O Nascimento de Eduardo VI

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Este foi o sentimento em todo o reino quando eles ouviram que a terceira rainha de Henrique VIII, Jane Seymour, tinha dado à luz um menino.

14686532_1125977260832555_225417960_nA gravidez de Jane Seymour foi anunciada em Maio. De acordo com as crônicas de Wriothesley, isto foi o que se seguiu: ”O dia 27 de Maio de 1537, sendo Domingo da Trindade, houve Te Deum cantado, para a alegria dos primeiros meses de gestação da rainha; meu Lord Chancellor, Lord do selo privado, com diversos outros senhores e bispos, estava presente; todos deram alto louvor a deus pelo mesmo motivo. O bispo de Worcester fez uma oração diante de todos os senhores e comuns, depois Te Deum foi tocado, mostrando o motivo de sua reunião, na qual orações foram entoadas para os espectadores; ainda, na mesma noite, diversas grandes fogueiras foram acesas em Londres, além de um tonel de vinho em cada uma delas, para os pobres beberem enquanto durassem. Rezo para Jesus que ele nos envie um príncipe.’’

A rainha experimentou uma gestação normal. Seu peso rapidamente aumentou, e ela deliciava-se com iguarias caras, como codornizes, que tiveram de ser trazidas especialmente para ela de Calais. Em apenas um dia, ela chegou a comer duas dezenas delas. Ela passou cada vez mais tempo confinada em seus aposentos reais, desfrutando da boa comida e da promessa de um herdeiro. Um cortesão, ao vislumbrar sua rainha, disse: ”Que o bom Deus nos envie um príncipe’’. Considerando o problema enfrentado por suas antecessoras nesta questão, é seguro conjecturar que Jane tenha desejado o mesmo. No geral, a gravidez da rainha correu bem até o momento de seu trabalho de parto.

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Eduardo VI, por Hans Holbein

Na tarde do dia 9 de outubro, as contrações de Jane tiveram início e prosseguiram por dois agonizantes dias. Ela estava cansada e sofrendo bastante. Uma procissão liderada pelo prefeito de Londres peregrinou da Catedral de St Paul rumo à Abadia de Westminster a fim de rezar para a rainha e pela segura entrega do bebê. Enquanto oravam, Jane gritava e sofria em sua esplêndida cama no Palácio de Hampton Court. Rumores circularam depois que, em sua ânsia de obter um herdeiro, o monarca havia concedido a permissão para a realização de uma cesariana, apesar de saber que esta, causaria a morte de sua esposa. É claro que essa história é falsa, produto da fábrica de boatos históricos, sempre em constante funcionamento através dos séculos. No dia 11, eles todos começaram a temer pelas vidas da Rainha e de sua criança e preces especiais foram feitas pela segurança de ambos.

Logo cedo na madrugada seguinte, uma sexta-feira, por volta das duas horas da manhã do dia 12 de outubro de 1537, os esforços das auxiliares e parteiras foram recompensados e as duas da manhã, a Rainha finalmente deu à luz no Palácio de Hampton Court. O bebê era um rechonchudo menino, e saudável! Desde 1511, com o nascimento de Henrique, Duque da Cornualha, seu filho com Catarina de Aragão, que viveu pouco mais de um mês, Henrique não havia experimentado a tranquilidade de conseguir um herdeiro varão.

Uma vez que o dia em que nascera era a véspera da festa de Santo Eduardo, o Confessor, o recém-nascido foi nomeado em homenagem ao santo padroeiro, e possivelmente, ao seu bisavô, Eduardo IV, além do ancestral comum de seus pais, Eduardo III.

De acordo com Antonia Fraser: “Henrique VIII lembraria-se de Jane Seymour como a esposa com quem ele foi exclusivamente feliz; esquecendo talvez, dos anos iniciais com Catarina de Aragão, a encantadora e jovem Princesa espanhola tão ansiosa para agradar. ”

Jane agora deu-lhe tudo o que ele havia desejado. Houve uma efusão de júbilo nacional, “Deus havia sorrido para a Inglaterra”. O reino estava eufórico com as boas novas e celebrações foram realizadas em todas as cidades e vilarejos por muitos dias.

