O Nascimento e Primeiros Anos de Henrique VIII

No final do ano de 1490, Elizabeth de York engravidou pela terceira vez. Meses depois, em pleno verão inglês, dia 28 de Junho de 1491, ela deu à luz um saudável e rechonchudo menininho, no Palácio de Greenwich – Placentia. Todos os monarcas Tudor subsequentes, exceto Eduardo VI, nasceriam no local.

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Palácio de Greenwich

O menino foi batizado de Henrique, em homenagem a seu pai, Henrique VII. Uma vez que o casal real já contava com um filho varão quase cinco anos mais velho, Arthur, a principio não caberia a Henrique o posto de tornar-se rei da Inglaterra. Sendo assim, ao contrário de seu irmão, Henrique nasceu sem um título; demoraria até meados de 1494 para que ele recebesse a significativa designação de Duque de York.

Muitos anos depois, em 1527, Richard Fox – que em 1491, havia sido Bispo de Bath e Wells – recordaria os primeiros dias de Henrique VIII, quando este foi batizado na igreja franciscana nas proximidades de Greenwich.

O batismo de Henrique foi conduzido por Richard Foxe, Bispo de Exeter. Ele ocorreu visando o protocolo real que envolvia tal acontecimento. De acordo com o livro real, ele incluiu um estrado e dossel decorados em luxuosos tecidos, assim como o soar das trombetas para marcar a ocasião. No entanto, devido a importância do nascimento, nenhum poeta ou cronista contemporâneo parece ter fornecido algum registro sobre o evento. A própria avó de Henrique, Margaret Beaufort, faria apenas uma menção menor de sua chegada em seu calendário, corrigindo a data tempos depois.

Anos antes, o nascimento de seu irmão mais velho, Arthur, havia sido celebrado com grande pompa e ostentação por todo o reino. Até mesmo o local onde nascera, fora cuidadosamente escolhido: Winchester (onde acreditavam ter sido a sede da lendária Camelot das lendas Arturianas).

Após o nascimento de Arthur e precedendo o de Henrique, ocorreu outro marco importante. A chegada da filha mais velha ao mundo, a Princesa Margaret, em 28 de novembro de 1489. Tanto ela, quanto Arthur, não apenas tem suas datas de nascimento meticulosamente registradas, como também seus horários. Os filhos que seguiram-se depois, seriam importantes, mas ainda assim ofuscados por estes dois. É claro que a vinda de Henrique foi um motivo de alegria, afinal, o Rei e a Rainha tinham agora, não apenas um herdeiro varão, como um sobressalente.

Captura de Tela 2016-06-28 às 20.22.21O jovem Henrique, como de costume para crianças da realeza ou nobreza, não foi amamentado por sua mãe. Ele teve como ama de leite, uma mulher de nome Anne Locke, que era a esposa de Walter Locke, e que seria recompensada por seus trabalhos apenas em 1509.

Pouco sabe-se sobre sua infância, apenas alguns fatos isolados. A aparência física de Henrique, inclinava-se para sua ascendência Yorkista; ele possuía pele bastante alva, olhos azuis e, ao contrário de seu pai e irmão, espessos cabelos ruivos.

Em 05 de abril de 1493, Henrique, com 22 meses de idade, foi agraciado com os cargos de oficial do Castelo de Dover e Lord administrador de Cinque Ports. Descrito simplesmente como o segundo filho nascido do Rei, esta foi claramente uma artimanha a fim de manter estes cargos nas mãos da coroa, em lugar dos antigos oficiais, que receberam alta real.

Não seria até o outono de 1494 que o jovem Henrique, em tese, sairia da sombra de seu irmão. Em 12 de setembro, ele foi nomeado Marechal da Inglaterra e Lord Tenente da Irlanda, um compromisso no qual era esperado que Lord Poynings atuasse em seu lugar – uma vez que era encarregado da patente de Lord Deputado da Irlanda. Enquanto Poynings partia a compromissos de estado, o jovem Henrique permanecia no conforto de seu lar. Tal nomeação, novamente era apenas uma artimanha para manter o posto fora das mãos do oitavo Conde de Kildare, que havia sido partidário na incursão de Lambert Simnel, em 1487.

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Suposto (porém controverso) busto de Henrique VIII quando criança. Datado de 1498, por Guido Mazzoni.

Até aquele momento, ele havia sido apenas o filho mais novo do Rei, no entanto, em 01 de novembro de 1494, Henrique VII decidiu trazê-lo à atenção da Corte, do mesmo modo que outrora havia feito com Arthur. Ele foi primeiramente condecorado Cavaleiro de Bath e depois como Duque de York. Houve um duplo significado na escolha deste título, pois não só chamaria a atenção para a reconciliação tão alardeada dos Yorks com os Lancasters, como demonstraria a boa vontade do rei para com a família de sua esposa, no entanto, também indicando que o detentor anterior ao título, o príncipe na Torre, Richard de Shrewsbury, havia de fato morrido (ao contrário do que Lambert Simnel outrora tentou provar). Mais tarde, em Maio de 1495, Henrique também seria nomeado para a Ordem da Jarreteira.

