A mulher no Renascimento: tradição versus empoderamento – Parte II

A condição da mulher no Renascimento Inglês:

Em vários países, como na Inglaterra e Itália, através dos investimentos dos nobres e reis em artistas e estudiosos, a cultura pôde crescer no limiar do Renascimento. Muitos historiadores divergem quanto à posição ocupada pela mulher nesse período. Questões como ‘será que as mulheres realmente tiveram maior liberdade?’ são comuns quando se trata deste contexto histórico. De fato, foram encontrados indícios de senhoras abastadas e, não somente homens, que se tornaram patronas e compradoras de obras de arte.

mulheres artesãsDe modo semelhante, pesquisas identificaram que mulheres se tornaram artesãs e suas obras de arte foram adquiridas por outras mulheres. Ademais, muitas mulheres que viveram em conventos puderam usufruir de maior liberdade para conduzirem suas vidas para além da clausura. Algumas se tornaram grandes senhoras de terras, outras investiram em propriedades. Em vários períodos históricos, e no Renascimento não foi uma exceção, as viúvas deram continuidade aos negócios da família ao conduzirem administração de suas propriedades e comércios. Dessa forma, puderam gozar de maior liberdade em detrimento das mulheres casadas e solteiras.

No entanto, em meio a essa profusão de mudanças, é na seara do casamento que muitas mulheres alcançavam melhoria de status social. De acordo com Oliveira, quando as mulheres atingiam idade a partir dos 14 anos eram consideradas como apropriadas para se casarem. A despeito de considerarmos, em nossa concepção contemporânea, muito jovens para o casamento, dada a expectativa de vida de homens e mulheres neste contexto, esta idade era vista como adequada. De modo geral, a expectativa de vida da população variava em torno de 50 a 53 anos de idade. De todo modo, é preciso ressaltar que, quando se casavam jovens, como, por exemplo, na faixa etária mencionada, muitas vezes o enlace matrimonial era realizado, mas não consumado, devido a preocupação com a saúde da menina.

mary e felipe
Mary Tudor e Felipe II

A despeito de produções cinematográficas denotarem uma perspectiva romântica em torno das relações de homens e mulheres em vários períodos, nem na Idade Média, nem no Renascimento, os casamentos eram regidos pelo amor. Os contratos matrimoniais eram estabelecidos pelas famílias, e em algumas situações a negociação era realizada ainda na infância de ambos. No processo de negociação eram firmados valores do dote, este era pago pela família da noiva, recebimento de terras, jóias e títulos. Nesse sentido, nas relações matrimoniais a felicidade dos noivos não era a prioridade, mas o status econômico, social e político. Magalhães exemplifica a ocasião do casamento entre Mary Tudor, rainha da Inglaterra entre os anos de 1553 a 1558 e Felipe II. O casamento de ambos foi um acordo político em que a felicidade não teve papel central.

“Muitas vezes, mesmo depois de contraído o matrimônio, o casal também escassas vezes estava junto, como aconteceu com Maria Tudor e o seu marido, Filipe II, de Espanha. De qualquer forma, independentemente da felicidade ou infelicidade que o casamento poderia trazer à mulher, ele representava o único veículo para a sua realização, em termos sociais”.  (OLIVEIRA, 2009, p. 12)

Em meio à atmosfera de transformações sociais e culturais no renascimento, podemos afirmar que a vida da mulher ainda era marcada pela instituição do casamento. Após atingir a idade considerada apropriada para o casamento, a mulher geralmente era mantida em casa sob severa vigilância da família. O maior receio era perda da castidade e nada poderia afetar a legitimidade dos filhos do vindouro casamento. Relações sexuais antes do matrimônio eram condenadas.