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Jane Seymour, por Hans Holbein

Porém, a mais triunfante de todos era Jane. Em seus aposentos, a rainha, sentada e penteada por suas damas, poderia começar a receber os visitantes que vieram para oferecer suas felicitações. Ela finalmente poderia descansar tranquila de sua posição como rainha, pois ela havia dado a Henrique o seu tão desejado filho e herdeiro e agora em posição, ela estava intocável.

Torneios foram celebrados em honra ao nascimento do príncipe, pois dessa vez a palavra ‘Príncipe’, ao contrário das vezes anteriores, não foi alterada, e uma carta de Jane foi copiada e distribuída em todo o país tendo a sua assinatura e o selo real: “Bem-confiado e bem-amado, nós o acolhemos bem pela inestimável bondade e graça do Todo Poderoso, fomos agraciados com o parto de um príncipe concebido no mais legítimo matrimônio entre meu senhor, Vossa Majestade, o Rei, e nós.

Três dias depois ocorreu o batizado na capela real de Hampton Court, o qual foi um acontecimento suntuoso. Os Seymours e seus aliados, que estavam com sua posição imensamente fortalecida pelo nascimento do herdeiro, ocuparam o lugar com orgulho. A cerimônia foi comemorada às seis da tarde, possivelmente devido aos extensos preparativos que a precederam, e o batismo em si, foi realizado a meia noite. Então, segundo aponta o historiador David Loades, é razoável supor que Eduardo dormiu durante o evento.

Maria Tudor, a meio-irmã mais velha do bebê, foi quem levou o Príncipe Eduardo até o batistério, onde ele foi batizado de imediato. Ambas as irmãs mais velhas do bebê participaram, com Maria tendo um lugar de destaque e agindo como madrinha. Embora segundo Loades, neste estágio a saúde de Jane não estivesse dando motivo para qualquer preocupação, conforme ditava o costume, a rainha não estava presente na cerimônia do batismo e teve de esperar para ver seu filho mais tarde, até que ele foi levado até ela por Maria, a madrinha.
Três dias depois, no dia dezoito, Eduardo foi proclamado Príncipe de Gales, investido como Duque da Cornualha e Conde de Carnarvon.
A família Seymour também foi bem recompensada, com tio e homônimo do príncipe, Eduardo Seymour, sendo elevado à posição de Conde e seu irmão mais novo, Thomas, nomeado Cavaleiro.

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Eduardo, Henrique VIII e Jane Seymour, no retrato da sucessão.

Parecia que o sonho de Henrique de garantir a Dinastia Tudor através de um herdeiro varão, finalmente havia se cumprido (através de Jane), mas ele teria um custo elevado.
A recepção do batismo, onde quatrocentos convidados privilegiados foram convocados a participar junto do rei e rainha para comemorar o grande acontecimento, estava destinada a ser a última aparição pública de Jane Seymour. Um dia depois, ela sofreu um terrível ataque de diarreia e na manhã seguinte, fora levada para seu leito. Até então, tudo estava correndo maravilhosamente bem, e teria continuado, caso a saúde de Jane não houvesse sido afetada.

Nove dias após o batismo de seu filho Eduardo, a rainha Jane recebeu os últimos ritos pelo Bispo de Carlisle, vindo a falecer nas primeiras horas da manhã, em sua cama, no Palácio de Hampton Court. Segundo aponta a historiadora Elizabeth Norton: “De manhã, seu confessor veio até ela e passou toda a manhã ao seu lado, oferecendo algum conforto, caso Jane estivesse ciente da situação”.

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Placa Cerimonial. Descrição nas fontes.

