Belle – Parte III: O filme que foi inspirado em um retrato

Entre as muitas faces aristocráticas que estão penduradas nos quadros da recentemente remodelada Kenwood House, existe uma que se destaca. É o retrato de duas mulheres bonitas com roupas do século 18, duas irmãs aparentemente afetuosas. Não é algo tão incomum de se encontrar, exceto pelo fato de que uma das jovens na pintura é negra. Essas meninas são Elizabeth Murray e Dido Belle. Belle foi criada em Kenwood, uma casa parcialmente construída com o “dinheiro de sangue” do comércio triangular, e ela fez sua própria contribuição para a abolição da escravatura.

Um filme baseado em sua vida foi lançado em 2013 e recebeu o título de “Belle”. De acordo com o produtor do filme, Damian Jones: “É sobre encontrar sua identidade e o seu lugar.” Jones mora perto de Kenwood e queria contar a história de Belle, depois de ver o retrato pendurado lá: “Eu pensei que era algo extraordinário – era uma coisa raro para aquele período que uma mulher negra fosse retratada como uma igual a uma mulher branca. O retrato abre um monte de perguntas. A história de Belle no filme foi romanceada para se encaixar no período romântico, mas há também uma mensagem que é ressonante até hoje.” Laura Houliston, curadora do museu English Heritage em Kenwood, diz: “A escravidão não era apenas sobre os reis de açúcar que viviam na terra (Colônias).  Ela afetou a maioria das casas na Inglaterra.”

Então, quem é a menina no retrato, e qual é a sua relevância hoje? Dido Belle nasceu como a filha ilegítima do almirante da Marinha Real, Sir John Lindsay e Maria Belle, uma escrava que ele conheceu no caminho entre a Inglaterra e a Jamaica em torno de 1761. Quando Lindsay voltou para a Marinha, ele deixou sua filha de cinco anos de idade, Belle, aos cuidados de seu tio, Lorde Mansfield, que era o Chefe de Justiça, e vivia em Kenwood. Lorde e Lady Mansfield não tiveram filhos próprios, mas criaram Belle com Lady Elizabeth Murray, filha de um outro sobrinho de Mansfield, David Murray.

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Kenwood House, onde dido viveu em sua infância e juventude.

“A ideia de que havia uma garota que fazia parte do nosso legado cultural na Inglaterra – uma mulher da raça mista na década de 1780 – foi o que me pegou. ”, disse Gugu Mbatha-Raw,  a atriz que interpretou Belle no longa. Ela ainda destaca: Falando como uma mulher de raça mista em 2013, não há muitos contos históricos sobre pessoas como eu. Quando as pessoas pensam sobre ‘dupla herança’, eles acham que é um conceito moderno, mas não é. Eu queria fazer justiça a Dido. ”

Houliston diz que: “Os visitantes ficavam admirados pelo fato de que uma menina negra era autorizada a se juntar à família depois do jantar; e sobre como ela poderia conversar e tocar piano. Lorde Mansfield parece ter tratado Belle e Elizabeth Murray igualmente, comprando-lhes as mesmas sedas e dando-lhes a mesma educação. Esta igualdade é evidente em seu testamento, onde ele deixou para Belle uma grande quantidade de dinheiro. Ele também reafirmou que ela estava livre. ”

Porém, apesar de ter tido acesso ao conforto e a educação nos mesmos moldes que a sua prima, na prática, Dido teve que enfrentar o peso das convenções sociais. (Leia mais detalhadamente sobre os primeiros anos da vida de Belle aqui https://tudorbrasil.wordpress.com/2016/07/05/a-vida-de-dido-elizabeth-belle-parte-i/).

A diretora do filme, Amma Asante, declarou que ficou impressionada pela forma como Lorde Mansfield tratou Belle, pois de acordo com ela – considerando o contexto do período e a sociedade em que eles estavam inseridos – foi um ato de elevado nível de coragem, o que o deixou bem admirado.

Em 1772, quando Belle tinha cerca de 11 anos, seu tio-avô tomou uma decisão que iria mudar a história e, eventualmente, levaria à abolição em 1833. No caso da escravidão em Somerset, ele declarou que a escravidão era incompatível com a lei existente na Inglaterra e um mestre não podia exportar escravos britânicos. Então, em 1781, ele presidiu o caso do Massacre no navio Zong, onde 142 escravos africanos foram arremessados ao mar e se afogaram para que seus proprietários pudessem reivindicar o seguro de “carga danificada”. Em um duro golpe para os mercadores de escravos, Mansfield decidiu que os donos dos escravos não poderiam reivindicar o dinheiro.
Esse episódio, embora anacrônico, foi o escolhido para ser usado como enredo do filme de 2013, onde foi mostrado como a influência de Dido sobre a vida de seu tio-avô o impulsionou a tomar essa decisão.

