Culpada ou Inocente? Por que Catarina Howard teve que morrer?

Existem muitos juízes de plantão, prontos para alegar a inocência de Ana Bolena perante os anais da história. No entanto, estes mesmos justiceiros parecem desaparecer quando outro caso, de certo modo, similar, aparece diante de seus olhos. O caso em questão é o de Catarina Howard, prima em primeiro grau de Ana Bolena, e quinta consorte de Henrique VIII.

O senso comum e a antiga historiografia inglesa, ditam que a quinta consorte de Henrique VIII, a jovem Catarina Howard, nada mais era que uma mulher frívola e fútil, despreparada e sem as características necessárias para ser uma verdadeira consorte para o monarca inglês. A imagem da sucessora de Ana de Cleves no imaginário comum, é a de uma bela e afetada jovem, cujo a desenfreada sexualidade selaria sua desgraça. Mas teria sido isso que realmente aconteceu? No artigo de hoje, examinaremos a fundo esta questão.

A Jovem Esposa do Rei:

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Henrique VIII era notoriamente conhecido por seus matrimônios. Ele já havia tido uma carreira marital colorida, com seus três primeiros casamentos terminando em divórcio, execução e morte. Quando a princesa alemã Ana de Cleves foi enviada do continente para tornar-se sua quarta noiva, Henrique mostrou-se desapontado com o enlace. O divórcio do monarca ocorreria poucos meses depois, no verão de 1540. O caminho então, foi deixado livre para a jovem Catarina Howard, dama de companhia de Ana de Cleves. Catarina era nova na corte, ela havia sido instalada como dama de companhia no outono, pouco antes da chegada de sua nova rainha. Pouco tempo após o desgosto do monarca com sua nova união ter tornado-se bem conhecido, a jovem Catarina estava sendo mimada com uma variedade de presentes reais.

O casamento ocorreu em 28 de Julho de 1540, no Palácio de Oatlands, no mesmo mês em que Henrique VIII anulou seu matrimônio com Ana de Cleves. Henrique era um marido prestativo, e enchia sua bela esposa com opulentos vestidos, joias, peles e ricos banquetes. Catarina tinha tudo nas mãos, era jovem, querida, e sem dúvidas, logo engravidaria e agraciaria o reino com mais um herdeiro varão. Pelo menos, era o que todos queriam acreditar.

Segundo Eustace Chapuys, o embaixador Imperial de Carlos V na corte inglesa, a intenção de Henrique VIII, era moldar a jovem Catarina para o ideal de uma rainha Tudor, tarefa que ele levou bastante a sério.
Desde sua aparição em seu primeiro evento real, Chapuys prontamente analisou seu desempenho diante dos papéis a ela designados e seu desejo em agradar a todos a seu redor: ”Ela aproveitou a ocasião e corajosamente implorou e convenceu o rei a libertar o Mestre Wyatt, um prisioneiro na dita Torre, petição esta, que lhe foi concedida”. 

Até então, Catarina havia ganhado o coração de seu povo, de sua predecessora e, até certo ponto, do próprio Chapuys – embora este se queixasse de que ela e Mary tinham um frágil relacionamento; a primogênita do monarca, era aproximadamente cinco anos mais velha que sua madrasta.

Mas então, o que ocasionou a trágica queda desta jovem mulher?

Conflitos na Corte:

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Além de ser a esposa mais jovem de Henrique VIII, Catarina Howard é provavelmente mais conhecida por seu suposto affair adúltero com o belo cortesão, Sir Thomas Culpeper, em 1541. O que muitos historiadores argumentam, é que o affair começou com uma atração mútua, que rapidamente desenvolveu-se em uma poderosa e perigosa relação adúltera, que eventualmente terminaria nas mortes da rainha e seu súdito.

No entanto, a natureza das reuniões entre Catarina e Culpeper, estão envoltas em mistério, incertezas e controvérsias. Somente Catarina e Culpeper – e talvez Lady Jane Rochford, assistente da rainha e responsável por organizar tais reuniões – sabiam exatamente o que ocorreu naqueles meses de primavera e verão, em 1541.

