Resenha do Livro ‘Elizabeth – Uma Biografia’, de Lisa Hilton

”A ideia de que a Inglaterra elizabetana viveu uma ‘Idade de Ouro’ era tão mítica na época em que Shakespeare escrevia quanto hoje” – L. Hilton,  p.20

O período Tudor é repleto de personalidades memoráveis: Henrique VII, Thomas More, Shakespeare, Henrique VIII, Ana Bolena, Maria I, e Elizabeth I, são apenas alguns dos muitos nomes que ilustram a época em que uma das mais famosas dinastias inglesas, governou a Inglaterra.
Deste modo, não é de se estranhar que existam inúmeras biografias sobre tais personagens, disponíveis no mercado brasileiro. Correto?
Errado. Infelizmente o mercado brasileiro conta com uma tímida e espaçada gama de títulos sobre o período Tudor que, mesmo contando com exemplares interessantes, mais aguçam a curiosidade do leitor, do que sanam dúvidas sobre o assunto.

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Elizabeth I – Rainbow Portrait (1600/1602) – por Isaac Oliver

Foi pensando nisso que a editora Zahar, escolheu trazer ao Brasil no primeiro semestre de 2016, o livro Elizabeth – Uma Biografia. A ideia tema da obra (que tem como título original ‘Elizabeth – The Renaissance Prince’) conforme o título original sugere, é trabalhar a imagem de Elizabeth I (sua propaganda política e iconografia) como uma rainha que posicionou seu reino – onde segundo a autora, o renascimento chegou tardiamente – ao status de estado, fazendo desta, verdadeiramente um ‘príncipe’ renascentista e criatura de sua época, quando modelou seu próprio direito de governar em um novo contexto politico, arrogando o poder divino para si. Em outras palavras, a rainha assumiu seu corpo político, que transcendia o gênero, o corpo natural de um governante, através do poder divino de Deus.

Tal concepção evoca ao melhor estilo, o famigerado discurso realizado pela monarca em Tilbury, no dia 09 de agosto de 1588. Onde dizia: –

Sei que tenho o frágil e fraco corpo de uma mulher, mas eu tenho o coração e estômago de um Rei, e de um Rei da Inglaterra também.”

Autora de best-sellers de não-ficção e ficção, como ‘Athénais: The Real Queen of France’, biografia que aborda a vida de Madame de Montespan, maîtresse en titre de Luís XIV da França, e, ”Queens Consort: England’s Medieval Queens”, sobre a trajetória das grandes rainhas inglesas, Lisa Hilton, jornalista, escritora e historiadora da arte, é figura conhecida nas prateleiras de livrarias, periódicos, documentários e outros temas no exterior. Dentre os célebres documentários que participa, geralmente falando sobre a história da realeza, estão, “Bloody Queens: Elizabeth and Mary”, sobre as rainhas Elizabeth I e Maria Stuart, e ”The Royals’’ (disponível na Netflix), sobre a realeza britânicaHilton, que é formada em inglês pela Universidade de Oxford, extendendo depois sua gradução pra história da Arte, em cidades como Florença e Paris, é conhecida entre os britânicos, por seu modo crítico e direto ao abordar certas personalidades históricas.

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Documentário ‘The Royals’, disponível na Netflix.

Para suportar a premissa de seu livro, Hilton traça paralelos bem-vindos com a mais famosa obra do poeta e diplomata italiano, Nicolau Maquiavel: ”O Príncipe”. Utilizado por muitas pessoas através do tempo, como um guia do poder (como por exemplo, William Cecil e Nicholas Brandon, ministros de Elizabeth I), de prosa e lógica simples, o livro de Maquiavel tinha como objetivo, fornecer conselhos práticos e as vezes, um tanto jocosos, sobre como governar. O intuito principal do documento, é explicar como assumir o controle e como administrar suas terras, pautados em conselhos muitas vezes longe de regras éticas e morais, valendo-se da máxima: Os fins, justificam os meios.

Embora Hilton admita que não é possível afirmar que a rainha leu o livro de Maquiavel, ela aponta que, tal conteúdo era amplamente difundido na Inglaterra quando ela subiu ao trono. Sendo, conforme mencionado acima, lido por seus próprios ministros (p. 23).

