Incrível: Nova imagem de Ana Bolena é encontrada!

Artigo escrito por Roland Hui e traduzido para o Tudor Brasil.

Um dos grandes tesouros do Castelo de Windsor é o Livro Negro da Jarreteira. Encadernado em couro preto – por isso seu nome – ele contém a história, regulamentos e cerimônias dos ilustres Cavaleiros da Ordem da Jarreteira, fundada pelo rei Eduardo III em 1348.

Criado em 1534, o Livro Negro é atribuído ao artista flamengo, Lucas Horenbout (ou Hornebolte) que era ativo como iluminador dos manuscritos e pintor de retratos em miniaturas na corte inglesa, da década de 1520 à 1540.

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Livro Negro da Jarreteira, atribuído a Lucas Horenbout. Castelo de Windsor.

Como o Livro Negro foi criado no reinado de Henrique VIII, o Rei aparece em destaque no documento. Enquanto seus predecessores reais, Eduardo III e Henrique VII tiveram seus espaços no livro, foi dado preeminência ao segundo monarca da dinastia Tudor. Ele aparece duas vezes com seus Cavaleiros da Jarreteira, e depois, novamente, sozinho em oração. No entanto, não foi apenas Henrique como soberano e mais alto escalão da cavalaria que apareceu no livro, sua esposa, Ana Bolena, também o fez.

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Henrique VIII e a Ordem dos Cavaleiros da Jarreteira. Detalhe do Livro Negro. f the Knights of the Garter, The Black Book of the Garter (detail)
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Henrique VIII no Livro Negro da Jarreteira.

Na vigésima página do Livro Negro, uma senhora, coroada e portando um cetro, senta-se entronada e cercada por cortesãos. Atrás dela estão seis damas de honra e diante dela à esquerda, está um arauto portando as armas da Inglaterra em seu tabardo. À direita encontra-se um ‘antigo cavaleiro’ trajando uma rica corrente de ofício. O texto que acompanha, escrito em latim, a identifica como a Rainha Consorte, responsável em ajudar a presidir a reunião da Ordem:

“Nesta apresentação, estava sua excelente Rainha, esplendidamente disposta com trezentas lindas senhoras, eminentes pela honra de seus nascimentos, e a graciosidade e beleza de suas roupas e vestidos. Até então, quando se faziam justas, torneios, entretenimentos e espectáculos públicos, em que os homens de nobreza e valor demonstravam sua força e destreza, a rainha, senhoras e outras mulheres de nascimento ilustre com antigos cavaleiros e alguns arautos escolhidos, de acordo com o costume, deveriam estar presentes como juízes apropriados, para ver, discernir, aprovar ou desaprovar o que poderia ser feito, desafiar, atribuir, falar, assentir, discursar, ou de outra forma, promover o tema em questão, a fim de encorajar e estimular a bravura através de suas palavras e olhares.”

A excelente rainha citada, é Philippa de Hainault, a esposa de Eduardo III. No entanto, após uma inspeção mais próxima da iluminura, notamos que a retratada usa um grande pingente redondo sobre o peito. Nele estão combinadas em ouro, as letras: A e R – que significam Anna Regina (Rainha em latim). Ao invés da Rainha Philippa, trata-se de Ana Bolena, a segunda consorte de Henrique VIII.

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A Dama da Jarreteira, o Livro Negro da Jarreteira (detalhe).

Ao invés de trajes medievais de séculos passados, a ”Senhora da Jarreteira” e seus acompanhantes vestem a moda contemporânea da Corte Tudor. O velho cavaleiro veste-se de acordo com a indumentária do período de Henrique VIII, assim como as mulheres retratadas. Eles usam vestidos da década de 1530, com decotes quadrados baixos. Cinco delas usam capelos franceses, enquanto uma senhora à esquerda, usa um capelo inglês. Ana Bolena também usa um capelo em estilo inglês, e está vestida com pano de ouro; Um vestido muito semelhante ao que se vê em um dos retratos da esposa subseqüente de Henrique VIII, Jane Seymour.

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Jane Seymour (por um artista desconhecido), Society of Antiquaries

Ao atualizar Philippa de Hainault e sua corte para o século XVI, Horenbout estava seguindo uma convenção artística de contemporizar o passado (como visto em numerosas obras de arte da Idade Média e do Renascimento, onde as figuras históricas e bíblicas são mostradas em roupas modernizadas e alteradas). Além disso, ele também estava criando um ambiente onde pudesse honrar a atual Rainha, fazendo com que ela representasse Philippa. Mesmo que Ana Bolena não fosse conhecida por ter sido celebrada como Dama da Jarreteira, como no caso de Philippa e sucessivas rainhas inglesas – a prática de incluir senhoras nos rituais de Jarreteira parecia ter saído de moda em meados do reinado de Henrique VIII -, ela ainda era considerada digna para ser incluída no livro negro, uma vez que era Rainha da Inglaterra.

Ao assumir a parte de Philippa de Hainaut, Ana Bolena poderia também emular suas qualidades. Philippa foi descrita pelo cronista Jean Froissart como sendo “a Rainha mais gentil, mais liberal e mais cortês que já reinou em seus dias”. Ela era especialmente lembrada como a senhora misericordiosa, que havia implorado ao seu marido, o rei, para poupar a vida dos burgueses de Calais. Philippa também foi reconhecida como uma padroeira da aprendizagem. O Queen’s College, Oxford, foi fundado em sua honra.

