As Guerreiras Celtas

Dentro do contexto político do mundo Antigo, talvez a mulher celta tenha sido o único grupo do gênero feminino a possuir um grau de liberdade social maior do que o de suas irmãs gregas e romanas. Antes de falarmos da mulher celta, necessitamos recordar alguns pontos, primeiro: as tribos célticas eram descentralizadas e comumente inimigas umas das outras (o que levou, diga-se de passagem, a conquista mais brutal e facilitada por parte do Império Romano). Dessa forma, é importante sinalizar que, ainda que possuíssem uma língua, etnicidade e cultura comum, existiam também diferenças, que podiam fazer de uma tribo mais “aberta e liberal” ao papel social da mulher, do que outras. Sendo assim, ressaltamos que apesar das possíveis diferenças tribais, a mulher celta possuía mais liberdade e autonomia do que outras do mundo Antigo.

Segundo ponto: a cultura celta dominou a Europa por muito tempo, chegando a sua decadência na dominação por parte do Império Romano. Existem vestígios arqueológicos e heranças culturais de ocupação celta na França, Espanha, Portugal, Escócia, Inglaterra, Áustria, Alemanha, Ilha de Mann, Cornuália, País de Gales, Bélgica e Irlanda. Dada essa introdução e antes de focarmos no ponto mais importante do texto, “a mulher guerreira”, vamos citar algumas das “liberdades” da mulher celta, em relação ao mundo grego e romano:

  • As mulheres celtas tinham a possibilidade de pedir o divórcio ou anulação do casamento diante dos respectivos casos: a não satisfação sexual, a existência de amantes ou concubinas.
  • Mulheres podiam desempenhar a função sacerdotal de druidesas, segundo as fontes irlandesas. Já, as mulheres do continente, existem fontes ambíguas sobre o assunto.
  • Sexualidade, como um todo, não era um tabu: Podiam escolher com quem iam se casar e se não queriam se casar, uma mulher celta só se casava com seu consentimento. Algumas tribos célticas podiam ser poligâmicas ou poliandricas.
  • Podiam herdar riqueza com plenos direitos de propriedade e ser escolhidas para qualquer cargo.
mulher celta no carro de guerra
Mulher Celta no carro de guerra.

Como podemos notar, a mulher celta possuía, de fato, algumas liberdades que outras não tinham a mesma sorte de ter. Dentre essas liberdades, estava a questão bélica e de poder. É importante ressaltar que mulheres guerreiras, ou que lutavam em determinadas ocasiões, não era incomuns, especialmente dentro da realidade do mundo celta. Não significa que todas as mulheres eram exímias guerreiras, assim como a lógica da guerra, em si, nunca garantiu a adesão completa de homens. Lutavam aqueles que possuíam treinamento necessário para tal feito e no caso das celtas, muitas mulheres eram treinadas, possuíam armas, treinavam outros para lutar e lutavam, lado a lado, de homens contra invasores. Nas lendas irlandesas o herói Cuchullain foi treinado por uma poderosa guerreira, chamada “Scáthach”, ela, por sua vez, possuía uma rival, outra guerreira, chamada “Aife”. Nas fontes contemporâneas, vindas de gregos e romanos, encontramos relatos sobre a força da mulher celta:

“A mulher celta é, por vezes, igual a qualquer outro romano em um combate mão a mão. Ela é linda tanto quanto é forte. Seu corpo é formoso, mas feroz. O físico de nossas romanas padecem em comparação.” Soldado romano não identificado.

O historiador grego Diodorus Siculus descreve as mulheres celtas Gaulesas como tão corajosas quanto do mesmo porte dos homens gauleses:

“As mulheres dos gauleses são, não apenas como os homens em seu grande porte, mas são páreo a qualquer gaulês em coragem também.”  Diodorus Siculus

Plutarco faz menção da participação das mulheres celtas Gaulesas  na resistência contra os romanos:

“Aqui, as mulheres os encontraram com espadas e machados nas mãos. Com gritos horríveis de fúria elas tentaram fazer recuar a caça e os caçadores. Os fugitivos como desertores, os perseguidores como inimigos. Com as mãos desprotegidas as mulheres arrancaram os escudos dos romanos ou agarraram suas espadas, resistindo a ferimentos mutilantes.” Plutarco.

Ainda sobre a mulher celta Gaulesa e a sua força bélica:

guerreira
Representação da Guerreira Celta

“Todo um bando de estrangeiros não será capaz de lidar com um [Gaules] em uma luta, se ele chama em sua esposa, mais forte do que ele, de longe, e com os olhos piscando; muito menos quando ela incha seu pescoço e range os dentes e equilibrando seus enormes braços brancos, começa a chover golpes misturados com chutes, como tiros descarregadas pelas cordas torcidas de uma catapulta. “Amiano Marcelino.

Sobre as celtas da tribo Braccari, da Espanha, o comentário de Appian deixa claro o perfil bélico e a resistência da mulher celtiberica:

 “Eles são um povo muito guerreiro e entre eles as mulheres vestiam armas junto com os homens, que morreram com vontade, nenhum deles mostrando suas costas, ou soltando um grito. Das mulheres que foram capturados algumas se mataram, outras mataram seus filhos também com suas próprias mãos, considerando preferível a morte ao cativeiro.” Appian

Agora atestamos o relato de Tácito, sobre a primeira invasão romana a Grã Bretanha, onde, demonstra não apenas a misoginia, mas o escárnio que o império sentia diante dessas tribos, a quem chamavam de “selvagens”. Interessante, também, é notar que nesse caso, as mulheres, junto dos Druidas não pegaram em armas, necessariamente, mas foram utilizadas como tática de guerra para amedrontar e atrasar o ataque das tropas romanas.