Misan Sagay, que escreveu o roteiro de Belle, explica sobre o porquê de eles terem escolhido usar esse episódio em particular para desenvolver o filme: “A história abolição é muitas vezes contada sem uma pessoa negra estar lá. Mas nós queríamos que Belle a vivesse que fizesse julgamentos que afetariam a escravidão, pois mesmo que indiretamente, ela teve algum impacto sobre ela.”

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Lord Mansfield

Depois que Lady Mansfield morreu, Dido ficou na casa para cuidar de seu tio. Ela lia jornais para ele no café da manhã e o acompanhava, até que ele acabou por sucumbir ao reumatismo. Ele morreu aos 88 anos, em 1793, legando para Dido em seu testamento uma soma substancial. Belle deixou Kenwood no mesmo ano, quando se casou com John Davinier. Eles viveram em Pimlico e tiveram três filhos. Belle morreu em 1804, aos 43 anos, mas sua linhagem familiar continuou. Seu último descendente conhecido foi um tataraneto na África do Sul, que morreu em 1975. Em seu atestado de óbito sua raça é listada como branco. Ele era um mecânico aposentado, casado, sem filhos. Seu pai chamava-se Charles Lindsay, então é possível que eles soubessem de sua ligação com a família Lindsay.

A mãe de Belle, Maria, terminou na Flórida, onde John Lindsay deu-lhe terras e propriedades.  Sobre Maria Belle, segundo o historiador Gene Adams em seu livro ‘Dido Elizabeth Belle: A Black Girl at Kenwood’: “Não se sabe se Dido foi separada de bom grado de sua mãe, mas materialmente falando, a separação teria certamente ajudado tanto a mãe quanto a criança. ”

É claro que a posição de Belle era complicada e estranha perante a sociedade. Ela era uma nova rica, mas também era mestiça – Ela não era nem uma serva, mas também não era um membro legítimo da família.

Haviam aqueles na Inglaterra Georgiana que argumentaram que Dido influenciou a decisão seu grande tio. Francis Hutchinson, um americano que vivia em Londres, escreveu sobre sua visita a Kenwood dizendo que: “A negra veio após o jantar e sentou-se com as senhoras e, após o café, andou com na companhia delas pelos jardins. Uma das jovens senhoras com o braço dentro o outro… eles a chamam de Dido, o que suponho que seja o único nome que ela tem. Ele [Lorde Mansfield] sabe que foi censurado por demonstrar carinho e predileção por ela – ouso dizer que isso não é crime. ” Gugu Mbatha-Raw diz que como um personagem, Belle é ‘mal-humorada’: “Ela percebe que os Mansfields a protegeram. E isso vem como um choque para ela, em especial quando alguns outros de fora a tratam como lixo.”

150224McQueen disse que: “As pessoas de alguma forma, não querem olhar para este momento particular da história. A escravidão durou 400 anos e há menos de 20 [filmes] sobre isso. Temos de restabelecer o equilíbrio.” Asanta diz que: “O mundo está mais preparado para essas histórias do que nunca, devemos olhar para a nossa história, seja ela boa ou ruim. ”

Sagay acrescenta que ela foi atraída para Belle porque: “Este é um período da nossa história que devemos sempre nos lembrar. Hoje ainda existem juízes como Mansfield, que debatem questões que têm consequências assustadoras. Precisamos lembrar daqueles que se levantaram para o que é certo, mesmo que soubessem que trariam um impacto difícil. A história de Belle é a de uma revolução silenciosa, não só de uma mulher, mas uma história da influência de mulher negra. ”

 

O que o retrato de Dido Belle nos diz?

Lady Elizabeth Murray and Dido Belle, once attributed to ZoffanyA primeira questão que atinge o espectador é: por que Dido está apontando para a bochecha?
É um “gesto intrigante”, escreveu professora de literatura Inglesa, Christine Kenyon Jones, em um artigo para o Jane Austen Society of North America. “É com intenção de chamar a atenção para sua cor de pele, ou simplesmente para seu sorriso e suas covinhas? ”

