rainha virgem que guiou a identidade protestante nacional inglesa; Já Maria I, tende a ser vista como uma velha católica fanática, que atou novamente os indesejáveis laços da Inglaterra com a Espanha.

Maria é lembrada como uma perseguidora religiosa, enquanto Elizabeth, notoriamente alegou ”não gostar de fazer janelas para as almas dos homens”. Esta primeira, costuma ser lembrada por ter sido uma mulher pacata e convencional, amargurada por sua esterilidade, enquanto Elizabeth é lembrada como um príncipe da renascença, a mais masculina das soberanas da Inglaterra.

A conclusão realizada a partir da disparidade de análises entre estas duas mulheres, é simples: O ”fracasso” do reinado de Maria I, vem sendo colocado contra o ”sucesso” do reinado de Elizabeth I, sua derrota da Armada Invencível e o estabelecimento religioso do reino inglês.

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Maria I e seu consorte, Filipe II de Espanha.

Mas será que isso é verdade?

Devemos iniciar esta análise, esmiuçando certos detalhes, convenientemente esquecidos por muitos pesquisadores e historiadores:

O reinado de Maria e de Elizabeth, tiveram durações radicalmente diferentes. Enquanto a primeira reinou por apenas cinco anos, a segunda experimentaria 45 (quarenta e cinco) anos no trono.

Atualmente, há um crescente esforço entre alguns historiadores renomados, em questionar e revisitar as reputações destas duas mulheres. Deste modo, assinalei abaixo, um trecho contendo certos estereótipos comuns entre Maria e Elizabeth, muito disseminados no senso comum.

Maria I e Elizabeth I, segundo o senso comum: 

”Elizabeth realizou seu objetivo primordial, a proteção do Estado, na sequência da ruptura revolucionária de seu pai com Roma e da breve e sangrenta restauração do catolicismo durante o reinado de sua irmã mais velha, Maria. […] Elizabeth é única, não só pelo fato de ter sobrevivido para governar, mas porque o fez de modo sui generis, jamais visto antes.” [HILTON, Lisa]

Torna-se desnecessário salientar que, o trecho contido na biografia ‘Elizabeth I’ da historiadora da arte, Lisa Hilton, contém algumas considerações problemáticas, desde a caracterização do período mariano como de caráter sangrento, até o reinado de Elizabeth I como algo ‘jamais visto antes’.

A reputação de Elizabeth I, vem sendo mais recentemente exposta em todas as suas particularidades. Segundo a historiadora Susan Doran, em seu livro ‘Queen Elizabeth’, grande parte da popular e icônica imagem de sucesso de Elizabeth, deve-se à tendenciosa historiografia protestante, e especialmente, à tendência inglesa de criar e sustentar seus próprios mitos.

Segundo a historiadora Anna Whitelock, Elizabeth passou a ser vista menos como uma ‘’grande realizadora’’ e mais como uma ‘’sobrevivente consumada’’, salientando atenções dadas para as facções e conflitos na corte, a falta de determinação da monarca, e por fim, o complexo e multifacetado sistema político inglês.

A imagem de Elizabeth que agora vem sendo trazida à tona, mostra uma soberana com menos controle sobre a política e formulações da mesma, que sua outrora fama nos dava a compreender. Segundo Whitelock, a rainha era incapaz de impor sua vontade em seu decidido conselho, ou invalidar críticas sobre suas políticas, e suas empreitadas na Irlanda, foram recebidas com forte resistência.

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Icônico retrato da Armada, de Elizabeth I.

Quanto à Maria, a imagem desta rainha vem passando por um tipo de reforma entre os historiadores. A monarca, outrora lembrada como velha e fanática, que governou durante um período nefasto, atualmente mostra um passado menos sangrento do que costumava-se acreditar.
Uma nova faceta, habilmente encoberta por séculos de omissão de análise historiográfica, seguida de propagandas político-religiosas, mostram que Maria era uma valente guerreira, educada para reinar e política nata, que conseguiu garantir seu trono diante de um complexo golpe de estado. Ela venceu contra todas as probabilidades, e foi aclamada por seu povo.

Em seu curto reinado, de apenas cinco anos, Maria estendeu a autoridade real nas localidades, gerenciou seu parlamento, reconstruiu a marinha, e reformou o sistema monetário. Ela também foi a precursora em modelar a monarquia de gênero feminina, governando diante de uma sociedade patriarcal, onde nenhuma mulher antes havia legitimamente feito.

É necessário salientar que, até os aspectos mais controversos de seu reinado, como as queimadas marianas, vem sendo reexaminados. Conforme ressalta o historiador Eamon Duffy em seu livro ”Fires of Faith”, grande parte da restauração católica no período mariano, pode ser considerada positiva, e até mesmo o mais notório aspecto deste regime, as execuções na fogueira, não só eram eficazes, como amplamente aceitas pelo povo.
A convencionalidade contemporânea das fogueiras como punição para hereges, era amplamente aceita na Inglaterra Tudor. Em um período religiosamente dividido, Maria nada mais fez, que compartilhar a visão da maioria dos grupos cristãos que, seguidos do cuidadoso ensino e pregação da doutrina católica, acreditavam que a heresia deveria ser suprimida e seus hereges, punidos pela fogueira. Tal imaginário era compartilhado por Thomas Cranmer, que ironicamente, morreria por sua fé, durante o período mariano.

A intenção proposta neste artigo, foi salientar que, cada uma destas mulheres, foi e é vítima da mesma historiografia protestante que, visava enaltecer uma, e rebaixar a outra.
Ambas foram mulheres que reinaram diante de um conflitante cenário patriarcal, que era a Europa no século XVI; ambas demonstraram considerável perspicácia política, muitas vezes além das limitações de seu sexo. Elas exploraram sua feminilidade e tiraram proveito disso.
Elas falharam em gerar um herdeiro para seus reinados, mas reforçaram seus espíritos maternais com o povo inglês, ao afirmarem serem casadas com a Inglaterra.
Estas duas mulheres, foram monarcas da renascença. E este foi seu maior legado.

Bibliografia:

PENRHYN; Stanley, Arthur (1815-1881). Historical memorials of Westminster abbey; Philadelphia, G.W. Jacobs & Co – 1899.

HILTON; Lisa. Elizabeth I. Uma Biografia. Zahar –  (12 de maio de 2016).

DORAN; Susan. Queen Elizabeth L (The British Library Historic Lives). NYU Press (August 1, 2003).

DUFFY; Eamon. Fires of Faith: Catholic England under Mary Tudor. Yale University Press (October 26, 2010).

WHITELOCK; Anna. Mary Tudor: England’s First Queen. Penguin Books (February 23, 2016).

 

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