“Na costa estava o exército inimigo com sua variedade densa de guerreiros armados enquanto entre as fileiras  as mulheres frustradas , trajadas em  preto, como as Fúrias com o cabelo despenteado, acenando marcas. Ao redor, os druidas levantavam as mãos para o céu e derramam imprecações terríveis, assustado nossos soldados pela visão estranha, de modo que, como se seus membros estivessem paralisados, eles ficaram imóveis e expostos a danos. Em seguida, solicitados pelos apelos de seu general e  mutualmente incentivos para não falhar ante uma tropa de mulheres frenéticas.” Tácito.

Como vimos, de acordo com relatos contemporâneos de seus inimigos Romanos e de Gregos, com quem os Celtas, muitas vezes, comercializavam, dos mitos irlandeses das guerreiras treinadoras, passando pelas fortes gaulesas, resistentes celtibericas e as amedrontadoras galesas, fica evidente a singularidade da mulher Celta e sua posição, mais livre que outras, e apta, também, às guerras.

Além dessas mulheres anônimas, de quem soubemos graças aos registros da época, existem outros dois nomes muito conhecidos e que demonstram a mulher Celta, não só bélica, mas também detentora de poder. São elas Boudica e Cartimandua.

boudica
Ilustração: Boudicca

Boudica é famosa por ser a líder da resistência Celta dos Icenis, uma tribo da Inglaterra, contra  Roma. Boudica era esposa do chefe da tribo, Prasutagus que possuía uma relação boa e diplomática com Roma, com sua morte ele deixa parte de sua herança divida entre Roma, sua esposa e suas duas filhas, O império acreditava que com a morte do chefe tribal, seu legado seria entregue a Imperador. Além dessa questão, o fato de uma mulher ser eleita chefe político de algo não era viável, muito menos aceitável, do ponto de vista misógino romano. Em resposta, sua tribo foi atacada e Boudica teve de ver suas duas filhas serem estupradas pelos soldados romanos. Esse foi o estopim para uma das maiores e mais sangrentas revoltas dos Celtas, no caso da tribo Iceni, contra o império Romano. Com força, o exército de Boudica saqueou diversas cidades romanas na Grã Bretanha, mas com tempo o exército imperial se reorganizou e utilizando de suas táticas, sufocou a revolta.

Cartimandua foi outra chefe tribal, dos Brigantes, também da Inglaterra. Ao contrário de sua contemporânea, Boudica, Cartimandua é lembrada como traidora por entregar  Cardoc, líder da resistência celta na Grã Bretanha, aos romanos.

Heroína ou traidora a questão é que tanto Boudica quanto Cartimandua, foram mulheres poderosas que lideraram tribos celtas, e por tal feito eram vistas pelo império e por Tácito com desdém. Afinal, a mulher, no ponto de vista de Roma não servia para nada além de procriar, ambas as mulheres celtas, e tantas outras anônimas como vimos anteriormente, destruíam esse arquétipo. Tácito procurou desmerecer os feitos de Boudica e Cartimandua devido seu gênero, como vemos abaixo:

Cartimandua, rainha dos Brigantes
Cartimandua, Rainha dos Brigantes.

“Cartimandua foi descrita como uma “adúltera” com a luxúria e temperamento selvagem. Já Boudica é descrita como uma selvagem cruel, pelo saque liderado por ela contra as cidades romanas na Grã Bretanha.” Tácito

É muito comum, ainda hoje, nos depararmos com frases misóginas ou que tendem a diminuir o poder e força da mulher baseando no histórico da “feminilidade” como se isso fosse algo natural, quando na realidade esse conceito foi naturalizado.

A mulher  Celta é um excelente exemplo da completude e da complexidade da mulher na História: Mãe, amante, druidesa, rainha, guerreira, agricultora, assassina… Enfim, a mulher Celta era tudo isso ao mesmo tempo ou, era aquilo que quisesse ou pudesse ser. Necessário lembrar que, ainda que possuíssem mais liberdade do que mulheres de outras regiões, o mundo no qual as celtas estavam  inseridas era patriarcal e como tal, ainda que detentoras de liberdades, elas resistiam, aos invasores e aos seus, quando necessário.

Artigo escrito por Jéssica Melo Prestes.

Fontes:
http://penelope.uchicago.edu/~grout/encyclopaedia_romana/hispania/celtiberianwar.html

http://www.legendarywomen.org/content/ancientcelticwomenandromanhistorianswholovehatethem

https://bellodunon.com/2013/01/10/mulheres-guerreiras-2/

http://www.claudiocrow.com.br/celtas-sociedade.htm

http://www.druidismo.com.br/index/Os_Celtas/Entries/2010/8/15_a_sociedade_celta.html

Describe and assess the role of women in Celtic and/or Germanic society, how did this role differ from the role of women in Greek and Roman society (PDF)

Women in Celtic Society (PDF)

The Lives of Ancient Celtic Women (PDF)

Tacitus,  Agricola, trans.A.R.Birley, Oxford, 1999.

BOER, W. Den, Some Minor Roman Historians.

CUNLIFF, Barry. The Celts : a very short introdution

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2 comentários Adicione o seu

  1. Carlos disse:

    incrível

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