Mulheres, Rainhas, Bruxas – Um estudo sobre poder, misoginia e política na história

“Você tem bruxaria em seus lábios, Kate.” (Henrique V  Ato 5, cena 2 – William Shakespeare)

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Quando pensamos em rainhas e bruxas, acreditamos que estas são palavras que não costumam andar juntas. Ou será que sim?
O papel de poder feminino exercido por uma rainha diante de suas sociedades patriarcais, seja este através de casamento ou linhagem, acabava por minar o ideal esperado de recato e submissão em uma mulher, além de deixá-la intocável perante os homens. Sendo assim, dentro da realeza, a bruxaria representou uma útil ferramenta a fim de alcançar mulheres que outrora seriam consideradas inalcançáveis.

Várias rainhas e damas da nobreza, especialmente na Europa, sofreram acusações de bruxaria, por vezes, quando seus inimigos queriam tirá-las de seus caminhos. A melhor e mais efetiva maneira de minar a trajetória e ascensão de uma mulher antigamente, era acusando-a de praticar feitiçaria. O ato de bruxaria era punível com a morte, e os mais leves sussurros sobre isso, seriam responsáveis por erodir toda uma sólida reputação.

Deste modo, não é nenhuma surpresa deparar-se com acusações de práticas de bruxaria, feitas contra as mulheres mais poderosas da Europa, especialmente as que usavam uma coroa. A intenção deste artigo, é abordar as mais famosas mulheres, entre a nobreza e realeza, que sofreram com tais acusações.



A Avó da Europa – Eleanor de Aquitânia (1122/1204):

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Ela foi uma das mais influentes rainhas da Europa. Seu envolvimento político e patronato das artes e literatura, foram notórios para o período em que viveu. No entanto, seu poder passou a representar uma forte ameaça a seus opositores. Duquesa de Aquitaine e Gascogne em seu próprio nome, ela foi rainha consorte da França (através de sua união com o Rei Luís VII) e depois (através de sua união com Henrique II) da Inglaterra.

É necessário ressaltar que, embora acusada de bruxaria, assim como a maioria das mulheres citadas no artigo, tal acusação não foi formalizada, permanecendo mais como boatos a fim de manchar sua imagem de poder. Um episódio notável envolvendo tais boatos, ocorreu no início do matrimônio de Eleanor com seu primeiro marido, o Rei Luís VII. Um inimigo da causa de Eleanor, um francês chamado Thierry de Galeran, acusou-a de ”bruxaria e heresia’’, a fim de alertar o rei para que não consumasse seu casamento, tentativa esta, que mostrou ser em vão.

Outro episódio semelhante ocorreu quando o Rei Luís permitiu, sob pressão da esposa, que o Conde de Vermandois repudiasse sua então consorte, a fim de desposar a irmã de Eleanor, Petronilla de Aquitânia. Porém, a então esposa de Ralph, uma mulher de nome Eleonore, era nada menos que a irmã do Rei Stephen da Inglaterra, e de Teobaldo II, Conde de Champagne. Tal ruptura levou a uma pequena guerra, com forças rivais aliando-se à causa da esposa rechaçada.
O conflito terminou com o incêndio de uma aldeia e sua igreja local, seguida das pessoas que nela viviam. Porém, Petronilla ficou livre para desposar o Conde.
Católico fervoroso que era, Luís VII viu este eminente desastre como um pecado divino, refugiando-se então em uma igreja, fazendo orações e jejuns. Neste período, ele passou a acatar os conselhos de Thierry, vendo na imponente figura de sua esposa, uma ameaça em potencial e uma bruxa.

