A Vida de Dido Elizabeth Belle – Parte II

A possível influência de Dido nas ações do seu tio avô, Conde Murray:

O cotidiano de Dido não era fácil. Ela teve que lidar com o preconceito racial não apenas nas ocasiões em que a família Murray recebia convidados da aristocracia inglesa em sua residência. Na comunidade em que ela vivia os olhares diários de estranhamento quando ela percorria as ruas eram recorrentes. Certamente, Dido vivenciou o preconceito racial cotidianamente, afinal, ela destoava dos ‘padrões’.

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William Murray, 1 Conde de Mansfield, tio-avô de Dido.

Para além destes aspectos, os registros reforçam a ideia de que os Murrays se apegaram a menina e, eventualmente, pesquisadores afirmam que o carinho estabelecido por esta relação pode ter influenciado as ações profissionais do seu tio avô. O Conde Murray exercia a função de Lord Chefe de Justiça, conhecido entre seus pares como Lord Mansfield. O Lord Mansfield de maneira direta e indiretamente, influenciou na ampliação do debate em torno da necessidade do fim da escravidão. Em sua opinião era importante que a Inglaterra avançasse na discussão sobre o fim da escravidão a partir da criação de uma lei específica. Como dissemos anteriormente, ele era contrário a escravidão e tinha acesso à obras de intelectuais que defendiam o fim do regime escravocrata. Foi durante a condução do Julgamento de Somerset no ano de 1772 que os rumores em relação a sua contrariedade em torno do sistema escravocrata ganharam maior repercussão na Inglaterra.

Entre os anos de 1771 e 1772 os tribunais britânicos tiveram que avaliar o caso do escravo James Somerset que foi levado à força da Inglaterra para uma das colônias inglesas. Lord Mansfield foi encarregado de conduzir o caso e, historiadores que se dedicam ao estudo do processo abolicionista inglês, avaliam que a maneira pela qual Mansfield conduziu este julgamento dava mostras de que ele defendia o fim da escravidão. Em um dos seus discursos Mansfield proferiu frases segundo o qual considerava abusivo um país permitir a existência além da escravidão, forçar indivíduos a se deslocarem e serem vendidos para o exterior.

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”Am I not a man”, emblema utilizado durante a campanha para abolir a escravidão. Imagem extraída de um livro de 1788.

Em sua decisão final sobre este julgamento, ele considerou como injusta a venda de pessoas para outros países de maneira indiscriminada e sem qualquer tipo de regulamentação. Esta ação que fez com que várias pessoas considerassem que Murray estaria abrindo um precedente para conduzir o processo que levaria ao fim da escravidão. Boatos sobre ele ter concedido a liberdade a escravos teriam se espalhado rapidamente em 1772. No entanto, ele não havia concedido a liberdade para os escravos, mas a difusão do seu discurso influenciou a condução de debates em torno da necessidade do fim da escravidão no país.

Mansfield teve que vir a público desmentir os boatos de que estaria concedendo liberdade aos escravos na Geórgia, diante da propagação de notícias que ligavam seu nome a crescente onda de movimentos abolicionistas. É importante ressaltar que, a economia escravocrata era um dos motes essenciais da Inglaterra, e ir contra este modelo seria ir contra aos rumos do país. Dessa forma, apesar de ser contrário à escravidão, ele era um homem de seu tempo e, ao que tudo indica, não levou a ferro e fogo o desejo prático pelo fim deste regime. Manfield tinha uma opinião pessoal a respeito da necessidade de liberdade aos negros, todavia, ele não liderou movimentos abolicionistas.

 Vida adulta e últimos dias de Dido:

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Dido e John Davinier, no longa ”Belle”.

De acordo com as fontes, Dido viveu com a família Murray durante aproximadamente 30 anos. Seu pai biológico faleceu em 1788 e, não foram encontrados registros de que ele tenha tido outros herdeiros legítimos reconhecidos por eles juridicamente. Alguns registros encontrados sugerem que Jonh Lindsay tenha tido outra filha, conhecida como Elzabeth Palmer, e, esta teria nascido em 1765 na Escócia. No entanto, em seu testamento, Lindsay deixou cerca de 1000 libras para Dido e, no mesmo documento não foram encontradas menções para a sua outra suposta filha natural.

Dido também herdou considerável renda da sua família adotiva. No testamento de Murray redigido no ano de 1783, além de confirmar a liberdade da jovem, no intuito de garantir o seu futuro longe de quaisquer dificuldades financeiras, ele deixou especificado que a ela deveria ser concedida uma renda anual. Ele deixou em testamento para a sua sobrinha o valor de £ 10.000. Em março do respectivo ano, em 1793, o seu tio avô faleceu. Em setembro deste mesmo ano Elizabeth Belle Dido casou-se com um francês que trabalhava como administrador chamado de John Davinier. O casal teve três filhos, dos quais os gêmeos Charles e John (batizados em 1795) e William Thomas (batizado em 1802). Ela faleceu em 1804 aos 43 anos e foi enterrada na Igreja de Santo George Fields, em Westminster, atual Baywater Road. Em nossa pesquisa, encontramos informações sobre o último descendente conhecido de Dido. Trata-se do seu bisneto, Harold Davinier que, não teve filhos e faleceu na África do Sul no ano de 1975.

Continua…

Referências:
Disponível em: < https://historicengland.org.uk/research/inclusive-heritage/the-slave-trade-and-abolition/slavery-and-justice-exhibition-at-kenwood-house/ > acesso em junho de 2016.

Disponível em: http://blog.english-heritage.org.uk/belle-happened-dido-film-ended/ > acesso em junho de 2016.

Disponível em: http://sharonlathanauthor.com/wp-content/uploads/Dido-Elizabeth-Belle_-a-black-girl-at-Kenwood.pdf >

Disponível em: http://racerelations.about.com/od/trailblazers/fl/Dido-Elizabeth-Belle-Biography.htm > acesso em junho de 2016.

Disponível em: http://elizabethhanbury.blogspot.com.br/2013/02/dido-elizabeth-belle.html > acesso em junho de 2016

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