Sobre as diferenças entre a História e a Literatura

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Volta e meia, nos deparamos com divergências e confusões em nossa página em relação ao conteúdo produzido pelos historiadores e as produções feitas pelos romancistas. Alguns associam história e literatura como áreas análogas. O que não é verdade. Tendo em vista a percepção de que muitos ainda fazem confusão em relação às diferentes formas de abordagem e função destas disciplinas, julgamos como fundamental trazer para vocês uma explicação que pudesse elucidar o fazer destas áreas.

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Philippa Gregory, mais famosa romancista histórica sobre o período Tudor.

A discussão sobre História e Literatura deve ser percebida dentro das especificidades e questões de cada uma das áreas, apesar de serem disciplinas “co-irmãs” e interconectadas, seus fazeres e usos são distintos. O primeiro ponto a chamar atenção é que um “romance” sobre a dinastia Tudor, Avis, Bourbon, ou dos grupos camponeses, escrito hoje, é configurado do tipo “romance histórico”. Já obras escritas nestes ou em outros períodos, como por exemplo, as de Jane Austen, são caracterizadas como “romances de época”, sem a inserção do histórico.

Compreender tal diferença é fundamental, pois a primeira forma apresenta a recuperação de um contexto histórico específico e o segunda é feita, em dados momentos, “no calor dos acontecimentos”, se assim posso dizer. Ambas as formas narrativas podem e devem ser abordadas pelo historiador, mas no “fazer histórico” a “utilização e cruzamento” de fontes deve guiar o trabalho. No processo de desenvolvimento do seu trabalho, o historiador recorre a um aparato variado, de acordo com o tipo de fonte e objeto da sua pesquisa. Por meio da seleção de uma metodologia adequada e teoria pertinente a sua pesquisa, o historiador tentar traçar uma narrativa que corresponda aos fatos históricos. Não é possível chegar a uma verdade de um fato exatamente como foi, mas o historiador atua com o compromisso de produzir, através das fontes disponíveis um relato mais próximo do que pode ter sido.

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Romances históricos sobre a vida de Ana Bolena, ainda confundem inúmeros leitores.

Deste modo, apesar do historiador ter a possibilidade de utilizar o romance como fonte para embasar a sua pesquisa, não se pode confundir o trabalho feito pelo historiador, com o tipo de trabalho feito pelo romancista. Cada qual detém objetivos distintos no processo de elaboração. Um romancista que vive na atualidade e pretende fazer uma obra baseada em um dado contexto história – romance histórico – possui além da influência da suas experiências contemporâneas (sobretudo, aspectos culturais e sociais) a liberdade de criar personagens, fazer quaisquer mudanças na história que achar conveniente. Isto é o que chamamos comumente como ‘licença poética’. Além disto, não podemos deixar de fazer menção ao fato de que um trabalho escrito por um romancista na atualidade, tem por objetivo a sua comercialização. Desta forma, o mercado editorial exige que histórias sejam produzidas de acordo com as necessidades específicas e, adequadas ao perfil do público leitor. Esta realidade é inerente à qualquer contexto histórico, mas ressaltamos este aspecto, pois, há inúmeros romances históricos sobre o período Tudor. Tais romances não utilizam apenas do contexto em que a Dinastia Tudor ocorreu, mas também dos personagens que de fato existiram. Trata-se de obras que mesclam realidade e ficção. Por isso, não devem ser compreendidos como trabalhos historiográficos, mas sim como romances históricos. Isso deve ficar claro, pois os autores e as autoras que se dedicam a escrita de romances históricos têm a ‘liberdade’ para criar, enquanto o historiador tem o compromisso de trabalhar com o factual, ou seja, com os fragmentos da história que foi vivenciada.

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Margaret George, outra famosa romancista histórica, que confundiu inúmeros leitores com suas obras.

Ainda sobre a diferença entre História e Literatura, Johan Huizinga, em “O Conceito de História Cultural”, em meados do século XX estabeleceu uma diferenciação aplicável aos trabalhos históricos e os literários, especialmente os “romances”: o historiador pode apenas “conjecturar” a reconstrução de dados acontecimentos e eventos, perspectiva adotada, anos mais tarde, por outros historiadores como Carlo Ginzburg, Natalie Zemon Davis, Peter Gay (entre outros).

Já o literato tem a liberdade criativa de “afirmar”, criando enredos e tramas dentro da sua obra. Tendo esta diferenciação em mente devemos ao ler “romances”, no fazer histórico, desconfiar do autor, entender seus posicionamentos, redes de influência e percepções existentes, nas palavras de Dominick LaCapra, no livro “History, Politcs and the Novels”, “qualquer testemunho histórico – o dito “literário” incluído – institui o real, é uma intervenção no real, não acontece em nenhum contexto fora dele. Cabe, sim investigar as redes de interlocução social pertinentes ao testemunho analisado, e isso sem adotar a ilusão de que os textos ou registros históricos que sobreviveram sobre um determinado passado ou processo histórico esgotam, em seus termos e intenções, tudo o que podemos saber sobre tal passado.” Dito isto, o que pretendo ressaltar é que os romances produzidos carregam concepções políticas, econômicas, imaginárias do seu período de produção ou na recuperação de uma dada temporalidade. Mas eles não devem ser vistos como “verdades”, eles possibilitam uma entrada “analítica” para abordar dado tema e fornecem indícios e sinais para o trabalho histórico. O literato tem liberdade de criar seus enredos, elaborar suas tramas afirmando dados, casamentos, relações.

O historiador, mesmo que use de uma estrutura narrativa, pode no máximo utilizar os termos “possivelmente”, “talvez”, “ao que parece”, pois seu campo constitui-se em um conhecimento lacunar, com variadas possibilidades de leitura, e no compromisso com a utilização das fontes; para determinadas afirmações devemos nos cercar de documentos (dos mais variados) e seu cruzamento, tentando recuperar uma possível entrada no passado.

Texto escrito por Daniel Eveling.

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4 comentários Adicione o seu

  1. Poliana Peres disse:

    Com suas obras Philippa Gregory presta um desserviço a história. Por que não se atém ao período e cria um personagem fictício já que a mesma distorce totalmente a verdade?
    Tenho horror a essa escritora!!

  2. Republicou isso em Conciliaçãoe comentado:
    Encontrei hoje o maravilhoso blog Tudor Brasil, que compendia historiografia, literatura relacionada à dinastia Tudor, à qual fazia parte Henrique VIII, que separou a Igreja da Inglaterra da autoridade espiritual e jurídica papal.
    Entre as maravilhosas postagens do blog, há esta sobre as diferenças entre história e literatura. Ela tem tudo a ver com o Conciliação. Então resolvi reblogá-la aqui. Espero que apreciem a leitura. Grande abraço

    1. Tudor Brasil disse:

      Você é um querido Adriano. Muito obrigada pelo carinho! ❤

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