Relacionada à bruxaria, outra história circula em torno da imagem de Eleanor. Durante seu segundo casamento, com o monarca Henrique II da Inglaterra, Eleanor viu-se em um escândalo envolvendo a morte da amante de seu marido, a bela Rosamond Clifford. Segundo a amplamente difundida lenda, Eleanor, juntamente de quatro bruxas (essa variante aparece alterada entre alguns cronistas), envenenam a jovem. São diversas as versões sobre a morte desta mulher, que entrou para o imaginário popular através de poemas. A primeira versão dela, data do século XIV, posterior ao período em que Eleanor viveu. É necessário ressaltar que o imaginário vitoriano posterior também contribuiu para perpetuar a lenda, transformando Rosamond em uma frágil vítima romântica, enquanto Eleanor foi convertida na imagem de assassina cruel. Deste modo, não há evidências que suportem a teoria de um assassinato de Rosamond orquestrado por Eleanor, uma vez que a história é apócrifa.


Mais Jezebel que Isabel – Isabella de Angouleme (1188/1246): 

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Ela foi uma das mais famosas rainhas da Idade Média, sendo descrita pelo cronista Matthew Paris, como ”mais Jezebel que Isabel’’ – em referência ao seu nome. Um dos fatores que contribuíram para a memória negativa em torno de sua imagem, foi seu casamento com o rei inglês, filho de Eleanor de Aquitânia, João, conhecido como ”sem terra’’. Ela tinha por volta de 12 anos quando casou-se com João, logo depois deste ter arrebatado o trono da Inglaterra após a morte de seu irmão, Ricardo I. Ela foi descrita como uma beldade, mas não foi apenas sua aparência que conquistou o coração do monarca; sua família era uma ferramenta útil em suas batalhas francesas.

No entanto, logo após sua chegada na Inglaterra, Isabel já encontrou alguns obstáculos. Cronistas acusavam-na de atrair o rei para longe de suas obrigações de estado. Roger de Wendover foi ainda mais longe, alegando que os problemas enfrentados pelo monarca na Normandia, haviam em parte, sido culpa de sua esposa. Ele comentou que ”foi dito que [o rei] estava apaixonado por culpa de feitiçaria ou bruxaria’’. O estrago estava feito. Isabella nunca recuperou sua reputação.

Após a morte de João, ela casou-se com Hugo X de Lusignan, um nobre francês. Suas tentativas em garantir que seus filhos com seu segundo marido ganhassem favor régio em detrimento de seu meio-irmão, fizeram com que os cronistas voltassem a comentar o assunto. Isabella terminaria seus dias sob as paredes de um convento, onde fugiu a fim de evitar problemas, como as acusações de feitiçaria.


A Rainha Necromante – Joana de Navarra (1370 /1437):

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Ela foi Duquesa consorte da Bretanha e Rainha consorte da Inglaterra, através de seu matrimônio com Henrique IV. Joana era muito querida entre a família de seu marido, mas não muito aclamada pelo povo inglês, que era geralmente averso a consortes estrangeiras. Em 1419, mesmo em bons termos com a família real, Joana de Navarra foi aprisionada sob acusações de Necromancia ao: ”planejar a destruição de nosso senhor, o rei, do modo mais traiçoeiro e horrível que pode ser concebido’’. Ou seja, através de feitiçaria e necromancia, ela tentou destruir o rei, Henrique V. O acusador foi o confessor de seu pai, John Randolf, um frade franciscano, além de dois outros membros de sua casa, Roger Colles e Peronell Brocart. Foi dito que Randolf foi um dos que atraiu a rainha viúva para a bruxaria. Como resultado, ela viveria três anos em cárcere através de propriedades da coroa, como a mansão Rotherhythe, o Castelo de Pevensey e finalmente, o castelo de Leeds.

Inicialmente, ela teve seus bens e terras confiscados, rendas apropriadas, servos demitidos, sendo colocada sob vigilância. Foi usado como evidência contra ela, que seu pai, o Rei Charles de Navarra, possuía uma reputação que incluía o uso de necromancia, entre uma série de outros pecados, como o uso de veneno para matar. Em suma: Tal pai tal filha.

