A Coroação de Henrique VIII e Catarina de Aragão

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“Então ele trouxe o filho do rei, colocou a coroa sobre ele e deu-lhe o testemunho; E fizeram-no rei e ungiram-no, e bateram palmas e disseram: ‘Viva o rei!’.”

Henrique e Catarina casaram-se em 11 de junho de 1509, na igreja franciscana em Greenwich e foram coroaram juntos em Westminster em um belo dia de verão. Isto não teve precedentes. Ricardo II, Henrique V, Henrique VI, Eduardo IV e Henrique VII eram todos solteiros quando foram coroados e Ricardo III já era casado com Anne Neville há anos quando subiram ao trono, mas somente no caso de Henrique VIII, o casamento ocorreu entre a adesão e a coroação, de forma a tornar possível tal único evento.

O casamento aconteceu em um dos aposentos da rainha, possivelmente na capela real: tais aposentos privados, ficavam afastados do centro da capela a fim de permitir a privacidade. O que ocorreu no dia do casamento permanece em segredo. Não há registro restante dos procedimentos cerimoniais, roupas ou celebrações. Henrique VIII foi notoriamente discreto sobre os arranjos de todos os seus matrimônios. Somente suas palavras sobreviveram para a posteridade, previamente organizadas com uma semana de antecedência. O Arcebispo de Canterbury perguntou ao rei se ele “Cumpriria o tratado de casamento concluído por seu pai e pelos pais da Princesa de Gales e, conforme a dispensa do Papa e tomaria a Princesa presente aqui como sua esposa legal?”, ao que Henrique respondeu que sim. O contraste com o primeiro casamento de Catarina, oito anos antes, dificilmente poderia ter sido mais pronunciado e talvez esta fosse realmente a intenção do monarca. Ele queria distanciar-se do protocolo medieval e das práticas de seu pai. Dias antes, em Greenwich, Catarina havia renunciado oficialmente a seu dote de 200 mil coroas a favor de Henrique, finalizando as lutas políticas e financeiras dos últimos anos.

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Várias teorias foram apresentadas a fim de explicar o casamento súbito e secreto. Henrique talvez tenha cumprido o último desejo de seu moribundo pai, conforme ele escreveu a Margaret de Sabóia, mantendo a união com a Espanha, porém em julho, Henrique explicou ao cardeal Sixtus de Ruvere que as “grandes virtudes” da princesa influenciaram sua decisão e a coroação de Catarina causou “incríveis demonstrações de alegria e entusiasmo”. Para seu sogro, Fernando de Aragão, ele escreveu que “se ele ainda estivesse livre, ele ainda a escolheria mesmo dentre todas as outras princesas do mundo”.

O casamento de Catarina e Henrique provavelmente foi concluído rapidamente para permitir a coroação conjunta, mas a noiva não estava, reclamou. Quando chegou o momento da cerimônia, nenhuma despesa foi poupada e todo o protocolo correto foi seguido, em consonância com o Livro Ryalle, produzido no reinado do avô de Henrique. Seguiram-se duas semanas de preparações, nas quais as damas de Catarina foram equipadas com trajes escarlates forrados com pele, às festas foram planejadas, os discursos escritos. Londres se preparou para o tipo de comemoração e exibição que não tinha sido testemunhado desde a chegada da princesa ao reino, em 1501. Isolados em Greenwich, absorvidos na companhia um do outro e saboreando o brilho de sua recém-descoberta paixão, Henrique e Catarina estavam em êxtase. Em muitos aspectos, eles representavam um par ideal; com ambos sendo conscientes da sua dignidade real, devotos e compromissados, com gosto pelas coisas mais finas da vida, poderiam tão feliz discutir questões teológicas e textos latinos, além de participarem de caçada em Greenwich Park ou dançar até tarde da noite. Juntos, durante esses dias de verão inebriantes, foi forjado um vínculo de confiança e intimidade que se casou com o dever e desejo, pessoal e dinástico. Conforme Catarina escreveu a seu pai, ela estava “bem casada”.

No sábado, dia 23 de junho, às quatro horas da manhã, uma procissão partiu da Torre de Londres. Henrique foi primeiro, debaixo de um dossel dourado, resplandecente em um manto de veludo carmesim coberto com arminho, vestindo uma jaqueta de ouro e cheio de pedras preciosas. Ao redor de seu pescoço pendia um colar afegão de rubis. Seu cavalo estava coberto de ouro, damasco e arminho, flanqueado com cavaleiros vestindo veludo vermelho e sendo seguido por nove pajens de honra, trajando vestes azuis bordadas com flores de lírio douradas. Catarina estava logo atrás, sendo carregada numa liteira coberta de pano branco de ouro, puxada por cavalos brancos. Ela usava cetim branco bordado, e deixou seus belos e ruivos cabelos longos soltos, cobertos com uma coroa enfeitada “com muitas pedras orientais ricas”. As suas damas a seguiram, montando em palafrens e liteiras forradas com pano bordado de ouro ou prata, ouropel  ou veludo, de acordo com o status de cada uma.