Uma vez que Ana Bolena estava representando Philippa no livro negro, Henrique VIII viu-se como Eduardo III? Não. Ao invés disso, ele se viu como outro grande rei. O livro contém uma imagem padronizada de Eduardo III, mas a de Henrique V, é claramente uma representação do próprio Henrique VIII. Mas por que Henrique V e não Eduardo III? Embora o Livro Negro elogie este último como o fundador da Ordem e como “um dos mais invencíveis príncipes que já se sentaram sobre o Trono Inglês”, Henrique VIII poderia ter tomado uma avaliação mais sóbria dos triunfos de Eduardo. O rei que ganhou renome em Crécy e Poitiers, foi também o mesmo que mais tarde perdeu seus territórios na França, lamentou a perda de seu filho e herdeiro Eduardo – o Príncipe Negro, que tragicamente faleceu antes dele, e viu-se ‘dominado’ por sua amante, Alice Perrers, e sua impopular facção. Dito isto, Henrique V, como o grande herói de Agincourt, e figura na qual o Livro Negro exalta como “o príncipe mais invencível” e “o mais excelente em todos os tipos de virtude”, provavelmente tinha mais apelo a seu descendente Tudor. Ao contrário de Eduardo III, que caiu em declínio em seus últimos anos, Henrique V morreu relativamente jovem aos 36 anos, deixando um legado bem sucedido de conquistas marciais que Henrique VIII estava mais ansioso para seguir.

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Henrique V – Livro Negro da Jarreteira (detalhe).

Com a semelhança notada acima da representação de Henrique VIII como Henrique V, quão bom é o retrato de Ana Bolena? Embora os rostos de seus atendentes e os de muitos outros no Livro Negro sejam claramente individualizados e destinados a retratar pessoas reais, Ana, reconhecidamente é um pouco decepcionante em sua suavidade de traços. Ainda assim, o que pode ser visto é que Horenbout descreveu-a com um Longo rosto oval e um queixo pontudo; Características comparáveis ​​ao conhecido retrato com pingente “B” de Ana, que provavelmente também deriva de um original feito por  Horenbout, à uma medalha cunhada em 1534, além de um anel elizabetano, onde uma mulher supostamente identificada por alguns historiadores como sendo Ana Bolena, também carrega as mesmas características.

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Ana Bolena (por artista desconhecido) Castelo de Hever.
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Medalha de Ana Bolena (artista desconhecido) Museu Britânico.
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Anel elizabetano (artista desconhecido) The Chequers Trust.

A inclusão de Ana Bolena no livro negro, mostra que ela ainda estava em boas graças com o caprichoso Henrique VIII. Embora Ana tivesse sofrido reveses em 1534 – uma gravidez fracassada naquele verão, e um afastamento da afeição do rei pouco depois – ela ainda estava segura em sua posição como Rainha. Tanto que ela foi celebrada naquele ano, com a criação da medalha acima mencionada. Ana ainda era ‘A Mais Feliz’ como foi inscrito.

Apesar de ser a esposa mais famosa de Henrique VIII, representações de Ana Bolena continuam escassas. Os dois esboços de Hans Holbein que dizem ser dela, são altamente suspeitos e questionáveis, e os populares retratos com o pingente ”B”, provavelmente são todos elizabetanos ou mais tardios. No entanto, com o reconhecimento de sua imagem como Dama da Jarreteira do livro negro, há esperanças de que mais representações de Ana Bolena tenham sido feitas em sua própria vida, além de apenas a medalha de 1534. É provável que ainda haja muito mais a ser descoberto!

Fontes:
Tudor Faces: AQUI.


Fontes do Autor:

[i] J. Anstis et al, The Register of the Most Noble Order of the Garter, 2 vols. (London, 1724), Vol. 1, p. 32.

[ii] That the sitter was Anne Boleyn was first noticed by Sir George Scharf, the Director of the National Portrait Gallery, in a commentary about the portraiture of Henry VIII’s six wives by John Gough Nichols. See: G. Scharf,

‘Notes on several of the Portraits described in the preceding Memoir, and on some others of the like character’, Archaeologia, Vol. 40, Issue 01, January 1866, p. 88.

[iii]   ‘Ladies of the Garter: Image of the month’, website of The College of St. George, Windsor Castle: https://www.stgeorges-windsor.org/archives/archive-features/image-of-the-month/title1/Ladies-of-the-Garter-Image-of-the-month.html (accessed April, 2017)

[iv] J. Anstis et al, Register, p. 1.

[v] J. Anstis et al, Register, p. 64 and p. 65.

[vi] ‘For example, Horenbout’s well observed likeness of Henry Percy, Earl of Northumberland, in his illustration of the Garter procession. It was later served as a basis for an enlarged portrait (Collection of the Duke of Northumberland). As for the Lady of the Garter, ‘not much character in her countenance’, Scharf opined: Archaeologia, p. 88.

[vii] R. Hui, ‘A Reassessment of Queen Anne Boleyn’s Portraiture’, Tudor Faces blog (Jan., 2015; originally posted in Jan. 2000): http://tudorfaces.blogspot.ca/2015/01/a-reassessment-of-queen-anne-boleyns.html (accessed April, 2017)

[viii]  For Anne’s miscarriage of 1534 and the King’s dalliance with another woman, see E. Ives, The Life and Death of Anne Boleyn, (Oxford, 2004), pp. 191-192.

[ix] R. Hui, ‘A Reassessment of Queen Anne Boleyn’s Portraiture’.  Also E. Ives, The Life and Death of Anne Boleyn, pp. 41-44.

 

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2 comentários Adicione o seu

  1. Republicou isso em tudors & other historiese comentado:
    This is truly amazing. The following article examines how this image was discovered and what it can tell us about Henry VIII’s second consort and the Virgin Queen’s mother, Anne Boleyn.

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