Porém, o próprio desenrolar da história nos fornece o nível do envolvimento de Joana com tais acusações. O tratamento que ela recebera durante seus 3 anos de cárcere, foi incomum para uma mulher envolvida em tais acusações e nenhuma evidência foi produzida sobre o que realmente implicava seu crime. Como ela pretendia matar o rei? Seria por veneno? Por feitiço? Nenhum detalhe dos métodos utilizados ficou claro.

Após o período inicial, durante seu confinamento, Joana recebeu um subsídio substancial, casa própria, funcionários, servos, e diversas outras regalias. Ela comprou roupas caras, e itens diversos, desde taças de prata, vinho e um periquito. Ela podia sair para montar e receber visitantes, entre eles o tio e o irmão de Henrique V, além do Arcebispo de Canterbury. Nem os supostos envolvidos no caso, como John Randolf, foram colocados a julgamento. Ela foi solta em 1422.


A Duquesa Bruxa – Eleanor Cobham (1400/1452):

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Eleanor não foi rainha, e sim, Duquesa de Gloucester. Ela foi esposa de Humphrey, Duque de Gloucester, irmão mais novo de Henrique V e tio e aparente herdeiro de Henrique VI. Ela foi presa em 1441 e acusada de usar poções fornecidas pela famosa ”Witch of Eye”(Bruxa do Olho em tradução livre), Margery Jourdemayne, para fazer Gloucester apaixonar-se por ela e desposá-la. Eleanor também usou os serviços dos astrólogos, Thomas Southwell e Roger Bolingbroke, para saber se seu marido iria suceder o rei. Em seu livro ”Elizabeth Woodville: Mother of Princes in the Tower”, David Baldwin aponta que:

”Três feiticeiros, aparentemente, fizeram uma imagem de cera que a acusação alegou ser o Rei e tramaram conseguir sua morte (ao derretê-la); porém Eleanor disse representar um bebê, sendo destinada apenas para ajudá-la a ter um filho”. 

No final o casamento de Eleanor foi dissolvido, na premissa de que ”usando bruxaria, ela havia interferido com a liberdade de escolha do Duque Humphrey”. Margarey Jourdemayne foi condenada à morte na fogueira em Smithfield, Thomas Southwell morreu na prisão, e Roger Bolingbroke foi enforcado e esquartejado. Quanto a Eleanor Cobham, ela foi designada a fazer uma penitência pública em Londres, e condenada a prisão perpétua na Ilha de Man.


A Feiticeira Branca – Elizabeth de Woodville  (1437/1492):

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Elizabeth Woodville foi esposa do monarca yorkista Eduardo IV, e mãe dos príncipes na Torre. Ela foi a primeira plebeia (a segunda foi Ana Bolena) a tornar-se rainha consorte da Inglaterra. Segundo a historiadora Arlene Okerland, Elizabeth era uma mulher de grande beleza, charme e bons modos.

De acordo com a tradição do século XVI, Elizabeth soube que o rei estaria caçando na Floresta de Whittelwood e esperou embaixo de um carvalho com seus dois filhos de seu primeiro casamento. Após a morte de seu marido, Elizabeth passou por dificuldades financeiras, por isso, seu objetivo era clamar ao rei por ajuda. Ao ajoelhar-se em frente ao soberano, quando este passava por ela, ele logo apaixonou-se.

No entanto, segundo Alicia Carter em seu livro ”The Women of the Wars of the Roses: Elizabeth Woodville, Margaret Beaufort & Elizabeth of York’’, de acordo com crônicas contemporâneas, Eduardo IV apaixonou-se por Elizabeth quando esta passou a frequentar sua corte e jantar frequentemente em sua companhia. Já segundo o registro de Thomas More, que não era vivo na época, ”muitos encontros, muitos cortejos e muitas promessas’’ foi o que engatou o relacionamento entre o casal. Não sabemos ao certo se Elizabeth encontrou-se com Eduardo debaixo de um carvalho, mas é mais sensato considerar que o relacionamento e laço afetivo criado entre ambos, ocorreu de modo gradual, uma vez que Elizabeth visitava a corte nessa época.