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Lisa Hilton

Lisa inicia o livro tratando de uma análise sobre o conceito daquela então nova ciência que englobava várias artes e correntes filosóficas, chamada de Renascimento e abordando uma pintura alegórica de 1569/1603 de Elizabeth I, intitulada ”Elizabeth I and the Three Goddesses” (Elizabeth I e as três Deusas). Através da obra do pintor holandês Joris Hoefnagel,  a autora mostra como a rainha pretendia ser vista por seus súditos: Como uma soberana que levaria a Inglaterra consigo rumo a um renascido status de estado (no melhor estilo de Maquiavel), partindo para as análises e construções de um estado e governo.

Uma vez que é formada em história da arte, Lisa traça paralelos e observações bastante pertinentes sobre a iconografia de Elizabeth I, através de sua propaganda política veiculada em seus retratos e vestes ricamente ornamentadas, que até hoje são fortes sinônimos deste período. Ela fala sobre como a monarca se reinventou para o posto que ocuparia, desde as roupas pesadas, com joias e tecidos que carregavam profunda simbologia e significado, até sua assinatura, que conotava sua formação clássica e que, ao contrário de seus predecessores, criava um floreio agressivo e intrincado (p. 28). Em suma, ela colocava-se como um príncipe, pois assinava como tal. Este aspecto inicial do livro portanto, mostra-se impecável e explica ao leitor, como Elizabeth jogava com sua erudição para seus próprios fins.

Hilton também nos agracia com seu entendimento histórico artístico, ao escrever sobre os tecidos utilizados nas tapeçarias do período, o comércio e importância da seda no norte da Itália e tinturas da Turquia, essenciais para a confecção de um bom produto final. Ela também fala das pinturas do período como mais que simples quadros, retratos interativos que na época, iluminados por tochas e velas, faziam o expectador conversar com seu olhar. Tudo isto, para introduzir o leitor sobre como o figurino de Elizabeth em seus retratos, era milimetricamente escolhido, a fim de mostrar ao povo, sua ascensão de monarca à imortal.

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Exemplos de detalhes utilizados nos retratos de Elizabeth I.

Segundo a autora, tudo que a rainha fazia questão de expor de seu seio privado, era intimamente analisado e transformado em aspecto positivo para seu seio político e reinado. Desde suas pinturas prévia e amplamente estudadas, até seus vestidos característicos, eram utilizados por ela, como símbolo de poder, a fim de introduzir a Inglaterra – que comparado a muitos reinos europeus, era uma tímida província em ascensão – em um valioso reino protestante, digno de estratégias e alianças políticas por todo o continente.

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Detalhe do retrato de Nicolau Maquiavel, por Santi di Tito – segunda metade do século XVI.

Durante a leitura, podemos notar também, paralelos traçados entre Maquiavel e o governo de Elizabeth, com obras shakespearianas, como por exemplo, ”Henrique VIII” (p.23). Hilton mostra como a peça ”reflete o legado de Elizabeth, sendo um meio útil de contextualizar as duas dinâmicas contrastantes que definiram o governo da rainha e, em certa medida, criaram sua lenda” (p. 22), além de citar que em tal documento, ecoam as máximas de Maquiavel.
Ela também cita o bardo em algumas outras passagens, como por exemplo, em uma interessante análise do retrato da Armada, de 1588, atribuído a George Gower. A ideia de traçar paralelos entre aspectos do reinado de Elizabeth com obras como as de Nicolau Maquiavel (O Príncipe), William Shakespeare (Henrique VIII), Cristina de Pisano (A Cidade das Damas), e Baldassare Castiglione (O Cortesão), no decorrer do livro, foi um modo sensacional de criar um reflexo da construção de sua figura de soberana, com os maiores intelectuais do período e de antes dele.

No entanto, é necessário ressaltar que, a profunda e detalhada abordagem do contexto político aplicado no livro é muito interessante, e até então inédita em títulos similares no Brasil, porém, não é inovadora na área de pesquisa internacional, voltada ao período – uma vez que este foi um período de extensa mudança política, aspecto este, ressaltado em inúmeros livros de pesquisa sobre a dinastia e seus soberanos.

