Maria Stuart [Parte IV]: O Retorno à Escócia

A morte de Francis II da França, em 5 de dezembro de 1560, representou um forte golpe à Maria, especialmente no que dizia respeito ao rumo que esta agora deveria tomar em sua vida. Conforme os meses foram passando, sua presença na França passou a incomodar a rainha-mãe Catarina de Medici, e Maria por fim, decidiu que seu futuro encontraria-se na Escócia.

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Retrato de Francis II e Maria Stuart, datado de 1558.

Quando aportou em Calais em 1561, a jovem de 18 anos, rainha da Escócia e rainha viúva da França, trajando vestes negras, rompeu em lágrimas quando enfim teve de dizer adeus ao reino que por tantos anos chamou de lar. Seu destino a levaria agora a seu reino, um local praticamente desconhecido para ela. Maria havia sido rainha da Escócia desde o berço, quando contava com apenas uma semana de idade. Aos cinco anos ela foi enviada à França, para manter-se longe das garras inglesas. Aos 15 anos, em 24 de Abril de 1558, ela casou-se com o então futuro Francis II da França, que na época contava com 14 anos. Sua união com o jovem herdeiro fora breve e acredita-se que no momento de sua precoce viuvez (após dois anos e oito meses de casada), ela ainda continuava donzela.

A frota de galeões escocesa que veio à Calais para busca-la, foi comandada pelo alto almirante da Escócia, James Hepburn, Conde de Bothwell – que estava destinado a desempenhar no futuro, um importante papel na vida de Maria. Ao contrário do aflito coração da jovem, os mares que a levariam para seu destino estavam cálidos. Deste modo, a viagem rumo à Leith (distrito de Edimburgo onde localiza-se o porto) foi rápida, levando muito menos tempo que o esperado.

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Retrato vitoriano da chegada de Maria à Leith.

Ela chegou à Leith, em uma manhã nublada do dia 19 de agosto de 1561. A chegada antecipada a preveniu de uma comitiva e festa de boas vindas no cais. Ao seu lado nesta nova jornada, estavam suas damas de companhia, as quatro Marias e seus três tios maternos da casa francesa de Guise.

Ao desembarcar no local, podemos apenas imaginar o misto de emoções desta jovem; ela deixara o país que para ela havia sido seu lar, rumo a um destino repleto de apreensão e incertezas. No local, Mary foi primeiramente escoltada até a casa de um comerciante local, por nobres liderados por seu meio-irmão ilegítimo, Lord James Stewart – Conde de Moray, que veio para acompanhá-la através de Edimburgo, onde uma multidão aos poucos reuniu-se para animá-la em seu trajeto de volta ao lar. A passagem de Mary foi comemorada com reluzentes fogueiras acesas na fria noite escocesa, enquanto ela presidia um banquete. Após cear em Leith, Maria e sua comitiva partiram rumo ao Palácio de Holyroodhouse. Sua rota foi acompanhada de uma multidão de curiosos que a aplaudiam e comentavam o vislumbre de sua rainha. Com sua pele de alabastro, cabelos encaracolados cor de areia, jovem, alta, graciosa e vivaz, Maria causou uma excelente impressão no povo.

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Chegada de Maria à Escócia.

Sua entrada oficial à Edimburgo, foi recebida com fogos de canhões no local. Em todo local que a comitiva real passava, o povo ia às ruas saudá-la. Maria então, montou a cavalo pela Royal Mile, onde foi recebida por artistas fantasiados, jogos e cenas teatrais.

Uma passagem interessante, ocorreu quando a rainha ouviu uma serenata embaixo de um arco de madeira colorido, sob o céu nublado. No local, os presentes ‘cantaram músicas adequadas à ocasião’. Segundo um cronista do período, quando a rainha atravessou o arco, as nuvens dissiparam-se e súditos entregaram à ela as chaves da cidade, juntamente com a bíblia e livro dos salmos cobertos com rico veludo roxo (a cor da realeza).

No Bow Nether (local onde atualmente encontra-se o Scottish Storytelling Centre) outro andaime foi erguido para ocasião. Nele, uma marionete de dragão foi manipulada enquanto alguns discursos foram proferidos em homenagem à rainha. Pouco depois, a marionete foi queimada.

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Palácio de Holyrood.

Quando o sol se pôs, dando lugar a sua primeira noite em seu reino, a rainha se ausentou, enquanto um número de 500 ou mais músicos amadores, a mantinham acordada com seus violinos e cantos desafinados dos salmos (pois melodias profanas são proibidas pelos pastores calvinistas), debaixo de sua janela. Na manhã seguinte, com seu habitual charme bem-humorado, Maria agradeceu-lhes a cortesia.

Apesar de toda a pompa que marcou seu retorno à Escócia, Maria enfrentou uma situação política volátil e traiçoeira. Sua devoção à fé católica significava que ela era vista com desconfiança e hostilidade por muitos. Ao celebrar pela primeira vez uma missa católica em Holyroodhouse, as multidões prontamente apareceram para protestar.

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Maria Stuart.