No início, Eduardo IV não planejou casar-se com Elizabeth. Ele a queria apenas como amante. Porém, após Elizabeth manter-se ‘firme e determinada’ diante de suas investidas, ele a tomou como esposa em uma cerimônia secreta.

Conforme mencionado, Elizabeth Woodville era uma mulher bela e de boas maneiras, que chamou a atenção do monarca, que cortejou-a e desposou-a, mesmo sendo plebeia. Atualmente, tal explicação parece suficiente, mas durante o período medieval, onde casamentos entre a nobreza e realeza eram por convenção, obtidos visando ganhos políticos, o casal desafiou a compreensão comum. Em suma, o amor entre o rei e uma plebeia viúva, empobrecida e cinco anos mais velha, era simplesmente inconcebível para ser praticável, e o enlace gerou dúvidas e irritou a muitos nobres do reino, levando a tumultos e conflitos locais e familiares, onde a responsabilidade principal, recaiu sob os pés de Jacquetta de Luxemburgo, mãe de Elizabeth.

Após a morte de Eduardo IV, Ricardo usaria tal imaginário difundido durante o reinado de seu irmão, como ajuda para alavancar o próprio, quando em janeiro de 1484, ele promulgou documento conhecido como ”Titulus Regius’’, que justificava seu direito ao trono.

Segundo este documento, Elizabeth, com ajuda de sua mãe, Jacquetta de Luxemburgo, conseguiu casar-se com Eduardo através de bruxaria.

Segundo Carter, ”de acordo com o documento promovido por Ricardo, a bruxaria realizada por Elizabeth e sua mãe, eram de opinião comum entre o povo e a voz pública, famoso em todo o reino’’.

É no entanto, necessário salientar que, embora Ricardo III tenha afirmado que as acusações de bruxaria realizadas contra Elizabeth Woodville ‘deveriam ser suficientemente provadas no tempo e lugar conveniente’’, nunca nenhuma prova foi oferecida para confirmar que Elizabeth e Jacquetta eram culpadas. A intenção do monarca, era, segundo aponta o historiador David Baldwin, apresentar acusações antigas de bruxaria contra Jacquetta, das quais ela já havia sido exonerada em 1470.

Não existem provas de que Elizabeth ou sua mãe praticavam bruxaria. No entanto, elas eram mulheres de poder político considerável em um período politicamente conturbado, que foi a Guerra das Rosas. Elizabeth era uma plebeia que subiu alto demais em um período envolto em crenças e no qual as pessoas não conseguiam compreender um casamento real sem ganhos políticos. Tais armas, nas mãos certas, eram o trunfo perfeito para um ataque e deslegitimação de Elizabeth e de seus herdeiros.


A Herdeira de Melusine – Jacquetta de Luxemburgo (1415/1416 – 1472):

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Ilustração representando Jacquetta de Luxemburgo.


A Duquesa de Bedford e Condessa de Rivers, Jacquetta de Luxemburgo, não foi rainha, e sim, mãe de Elizabeth Woodville, conforme citado acima. No entanto, ela também foi acusada de usar bruxaria para ajudar sua filha. As acusações contra Jacquetta de Luxemburgo ocorreram pouco após a execução de seu marido e filho, quando o monarca Eduardo IV foi aprisionado sob custódia do Conde de Warwick.

Segundo Alicia Carter: ”Um Thomas Wake, seguidor do Conde de Warwick, trouxe uma imagem de chumbo ‘feita como um homem de armas… quebrada no meio e unida com arame’. A figura era alegadamente usada para feitiçaria e bruxaria. Thomas Wake também alegou que um clérigo da paróquia de Northampton, John Hunger, poderia testemunhar que Jacquetta criou mais duas imagens, uma representando o rei e outra representando sua própria filha, a rainha.’’

