As Duas Cabeças da Rainha: O Enigma de Maria Antonieta

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Duas cabeças, mesmos traços, aspectos diferentes e muita história para contar. Uma delas, é o molde original, confeccionado por Marie Tussaud pouco após a execução de Maria Antonieta, em  1793. A outra, provavelmente também confeccionada por ela, é um modelo um pouco posterior. Uma, representa a rainha em toda a sua beleza e magnitude, descansando o sono dos justos, a outra, representa uma mulher vencida, cansada, que apenas esperava que o beijo da morte, pudesse levar embora sua dor; temos aqui a dose perfeita de romantismo e realidade. No entanto, a pergunta que não quer calar é: Qual seria a original?

Tais como a Madonna ou a rainha da Inglaterra, que necessariamente mudam pois ainda estão vivas, os retratos de personagens históricos também parecem tornar-se obsoletos. Uma comparação das representações de Madame Tussaud das cabeças guilhotinadas de Maria Antonieta e Luís XVI na câmara de Horrores do museu Tussaud’s, irá esclarecer os diferentes tipos de verossimilhança que são possíveis quando transformamos uma pessoa famosa em estátua de cera. Cada versão triunfa em criar fortes impressões do momento do molde de cera, mas lembram-nos de quão pouca verossimilhança tem a ver com uma representação objetiva da realidade.

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Modelo original. O primeiro confeccionado por Madame Tussaud.

Uma fotografia de 1919, é o mais antigo registro pictórico da verdadeira cabeça de cera de Maria Antonieta, com exceção dos cabelos levemente despenteados e uma pitada de sangue no rosto, a cruel mutilação sofrida pela rainha está disfarçada no retrato, pelo pano em volta do pescoço e sua calma expressão facial. Os cílios longos distintamente visíveis e os lábios rubros, dão a impressão de um belo, e invulgarmente formatado, retrato. A tensão no pescoço e ombros faltando, olhos fechados e o belo rosto, nos remete à uma espécie de retrato do leito de morte – o conhecimento dos antecedentes históricos por sua vez, adiciona também uma sutil sensação de horror.

Os moldes de Tussaud, poderiam ser feitos através do rosto de pessoas vivas ou mortas. Marie esfregaria óleo no rosto e passaria pomada no cabelo da pessoa, para que este não ficasse pegajoso. Então, ela colocaria canudos nas narinas das pessoas, para que elas pudessem respirar (esta etapa seria ignorada caso ela estivesse morta). Em seguida, ela despejaria gesso de Paris na face, que mais tarde, seria utilizada como um molde para a cera. Os acabamentos eram depois adicionados, como vidro para os olhos, cílios, cabelos e até mesmo dentes reais. Este processo é muito semelhante às máscaras mortuárias feitas no século XVI.

Um molde também antigo, totalmente diferente da cabeça decapitada de Maria Antonieta, assim como a de Luís XVI, foi apresentado a publico, em 1972. A mudança mais notável no remake destas cabeças (que, obviamente, foram produzidas utilizando os mesmos moldes de suas versões anteriores) é a falta de coloração nas faces. Os lábios são dificilmente distinguidos do resto da pele. Nem mesmo a camada de sangue no canto esquerdo dos lábios de Luís, é colorida. Os cabelos dos modelos, também estão deveras emaranhados em comparação aos primeiros.
Enquanto as cabeças parecem completamente sangradas e pálidas, o sangue é visto fora delas, descendo através das estacas de madeira sobre a qual elas foram presas.

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Modelos criados a partir do molde original. Provavelmente, também por Madame Tussaud, meses após o primeiro.

Embora o desfile da cabeça de uma vítima forçada em uma estaca, foi conhecido através de outras decapitações durante a revolução francesa, as cabeças do rei e rainha, não foram submetidas à tal tratamento – a estaca de madeira foi adicionada pela companhia Madame Tussaud’s, para efeitos dramáticos.

