O Mito de Bloody Mary – A Rainha Sanguinária – Parte III: A construção da imagem por Elizabeth I

Quando pensamos em Maria e em Elizabeth, imaginamos que a relação das duas sempre foi negativa, cheia de rancor, medo e raiva. No entanto, isso tudo não poderia ser mais falso. Maria e Elizabeth nasceram princesas que, ao longo de suas vidas, foram ilegitimadas. Porém, Maria sempre foi vista como a verdadeira princesa, filha da boa e real Rainha Catarina. Henrique sempre teve um espaço para sua filha mais velha, a quem um dia chamou de “pérola do reino”. Maria teve uma requintada educação humanista, tocava diversos instrumentos musicais, era uma exímia amazona, religiosa, boa em jogos da Corte, adorada pelos súditos do pai e por ele mesmo. A jovem era presença assegurada na corte de Henrique e por um período, a figura mais importante depois do rei.

Se em vida Elizabeth viveu na sombra de sua irmã mais velha, após a morte de Maria, foi o momento em que ela firmou-se como uma nova força anglicana e de temperamento tipicamente Tudor.

Embora possuísse sua reputação vilipendiada entre os protestantes, foi após sua morte que Maria experimentaria a total queda de sua reputação e reinado. Segundo aponta a historiadora Tudor, Anna Whitelock, ”a forjadura e reformulação da reputação de Maria I, começou de modo imediato logo após sua morte”. A soberana rapidamente tornou-se uma figura de opróbrio, uma vez que protestantes regressaram do exílio, procurando congraçar-se com o novo regime.

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Atriz Ângela Cremonte como Mary Tudor, na série Carlos

Quando Maria conquistou o trono inglês, Elizabeth teve proeminência nas cerimônias reais, assim como Ana de Cleves. Um retrato de que a irmã mais velha se importava com o que restava de sua família. Por um tempo, todos viveram juntos e Maria sempre teve um olhar maternal para com os irmãos mais novos. Os três irmãos conviviam juntos e davam-se bem, porém o poder corrompe e pode destruir laços familiares muito facilmente.

Em 1559, com apenas um ano de reinado de Elizabeth I, foram publicados panfletos protestantes que falavam e identificavam os mártires marianos. Apesar de não criticar diretamente Maria, no panfleto dava a entender o que sofrimento deles acabou com a ascensão de Elizabeth ao trono inglês. Ou seja, a primeira propaganda política da nova rainha, já atingia indiretamente aquela de quem herdara o trono.

Quando não era diretamente criticada, sequer era mencionada. No panfleto de Thomas Birce A compendious register in metre conteining the names and patient suffyngs of the members of Jesus Christ”  o nome de Maria não aparece. Porém, o autor afirma que as mortes dos mártires foram cruéis e foram consequência das ações de satã. Novamente, fica claro que apesar de não citar o nome da rainha Mary, dá a entender a opinião de Birce sobre ela, além de, nesta mesma obra, o autor relacionar tais acontecimentos “entre os reinados dos governantes eleitos por Deus entre Eduardo e Elizabeth”.

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Atriz Cate Blanchett, como Elizabeth Tudor.

Deste modo, compreendemos que, logo no inicio do reinado de Elizabeth os panfletos protestantes começam a humanizar as vítimas das perseguições marianas, trazendo informações sobre elas e Mary, que por sua vez, quando não é vilipendia, é ocultada por completo.

Entre 1559 e 1560, outros seis panfletos protestantes foram publicados, dois deles fazem menção ao reinado de Elizabeth; no primeiro, o reinado de Maria é taxado de “monstruosidade”, e no outro, conhecido como: “Beholde here a brief abstract of the genealogie of all the kyngs of England”, são descritos todos os reis e rainhas da Inglaterra até Elizabeth, com pequenas imagens. Na parte que descrevia Maria, apenas “retorno ao papismo” e “infrutilidade” foram às características atribuídas pelo autor e a imagem utilizada, foi uma de Maria e Filipe juntos, aspecto que, dá margem a entender que ela não possuía toda autoridade que lhe era esperada.

Em 1569, Elizabeth sofreu a Revolta dos Condes, em que uma parte da nobreza católica insurgiu-se contra ela. Tal qual sua irmã havia passado antes com a Rebelião de Wyatt, Elizabeth agora provava como era difícil ser uma mulher reinante no século XVI. Apesar da revolta ter sido suprimida, o medo pairava e tudo o que fosse relativo aos católicos, era considerado traição e aliança com o estrangeiro. Logo, se antes Elizabeth já estimulava, ainda que na “surdina” panfletos anti-católicos, que deslegitimassem a posição de sua irmã mais velha, após a revolta dos condes essa seria mais uma arma para associar catolicismo, traição e punição. A primeira a ser punida foi a Rainha Mary Stuart.

