Resenha – A Lenda de Tarzan

Criado em 1912 pelo escritor norte-americano Edgar Rice Burroughs (1875-1950), Tarzan é um dos personagens icônicos do século XX, presente em nosso imaginário cultural contemporâneo há tempos. A nova adaptação cinematográfica que está estreando nos cinemas brasileiros tem como novidade o destaque para o brutal processo de civilização do Congo e o papel genocida do então soberano belga, Leopoldo II, muito pouco explorado até então, quando se conta a história de Tarzan.

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Capa do livro: Tarzan of the Apes, 1912.

Dirigido por David Yates, com roteiro de Adam Cozad e Craig Brewer e estrelado por Alexander Skarsgård (Tarzan), Samuel L. Jackson (George Washington Williams) Margot Robbie (Jane Porter), Christoph Waltz (Léon Rom), Djimon Hounsou (Chefe Mbonga), o filme vem recendo críticas pouco generosas da imprensa, o que é compreensível, já que ele traz um subtexto incomum para uma história que deveria ser mero entretenimento. Esse subtexto é a expansão colonial da Europa na África e seus consequentes abusos.

A história começa com uma reunião de cúpula entre britânicos e belgas (a Conferência de Berlim, de 1884), na qual está sendo discutida a partilha do Congo. A Bélgica está à beira da falência e sem condições de continuar bancando a aventura colonial, que inclui a construção de uma imensa estrada de ferro. Léon Rom, um empresário sem escrúpulos, vai ao Congo a mando do rei, em busca de diamantes. Sua expedição é repelida pelos nativos da tribo do chefe Mbonga, o qual lhe promete acesso aos diamantes de Opar, caso ele lhe entregue seu inimigo: Tarzan, Lorde Greystoke, que está na Inglaterra já há 8 anos, casado com Jane Porter, filha de um missionário inglês, a quem havia conhecido na África.

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Jane e Tarzan no longa.

Em Londres, Tarzan/Lord Greystoke/John Clayton III recebe o convite para voltar ao Congo, da parte de Sua Sereníssima Alteza, o rei Leopoldo II. Ele não sabe que o convite é uma emboscada para que ele seja entregue ao chefe Mbonga. Em princípio relutante, Tarzan acaba cedendo aos apelos de Jane, que deseja voltar à África e também do enviado norte-americano, George Washington Williams, que deseja ir ao Congo com alguém que conheça o local, já que existem boatos sobre escravização e vários maus tratos contra tribos congolesas por parte dos belgas.

É neste ponto que A Lenda de Tarzan se diferencia das obras anteriores que mostraram Tarzan no cinema. Ao trazer a figura real de George Washington Williams para a ficção, o filme ganha uma nova força. Embora suavizada para que o filme pudesse alcançar uma faixa etária mais baixa, a violência colonial se faz presente. Cenas de nativos escravizados, do comércio criminoso do marfim e da exploração de diamantes às custas das vidas de tribos inteiras são mostradas. E, principalmente, o nome de Leopoldo II como mandante desses horrores não é escondido.

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George Washington Williams e Tarzan

Leopoldo II notabilizou-se por fazer do Congo uma propriedade privada, gerida com extrema crueldade. Leopoldo convenceu as demais potências européias de que sua empresa no Congo tinha caráter humanitário, pois levaria a “civilização” àquela região da África. Na realidade, a exploração do marfim e da borracha foi feita às custas das vidas de milhões de africanos. Isso mesmo, estima-se que a exploração do Congo tenha levado à morte entre 5 e 20 milhões de congoleses, além de um sem número de mutilados. A mutilação era uma forma de intimidação e controle usada pelos soldados coloniais, a chamada Force Publique, segundo relata Adam Hochschild, em seu livro O Fantasma do Rei Leopoldo. O trecho abaixo, extraído da resenha do livro escrita por Israel Junior Silva, mostra um pouco desses horrores:

”A extração do marfim era relativamente simples, pois os oficiais armavam-se com rifles, matavam centenas de elefantes e os africanos, amarrados por grossas correntes nas pernas, formavam longas filas e carregavam cargas pesadíssimas até a margem do rio Congo, onde navios esperavam para dali partirem rumo à Europa. Não é preciso dizer que nesse trajeto – dos locais das matanças até o rio – os negros eram constantemente açoitados e muitos morriam por não suportar o peso da carga. A comida era uma ração, distribuída uma única vez ao dia e muito inferior àquela que era destinada aos cavalos do rei. Para extrair a borracha, houve um impasse. Como os negros precisavam subir nas árvores, era impossível mantê-los acorrentados uns aos outros, o que dificultava o recrutamento de “voluntários”. Mas, como não existia obstáculo que pudesse deter o regime de terror, os belgas invadiam as aldeias, raptavam mulheres e crianças e exigiam como pagamento por sua liberdade uma quantia de látex que necessitava de 24 dias para ser extraído. Dessa forma, vários africanos eram obrigados a se embrenhar na mata para conseguirem a matéria-prima da borracha e muitos eram devorados por leões e leopardos. Os que retornavam, muitas vezes encontravam esposas e filhos mortos, ou violentados pelos soldados do rei. As mulheres mais bonitas eram entregues aos oficiais, como forma de amenizar o celibato forçado em que viviam. Muitos aventureiros de toda a Europa foram para o Congo, nesta época, atraídos pelo dinheiro fácil conseguido através da venda de escravos. Outros invadiam as aldeias que resistiam ao trabalho de extração da borracha e, para cada bala disparada, tinham que apresentar a um oficial belga a mão direita do africano morto, para só assim receberem o pagamento. Como alguns utilizavam a munição para caçar, decepavam mãos de pessoas vivas, no intuito de justificar a bala desperdiçada. A prova disso são várias fotos espalhadas pelo livro, onde se vê homens, mulheres e até crianças mutiladas.”

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Chefe Mbonga.

Evidentemente, essas cenas não estão no filme, embora apareça o massacre de uma aldeia e nativos sequestrados e escravizados. O destaque neste ponto vai para a personagem de Samuel L. Jackson, conforme já destacamos, uma presença da vida real na ficção. Em uma de suas falas, ele diz a Tarzan “O que fizemos na América com os índios não foi diferente do que os belgas fazem aqui… e eu me envergonho, é preciso acabar com isso!” O filme, nesse ponto, embora seja um blockbuster cheio de cenas de ação e aventura e vá caminhar inevitavelmente para um final feliz, tem a ousadia de trazer essa reflexão, que pode despertar no espectador mais atento a vontade de conhecer a fundo essa história. Na vida real, George Washington Williams esteve de fato no Congo em 1890 e, ao constatar os horrores da empresa colonial belga, escreveu ao rei Leopoldo II uma carta aberta (que poder ser lida: AQUI), que é um dos primeiros documentos e testemunhos contra os crimes belgas no Congo. Finalmente, em 1908, após imensa pressão internacional, o rei Leopoldo cedeu sua empresa colonial ao estado belga, e o país tornou-se a colônia do Congo Belga, sob controle parlamentar. Após sua independência, em meados do século XX, o país foi renomeado como Zaire e hoje é a República Democrática do Congo.

Dessa forma, o filme A Lenda de Tarzan traz para os cinemas uma história que, ao fundir ficção, fantasia e realidade, além de propiciar um bom entretenimento pode servir de estímulo a pesquisas sobre esse tema tão pouco estudado que é a colonização européia na África.

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Fontes:
Muito Além do Céu (acesso em: Leopoldo II): AQUI.
PCB (acesso em: Leopoldo II da Bélgica e o Holocausto Negro): AQUI.
Black Past (Acesso em: George Washinghton Williams open letter): AQUI.
Super Interessante (Acesso em: O Monarca Negreiro): AQUI. 

 

 

 

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2 comentários Adicione o seu

  1. Sofia Veras disse:

    Nossa muito interessante, acho que a indústria que produziu este filme está de parabéns em tentar abortar o clássico Tarzan por outros olhos, olhos mais maduros e realistas.

    1. Tudor Brasil disse:

      De fato, foi uma produção muito mais responsável com os fatos, Sofia. Adorei que comentou aqui na página. Seja bem-vinda! ❤

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