Doze anos depois, isto deve ter parecido deveras ultrapassado, uma vez que a cena do museu, foi alterada novamente. Em 1984, as cabeças cortadas foram colocadas deitadas no chão, em um calabouço úmido e coberto de musgo, sangrando e cobertas de suor, o que deixava a versão da década de 80 mais gore, mas ainda mais imprecisa. A execução parecia ter ocorrido apenas minutos atrás – o sangue ainda não havia secado, assim como o suor em suas faces. As cabeças pareciam ter caído de forma descuidada de uma cesta de vime que poderia ter sido colocada abaixo da guilhotina, com a lâmina ainda encostada contra a parede delas, como se fosse cortá-las uma vez mais. A cabeça e a lâmina (a segunda, alegadamente comprada por Joseph Tussaud do executor Charles-Henri Sanson, em 1857) serviram para dar autenticidade à cena – embora seja sem dúvidas, inteiramente ficcional. O rei e a rainha foram executados com uma média de nove meses de diferença um do outro; suas cabeças dificilmente teriam dividido uma cesta abaixo da guilhotina!

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O sofrimento vende e renova-se. Exposição Tussaud.

Hoje, estas cabeças são apresentadas de acordo com uma remodelação da câmara dos horrores, de 1996. O quadro histórico que definia o calabouço com a cesta e a lâmina da guilhotina, dá lugar agora aos efeitos patológicos de uma execução. Isto pode ser melhor visto a partir da cabeça de Luís XVI, cujo rosto é coberto de hemorragia. O sangue flui copiosamente sob os cantos de seus lábios ou nariz, algo não-típico de uma vítima da guilhotina, uma vez que apenas as principais artérias da cabeça, são cortadas pela lâmina e os vasos sanguíneos minúsculos dentro dos órgãos faciais, não são prejudicados de modo algum. As hemorragias no rosto de Luís, são mais expressões dramáticas, que anatômicas; tais hemorragias não poderiam ser resultado de sua execução. Deste modo, o que parece ser uma representação naturalista, é, na verdade, inteiramente uma fantasia do artista de cera. É o que Umberto Eco descreveu como, uma obra de hiper-realidade – ‘’uma experiência artificialmente intensificada da real, uma representação realista de uma realidade que nunca existiu’’. As várias mudanças das cabeças decapitadas, mostram quão pouco a verossimilhança e a sensação de autenticidade no retrato de cera, na verdade, dependem de uma representação verdadeira. O sentido da visão é facilmente enganado, e os bonecos de cera lembram-nos que quando uma imagem parece tão real que fala por si, não necessariamente exprime uma verdade objetiva ou absoluta.

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Marie Antoinette: O Fim de Uma Era.

Mas por que a cabeça de uma mulher tão bem cuidada poderia ser a original, uma vez que Maria Antonieta sofreu abusos psicológicos em seu cárcere, comprometendo muito sua aparência e vivacidade? Simples. Os franceses não iriam querer ver uma rainha lânguida e sem vida registrada em cera; eles queriam la belle Antoinette, a rainha do luxo, do poder e do passado que tanto representava o que eles queriam extinguir com a revolução francesa. Sua cabeça teria que ser um molde, acima de tudo, simbólico, que carregasse toda a pompa e falasse por si só: derrotamos a monarquia e tudo o que ela simboliza.
A cabeça sem coloração, descabelada e quase entregue a seu destino, no entanto, seria uma atração mais chamativa para o museu Tussaud, permanecendo até hoje como tal.

Você ainda pode ver as duas segundas máscaras mortuárias do rei Luís XVI e de Maria Antonieta, em exibição na Marylebone Road, em Londres.

Dedico este artigo ao meu querido amigo Renato Drummond Tapioca Neto, estudioso de Marie Antoinette – trajetória e reinado. Conheçam sua página: Rainhas Trágicas.

FONTES:
Ephemeral Bodies: Wax Sculpture and the Human Figure; Roberta Panzanelli, Julius Ritter von Schlosser.

Paul et Pierrette Girault de Coursac, Enquête sur le procès du roi Louis XVI: AQUI.
Cambridge Library Collection: AQUI.

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2 comentários Adicione o seu

  1. aslegnaro disse:

    Republicou isso em aslegnaroe comentado:
    Muito bem detalhada sua colocação técnica, cientifica e histórica. Muito mais pelo lado sociológico da qual faz as comparações entre uma Bela Mulher Grande Rainha e o horror da guilhotina com que os revolucionaram propuseram ocultar.

  2. Renato disse:

    Muito interessante a matéria. Pena que os modelos expostos atualmente não são os originais, mas cópias. O possível modelo original passa um semblante de serenidade, condizente com o estado de espírito de Maria Antonieta no dia de sua execução. Agradeço pela dedicatória no post. Fico honrado!

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