No entanto, após Eduardo IV ser solto de seu cativeiro, as testemunhas de Warwick declinaram em acusar a sogra do rei. Mais tarde, homens designados por Eduardo IV, removeram as acusações, após Jacquetta negar que se envolveu com feitiçaria, declarando ser fiel à santa igreja.

Conforme mencionado acima, certamente nem mãe nem filha eram culpadas de bruxaria. Tal acusação era uma poderosa ferramenta nas mãos dos inimigos políticos certos e serviu ao seu propósito, perdurando através dos séculos.


O Escândalo da Cristandade – Ana Bolena ( 1501 aprox./ 1536):

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Ela foi a segunda consorte do monarca Henrique VIII da Inglaterra. Não existem registros da época em que Ana era viva, de que ela tenha sido acusada de bruxaria e tal crime, não consta nos autos acusatórios contra ela. No entanto, durante os séculos, ela foi muito relacionada a esta prática, e explicaremos o porquê.

Segundo relatou Eustace Chapuys, Henrique VIII alegou a um cortesão desconhecido, ter casado-se com Ana, ”seduzido e forçado por sortilégios’’. Tal comentário foi relatado em terceira mão, e esta última palavra, que foi traduzida como ‘bruxaria, feitiçaria ou encantos’, deu origem à sugestão de que Ana Bolena havia se envolvido em bruxaria. Embora isto seja regularmente citado como um dos encargos do qual ela foi considerada culpada, conforme mencionado, não constava nos autos da acusação.

Segundo Eric Ives, biógrafo de Ana Bolena, o comentário de Chapuys poderia significar que Henrique tenha sentido-se ”enganado” por Ana. Ele escreve que: “Em todo modo, alegar  bruxaria era uma desculpa comum para um comportamento masculino tolo.”

Na realidade, assim como ocorrera outrora com Elizabeth de Woodville, as pessoas não tinham uma explicação do porquê Henrique VIII casou-se com Ana Bolena, uma mulher de status tão inferior. Hoje sabemos que, diante de um período delicado de sucessão e um namoro de longa data, a promessa que Ana Bolena representava, juntamente da paixão do monarca por ela, foram as responsáveis por tal enlace. Porém, em um período onde um monarca casava-se para formar sólidas alianças políticas entre reinos estrangeiros, isto foi visto com certa incredulidade entre contemporâneos.

A ideia de que Henrique havia sido “seduzido por bruxaria” tornou-se ligada à uma outra teoria, que sustenta que a verdadeira razão para a ruína de Ana, foi a de que o feto abortado em janeiro 1536, era deformado. Em janeiro de 1536, Ana Bolena abortou uma criança; segundo o Embaixador Imperial Chapuys, tratava-se de “um menino, com cerca de três meses e meio de idade”. Eric Ives ressalta que:

”Alguns moralistas do século XVI associam bruxas com nascimentos monstruosos, então fantasiar sobre um ‘feto deformado’ levou historiadores a especularem sobre uma ligação entre a queda de Ana e uma acusação de bruxaria.”

De acordo com a especialista Tudor, Retha Warnicke, a entrega de uma “massa informe de carne” provou na mente de Henrique, que Ana era ao mesmo tempo uma bruxa e adulteramente promíscua. Porém, esta descrição vem de uma propaganda católica de Nicholas Sander, escrita 50 anos depois; não há nenhuma evidência contemporânea para sustentar esta teoria. Não temos evidência de que os contemporâneos de Ana sabiam muito sobre seu aborto.