Para a maioria dos historiadores, parece óbvio que Catarina, uma garota imatura, até mesmo ”promíscua’’, tenha tido relações com Culpeper, que era conhecido por sua galanteria – mais tarde supostos rumores até indicariam que ele estuprou uma mulher, embora pareça mais provável que o culpado tenha sido seu irmão mais velho, também chamado Thomas Culpepper. Isso é apoiado por evidências documentadas por contemporâneos residentes perto da corte. Um cronista espanhol desconhecido, das ‘Crônicas de Henrique VIII’, compilou talvez dez anos após os eventos ocorridos, uma passagem que sugeria que ”o diabo tocou no coração desta rainha’’ para fazê-la apaixonar-se pelo arrojado Culpeper, que entregou à rainha uma nota um dia durante uma dança, confessando seu amor por ela. O polêmico católico Nicholas Harpsfield retratou uma Catarina adúltera, que era “uma prostituta antes dele [Henrique VIII] se casar com ela, e uma adúltera, após ele casar-se com ela”.

Os historiadores modernos concordam piamente. A controversa escritora Alison Weir, escreveu sobre o caso de Catarina com Culpeper: “Catarina não só estava brincando com fogo, mas também havia sido indiscreta sobre isso, e incrivelmente tola”. Antonia Fraser, em sua biografia de 1992 ‘As seis esposas de Henrique VIII’, concorda: “as repetidas confissões e relatos de reuniões clandestinas entre um homem notório por sua galanteia e uma mulher que já estava despertada sexualmente, realmente não admitem outra explicação que não o adultério’. Em seu estudo de 2009 das rainhas Tudor, o historiador David Loades caracterizou Catarina como uma ”rainha prostituta”. Esta visão prevalecente foi consolidada na cultura popular. Na popular série de TV, The Tudors (2007-10), Tamzin Merchant e Torrance Coombs retrataram um jovem casal obstinado que se envolveu em relações sexuais em uma base frequente no início do casamento de Catarina com o rei. Enquanto Merchant retratava uma rainha que parecia profundamente apaixonada por Culpeper, Coombs apresentou um retrato pouco lisonjeiro de um homem manipulador, violento e intrigante, que se envolveu em um caso com a rainha como um meio de obter poder e ganho pessoal.

No entanto, com base na pesquisa seminal da notável pesquisadora e historiadora Retha M. Warnicke, o relacionamento entre a rainha Catarina e Thomas Culpeper, de abril a setembro de 1541 foi, na realidade, muito diferente. Não foi um affair sexual despreocupado, motivado pelo amor ou pela imprudência, como a maioria dos pesquisadores e historiadores continuam a acreditar. Thomas Culpeper foi um cortesão experiente, que servira o rei desde meados da década de 1530, quando entrou na corte como um pagem de Henrique VIII, antes de tornar-se um cavalheiro de sua câmara privada (local onde o monarca comia, dormia e era entretido em sua privacidade). Portanto, Culpepper era tão próximo quanto possível de Henrique VIII. Nove meses antes de Catarina se tornar rainha da Inglaterra, Culpeper já exercia papel na corte, sendo muito mais experiente que ela no protocolo e política deste sistema. Ele parece ter usado esse poder e experiência a seu favor, na manipulação da jovem rainha, que viu-se em uma posição um tanto vulnerável, na primavera de 1541.

