Feminismo para vender? Autora critica falso empoderamento feminino em romances históricos

Segundo a premiada escritora inglesa, Hilary Mantel, as escritoras devem parar de reescrever a história, a fim de relegar a personagens femininos um falso tipo de empoderamento de gênero.

Segundo Mantel, romancista vencedora do prêmio Man Booker, escrever sobre as mulheres na história consiste em uma ”persistente dificuldade” para seus contemporâneos, uma vez que estes, ”não conseguem resistir” dentro da cronologia dos acontecimentos, tornando seus personagens por sua vez, fortes e independentes.

Qualquer um que se “incomoda” com a diferença entre o papel dos homens e das mulheres em certos períodos históricos deveria, sugeriu, tentar um trabalho diferente.

Mantel, autora de Wolf Hall, destacou seu próprio gênero para a crítica, questionando se os escritores deveriam mesmo “re-trabalhar a história para que as vítimas sejam as vencedoras”.

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A Ana Bolena interpretada por Claire Foy na minissérie Wolf Hall (baseada no romance de Mantel), foi menosprezada por não ter sido a mulher empoderada que muitos telespectadores esperavam.

Falando na segunda de suas cinco leituras de rádio, gravada em Middle Temple, Londres, na noite desta terça-feira, Mantel disse: ”Muitos escritores de ficção histórica, sentem-se atraídos pela história não contada […] Eles querem dar voz aos que foram silenciados.”

”A ficção pode fazer isto, porque ela se concentra no que não foi registrado. Mas nós temos que tomar cuidado quando falamos dos outros… Se nós escrevemos sobre as vítimas da história, estamos reforçando seus status ao detalhar isto? Ou nós devemos re-trabalhar a história dessas vítimas, de modo que pareçam vencedoras?”

“Esta é uma dificuldade persistente para as escritoras que querem escrever sobre as mulheres no passado, mas não podem resistir em empoderá-las retrospectivamente.”

“E isso é algo falso.”

“Se você é suscetível a isso – se você se ofende com tal diferença [ de gênero destes períodos] – você então deve tentar outro negócio”. 

Ela acrescentou: “Um bom romancista terá seus personagens operando dentro da estrutura ética de seus dias – mesmo que isso choque seus leitores”.

No entanto, Mantel não classificou nenhum escritor particular em sua análise.

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Porém, os fãs de ficção histórica, há muito louvam autores como Philippa Gregory, que escreveu best-sellers, incluindo ”A Irmã de Ana Bolena’‘ e ”A Rainha Branca”, ou Alison Weir, com sua saga sobre as esposas de Henrique VIII, tendo como base, suas fortes personagens femininas e empoderadas.

Enquanto Weir levanta uma tese sobre Ana Bolena ter sido feminista, Gregory disse anteriormente: “Quanto mais pesquisas eu faço, mais acredito que há histórias não contadas destas mulheres”.

Em uma entrevista em 2013, ela disse sobre suas protagonistas: “Elas eram mulheres fortes e poderosas que lutaram por seus próprios interesses e pelos interesses de suas famílias.

“Eu acho que muitas vezes as imaginamos menos empoderadas do que realmente eram, pois dependemos das descrições realizadas por historiadores em uma época em que as virtudes enfatizadas eram obediência, dever e sofrimento”.

Esta foi a segunda controvérsia potencial inspirada por Mantel este ano, na sequência de uma aparição no Festival de Literatura de Oxford, em que ela criticou romancistas históricos que “tentam polir suas credenciais fazendo uso de uma bibliografia”, como Gregory é conhecida por fazer.

Em sua entrevista de rádio, que será transmitida na Rádio 4 no final deste mês, Mantel disse que a ficção histórica poderia andar ao lado do trabalho de verdadeiros historiadores como uma ”leitura a parte”.

“Lembro-me de uma conferência na década de 1990, onde estava discutindo com um colega o que os historiadores fizeram da ficção histórica”, disse ela em uma audiência.

Ela disse: “É como pornografia para eles – eles acham que é vergonhosa, mas não podem esperar para colocar suas mãos nisso”.

“E vamos seguindo desde então. Os historiadores eruditos são os menos prejudicados pela ficção e percebem que não necessariamente se tratam apenas de ”romance histórico”. 

“E os escritores de todos os tipos estão mais conscientes da potencial decepção de uma narrativa suave.

“Quando o leitor de uma história diz:” Quais dessas partes são verdadeiras? “, Ele deve fazer essa pergunta ao historiador, assim como ao romancista: cada vez mais, o historiador está pronto para tal desafio”.

Os leitores, argumentou ela, não são “vítimas que precisam de proteção, e sim, capazes de ler romances sem destruir a história por si mesmos”.

Em suma, romances históricos não só podem, como devem ser historicamente corretos, deixando de lado a crescente vontade de fabricar personagens empoderados para o bem do amplo comércio.

Fonte:
Telegraph.uk

 

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1 comentário Adicione o seu

  1. Eu concordo com ela. Li dois dos cinco livros sobre A Guerra das Duas Rosas escritos pela autora Philippa Gregory sob a perspectiva feminina, sendo um sobre a Anne Neville e o outro sobre a Margaret Beaufort, e é perceptível que ela tenta dar mais agência às mulheres, só que nem sempre funciona. E, por outro lado, a autora também é detratora das figuras históricas que não lhes interessa, pois aparentemente ela é uma “fã” da Casa York, e com isso torna as demais mulheres e os homens das outras famílias meros personagens unidimensionais, além de inventar situações extremamente problemáticas como estupros e incestos onde não existiram.
    Eu li alguns romances históricos e gosto muito, contudo, também julgo ser de sua importância que seus autores tenham compromisso com a História, não forjando situações para agradar o público e ainda vender isso com a ideia de “informações contextualizadas historicamente”.

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