A passagem político-religiosa do livro de Hilton, é talvez, depois da análise das pinturas e indumentária do período, a parte mais aprazível de toda a leitura. Hilton destaca, como durante o reinado de Elizabeth I, fazia-se necessária uma ruptura política aos velhos costumes ingleses. Ela adentra à aura religiosa, contexto conturbado na época, citando que:

”A Europa estava mudando. A superestrutura da igreja, que impusera sua hierarquia aos remanescentes do governo feudal, tivera sua autoridade diminuída; na Inglaterra essa autoridade fora destituída.” (p. 22)

Em outras palavras, o cristianismo e a arte quase maquiavélica de governo utilizada no período elizabetano, eram intensamente opostas, mas que fazia-se necessária diante a conjuntura de mudanças de tais ideais.

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Elizabeth and the Three Goddesses, por Joris Hoefnagel, 1569/1603.

Os aspectos da igreja reformada citados por ela, também são interessantes. Sua explicação sobre como a fusão do estatal com o espiritual na supremacia do monarca, era reforçada através de salmos na igreja anglicana, ou o fato de que o povo via Elizabeth como virgem, pois a simbologia da igreja foi substituída pela da monarquia após a reforma, é sensacional e muito pertinente ao leitor.

E as análises de Maquiavel citadas no início do texto, não cessam nas primeiras páginas. Mesmo sem sabermos se a monarca teve de fato, contato com a obra (não existem documentos claros o suficiente para a afirmação de que Elizabeth leu ‘O Príncipe’ e muito menos que utilizou seus ensinamentos como aspectos de seu reinado), a contiguidade da monarca com os conceitos de poder aplicados na obra do diplomata no decorrer do livro, são crescentes, mesmo que não propositais e aguçam a perspectiva do leitor, mesmo que leigo no tema, a compreender melhor tal conjuntura histórica.

Já nos primeiros capítulos do livro, Hilton traça as similaridades que Elizabeth pode ter herdado de sua mãe, como por exemplo, o amor cortês utilizado, mesmo que com intenções diferentes, em sua corte. Outro aspecto interessante, é o cuidado da autora em revelar que Henrique VIII, embora tenha negligenciado alguns cuidados à sua filha, momentos após a morte de Ana, tinha para com ela carinhos e cuidados que cabiam a um pai, monarca, naquele período, embora sejam muito diferentes do nosso compreendido zelo atual. A autora é rápida ao nos entregar logo no início do livro, que as duas grandes influências, direta ou indiretamente na vida de Elizabeth I, foram sua mãe e sua madrasta, Ana Bolena e Catarina Parr; uma que trabalhou os aspectos da vida na corte e outra, os aspectos religiosos.

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Maria I da Inglaterra, por Antonis Mor, 1554.

No entanto, conforme a leitura vai avançando, um aspecto torna-se claro: Hilton não é historiadora. Ela é jornalista e por tal motivo, nos entrega uma escrita informal, intimista e bastante confortável para a leitura, mas sem perder o alto teor acadêmico da mesma. Porém, do mesmo modo que sua área de exercício nos fornece um deleite perante a leitura, mostra-nos que certos cuidados deveriam ter sido previamente tomados. A ausência de uma rigidez em expor a cronologia, deixa o leitor um tanto perdido diante de tantos registros históricos e mostra a falta de intimidade da autora com datas e em como organizá-las, a fim de facilitar o entendimento maior do leitor. Isso, por ventura, se dá em razão da autora não ser historiadora, já que historiadores geralmente tem a preocupação em especificar e delimitar no decurso de suas pesquisas o recorte temporal. No entanto, este aspecto não prejudica a qualidade da obra. Hilton também é rápida ao praticar outra modalidade controversa entre os historiadores: o juízo de valor. Isto é, expor sua opinião pessoal na medida em que analisa suas fontes. Ao alegar certos aspectos, característicos de sua empreitada em assuntos de cunho historiográfico, ela abre espaço para conclusões que não cabem ao leitor e tampouco à autora, como por exemplo, a de que Maria I era uma rainha amargurada e pouco voltada à conjuntura política de seu reinado (aspecto este que, há muito vem sendo desconstruído por historiadores), ou até mesmo o envolvimento de Catarina Parr com seu último marido, Thomas Seymour, classificado por ela como ”erótico” (p. 113). Ela também classifica Catarina Howard como uma ”pobre estouvada” (p. 61), Henrique VIII como ”pesadão e desajeitado”, e reforça o boato apócrifo de que Ana de Cleves, quarta esposa de Henrique VIII, foi chamada de Égua de Flanders (p. 59), entre outros. Isto não desqualifica a leitura, mas é um aspecto que decepciona, diante de uma obra que até então, estava agradando muito.