Catarina havia tido uma relação sexual com Francis Dereham em 1538, quando tinha cerca de 15 anos de idade, e o agressivo Dereham parece ter decidido casar-se com ela, mesmo fazendo a traiçoeira sugestão de que, uma vez que Henrique VIII morresse, ele certamente desposaria a jovem viúva. Na primavera de 1541, Dereham chegou à corte e começou a se gabar abertamente de seu affair anterior com Catarina. Nesta época, o rei caiu gravemente doente e sua vida corria risco. Ele fechou as portas para todos, incluindo sua jovem esposa, com quem havia passado a maior parte do tempo divertindo-se e traçando planos para o futuro. Conforme sugere Warnicke, é certamente significativo que, nesta altamente carregada atmosfera na corte, Culpeper tenha começado a se encontrar com a rainha aproximadamente na mesma época em que seu ex-amante vangloriava-se de seu domínio sexual sobre ela, e seu marido envelhecido caia enfermo. Uma vez que, acreditava-se que o monarca poderia falecer, foi crivelmente sugerido que Culpeper passou a manipular Catarina, talvez tendo descoberto detalhes de seu escandaloso passado, na esperança de adquirir maior poder e posição, caso Henrique VIII viesse a falecer.

A Carta:

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As reuniões de Catarina com Culpeper foram muitas vezes retratadas, desde descontraídas brincadeiras, até encontros sexualmente íntimos, compostos de grande paixão e devoção. No entanto, a realidade era muito diferente. Os registros sobreviventes demonstram que, a rainha se recusou a reunir-se com Culpeper, a menos que Lady Rochford estivesse presente como acompanhante, e quando Lady Rochford começou a afastar-se em certa ocasião, a fim de permitir que os dois conversassem em particular, Catarina a repreendeu por deixá-la na companhia de Culpeper, pedindo-lhe que retornasse. Foi crivelmente sugerido que ”o encontro de Culpeper com a rainha, deu-lhe os meios para ameaçá-la e manipulá-la”. No verão de 1541, a rainha escreveu uma carta a Culpeper. Muitas vezes, ela tem sido retratada como uma carta de amor, mas o tom nervoso e até mesmo de medo, não sugere paixão, e sim ansiedade e temor. A principal passagem da carta, foi extraída para este artigo (foi retirada apenas a parte com instruções para o entregador a cavalo):

”Mestre Culpeper,

Recomendo-me cordialmente a vós, rezando para que me envies a palavra de como o fazes. Fui informada que estava enfermo, algo que perturbou-me bastante, e até que eu ouça algo de você, oro para que me envie uma carta de como o faz, pois nunca desejei tanto uma coisa, como desejo ver e falar com você, o que confio, será em breve agora. O que me conforta é quando penso nisso, quando penso de novo que você se afastará de mim novamente, isso faz meu coração morrer, pensar que sina tenho de não poder estar sempre em sua companhia. A minha confiança está sempre em ti, que você será como me prometeu e nesta esperança eu me confio, rezando para que você venha quando minha Dama Rochford estiver aqui, pois então serei a melhor no lazer, por estar sob suas ordens…

Sua enquanto perdurar a vida,

Catarina”

Esta carta foi alegadamente escrita por Catarina para Thomas Culpeper. Ela foi considerada a principal evidência contra a jovem rainha. Segundo os pesquisadores e autores Conor Byrne e Marilyn Roberts, o documento pode ter sido escrito por duas mãos diferentes, podendo, portanto, ter sido forjado. Roberts assinala:

“A carta de Catarina Howard está aberta a diferentes interpretações e foi visto como ela estava tão ansiosa para ver Culpeper, pois temia que ele estivesse falando sobre ela fora da corte, ou que pudesse lhe causar problemas. Pessoalmente, eu não penso assim, uma vez que ela estaria arriscando seu próprio pescoço ao escrevê-la. Me pergunto se ela realmente escreveu todo o seu conteúdo – e a carta foi convenientemente encontrada quando sua casa [de Culpeper] foi revistada […] 
Eu sempre tive reservas quanto à carta: como Conor Byrne diz, parece ter sido escrita por duas mãos diferentes, e sem outros exemplos da escrita de Catarina, como podemos ter certeza de que não foi uma falsificação plantada entre os pertences de Culpeper? 
Novamente, quando você realmente  a lê, é um tipo engraçado de carta de amor, e, tendo em mente a linguagem florida (amor cortês) da época, acredito que precisamos ter cuidado…”

Já, segundo Conor Byrne assinala em outra linha de análise:

”Tradicionalmente, a assinatura da rainha, “sua enquanto perdurar a vida”, tem sido interpretada como uma mensagem de amor eterno, mas, como Warnicke reconhece, as cartas Tudor, eram tipicamente encerradas com expressões como ‘pelo seu mais querido na vida’, ou algo semelhante. Deste modo, ao mudar a declaração para ”sua enquanto durar a vida’’, Catarina parece ter insinuado seu sofrimento, sua ansiedade e suas preocupações de que Culpeper revelaria seu passado ao rei. Trata-se de morte e perigo, e não amor romântico o que passava em sua mente. Não havia nenhuma evidência concreta de amor, paixão ou desejo nessa carta; Nenhuma referência a toques, beijos, carícias, e etc. A rainha foi relatada como comportando-se de modo ”temeroso e agitado’’ durante suas reuniões, e admitiu à Lady Rochford que estava aterrorizada que estas entrevistas fossem descobertas por outros. Juntamente com sua insistência em manter Lady Rochford presente em todos os momentos, parece claro que Catarina estava reunindo-se com Culpeper involuntariamente, e não por sua própria vontade.”

Marilyn Roberts também destaca uma passagem com linguagem parecida em uma carta do período:

”Uma das minhas [passagens] favoritas é a da carta do bisavô de Catarina, John Howard, Duque de Norfolk, a John Paston, pouco antes de Bosworth pedir-lhe para conseguir alguns homens de combate organizados, quando ele assina ‘Seu amante John Norffolk’. Tal expressão era o equivalente a ‘O amigo que luta no mesmo lado”, mas não há dúvida de que será apenas uma questão de tempo antes que uma centelha brilhante venha com a alegação de que os dois eram um casal gay!”

O destino de Catarina:

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A compreensão da política da corte Tudor e das crenças do século XVI em torno do gênero e da sexualidade, significa que é impossível acreditar que Catarina Howard tenha se envolvido em adultério com Thomas Culpeper. Catarina havia sofrido um histórico de abuso. Ela havia sido seduzida em tenra idade pelo jovem músico Henry Manox, antes que o agressivo Francis Dereham a manipulasse sexualmente, talvez até estuprando-a. É plausível, a partir de evidências sobreviventes, que ela não tinha nenhum desejo real de se encontrar com Thomas Culpeper e fez isso involuntariamente e apenas na presença de Lady Rochford, pessoa na qual ela confiava. Não se trata de um caso de amor, paixão ou desejo. Era uma relação de poder, manipulação e calculismo que terminou de modo trágico.

Todos sabemos como a história termina. Os encontros entre Catarina e Culpeper foram finalmente descobertos, enquanto Francis Dereham e Lady Rochford também foram presos por seu comportamento. Catarina argumentou aos interrogadores, que Culpeper implorava incessantemente para uma reunião, e que estava com muito medo de recusar. Já Thomas, negou ter deitado-se de fato, com a rainha, porém afirmou que a mesma estava morrendo de amores por ele.

As últimas semanas de Catarina foram meticulosamente registradas pelo embaixador Eustace Chapuys, incluindo um peculiar pedido de que o bloco de execução lhe fosse levado ao quarto: ”Na mesma noite ela pediu para ver o bloco, uma vez que ela gostaria de saber como deveria colocar sua cabeça nele. Seu desejo foi concedido e o bloco foi levado a ela, que prontamente tentou colocar sua cabeça nele para ensaiar o ato”.

Finalmente, Dereham e Culpeper foram condenados por adultério com a rainha, embora ambos negassem, sendo executados em dezembro de 1541. Catarina Howard, fisicamente fraca e assustando, foi decapitada na Torre Verde, no dia 13 de Fevereiro de 1542. Até o fim, ela negou sua culpa.

Bibliografia:

Conor Byrne: AQUI.
On the Tudor Trail: AQUI.
The Story of The Tudors – BBC History Magazine
Anne Boleyn Files para a citação de Marilyn Roberts

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