A vida de casada também era rígida e o sexo tinha a mera função de procriação. O homem era responsável pelo sustento e manutenção da família. À mulher recaia a responsabilidade de zelar pelos costumes e pela criação dos filhos. A ela ainda pesava a necessidade de ser fértil. Uma mulher que possuía vários descendentes era bem quista pela sociedade e valorizada pela família. Uma família numerosa, sobretudo, entre os nobres, representava a preservação do status social e econômico. A maternidade também era coberta por receios. O parto era, na maioria dos casos, conduzido pelas parteiras, profissão geralmente associada à figura feminina. Havia poucos médicos e, em função deste aspecto, muitas grávidas morriam durante o parto ou dias, semanas depois.

mulher medieval crianças“A mulher do Renascimento foi, na sua quase totalidade, mãe. As mulheres pobres davam à luz cada 24 a 30 meses. As mulheres ricas tinham mais filhos, uma vez que raramente amamentavam, aumentando a possibilidade de uma nova gestação. A fertilidade era uma necessidade, constituía a forma de preservar a família e conservar a riqueza, mas dar à luz significava tanto um privilégio, como um fardo. Para muitas mulheres, o parto significava a morte, como aconteceu com Jane Seymour, a terceira mulher de Henrique VIII, que faleceu poucas semanas depois de ter dado à luz o Príncipe Eduardo. De facto, cerca de 10% das mulheres morria em consequência do parto, e essa possibilidade atingia tanto as mulheres ricas, como as mais pobres.” (OLIVEIRA, 2009, p.

A mortalidade infantil entre os pobres era alta, tanto devido às precárias condições de higiene, quanto em razão do pouco acesso aos recursos médicos. Todavia, mesmo famílias abastadas perdiam filhos recém nascidos ou, inclusive mães morriam da febre puerperal. Esta febre era causada por infecções após o parto. De acordo com Magalhães, a média de crianças que sobreviviam neste período era em torno de 20% a 50%.

Fora da instituição do casamento, no Renascimento muitas mulheres solteiras se dedicavam a vida religiosa. Outras se viam forçadas pelas suas famílias a viverem em conventos. Não são raros os casos de mulheres que se rebelaram quando se encontraram em situação de serem obrigadas a seguirem a vida religiosa. Todavia, neste período, as mulheres que se dedicavam a vida religiosa eram valorizadas e, não apenas as solteiras escolhiam este tipo de vida, mas também as viúvas:

“Algumas mulheres que não eram mães, assim como as viúvas, seguiam a vida religiosa. No entanto, na Inglaterra do Renascimento, a população dos conventos femininos decresceu. Enquanto 3500 mulheres residiam em conventos ingleses em 1350, apenas 1900 permaneciam em casas religiosas (também elas em número mais reduzido) em 1534, altura em que Henrique VIII iniciou o processo de dissolução dos mosteiros e conventos. Muitas mulheres escolhiam a vida religiosa por questões de doutrina, mas outras iniciavam o seu percurso no convento, por imposição da família, ou porque não podiam ou não queriam casar. Há relatos de várias tentativas de fuga da clausura religiosa.” (MAGALHÃES, 2009, p. 16)

mulher medieval 3De acordo com Magalhães, entre os pobres as mulheres eram maioria. Como não tinham acesso à educação, geralmente ocupavam funções domésticas. Muitas instituições de caridade que existiam na Inglaterra Tudor abrigavam homens e mulheres, no entanto, a elas eram direcionadas ocupações cujos salários eram mais baixos que os homens.

“As mulheres sem família que não viviam em conventos representavam uma grande fracção de todos os pobres. De facto, os censos de pobreza relativos a este período demonstram um claro desequilíbrio entre os sexos: em 1587, em Warwick, e em 1625, em Salisbury, dois terços dos adultos pobres eram mulheres. Estas mulheres podiam encontrar refúgio em abrigos de caridade, ou, caso fossem saudáveis, podiam ser utilizadas como criadas domésticas. Em algumas comunidades de Inglaterra, no século XV, cerca de 40% da população era constituída por servos, tanto do sexo masculino como do sexo feminino.” (MAGALHÃES, 2009, p. 17)

Epidemias e surtos de doenças, dentre as quais a Peste Negra, que assolaram a Europa no século XV, contribuíram, de certo modo, para a ampliação de atividades profissionais. A escassez de mão de obra fez com que tanto no campo quanto na cidade fosse necessário que as mulheres adentrassem ao mundo do trabalho. Elas passaram a trabalhar na produção de tecidos, como artesãs, em corporações de ofício, comércios e nas mais variadas atividades ligadas à agricultura. Em termos gerais o número de mulheres no mercado de trabalho ainda era inferior aos homens. Do mesmo modo, como mencionamos anteriormente, a remuneração diminuta quando comparamos aos homens.