Foi então registrado:

”Deste modo, determinou-se manter regiamente e solenemente um banquete em seu Palácio de Westminster, por ocasião da festa de comemoração da condecoração de seu segundo filho, Cavaleiro de Bath e depois, Duque de York … ”

O evento ocorreu conforme o esperado; após a missa e distribuição de presentes, os potenciais cavaleiros seguiram pelo palácio montados a cavalo, rumo à câmara onde a cerimônia ocorreria. No caso do jovem Henrique, a cerimônia foi adequadamente elaborada. O Duque de Buckingham colocou o emblema em seu calcanhar esquerdo e o Marquês de Dorset, sobre o direito. O rei então cingiu-o com sua espada e o condecorou cavaleiro de Bath. Presumivelmente, estes símbolos de seu novo status foram então removidos enquanto os outros cavaleiros foram condecorados logo depois. Em nenhum momento da cerimônia houve qualquer reconhecimento ao fato de que o jovem príncipe era pouco mais que uma criança – talvez ele tenha chorado pedindo por sua mãe ou ama. Após o evento, ”meu senhor fez a ceia em sua própria câmara”, pois ele não poderia participar do banquete realizado pelos outros cavaleiros.

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Arthur Tudor

Embora tal nomeação possa sugerir que Henrique tenha alcançado a total atenção de seu pai ao lado de seu irmão, tal compreensão é equivocada. O primogênito Arthur permaneceu próximo de seu pai, enquanto seus irmãos parecem ter vivido sob os cuidados de Elizabeth de York e tutela de Margaret Beaufort.

A criação inicial do jovem Henrique ao lado de suas duas irmãs gera discussões entre acadêmicos. O maior apoiador desta teoria é o pesquisador inglês David Starkey, que afirma que a educação do jovem Duque ocorreu ao lado de mulheres, em contrapartida da educação de estado que seu irmão recebia por ser herdeiro do trono. Ele deduz, por exemplo, que a semelhança de sua caligrafia com a de sua mãe, pode explicar que sua educação não foi tão requintada quanto a de seu irmão e que a proximidade deste para com Elizabeth de York foi maior. No entanto, não há nenhuma evidência conclusiva para isto. Sabemos apenas que, a súbita morte de Elizabeth de York em 1503, representou um forte golpe para o desenvolvimento pessoal do jovem príncipe. 

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Banquete em família na minisserie The Shadow of the Tower

Henrique VII foi um amante dos entretenimentos na Corte; era comum presenciar no local acrobatas, bobos, mágicos e menestréis. Tendo tal particularidade em comum com seu pai, somando-se ao fato de estar alheio aos deveres sucessórios, Henrique tornou-se desde cedo um amante da música e exímio compositor. Aos 10 anos de idade, ele era capaz de tocar diversos instrumentos como harpa, flauta, viola e tamborim.

Henrique também demonstrou um curioso interesse pela jogatina, tal qual seu pai. A partir de 1509, as contas reais registram as perdas do monarca nos jogos. Henrique VII havia perdido 8d em cartas para seu o filho de sete anos de idade, príncipe Henrique, em 23 de maio de 1498. Não admira que a criança tenha sido descrita com um largo sorriso. Teria sido esta uma jogada de má sorte do rei, ou um pai  amoroso permitindo que seu filho o ganhasse?

Segundo os registros, Elizabeth de York e Henrique VII eram pais amorosos, embora devido aos compromissos de estado, vissem pouco seus filhos. Em sua casa real, o jovem Henrique possuía seus próprios servos e músicos, além de um bobo, chamado John Goose. Ele também possuía um ”menino do chicote’’, que tinha como função, ser punido quando Henrique fazia travessuras.

Outro aspecto interessante, é que segundo o polímata italiano, Paolo Sarpi (1552/1623), desde sua juventude Henrique foi destinado à igreja; no entanto, é provável que tal história tenha sido apenas mera suposição para preencher o conteúdo de seus trabalhos teológicos posteriores. Porém, é importante ressaltar que os estudos filosóficos e teológicos, formariam uma sólida base na vida de Henrique, que desenvolveria um profundo interesse em tais debates. Sua aprendizagem neste campo, seguiu a tendência da moda para o pensamento humanista.

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Henrique ao lado de sua mãe Elizabeth de York e sua avó, Margaret Beaufort na minisserie The Shadow of the Tower.