Também apareceu entre o seu séquito o polêmico confessor Frei Diego, o recém feito cavalheiro Thomas Bolena, e os companheiros próximos de Henrique VIII, Charles Brandon e o Duque de Buckingham, resplandecentes em ouro e diamantes. As ruas de Londres foram lixadas e enfeitadas para atrair a expectativa das multidões e as enormes tapeçarias foram penduradas nas casas ao longo da rota até a Abadia de Westminster. No entanto, nem mesmo o rei podia controlar o tempo. Enquanto passavam por Cornhill, aproximando-se de uma taberna chamada Chapéu do Cardeal, uma súbita chuva encharcou Catarina e quase destruiu seu dossel de seda. Abaixada, ela foi forçada a se abrigar “debaixo da barraca da cabana de um cortador” até que o tempo estivesse limpo novamente. Sem dúvida, na mente dos espectadores supersticiosos, tal chuva no dia de verão era um presságio grave para sua nova rainha. E assim, como o cronista Hall relatou, “com muita alegria e honra”, eles alcançaram a segurança do Palácio de Westminster, onde o casal real jantou antes de passar a noite na Câmara Pintada.

Na manhã seguinte, Catarina e Henrique seguiram do palácio para a Abadia, onde dois tronos vazios estavam esperando em uma plataforma diante do altar. Uma gravura em madeira contemporânea os mostra sentados um ao lado do outro, olhando os olhos uns do outro e sorrindo enquanto as coroas são baixadas sob suas cabeças. É uma imagem potente da ocasião, que era íntima apesar das multidões por trás delas, sugerindo um relacionamento de duas pessoas de igual soberania, respeito e amor. Na realidade, o posicionamento do trono de Henrique estava acima do de Catarina, e o cerimonial dela foi mais curto, indicando a discrepância real entre ambos. Isso sinalizava que ele herdou o trono como resultado de seu nascimento, e ela era sua rainha pois ele havia escolhido se casar com ela. Acima de sua cabeça, estava o enorme estandarte da rosa Tudo
r, um lembrete de sua grande linhagem e dos recentes conflitos da Inglaterra, mostrando que o papel de Henrique era orientar e governar seus domínios. Sobre Catarina estava seu estandarte, com a romã, simbólico das expectativas de todas as esposas e rainhas Tudor: fertilidade e parto. Na iconografia cristã, também representava a ressurreição. De certa forma, Catarina estava experimentando seu próprio renascimento através deste novo casamento, com uma chance de oferecer novamente a si mesma como rainha, após os longos anos de privação e dúvida.

A Abadia de Westminster estava repleta de cores. Em contraste com os interiores sombrios e de pedra nua das igrejas medievais, nestes anos pré-reforma tornavam a adoração uma experiência tátil e sensual, com riqueza e ornamentos atuando como tributos e medidas de devoção. Dentro da Abadia, as estátuas e as imagens eram douradas e decoradas com joias, as paredes e capiteis foram pintados em cores vivas, penduradas nelas ficavam ricas tapeçarias. Tudo foi conduzido de acordo com o Liber Regalis, o Livro Real, que ditava o ritual para coroações. O casal estava coberto de incenso doce, enquanto milhares de velas tremiam, misturando-se com a luz que entrava através dos vitrais. O Arcebispo Warham estava de novo à frente, administrando os juramentos da coroação e unindo o par com o óleo sagrado. Ao lado de seu novo marido, Catarina foi coroada e recebeu um anel para usar no quarto dedo da mão direita, uma espécie de inversão do anel conjugal, simbolizando seu casamento com seu país. Ela levaria muito a sério esse voto.

A coroação conjunta revelou-se muito popular. Henrique escreveu ao Papa explicando que ele “Abraçou e fez de Catarina sua esposa, e então a coroou em meio aos aplausos do povo e das incríveis demonstrações de alegria e entusiasmo”. Para Fernando, ele acrescentou que, “a multidão de pessoas que estavam transbordando de alegria e os aplausos foram os mais entusiasmados”.  Lorde Mountjoy usou de mais retórica poética em sua carta a Erasmus, afirmando que “O céu e a terra se regozijam, tudo está cheio de leite, mel e néctar. Nosso rei não é de ouro, gemas ou metais preciosos, mas virtude, glória, imortalidade.” Em seus versos de coroação, Thomas More concordou com o humor geral, explicando que, onde quer que Henrique fosse “A multidão densa em seu desejo de olhar para ele não deixava nem uma faixa estreita para a sua passagem”. Eles “se deleitam em vê-lo” e gritam boas-novas, mudando seus pontos de vista para vê-lo de novo e de novo. Tal rei os livraria da escravidão, “limpe as lágrimas de todos os olhos e coloque alegria em lugar de nossa longa angústia”.