Porém, embora ela estereotipe Maria I, é interessante notar que a autora reconhece a educação humanista e erudita da mesma, e a influencia que esta, exerceu sobre sua irmã mais nova. Ela mostra como Elizabeth utilizaria algumas características do reinado de Maria, em seu próprio. Como por exemplo, as retóricas de seus discursos, seu anel de coroação que representava seu casamento com a nação, ou as tentativas de apresentar sua igreja como nacional.

Um ponto bastante equivocado que me surpreendeu assim que abri o livro e o caderno de ilustrações, é que ela não mostra o famoso retrato de Ana Bolena do National Portrait Gallery ou até sua medalha comemorativa (fonte mais segura da aparência da segunda esposa de Henrique VIII, uma vez que foi cunhada durante seu reinado), e sim, apenas um esboço, feito por Hans Holbein (p.66). Tal esboço é controverso, uma vez que poucos historiadores o classificam como sendo de Ana. Uma vez que a catalogação do mesmo é posterior, muitos historiadores sequer o citam em seus trabalhos. O principal biógrafo de Ana Bolena, Eric Ives, refuta a identidade do mesmo.

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Livro ‘Os dois corpos do rei’ por Ernst H. Kantorowicz.

Uma obra bastante citada por Hilton no decorrer da leitura,  e que não poderia ser diferente, é o livro ‘Os Dois Corpos do Rei – Um estudo sobre a teologia política medieval’ do historiador germano-americano, Ernst H. Kantorowicz. As citações da obra de Kantorowicz, servem para mostrar como Elizabeth I fazia a distinção entre estes dois corpos, usando-os sempre que necessário. Ela mostra que seu corpo natural era o de uma mulher e o politico, de um príncipe, pois um soberano não possuía gênero, ele era seu cargo. Segundo Lisa, tais dualidades biológicas eram os aspectos centrais de sua autoridade que, procurava ressaltar através das linhas citadas no início do texto (como indumentária e maquiagem) uma virgindade mística, confirmando não apenas sua autoridade como chefe de estado, mas também como figura divina de proa de uma nova religião.

O livro é um emaranhado de documentos históricos do início ao fim. A vasta gama de registros e cartas do período, especialmente as trocadas por Elizabeth com seus pretendentes ou outros reinos europeus, fornece uma riqueza de detalhes ímpar, que acompanha o leitor no decorrer da obra.

Enquanto crítica política e artística de um reinado, a autora exprime de modo impecável em sua biografia, percepções sobre o período, transformando o livro em um deleite sem igual. No entanto, tal aura torna-se um pouco confusa, ao adentrar em outros aspectos (que, talvez sejam resultado de sua não graduação em história), como a convicção de certeza dentro da historiografia, juízo de valor e deslizes cronológicos.

Minha Opinião:
Eu, sinceramente, não acredito que tais deslizes comprometam a leitura como um todo, pois esta é repleta de pontos altamente relevantes. No entanto, sou obrigada a mostrar tais aspectos ao leitor que, por talvez desconhecer os mesmos, não os note durante o decorrer do livro.

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Detalhe de Elizabeth I no retrato da Armada, por George Gower, 1588.

Eu indico a leitura para todos os que são fascinados pela iconografia elizabetana (o significado de sua indumentária e retratos dentro da propaganda e construção política de seu reinado), retratada com exímia precisão através das páginas, as análises partindo de princípios maquiavélicos, ou até mesmo o controverso ”culto a Elizabeth”, que é explicado por Hilton no decorrer da leitura.

Para mim foi um livro bastante enriquecedor, que até agora não vi igual no Brasil e que sana dúvidas de um dos principais aspectos do reinado desta mulher, que foi a última monarca Tudor: como uma mulher considerada um símbolo de heresia e bastardia por quase todas as potências católicas européias, conseguiu manter-se no poder em um reino relativamente tão inferior.

Dados sobre o livro:
Leia um trecho gratuitamente: AQUI.
Título:
Elizabeth. Uma Biografia
Autor: Lisa Hilton
Lançamento: 12/5/2016
Encadernação: Brochura
Tradutor: Paulo Greiger (idioma: português; original: inglês)
Páginas: 416
Capítulos: 28
Categoria: Biografia
Ilustrações: Dois cadernos ilustrados
Editora: Zahar.
À venda: AQUI.

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