“No que respeita à aprendizagem de ofícios, as mulheres constituíam apenas uma pequena minoria dos aprendizes, em actividades como a chapelaria, a costura ou a renda e, relativamente ao comércio, as mulheres solteiras ou viúvas podiam legalmente desenvolver uma actividade como feme sole – as mulheres casadas como feme covert – embora, também nesta área, representassem uma percentagem mínima: menos de 5%.” (MAGALHÃES, 2009, p. 17)

Paulatinamente, ao se integrarem ao mundo do trabalho, muitas mulheres se tornaram vítimas de abuso e exploração sexual. Mulheres pobres foram prostituídas por homens, e havia muitos cortesãos que administravam alojamentos voltados a essa finalidade. Mesmo no ambiente de trabalho mulheres eram comumente vítimas de abuso sexual. A mentalidade patriarcal alimentava o preconceito contra o universo feminino, considerado como sexo inferior. Mulheres eram ainda tidas como propriedade masculina. Mesmo quando casadas, sejam elas ricas ou pobres, vivenciavam as opressões de um mundo em que os homens eram considerados superiores.

senhora feudalTemos dessa forma um contexto histórico em que a tradição é marcante, mas a mulher anseia por maior liberdade. De acordo com a pesquisadora Amanda Cloud, apesar das grandes transformações evocadas neste período, o papel da mulher ainda era escasso. Ainda eram controladas pelos seus pais e, posteriormente, pelos seus maridos. A mulher era vista, mas não era ouvida. Farta parcela das mulheres que tinham acesso ao mundo do trabalho deviam obrigações a seus maridos, isto é, a administração e o lucro deveria ser destinado aos homens. Dessa forma, salvo algumas exceções, vemos que o universo feminino ainda era marcado pelo domínio masculino. De acordo com a perspectiva do homem nesse período, as mulheres deveriam ser domadas, controladas pelo homem. Um longo caminho ainda seria percorrido até que a mulher pudesse ter liberdade para conduzir a sua própria vida.

Entender o contexto relativo aos séculos XIII ao XVII, ou seja, estes cinco séculos, requer a percepção de que, assim como outros contextos históricos, esta é fase rica em complexidade. Não podemos generalizar ao afirmar que todas as mulheres foram submissas aos ditames da sociedade. A rainha Mary Tudor (1553-1558) reivindicou o trono e inaugurou o modelo de monarquia de gênero. Ela foi a primeira mulher da Dinastia Tudor a ocupar o trono como governante. Além dela, existiram outras mulheres que despontaram em meio a este universo masculino e lutaram para alçar maior domínio sobre suas vidas. Comerciantes, artesãs, parteiras, tecelãs, camponesas, patronas, viúvas, rainhas…. Enfim, fossem elas abastadas ou pobres, mulheres reivindicaram a condução da sua história, apesar de neste contexto ainda vigorar o peso da tradição.

 

Referências:

CLOUD, Amanda. Gender Roles of Women in the Renaissance. Disponível em: < http://www2.cedarcrest.edu/academic/eng/lfletcher/shrew/acloud.htm > acesso em fevereiro de 2016.

MAGALHÃES, Suzana Paula de Oliveira. A condição feminina no Renascimento. Dissertação de Mestrado. 2009, 176p.

Mulheres na Inglaterra. Disponível em < http://www.historylearningsite.co.uk/tudor-england/women-in-tudor-england/ > acesso em fevereiro de 2016.