O Palácio de Holyrood, ou Holyroodhouse, foi 0 lar de Mary em Edimburgo, e havia sido reconstruído por seu pai, James V. Seus quartos na torre noroeste, incluíam uma câmara de presença para receber os visitantes, seu quarto de dormir, uma câmara de jantar pequena e uma sala que era um misto de quarto de banho e de vestir. O palácio tinha um grande parque de veados, onde ela passou a caçar e construir um novo quarto de banho, onde supostamente gostava de banhar-se imersa em vinho branco, que acreditavam fazer bem à pele.

Embora a jovem rainha falasse fluentemente o escocês, ela era mais francesa que nativa. Ela manteve uma esplêndida corte em estilo francês e a maioria de sua household era composta por franceses. Os rigorosos protestantes ficaram horrorizados com o fato de que tanto Maria quanto suas damas, dançavam em bailes e banquetes. John Knox, conhecido por menosprezar a figura feminina no poder (especialmente as católicas, como Maria Stuart e Maria I da Inglaterra), já havia emitido uma denúncia de todas as governantes do sexo feminino em sua publicação que ficou conhecida como: ”The First Blast of the Trumpet Against the Monstrous Regiment of Women’’ de 1558. Ele disse que a rainha havia trazido com ela, para a tristeza da Escócia, ”dor, trevas e toda a impiedade’’. Ele reclamou que Holyrood em breve tornaria-se um bordel e atribuiu o fascínio que Mary exercia sobre os homens, à “algum encantamento pelo qual estes são enfeitiçados’’. Os esforços da rainha em discutir com ele, fracassaram completamente. Conforme o tempo mostraria, sua atratividade perante os homens representaria sua infalível capacidade em escolher o parceiro errado.

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James Stewart, meio-irmão de Mary.

Maria era popular com muitos de seus súditos, mas enfrentou sérios problemas. Ela era uma católica romana e, embora assistisse à missa apenas em privado e anunciasse não ter nenhuma intenção em interferir com o protestantismo oficial da Escócia (embora em plano privado, confidenciasse ao Papa o oposto), ela levantou suspeitas protestantes. Embora tivesse o apoio de Lord James Stewart e outros, a nobreza escocesa estava propensa à ilegalidade, violência, brigas e rapacidade, estando portanto, longe de ser fácil de lidar. Além disso, ela era por direito de sangue, não apenas rainha da Escócia, como a herdeira mais próxima (depois de Elizabeth I) do trono da Inglaterra. Na verdade, os franceses sustentavam que Maria possuía uma maior reivindicação ao trono, que a própria Elizabeth I. A recusa de Maria em renunciar a tal reivindicação, rendeu a hostilidade da monarca inglesa, que provaria à sua prima, diante de alguns fatores, ser mais comedida na arte de governar.

Mesmo assim, as coisas correram relativamente bem para Maria em seus primeiros anos na Escócia. No entanto, sendo a rainha jovem e viúva, logo foi levantada uma amarga questão entre seus conterrâneos: o casamento.
Após a morte de Francis, a rainha possuía muitos pretendentes. No entanto, ela não tinha pressa em casar-se novamente. Ela sabia que sua posição era delicada e que tinha de pensar em uma série de fatores antes de uma nova união.

Primeiramente, a rainha queria que seu marido fosse um membro da família real. Os reis da Suécia e da Dinamarca foram cogitados, assim como o novo rei da França, e até mesmo Don Carlos, herdeiro do rei da Espanha. Estava claro que o objetivo da rainha era um marido experiente na arte de governar, sendo monarca ou herdeiro de algum trono estrangeiro. No entanto, uma possível união teria de ser pensada nos seguintes aspectos:

– Religião:
Um marido católico iria perturbar os protestantes escoceses, mas um casamento protestante, iria perturbar os católicos na Inglaterra e resto da Europa.

– Influência estrangeira na Escócia:
Os escoceses haviam se rebelado contra a influência francesa sobre o seu país. Sendo assim, um marido estrangeiro poderia representar um problema. Além disso, um marido estrangeiro poderia implicar a Escócia em guerras contra a Inglaterra.

– A opinião de Elizabeth I:
Maria sabia que era herdeira presuntiva de Elizabeth I. Deste modo, ela não poderia arriscar ofendê-la, casando-se com alguém que representasse um perigo em potencial para o reino inglês.

– União espanhola:
A primeira escolha de Maria foi Don Carlos, filho de Filipe II da Espanha. No entanto, sendo a Espanha o maior inimigo da Inglaterra, um marido espanhol poderia utilizar a Escócia como ponto de apoio para invadir a Inglaterra – talvez para colocá-la no trono. Em 1563, Elizabeth disse à Maria que um casamento espanhol faria da Inglaterra sua inimiga. Discussões continuaram por mais uma ano, até que tornou-se óbvio que Don Carlos não estava apto a desposar ninguém.

No entanto, a questão marital mostraria-se resolvida quando, em 1565, ela apaixonou-se por um de seus primos paternos, Henry Stewart, Conde de Darnley. Maria ficou deslumbrada pelo jovem. Ela disse que ele era “o mais vigoroso e melhor proporcionado homem que já vira”, cometendo portanto, o fatal erro de desposá-lo. Não demoraria muito para ela amargar o resultado de tal união, que seria o primeiro de muitos deslizes que ocasionariam em sua queda.

CONTINUA…

Bibliografia:
History Today (artigo: Mary Queen of Scots Leaves France to Scotland): AQUI.
Educational Scotland (artigo: Mary Returns to Scotland): AQUI.

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