A Viúva Negra – Catarina de Medici (1519/1589):

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Ela foi membro da ilustre família italiana, os Medici, rainha consorte de Henrique II da França, e, posteriormente, regente da França (1560-1574) através de seu filho, Charles IX. Catarina é conhecida através da história como a rainha má, que planejou um violento massacre religioso na França. Pelo menos é assim que o mito foi perpetuado através dos séculos. Em realidade, ela tem sido alvo de uma extensa campanha de difamação, que começou ainda em vida, sendo atualmente selada pela contribuição de alguns renomados biógrafos e romancistas dos séculos XIX e XX. Um dos mais notórios exemplos da construção negativa de sua imagem no imaginário popular atual, provém de sua famosa representação no romance de Alexandre Dumas, ”La Reine Margot’’, de 1845.

De nascimento italiano, Catarina foi para a França ainda adolescente, a fim de desposar o filho do monarca Francisco I, Henrique. Sua nacionalidade e família, a fizeram vítima de preconceito no reino onde passara a viver, uma vez que os italianos eram desprezados por seus interesses no que era então conhecido entre os conservadores do período como ”as artes obscuras’’; em suma, tudo que envolvesse o oculto, como astrologia, leitura da sorte, entre outros.

A campanha para manchar a imagem de Catarina, começou desde muito cedo na França. Quando seu cunhado, Francis, Dauphin da França, morreu em 1536, fazendo de Henrique o próximo na linha sucessória, a pressão para que Catarina engravidasse tornou-se crescente. No entanto, conforme as tentativas mostravam-se frustradas, ela passou a tomar medidas desesperadas, como jejuns excessivos, peregrinações, remédios controversos e orações. Por um bom tempo, nada parecia mudar. No entanto, em meados de 1543, as preces de Catarina foram finalmente atendidas. A maioria atribuiu isso às inexplicáveis leis da natureza, outros, ao conselho de seu médico, que alertou ao Delfim sobre como ‘fazer as coisas’ corretamente; porém, outros acreditavam que Catarina havia engravidado através de feitiçaria, tornando-se uma adoradora do diabo, especialmente após engravidar repetidamente, em curtos intervalos de tempo após este período.

Anos depois, outro importante ataque à reputação de Catarina, veio através do panfleto teatral, do inglês John Stubbs, intitulado ”The Discovery of a Gaping Gulf’’, sobre os conflitos religiosos na França. Nele, Stubbs encontra como catalizador destes eventos, não Deus ou o diabo, e sim, Catarina de Medici. Segundo o autor, Catarina, um dos nomes mais proeminentes citados no panfleto, era uma mulher governante, cercada de ‘espíritos familiares’. Estes panfletos foram amplamente divulgados na Inglaterra, com a permissão de Elizabeth I, a fim de acusar não apenas Catarina, mas sim, todas as governantes católicas, de feitiçaria. No entanto, o que Elizabeth não contava, ao permitir a divulgação dos mesmos em solo inglês, é que as acusações de Catarina de praticar bruxaria, não refletiam apenas sobre sua religião e sim, especialmente, sobre seu sexo.

Ser uma governante feminina, era para muitos dentro de um contexto patriarcal, uma anomalia e aberração contra a ordem natural das coisas, e não tardou para que o costume de acusar mulheres de feitiçaria, também refletisse sobre a última monarca Tudor. No entanto, ao contrário dos franceses, muitas vezes dispostos a acreditar na anti-propaganda estrangeira contra Catarina, o povo inglês em sua maioria, não acreditava realmente que sua rainha era uma bruxa – embora os propagandistas católicos estivessem ansiosos para retratá-la como ligada à satanás.

O trabalho de Stubbs provou ser então, um duro golpe à imagem de Catarina, que passou a ser vista por boa parte da Europa, como uma feiticeira sob o poder do diabo, uma vez que a nobreza européia, não acreditava que uma mera bruxa, fosse capaz de sozinha, obter tanto poder político.