Estas perguntas – e o mistério do que ela estava fazendo, tanto em Kenwood e quanto na pintura – dão sensação especialmente mítica sobre Dido. A pintura até mesmo inspirou um romance.
“A razão pela qual ela me surpreendeu”, diz Caitlin Davies, autora de ‘Family Likeness’, “foi que eu cresci perto de Kenwood, por isso estive dentro e fora da casa várias vezes em 45 anos. Então, de repente, em 2007, eu vi este retrato quando visitei a exposição temporária sobre Escravidão e Justiça. ”
Davies, que é branca, tinha levado sua filha mestiça junto com ela. “Ela foi muito atingida por isso, porque praticamente todos os outros retratos nas paredes eram de aristocratas brancos – e repentinamente ali estava alguém que se parecia com ela. ”  Graças ao retrato e a reação de sua filha a ele, Davies se inspirou para escrever seu romance, que é sobre uma menina mestiça crescendo em uma pequena cidade de Kent em 1950, condenada ao ostracismo por causa de sua cor.

Amma Asante, a diretora do filme, também explicou por que a pintura o inspirou para seu longa: Você vê uma menina bi racial, uma mulher de cor, que está representada como um pouco maior do que o seu homólogo branco. Ela está olhando diretamente para fora da tela, e tem um olhar muito confiante. Esta pintura… A tradição e tudo mais sobre o século 18 que esse retrato nos conta foi o que eu vi como uma oportunidade para contar uma história que poderia combinar a arte e a política. ”

De volta à pintura, vamos as outras questões. Por que Dido olha como se ela estivesse correndo para ajudar sua prima em uma missão? Para Davies, uma possibilidade é que isso começou como um retrato único. “Parece que o retrato de Elizabeth veio primeiro e, em depois, alguém decidiu que queria as duas jovens juntas e então Dido foi adicionada. O toque entre eles pode parecer estranho. Estaria Elizabeth empurrando-a para longe? Ou o pintor só manteve Elizabeth como ela estava pintada originalmente, com um braço estendido? ”

dido-bannerNo filme, o status ímpar de Dido nesta sociedade branca e estratificada é feito com uma simples frase. “Posso estar em uma classe alta demais para jantar com criados e baixa demais para jantar com a família. ”

De qualquer forma, há mais coisas acontecendo na representação de Dido do que apenas uma imagem de uma garota solitária e marginalizada. Mario Valdes, um historiador norte-americano da diáspora Africana, sugere que o turbante possa ser parte de uma tentativa de Indianizar Dido. Conforme ele explica, Entre 1770 e 1771, o pai de Dido serviu como ministro de Sua Majestade Britânica na Índia. Mas o que isso teria a ver com o gesto de Dido? Valdes explica: “Uma interpretação comum é de que ela esteja apontando para a diferença na aparência entre ela e sua prima, mas eu diria que uma abordagem muito mais sofisticada está em jogo. Há uma escultura que mostra o Deus Krishna em uma pose semelhante, e uma história conta que certa vez ele foi golpeado por uma divindade feminina para assumir a aparência de sua irmã e seu marido. Quando esta irmã tentou consolá-lo, ele sorriu, apontou para o rosto machucado, e exclamou: ‘Ela mostrou que todos os três de nós são um e a mesma coisa. ’ Dessa forma, a pose de Dido, aparentemente, estaria proclamando que ela e sua prima compartilham a mesma humanidade e dignidade inata. ”

Há última questão para se pensar é se Dido Belle chegou a ver seu retrato. Davies acha que ela pode não ter chegado a ver a pintura. “Eu me pergunto se a própria Dido chegou a ver sua pintura. Eu fico intrigado com o que ela poderia ter pensado dela, mas até onde eu tenho verificado, ela não foi mostrada nas paredes de Kenwood durante sua vida. ”

Talvez ela teria gostado. Só podemos imaginar, mas sabemos que outros certamente apreciaram. O quadro se tornou famoso e é uma imagem que foi impressa em aos espelhos de bolso, chaveiros e blocos magnéticos dentre muitos outros itens. Parece que Dido Belle pode ter passado parte de sua vida na obscuridade, mas hoje ela é uma espécie de ícone.

 

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Fontes:

http://www.usatoday.com/story/life/movies/2014/05/05/movie-inspired-by-a-painting-belle-is-an-amazing-but-true-story/8174219/

http://www.dailymail.co.uk/home/you/article-2618656/Portrait-mystery-lady-The-incredible-story-18th-century-painting-inspired-new-movie.html

https://www.theguardian.com/artanddesign/2014/may/27/dido-belle-enigmatic-painting-that-inspired-a-movie

http://www.standard.co.uk/lifestyle/london-life/the-story-behind-dido-belle-the-bi-racial-londoner-who-helped-end-slavery-in-britain-9046065.html

 

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