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3 comentários Adicione o seu

  1. roberta fernanda disse:

    Por ter sido uma pioneira no empoderamento feminino,Maria Tudor será sempre a minha rainha favorita,independente do sucesso ou fracasso de seu governo…

  2. roberta fernanda disse:

    excelente txto,acompanho sempre o blog…

  3. aslegnaro disse:

    O Casamento com Mary Tutor e Felipe I da Espanha seu primo (do quarto casamento deste que nasce Felipe II) : D. Filipe nasceu em Valladolid, em 21 de Maio de 1527, tendo falecido em Madrid, no Palácio do Escorial, a 13 de Setembro de 1594. Era filho primogénito de Carlos I de Espanha, imperador alemão em 1519 enquanto Carlos V, e de D. Isabel de Portugal, filha do rei de Portugal D. Manuel I. Foi rei de Portugal em 1581 tendo sido aclamado nas Cortes de Tomar de Abril desse ano.

    Casou com a infanta D. Maria de Portugal, sua prima, filha de D. João III, rei de Portugal, e de D. Catarina de Áustria, infanta de Espanha, nascida em Coimbra em 15 de Outubro de 1527 e falecida em Valladolid a 12 de Julho de 1545, tendo a cerimónia decorrido em Salamanca a 15 de Novembro de 1543, tendo nascido do casamento:

    1. D. Carlos, nascido em Valladolid em 8 de Julho de 1545 e falecido em Madrid em 24 de Julho de 1568, príncipe das Astúrias.

    Casou em segundas núpcias com Maria I, rainha de Inglaterra desde 1553, sua prima, filha de Henrique VIII e de Catarina de Aragão, nascida em Londres a 18 de Fevereiro de 1516 onde morreu em 17 de Novembro de 1558, em Winchester a 25 de Julho de 1554, não tendo havido descendência do casamento.

    Casou terceira vez com Isabel de Valois, princesa de França, filha de Henrique II, rei de França, e de Catarina de Medicis, nascida em Fontainebleau em 22 de Novembro de de 1545 tendo morrido em Aranjuez a 3 de Outubro de 1568, em Paris, a 22 de Junho de 1559, tendo nascido:

    2. D. Isabel Clara Eugénia, que nasceu em Segóvia a 12 de Agosto de 1566 e morreu em Bruxelas a 1 de Dezembro de 1633, infanta de Espanha, casada em 13 de Novembro de 1559 com o arquiduque Alberto de Áustria, vice-rei de Portugal entre 1583 e 1593 e governador dos Países-Baixos de 1595 a 1621.
    3. Catarina Micaela, nascida em Madrid a 10 de Outubro de 1567, falecida em Turim a 6 de Novembro de 1597, que casou em 12 de Janeiro de 1562 com Carlos Manuel I, duque de Sabóia e príncipe do Piemonte.

    Por último, casou quarta vez com a arquiduquesa Ana de Áustria, sua prima, filha do imperador alemão Maximiliano II e Maria de Áustria, infanta de Espanha, filha de Carlos V, nascida em Cigales a 2 de Novembro de 1549, e que morreu em Badajoz a 26 de Outubro de 1580, em Segóvia a 12 de Novembro de 1570, tendo nascido do casamento:

    4. Fernando, nascido em Madrid a 4 de Dezembro de 1571 que morreu precocemente em 18 de Outubro de 1578, príncipe das Astúrias;

    5. Carlos Lourenço, nascido em Galapar a 12 de Agosto de 1573 e que morreu em 11 de Julho de 1575, infante de Espanha;

    6. Diogo Félix, nascido em Madrid em 12 de Julho de 1575 e que morreu na mesma cidade em 21 de Novembro de 1582, tendo sido príncipe das Astúrias;

    7. Filipe II, III de Espanha, que herdou a Coroa;

    8. Maria, nascida em Madrid em 14 de Fevereiro de 1580 e falecida na mesma cidade em 5 de Agosto de 1583, infanta de Espanha.

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