Não podemos dizer com certeza o que teria acontecido se ela tivesse vivido, mas é seguro assumir que ela teria se tornado muito influente. Em sua biografia de Jane Seymour, Elizabeth Norton aponta que houve momentos em que Jane exibiu traços da mesma rebeldia e força encontradas em suas antecessoras, mas ela era uma mulher que sabia como jogar o jogo da política realmente bem (tendo servido sob o reinado de ambas), de forma que ela permaneceu em silêncio na maioria das vezes, porque ela sabia que, nesta fase, Henrique não era um homem que gostava de ser contrariado. Ele não era mais o “Sir Coração Leal” com quem sua primeira esposa, Catarina de Aragão, havia se casado, ou mesmo o homem que agiu como um adolescente quando perseguiu Ana Bolena. O Henrique de Jane queria ter um filho, ele precisava de um herdeiro para garantir a dinastia Tudor. Agora mais do que nunca, desde que ele havia definitivamente rompido com Roma.

Mas com sua morte, seu legado tomou um rumo totalmente inesperado, e ela acabou por tornar-se o modelo da mulher ideal e recatada, assim como sua falecida sogra, Elizabeth de York, havia sido antes dela.

No geral, Jane foi a rainha que mais satisfez Henrique. Ela deu a ele um filho e demonstrou a adequada submissão que era esperada de uma esposa na época. Mas por trás da submissão haviam sérias convicções e uma coragem genuína, uma que sensivelmente sabia de suas limitações. Ainda assim, a história de Jane trata-se de promessas não cumpridas. Jane travou uma batalha por ela e pelo catolicismo inglês, mas acabou perdendo a vida antes de poder dar continuidade a ela. Porém, ela havia conseguido tudo o que se propôs a fazer: Havia dado ao Rei o filho que tanto desejou, havia ajudado a restaurar a sucessão de Maria e o afeto de seu pai, e usou sua influência para promover sua família. Talvez seja verdade o que dizem “São sempre os mais quietos os apreciados”, pois o silêncio pode falar mais alto que palavras.


FONTES:
LOADES, David. Jane Seymour: Henry VIII’s Favourite Wife. England: Amberley Press, February 19, 2015.

NORTON, Elizabeth. Jane Seymour: Henry VIII’s True Love. England: Amberley Press, May 18, 2010.
STARKEY, David. The Six Wives of Henry VIII. England: Harper Perennial; Reprint edition, May 4, 2004.
Tudor and Other Histories: AQUI – [Jane the Queene Brought in Childbed of a Prince]. Acesso em 2016.

Image – Placa Cerimonial: Essa foto, foi tirada do site Tudor Blog e mostra uma placa fora da Capela Real de Hampton Court Palace. A placa combina o conjunto de armas de Henrique VIII com Jane Seymour, adornada por anjos sob uma coroa de ouro e rosas Tudor, como o lema de Henrique na parte inferior. Logo acima do lema e de cada lado do escudo, estão suas iniciais “H” e “I” entrelaçadas em românticos nós. (O ‘’I’’ é a inicial de Iana ou Iohanna – Jane em latim) Há também, uma placa no interior da capela, que afirma que o coração de Jane foi enterrado lá.

Artigos Interessantes:
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O Parto no Período Tudor;
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A morte de Catarina Parr;
A Morte de Ana de Cleves;
A Morte de Catarina de Aragão.

 

 

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5 comentários Adicione o seu

  1. Great article and thanks for sharing mine as well! I love your blog.

    1. Tudor Brasil disse:

      We love your page. Thank you! ❤

  2. roberta fernanda disse:

    Jane Seymour é um enigma,mas eu gosto dela pois jogou como Ana Bolena,mas usou cartas melhores. Foi uma boa observadora,pena ela ter morrido tão cedo…

    1. Tudor Brasil disse:

      Também achamos, Roberta!

    2. Nilda Costa disse:

      A sorte foi ter conseguido ter um filho homem. Senão era outra a ser desprezada.

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