Reviver a História: Saga das Mulheres Guerreiras – “As Ahosi de Daomé”

As guerreiras “Ahosi” de Daomé (Atual Benin, país do continente Africano) são a única unidade feminina reconhecida historicamente, ou seja, nunca antes no século XVII foram encontrados registros de um exército somente de mulheres guerreiras na História Mundial. Como vimos anteriormente, nos artigos anteriores da saga de nossa página Reviver a História: “Mulheres Guerreiras”, a arte da guerra era comum a mulheres de diversas tribos celtas da Antiguidade e, historiadores e arqueólogos acreditam que de fato existiram mulheres nórdicas que dominavam instrumentos de guerra e faziam parte dela. Entretanto, em nenhum desses casos (e outros que ainda vamos ver) não existiu uma oficialidade da mulher na luta, muito menos enquanto parte de uma unidade militar e é isso, além de um treinamento brutal, que faz das Ahosi africanas diferentes desses casos.

steampunk-sistas1Ao que tudo indica, as Ahosi, que significa “mulheres do rei” e que também eram conhecidas por “mino” traduzido para o português como “mães” ou “minha mãe”, e ainda como “gebto”; inicialmente não eram guerreiras mortais, mas sim caçadoras de elefantes, isso no fim do século XVII, onde encontramos os primeiros registros sobre elas. De acordo com a teoria mais popular, as Ahosi foram formadas sob o reinado de Hwegbajá com essa intenção, entretanto, já no século XVIII, o novo rei Agadja, filho do anterior, ficou encantado com a ferocidade delas e decidiu que as transformaria de caçadoras de elefantes em suas guarda-costas, mulheres aptas a protegê-lo dentro do palácio. Outra teoria indica que a unidade militar das Ahosi, enquanto guerreiras palacianas, foi criada em 1645 pelo rei Ada Onzoo; suas armas de guerra eram tacos, lanças e arcos de guerra. De um número inicial de 800 mulheres guerreiras, foram se expandindo de forma tão rápida que chegaram a ser metade do exército real, em torno de mais de 4000 guerreiras.

O treinamento de uma guerreira Ahosi era forte, bruto e procurava não apenas transformar uma mulher de Daomé em uma guerreira mortal, mas também a insensibilizá-la a fim de que suas dores fossem superadas, de que jamais o medo fizesse parte de suas batalhas e que sua sede de sangue nunca se extinguisse. Além de tudo, seu treinamento exaustivo e brutal era também uma forma de lembrá-las a sempre superarem os homens nesses mesmos quesitos, não como forma de demonstrar sua superioridade a fim de derrotá-los, mas para demonstrar que por serem mulheres, elas poderiam provar ser tão boas quanto eles. Vivendo em uma sociedade patriarcal, as daomenianas que desejavam fazer parte do exercito Ahosi ainda tinham essa prova a mais.

imagem 03 artigoParte desse treinamento era escalar um muro coberto de sebes de espinho sem mostrar dor como demonstração de sua resistência. O treinamento também envolvia prisioneiros de guerra que seriam armados com tacos, então as Minos definiriam quantos elas poderiam matar. Outra parte do treinamento era jogar prisioneiros de guerra para fora de uma plataforma elevada, onde aos gritos de uma multidão aguardavam que os novos recrutas acabassem com o prisioneiro. Sua ferocidade no treinamento era acompanhada por uma ferocidade em batalha.

O recrutamento das Ahosi era bem interessante, algumas entravam para a unidade a fim de escapar da pobreza, outras para ter renome e fama, algumas eram enviadas pelo próprio pai, caso ele percebesse que ela não daria uma boa esposa a um “bom daomeniano”. E ainda há casos de maridos que enviavam suas esposas por acharem que serviriam melhor ao rei do que a eles mesmos.

220px-dahomey-amazonerAproveitando o “gancho” é importante ressaltar que, ainda que fosse parte de um corpo militar feroz, agressivo e brutal, ainda que se provassem tão intimidadoras quanto os homens de Daomé, as Ahosi eram mulheres e como tal, vivendo em uma sociedade patriarcal e machista, deveriam servir aos homens, por isso era comum esses pais ou esposos enviarem filhas e esposas ao exército das Ahosi, pois elas serviriam melhor às necessidades do Estado do que as deles. Importante também lembrar é que essas mulheres eram proibidas de ter contato sexual com qualquer homem, a fim de não engravidar, ou seja, tinham sua vida sexual e reprodutiva controlada pelo rei. Qualquer homem que as tocasse, seria instantaneamente morto, por ordem real.

Daomé era um país de muita influência na África e participou ativamente do imperialismo africano no continente, conquistando diversos territórios próximos ao reino, como a Nigéria. Além do mais, no reinado do rei Gezo, com a ajuda direta do exercito das Ahosi, Daomé chegou ao seu ápice de influência política no continente, subjulgando o império Oyo.

imagem do artigo 02Ainda que com grande poder do reino de Daomé e da ferocidade das Ahosi, ambos os elementos não foram suficientes a fim de parar outro imperialismo, o dos europeus. Com uma tecnologia de guerra superior e um pacto político-econômico a fim de dividir Ásia e África a seus próprios interesses, não demorou muito para que uma guerra entre França e Daomé fosse estabelecida, dois grandes confrontos ocorreram na ultima década do século XVIII. Daomé atacou uma cidade colonizada pela França, e esse fato desencadeou os conflitos.

Após a derrota e a dominação colonial europeia, o rei Behanzin foi exilado, a França assumiu o controle político da Daomé e imediatamente a Unidade das Ahosi foi extinta, não permitindo a entrada de mulheres em legiões do exército. Ao que se indica apenas 50 mulheres Ahosi sobreviveram a essa guerra e teriam seguido rumo aos Estados Unidos para se juntarem ao Buffalo Bill Wild West show.

 

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Artigo escrito por Jéssica Melo Prestes.

Referências:

http://www.badassoftheweek.com/dahomey.html

http://www.blackpast.org/entries-categories/togo

http://streamafrica.com/culture/the-ahosi-of-dahomey/

http://theculturetrip.com/africa/benin/articles/a-history-of-female-empowerment-the-mino-of-benin/

 

 

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1 comentário Adicione o seu

  1. álvaro disse:

    Guerreiras Ahosi…gostei de saber.

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