“Agora, as pessoas, liberadas, correm diante de seu rei com caras brilhantes.
Sua alegria está quase além de sua própria compreensão.
Eles se regozijam, eles se exultaram, eles saltam de alegria e celebram seu rei. ‘O Rei’ é tudo o que qualquer boca pode dizer.
A nobreza, há muito tempo, à mercê da escória da população, a nobreza, cujo título há muito tempo sem sentido, agora levanta a cabeça, agora se regozija com esse rei e tem razão para se alegrar.
O comerciante, até agora dissuadido por inúmeros impostos, agora, mais uma vez, pode arar os mares não conhecidos.
Todos são igualmente felizes. Todos pesam suas perdas anteriores contra as vantagens que estão por vir.
Agora, cada homem felizmente não hesita em mostrar suas posses que, no passado, seu medo os obrigava a esconder em um estrondo sombrio.”

Havia claramente um clima de alegria no ar em 1509, com o senso muito real de uma nova era amanhecendo. Sem dúvida, Catarina compartilhou desse sentimento. Após os últimos e difíceis anos do reinado do viúvo Henrique VII, esse casal jovem e atraente deve ter parecido literalmente uma dádiva de Deus.

A festa continuou. Em Westminster Hall, o novo rei e a rainha sentaram-se para um jantar de três pratos, a ordem de serviço foi admirável e cheia de abundância. Tudo foi acompanhado pelos rituais habituais da Corte: o Duque de Buckingham entrando no salão para anunciar a chegada da comida, seguido pela defesa do novo rei pelo seu campeão, Sir Richard Dimmock, que então pediu a bebida. Depois de todas as proclamações e juramentos, Henrique foi servido com bolachas e hipocrás, uma bebida de vinho misturada com açúcar e especiarias, em um copo de ouro.

Poucos dias depois, os júbilos e torneios da coroação começaram em Greenwich. Esse torneio magnífico, com os Cavaleiros de Pallas e Cavaleiros de Diana, simbolizavam aquela estranha mistura de humanismo italiano e cavalaria Borgonhesa que era a marca registrada de Henrique. Não houve nenhum desses torneios na Inglaterra desde os dias altos de Eduardo IV. Embora ele não tenha tido nenhum entusiasmo para esses próprios esportes, Henrique VII garantiu que seu filho tinha sido instruído pelos melhores mestres de armas e, no momento da sua adesão, Henrique VIII tinha a reputação de ser o melhor competidor de justas na terra. Isso pode não ter sido inteiramente merecido, mas ele certamente era muito bom e durante os próximos vinte anos, seu entusiasmo pelo esporte foi inesgotável. Em muitas ocasiões subsequentes, ele entrou nas listas pessoalmente, mas não desta vez. A justa era um esporte perigoso, mesmo para o mais versado e ele provavelmente foi persuadido de que a última coisa que a Inglaterra precisava em uma ocasião tão auspiciosa era que qualquer desgraça acontecesse com ele.

Assim, Catarina e Henrique se sentaram dentro de um suporte de madeira, que foi feito no formato de um castelo espelhado com imagens Tudor. Fora da boca das gárgulas, fluía vinho tinto e branco, e todos estavam maravilhosamente vestidos. Thomas Howard, Duque de Norfolk, e seu séquito ecoaram o design do castelo, vestindo as cores Tudor de verde e branco, com rosas e romãs de ouro. Representando o “time de casa”, foi apresentada ao rei e à rainha uma Pallas Atena, a deusa grega da sabedoria. Os desafiantes, vestidos de veludo azul, ouro e prata, representavam o amor. A batalha simulada, ou o torneio, que se seguiu foi concluído pela intervenção do rei, já que a noite estava começando. No dia seguinte, 28 de junho, foi o décimo oitavo aniversário de Henrique e seguiram-se mais festejos, inclusive uma caça aos cervos feitas pelos mesmos cavaleiros que participaram das justas. Quando os cervos foram pegos e mortos por galgos, suas carcaças foram oferecidas à rainha. Os cavaleiros lutaram de novo, com amor e sabedoria incapazes de se derrotarem, e os prêmios foram distribuídos pelo rei encerrando o evento.

No dia seguinte, a avó de Henrique VIII, Margaret Beaufort faleceu na Abadia de Deanery, em Westminster. Tendo sido uma figura imponente na corte desde 1485, sua morte representou que o vínculo final de Henrique com sua infância estava quebrado. Margaret morreu em uma idade avançada, cheia e honras e, apesar de seus obséquios serem plenamente observados, não há sinal de que o Rei tenha se lamentado muito. Ele estava muito cheio das oportunidades de seu próprio nascer do sol. Catarina estava igualmente feliz, conforme fica claro em sua carta para seu pai: “Estes reinos estão em grande paz, e nutrem muito amor ao Rei, Meu Senhor, e a mim. Nosso tempo é gasto em festas contínuas”.

Para Catarina, isso representava sua chance de finalmente representar o papel que ela foi ensinada desde sua mais tenra infância. Para o povo da Inglaterra, parecia que a primavera tinha finalmente chegado após longos anos de inverno. Para Henrique VIII, este era o início de sua própria era de ouro.


Fontes:

LICENCE, Amy. The Six Wives and Many Mistresses.
LICENCE, Amy. In Bed with the Tudors.
LOADES, David. The Tudor queens of England.
WEIR, Alison. The Six Wives of Henry VIII.

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