É necessário salientar que, a crença de Catarina na astrologia, superstições e habilidades de adivinhos, como Cosimo Ruggieri e Nostradamus, estavam difundidas no século XVI (Elizabeth I inclusive era adepta a elas), mas eram vistas de modo negativo por muitos conservadores do período, tendo sido exageradas por escritores posteriores que as retrataram como atos diabólicos de necromancia e magia negra. A partir disso, podemos notar a crescente construção da imagem de Catarina de Medici nas artes obscuras através dos séculos, desta vez, entre romancistas e biógrafos do século XIX e XX.

Um autor do século XIX, chegou a afirmar que Catarina havia sequestrado e sacrificado um menino judeu em uma missa negra, a fim de restaurar a saúde de seu filho, Charles IX.

Outro historiador, Mariejol, em sua biografia sobre Catarina, datada de 1920, aponta que ”haviam algumas [damas] favoritas que ela levava consigo a passeio e viagens diplomáticas. Foi o famoso esquadrão voador, que ela invocava ao ataque à sua maneira e subjugava líderes de partidos’’.

Por sua vez, Jean Héritier, em seu trabalho sobre Catarina, datado de 1959, faz alusão à Armida, a feiticeira de ‘Gerusalemme Liberata’, de Torquato Tasso, que cai de amores pelo cruzado Renaud, seu inimigo jurado: ”Ela [Catarina] escolheu as mais belas de suas seguidoras, a fim de transformá-las em Armidas, que iriam desarmar os Renauds que ameaçavam o estado’’.

Conforme as metáforas foram se desenvolvendo, a liberdade poética de alguns escritores introduziu o elemento ‘bruxaria’ para todo e qualquer ato de poder político feminino de Catarina, em oposição ao masculino. Este foi o caso da metáfora sobre o desempenho militar de Catarina, utilizada por Hugh M. Richmond, em seu ensaio ”Shakespeare’s Navarre’’, de 1979.

Segundo Richmond, a tarefa de Catarina em casar sua filha Marguerite com o protestante Henrique de Navarra, a fim de unir ambas as partes do conflito religioso local na França, foi uma armadilha de bruxaria, intitulada pelo mesmo, como o ”circo do renascimento’’. Richmond deste modo, compra a anti-propaganda construída ainda no período em que Catarina estava viva, de que uma mulher que sai de sua esfera de recato de gênero, é vista como transgressora e bruxa. O autor finaliza descrevendo Henrique de Navarra como o herói de tal empreitada, rodeado por bruxas que tentam promover seus próprios interesses políticos.

Embora atualmente, os historiadores venham tentando reabilitar a imagem de Catarina, a fim de apresentá-la além da vasta anti-propaganda que a condenou em vida e castigou em morte, passando a explorar alternativas aos mitos difundidos sobre sua imagem, a analogia de grandes autores, panfletos, teatro e senso comum, emprestou coerência ao mito, fazendo com que o imaginário de Catarina como uma bruxa vil e rainha amargurada, continue recebendo força diante dos esforços da historiografia atual em revertê-los.


Conclusão:

Conforme podemos notar no desenrolar do artigo, a bruxaria foi usada como estratégia política, e nenhuma mulher estava imune a ela. No decorrer da leitura, conseguimos ver toda a gama de adjetivos negativos usados para denegrir mulheres, cujo comportamento transgredia as normas sociais aceitáveis para o sexo feminino, que consequentemente acarretava em acusações como: necromancia, feitiçaria e bruxaria.

Tal imaginário contrastante de poder e transgressão de gênero, mostra-se difundido em um trecho do livro ”Malleus Maleficarum”, escrito em 1486 por dois monges dominicanos, Heinrich Kramer e Jakob Sprenger:

”Se pesquisarmos, veremos que quase todos os reinos do mundo foram derrubados por mulheres. Tróia, que era um reino próspero, foi destruída pela violação de uma mulher, Helena, e muitos milhares de gregos foram mortos. O reino dos judeus sofreu grandes infortúnios e destruição por causa da maldita Jezebel, e sua filha Ataliah, rainha da Judéia, que fez com que os filhos de seu filho fossem mortos, para que na morte deles pudesse chegar a reinar; mas cada uma delas foi morta. O reino dos romanos suportou muitos males devido a Cleópatra, rainha de Egito, a pior das mulheres. E assim como outras. Portanto, não é estranho que o mundo sofra agora com malícia das mulheres…” (Questão VI p. 119)

Em um período amplamente misógino, em que o papel da mulher no cenário político era visto como desagradável e pecaminoso, as acusações de bruxaria mostraram-se armas poderosas no jogo do poder, onde todas as peças do tabuleiro eram válidas para se chegar a uma vitória.


Glossário:

Necromancia: Ato de prever o futuro através da comunicação com o espírito dos mortos.

Semana das Bruxas – Acompanhe nossa série de artigos sobre o tema:
Os Julgamentos das Bruxas de Salem
Madame Montespan: De favorita do rei a ‘bruxa’ na corte de Luís XIV

Bibliografia:

KIRK, Andrew M. The Mirror of Confusion: The Representation of French History in English Renaissance Drama (Garland Studies in the Renaissance); Routledge. 5 de Março, 2016.

MCLLEVENNA, Una. Scandal and Reputation at the Court of Catherine de Medici (Women and Gender in the Early Modern World); Routledge. 26 de Maio, 2016.

PURKISS, Diane. The Witch in History: Early Modern and Twentieth-Century Representations; Routledge; 1 edition, October 16, 1996.

NORTON, Elizabeth. She Wolves: The Notorious Queens of England; The History Press. May 1, 2010.

HILTON, Lisa. Queens Consort: England’s Medieval Queens from Eleanor of Aquitaine to Elizabeth of York; Pegasus; 1 edition. August 3, 2010.

KRAMER, Heinrich; SPRENGER, J. O Martelo Das Feiticeiras; Record; 1 de janeiro de 1991.

WARNICKE, Retha M. The Rise and Fall of Anne Boleyn: Family Politics at the Court of Henry VIII (Canto); Cambridge University Press. July 26, 1991.

CARTER, Alicia. The Women of the Wars of the Roses: Elizabeth Woodville, Margaret Beaufort & Elizabeth of York; CreateSpace Independent Publishing Platform. August 5, 2013.

BLOG OUP: AQUI – [Eight Myth about Fair Rosamund]. Acesso em 2016

Royal Women: AQUI – [Eleanor of Aquitaine]. Acesso em 2016

Royal Central: AQUI – [Queens and Witchcraft, Isabella of Angouleme]. Acesso em 2016.

Anne O’Brien Books: AQUI – [Was Joanna of Navarre a Witch?]. Acesso em 2016.

Wonders and Marvels: AQUI – [History’s Black Widow: The Legend of Catherine de Medici]. Acesso em 2016.

Anne Boleyn: AQUI – [Myths Surrounding Anne Boleyn a Witch]. Acesso em 2016.

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9 comentários Adicione o seu

  1. Muito legal, adorei! Ansioso por essa semana.

    1. Tudor Brasil disse:

      Ficamos muito felizes que tenha gostado, Dennis. Seja bem-vindo! 🙂

  2. Bianca Lima disse:

    Parabéns pela pesquisa. Amo vocês ❤

    1. Tudor Brasil disse:

      Muito obrigada pelo carinho, Bianca. Ficamos felizes que tenha gostado! ❤

  3. Janine disse:

    Oiii, gostaria de saber o nome do autor??

    1. Tudor Brasil disse:

      O autor do texto é a página Tudor Brasil, Janine. Mas se precisar de mais dados, entre em contato conosco por mensagem, através de nossa página do Facebook! 🙂

  4. Emanuelle disse:

    Texto ótimo! Parabéns!

    1. Tudor Brasil disse:

      Que bom que gostou, Emanuelle. Ficamos felizes! 🙂

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