Catarina Howard, a quinta esposa de Henrique VIII, foi vítima de abuso infantil?

‘Isto faz com que meu coração morra’, escreveu a jovem Catarina Howard, quinta esposa do monarca Tudor, Henrique VIII, ‘que eu não possa sempre estar em sua companhia’, antes de assinar: ‘sua enquanto perdurar a vida’.

O destinatário desta carta não era seu marido, mas seu amante, Thomas Culpepper.

Todos conhecem a mnemónica – ”divorciada, decapitada, morta, divorciada, decapitada, sobreviveu”– Catarina foi a segunda das consortes de Henrique VIII a ser executada pelo monarca dentro das muralhas do complexo da Torre de Londres. E com base na prova da carta de amor adúltera, será que ela mereceu tal fim? Mesmo os historiadores altamente respeitáveis a descreveram como ”uma prostituta” e uma ”vagabunda de cabeça vazia”. O consenso geral é de que ela era uma mulher sexy, mas estúpida.

Deste modo, você pode estar se perguntando se não pode haver nada de novo a dizer sobre qualquer uma das seis consortes de Henrique VIII. Mas a verdade é que, cada geração interpreta registros e fontes antigas de novas maneiras, e Catarina Howard, é a rainha cuja a imagem obtém a leitura mais radical e pouco alterada de todas as consortes de Henrique VIII.

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Miniatura alegadamente de Catarina Howard. Por Hans Holbein, o jovem.

Catarina é uma figura muito tangível de 500 anos atrás. Se você visitar o Palácio de Hampton Court hoje, onde a renomada historiadora Lucy Worsley, trabalha como curadora-chefe, você mesmo pode caminhar ao longo da chamada ”Haunted Gallery”, que leva à capela real. Reza a lenda que, a jovem Catarina se deu conta das acusações feitas contra ela naquele dia, e que seu ‘fantasma’ vaga a noite ao longo da galeria, rumo à capela, a fim de clamar ao marido para que poupe sua vida, antes de ser arrastada de volta aos seus aposentos, pelos guardas reais.

Na realidade, apesar de qualquer esforço que ela possa ter feito, Catarina nunca mais viu seu marido neste período que levaria à sua execução – que ocorreria menos de quatro meses depois. A própria Lucy Worsley, segundo alega, nunca viu o fantasma da jovem, mas afirma que ”há um ponto particular na galeria, onde, sem explicação óbvia, você pode sentir uma queda de temperatura”.

É provável que Catarina mal tenha saído da adolescência (se de fato chegou a sair), quando perdeu sua vida. Sua queda começou no Dia de Todas as Almas, 2 de Novembro de 1541. Henrique VIII estava na Capela do Palácio de Hampton Court quando recebeu uma carta do Arcebispo Cranmer (ninguém ousou dar a notícia pessoalmente) para informá-lo de que sua esposa mantinha um histórico sexual outrora desconhecido – e um homem em seu passado que ‘deitou-se com ela na cama… por várias noites entre os lençóis”.

Catarina Howard foi descrita como sendo muito atraente. Henrique, com então 49 anos, primeiro avistou-a como a jovem dama de companhia de sua consorte anterior, a alemã, Ana de Cleves. Sua paixão foi arrebatadora, e eles se casaram em 8 de Agosto de 1540. Um ano depois, não havia sinal de uma gravidez – há indícios de que Henrique, obeso e diabético, era agora impotente – mas, ainda apaixonado por sua esposa, ele primeiramente recusou-se a crer nas reivindicações de Cranmer.

No entanto, nas investigações que se seguiram, foi descoberto que Catarina não era tão virginal como parecia. Ela havia sido criada na casa de sua avó-madrasta, a Duquesa viúva de Northumberland, na bela paisagem perto de Horsham, em West Sussex.

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Horsham, West Sussex.

Lá, a vida não foi tão idílica quanto o cenário sugere. As jovens dormiam juntas em uma sala chamada ”câmara das donzelas”, que supostamente era fechada à noite. No entanto, vários senhores da casa sabiam como obter uma chave do local; Entre eles, um criado chamado Francis Dereham. A razão de sabermos isso é que, um rival para os favores sexuais de Catarina, um homem chamado Henry Manox, queixou-se que Dereham havia desfrutado de um melhor acesso ao local.

O testemunho que estes dois homens apresentaram durante o curso da investigação de Cranmer sobre o passado sexual da rainha, adentra em detalhes extremos sobre os modos em que o corpo da jovem foi explorado. Os historiadores preferiram deleitar-se com toda essa espalhafatosa informação, ao invés de contemplar o fato de que a menina que estava no centro de toda essa intriga, muito possivelmente ainda estava em sua adolescência.

É muito interessante descrever sobre seu “charme fácil” e sua “abundância de boa natureza”, mas é duvidoso fazê-lo em relação a uma garota que, a partir dos 11 ou 12 anos, contava com homens mais velhos entrando em seu quarto. Tudo torna-se mais grave, ao descobrir que Manox foi colocado em uma posição de responsabilidade para com Catarina, uma vez que foi seu professor de música.

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Independentemente disso, você pode argumentar, ainda existe a “carta de amor” condenatória que ela escreveu a Thomas Culpepper após seu casamento: certamente correr tal risco como uma rainha, é uma evidência, se não de adultério, de estupidez?

Porém, ao considerarmos a natureza de relacionamentos abusivos, temos que ter em mente que, as coisas não são como parecem. Thomas Culpepper, um favorito de Henrique VIII, possuía, segundo relatos, um caráter completamente desagradável. Ele fora acusado de estuprar uma mulher, embora tivesse recebido o perdão real. Ele também estava associado com a casa da avó de Catarina, e sabia o que ocorria por lá.

Imagine, então, Culpepper usando seu conhecimento do passado de Catarina contra ela. É bastante compreensível que uma mulher em sua posição dissesse ou fizesse qualquer coisa para tentar aplacar ou apaziguar um chantagista tão perigoso. Sabemos hoje que não é impossível que uma “carta de amor” seja motivada inteiramente pelo medo.

Com isso em mente, pense novamente na última viagem de Catarina por barco para a Torre de Londres. Pense novamente nela pedindo, na noite antes de sua execução, como sabemos que ela fez, se ela poderia por favor praticar a colocação de sua cabeça sobre o bloco, a fim de fazê-la corretamente. Seus últimos pedidos foram para que o rei poupasse a vingança de sua família, e para que presenteasse seus assistentes e servos.

Sabemos também que, em Março de 1541, Catarina compadeceu-se da idosa Margaret Pole, a Condessa de Salisbury, que estava em cárcere na Torre de Londres, enviando para ela ‘um traje noturno de pele, sapatos, pantufas e outros itens de roupas quentes’.

Ela não foi uma predadora sexual, mas sim, uma jovem ingênua e ansiosa para agradar, e isso é o mais lamentável de tudo. Ela pode ter sido jovem e tola, mas é intoleravelmente injusto que sua reputação duradoura seja a de uma prostituta boba. Ela foi um produto do meio em que vivia, e ao seu modo, fez o melhor que podia para agradar e ser uma boa rainha.

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FONTES:
Artigo escrito por Lucy Worsley para o Telegraph – com algumas alterações e informações inseridas pela página. Acesse o original: AQUI.

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