Lembrem o seu dever a ‘nós’, o seu rei – O absolutismo e os dois corpos do Rei, no reinado de Henrique VIII

Em meados de 1536, no início do matrimônio de Henrique VIII com sua terceira consorte, Jane Seymour, o reinado do monarca foi marcado por levantes e revoltas populares em todo o território inglês. O evento conhecido como a ‘Peregrinação da Graça’, consistia em diversos levantes diferentes, que seguiriam e manifestariam-se ao norte da Inglaterra, especialmente em Yorkshire. Estas revoltas atuavam em resposta à reforma protestante liderada pelo monarca, e a Dissolução dos Monastérios encabeçada por seu primeiro-ministro, Thomas Cromwell.

No dia 10 de Outubro de 1536 – em meados da primeira revolta – Henrique VIII emitiu uma resposta às ‘Petições de Trabalhadores e Rebeldes [em] Linconlshire’. A notícia de um levante poucos dias antes em Leith, que teve seu início com a captura de dois coletores de impostos, aumentando seu número para 30 mil pessoas, foi recebida pelo monarca, segundo aponta Antonia Fraser em seu livro ‘As Seis Mulheres de Henrique VIII’, com uma explosão de repulsa. Ele então diria:

”Quanto à escolha de assessores, nunca li, ouvi ou soube que os assessores de príncipes e prelados deveriam ser nomeados por gente comum, rude e ignorante; nem que essas pessoas eram dignas, ou tinham capacidade de discernir e escolher assessores dignos e suficientes para um príncipe”.

Segundo Fraser, após prosseguir o comunicado, em um estilo híbrido de indignação e desprezo, rejeitando as exigências populares, o monarca finalizou conjurando os rebeldes a irem embora e não mais pecarem, e, acima de tudo ”lembrarem o seu dever de vassalagem a nós, o seu rei, tanto pela ordem de Deus, quanto pela lei da natureza”.

Em última análise, o conteúdo das palavras de Henrique VIII em tal documento, conota o amplo reflexo do posicionamento de um monarca enquanto entidade corporativa e absoluta diante de seu reino e súditos. Ao citar o pronome pessoal ‘NÓS’ e não ‘EU’, o rei ressaltava a pluralidade corporativa de seu cargo, enquanto a crença dos dois corpos de um soberano – o natural e o político -, e o poder divino a ele outorgado.

Tal terminologia repete-se em outra carta, desta vez, escrita pelo monarca ao Conde de Derby, ainda em 19 de Outubro do mesmo ano:

“Nós ordenamos há pouco para que você prepare suas forças e siga até o Conde de Shrewsbury, nosso Tenente, a fim de suprimir a Rebelião no Norte; Mas após ter ouvido falar na tentativa de uma insurreição na Abadia de Salley em Lancashire, onde o abade e monges foram restaurados pelos traidores, agora desejamos que você parta imediatamente para reprimi-los, para apreender os capitães e imediatamente executá-los como traidores ou enviá-los para nós. Deixamos, no entanto, sua discrição seguir a outro local, em caso de emergência. Você deve levar o abade e os monges para fora com violência, e fazer com que sejam enforcados sem demora em seus trajes de costume, assim verá que nenhuma cidade ou vilarejo irá se rebelar.”.

Este discurso, reflete as bases propostas pelo historiador Ernst H. Kantorowicz em seu estudo político teológico, depois resultante no livro ‘Os Dois Corpos do Rei’, onde, segundo o autor, o conceito de ‘Corpus Mysticum’ elevado pela igreja católica, também foi inflado por conteúdos corporativistas e também legais, sendo uma presa fácil no mundo do pensamento de estadistas, juristas e acadêmicos, que viriam a desenvolver novas ideologias para os estados territoriais e seculares¹ , que seriam compreendidos séculos mais tarde.

A fusão do sagrado com o político dentro desta corporação encabeçada pelo rei, constitui uma unidade indivisível destes dois corpos, sendo cada um, inteiramente contido no outro – embora não haja dúvida em relação à superioridade do corpo politico em detrimento ao natural.

Deste modo, a função de Henrique VIII enquanto monarca, conotava não apenas sua autoridade enquanto chefe de estado, mas também como figura divina; um príncipe de seu povo, em todas as ordens assim estabelecidas.

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Ilustração em aquarela por Fred Kirk (1913), exposta no Lancaster City e Maritime Museum, dos levantes da ‘Peregrinação da Graça”.

Bibliografia:

FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII; Best Seller, 27 de fevereiro de 2009.

KANTOROWICZ; Ernst H. Os Dois Corpos do Rei – UM ESTUDO SOBRE A TEOLOGIA POLÍTICA MEDIEVAL; Companhia das Letras, 1198.

1- ”… que viriam a desenvolver novas ideologias para os estados territoriais e seculares¹, que seriam compreendidos séculos mais tarde.’:  O conceito de ‘Estado Secular’, assim como ‘Secularismo’, não existia até meados do século XIX, quando George Jacob Holoyake, passou a descrever um estilo de governo modelado ao futuro. No entanto, o que compreende-se na fala de Kantorowicz, são as bases para o desenvolvimento de conceito que seria compreendido séculos mais tarde.

 

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1 comentário Adicione o seu

  1. Melissa disse:

    Olá. Gostaria de saber se a rebelião contra a reforma chamada Peregrinação Cristã na série The Tudors realmente existiu e se as estampas nos tecidos e estandartes que aparecen na série são originais e onde posso encontrar as imagens, pois são muito lindas.

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