Henrique foi o primeiro monarca inglês a ser educado sob a influência do Renascimento, e seus tutores incluíam o poeta John Skelton, que anos mais tarde, estaria presente em sua coroação. Ele assumiu a educação do Duque em meados de 1497, podendo certamente ter permanecido no posto até meados de 1502. Skelton mais tarde diria ter feito parte da ”aprendizagem primordial de Henrique”, ao citar em um de seus poemas:

”A honra da Inglaterra eu ensinei a soletrar,
Dei-lhe também goles açucarados das águas cristalinas de Hélicon, 
familiarizando-o com as nove musas…”

Deste modo, Henrique tornou-se um talentoso estudioso, linguista, músico e atleta, conhecido na Corte por seu porte, juventude e classe dignos de um grande príncipe.

Sua residência nem sempre era na Corte de seu pai, embora ele nunca estivesse muito longe, consequentemente, ocorrendo visitas mútuas.

Outro momento marcante na vida do jovem Henrique foi quando ele foi escalado para acompanhar sua futura cunhada, a princesa Catarina, recém chegada, em sua apresentação ao povo inglês. Ele também estaria presente em seu casamento com Arthur Tudor, em 14 de Novembro de 1501 (ele estaria com 10 anos de idade).

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Possível retrato de Catarina de Aragão, por Michael Sittow – datado de 1502.

Nesta época, consta uma receita de finanças para o Ducado de York, mas seus tutores não constam entre os servos. No entanto, uma lista completa para o ducado, foi emitida perto do enterro da Rainha, escrita por seu tesoureiro. Nesta lista contém os nomes de 102 homens e 13 mulheres, e inclui: um professor (Mr Holt), um mestre de francês (Giles Duwes) e um mestre de armas (Thomas Sympson), além de cinco capelães e uma câmara completa de cavalheiros e serviçais. A casa de Henrique foi de fato, um estabelecimento Ducal, sendo operada com total independência.

Ninguém imaginaria que o jovem belo e despreocupado Henrique, anos mais tarde, assumiria o trono em lugar de seu irmão, morto tragicamente em 2 de abril de 1502 – provavelmente vítima da doença do suor ou tuberculose. Ele, que outrora havia comparecido ao casamento de Arthur com a infanta espanhola – a quem encontrou algumas vezes desde que havia chegado à Inglaterra – faria da princesa viúva de Gales sua esposa, em uma maravilhosa cerimônia em 11 de Junho de 1509 e pouco tempo depois, após a morte de seu pai, sua rainha consorte.

FONTES:
LOADES, David. ”Henry VIII”. Inglaterra – Julho de 2011. Amberley.

PENN, Thomas. ”Winter King: Henry VII and the Dawn of Tudor England”. Inglaterra – Março de 2012. Simon & Schuster.

History in an Hour: AQUI.

The York Historian: AQUI.

Bluff King Hal: AQUI.

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4 comentários Adicione o seu

  1. aslegnaro disse:

    O Palácio de Greenwinch não seria o de de “Bella Court”, rebaptizando de “Palace of Placentia”, por vezes escrito como Palace of Pleasaunce. Duque Humphrey foi Regente durante o reinado de Henrique VI, e construiu o palácio com o nome de “Bella Court”. Em 1447, Humphrey caiu em desgraça com a nova Rainha, Margarida de Anjou, e foi preso por alta traição, vindo a morrer na prisão – Shakespeare afirmou que morreu assassinado.

    1. Tudor Brasil disse:

      O Palácio de Greenwich, Placentia, Bella Court, ou Pleasaunce, eram um só. No entanto, uma vez que o Palácio foi demolido para dar lugar ao Greenwich Hospital, ele atualmente é conhecido por este nome, embora Plancentia seja as vezes, utilizado. No reinado de Henrique VI, quando Humphrey de Lancaster o mandou construir, seu nome era ”Bella Court”, no entanto, pouco após sua morte e depois, na dinastia Tudor, ele passou a ser mais conhecido por Placentia. O uso do nome Greenwich Palace, é o termo utilizado por inúmeros historiadores e pelo próprio governo britânico, por isto, achamos por bem, manter a nomenclatura. 🙂

  2. Paloma disse:

    Eu estou totalmente obcecada pelo assunto, gostaria que vocês pudessem indicar filmes e livros que sejam o mais próximo do fiel possível, sem tantos estereótipos.

    1. Tudor Brasil disse:

      Considerando que a intenção destas grandes produções televisivas é vender e alcançar a grande massa, todas envolverão algum tipo de estereótipo e senso comum. No entanto eu particularmente gosto muito das séries da BBC, em ordem:
      – The Shadow of the Tower (sobre o reinado de Henrique VII);
      – The Six Wives of Henry VIII (sobre Henrique VIII, suas esposas e seu reinado);
      – Elizabeth R (sobre o reinado de Elizabeth I, embora aborde também, um pouco do reinado de seus irmãos).

      Quanto a livros, você gostaria de dicas de livros sobre o período, ou especificamente sobre Henrique VIII? Caso seja sobre o período, temos um artigo sobre o assunto: AQUI. No entanto, caso seja apenas sobre Henrique, indico o livro que utilizei para formular parte deste artigo: Henry VIII, do historiador e pesquisador Tudor, David Loades.

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