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Retrato – Alegoria da Sucessão Tudor. 1590-1595. Autor desconhecido.

O golpe essencial de Elizabeth à imagem de sua irmã, foi o retrato “Alegoria da Sucessão” de 1572. Nele, Henrique aparece entronado no centro do retrato, à sua esquerda suas crianças protestantes, Eduardo e Elizabeth, estão acompanhadas das figuras mitológicas da paz e estabilidade. À direita, a “ovelha negra”, Maria e seu esposo, Filipe II, acompanhados da figura mitológica da guerra e retratados com roupas escuras, em contraste do resto da família e principalmente com a irmã mais jovem.

A memória de Maria não foi a única coisa que Elizabeth apropriou-se da irmã, ainda que neste aspecto especifico, tenha ido por uma via de negação da importância de sua antecessora.
A filha de Ana Bolena, em muitos aspectos, seguiu os passos da filha da Catarina de Aragão, mas isto é algo que veremos mais adiante.

No reinado de Elizabeth, nenhum panfleto teve mais impacto na criação do imaginário de “Bloody Mary” do que a obra de John Foxe “Acts and monuments” de 1563, que foi reeditada e republicada em 1583, como “the book of martirs”. Foxe possuía um diferencial, apesar de não encontrar-se na Inglaterra na época, ele expôs relatos apaixonados e com vastas informações sobre a vida das vítimas, identificando-as ainda mais do que já havia sido feito no passado e colocando-as ainda mais próximas da população inglesa. Além dessas descrições cheias de informação, Foxe seguiu o padrão dos outros protestantes ao minar a imagem política de Mary.

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Mary Tudor.

O livro de Foxe possuía imagens detalhadas das execuções, o que dava outro peso a interpretação. Tudo porque grande parte da população inglesa não era alfabetizada, logo as imagens causavam o forte impacto, ao levar esta informação para o povo.

Elizabeth estimulou e apoiou a criação de panfletos protestantes, que deslegitimassem e minassem a reputação e legado de Mary, especialmente após a revolta dos condes em 1569. Ainda assim, nenhum desses panfletos foi mais impactante do que a obra de John Foxe, basicamente pela escrita sentimental e pelas imagens das execuções que tornava mais complexa a reação das pessoas.

É importante destacar que, Maria foi vítima de uma profunda misoginia, vítima de uma campanha oposicionista ferrenha, bem organizada, vítima das campanhas de execração de sua memória, encabeçada por sua irmã e John Foxe e vítima do seu relógio biológico, que não permitiu-a viver o suficiente para estabilizar as mudanças políticas de seu reinado e principalmente, não permitiu que tivesse um herdeiro católico para herdar o trono inglês.

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Elizabeth Tudor.

Concluímos também que a destruição da imagem de Mary como rainha serviu a um propósito político e religioso: Manter católicos e estrangeiros afastados da política inglesa. Na época do “spanish match” em 1620, a visão do reinado de Mary, calcada no período Elizabetano, foi utilizada para afastar a possibilidade de um casamento entre o rei britânico e a infanta espanhola.       Novamente na época da guerra dos 30 anos, o reinado de Maria foi relembrado para amedrontar os perigos “de um monarca papista”. Logo, primeiro se tentou deslegitimar Mary em vida, primeiramente por ser mulher, depois por ser católica e por ousar governar. Depois, sua memória foi vilipendiada por ser católica, sendo o novo regime protestante e principalmente, sua memória lembrava aquilo que os ingleses se orgulhavam de não pertencer mais, a igreja de Roma.

Mary perseguiu tantos protestantes quanto seus irmãos perseguiram católicos e, seu pai perseguiu ambos. Desta forma, precisamos refletir sobre a questão política por trás da alcunha ‘sanguinária’, que ela recebeu.

Fontes:

Lorin Scott.  The Vilification of Mary Tudor: Religion, Politics, and Propaganda in Sixteenth-Century England, 2014

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1 comentário Adicione o seu

  1. Roberta Fernanda disse:

    Maria foi muito vilipendiada após a sua morte.Foi uma grande rainha,mas não viveu pra ver seu legado. Eh totalmente injusta a alcunha de Sanguinária. Muitos de nós se estivéssemos na pele dela vivendo o que ela viveu seria até pior. Estou ansiosa para a continuação dos artigos sobre Maria I. Tudor Brasil,vcs estão de parabéns!!!

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