O Mito de Bloody Mary – A Rainha Sanguinária

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De rainha de seu povo à mulher tirana: Como a figura de Maria I foi transformada e distorcida para fins políticos. Imagem por: sally-jackson deviantart.

Poucos reis e rainhas na história inglesa tiveram a reputação tão vilipendiada e transformada em uma simples caricatura quanto Maria I. Talvez, apenas Ricardo III e João Sem-Terra, tenham conseguido a mesma “façanha”. Entretanto, um aspecto torna a questão ainda mais complexa para Maria, do que para os outros dois: seu gênero. O fato de ser uma mulher reinante em um contexto estruturalmente patriarcal, fez com que a imagem política desta, fosse ainda mais vulnerável do que a dos reis citados acima.

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O reinado de Vitória da Inglaterra, atingiu o ápice dramático dos estereótipos históricos.

É importante ressaltar que, o termo “bloody” Mary nasceu e popularizou-se no século XIX, na dramática, obscura, conservadora e imperial Inglaterra da Rainha Vitória. Aquela que de fato, viveu a Era de ouro inglesa. É interessante notar que, 0 termo ”Era de Ouro” foi criado e utilizado durante o reinado de Henrique VII, a fim de criar uma aura política favorável no pós-guerra e acalmar os ânimos ingleses com sua nova Dinastia. No entanto, sua neta, Elizabeth I, resgataria tal propaganda para utilizá-la em seu reinado; tal aspecto seria séculos mais tarde, adaptado por produções Hollywoodianas a fim de reforçar a icônica imagem da Gloriana Rainha protestante.

No período vitoriano, também encontramos a incessante busca das jovens nações, atrás de sua identidade; atrás do aspecto que as tornavam únicas e poderosas. Dentro deste processo, a manipulação histórica era enorme e figuras deste contexto transformavam-se em mitos, demônios, santos ou vítimas.

Maria foi uma rainha católica, filha de uma amada infanta espanhola e de um grande monarca. Um dos pilares da identidade inglesa é a religião anglicana, uma vez que historicamente existiam problemas entre a igreja de Roma e a da Inglaterra (contrariando o senso-comum do ”amor” de Henrique VIII por Ana Bolena, como a principal causa da Reforma). Por conseguinte, Maria sendo metade estrangeira e católica, jamais seria vista como um bom elemento para a construção da identidade de seu país, muito pelo contrário. Sua perseguição a protestantes, foi e vem sendo utilizada como principal aspecto de seu reinado – ignorando todos os outros aspectos positivos presentes no mesmo.

wk40bloodymary.jpg.display.jpgEm comemoração ao aniversário da primeira rainha reinante da Inglaterra e com o intuito de realizarmos aquilo de que mais gostamos, problematizar e desconstruir, vamos iniciar uma série de artigos abordando o seguinte tema: “Como a reputação de Maria I foi destruída através do tempo”. Conforme dito anteriormente, o termo “bloody” nasceu e popularizou-se na Inglaterra do século XIX, porém, o imaginário de uma rainha tirânica e sanguinária, havia sido cunhado em vida e popularizado-se pouco após sua morte e aqui, veremos porque isto ocorreu.

Parte I: O ATAQUE À IMAGEM DA RAINHA MARY – A monstruosa, fraca, perseguidora, luxuriosa, cruel, espanhola, papista e aliada de estrangeiros.

Uma das principais táticas de fortalecimento do corpo político, é o enaltecimento de uma imagem enquanto autoridade. Seguindo esta mesma lógica, uma das principais formas de minar um regime político ou a própria autoridade, é deslegitimar e enfraquecer a imagem política da autoridade em questão, neste caso, Maria.

maryandelizabethMaria foi alvo de todo tipo de anti-propaganda à sua imagem como monarca. Isto ocorreu, basicamente devido as alterações religiosas em curso, logo, exilados protestantes não perdiam tempo ao tentar a deslegitimar, atacando diretamente sua imagem.

Na obra A warning to England to repent” de Bartholomew Traheram, um protestante exilado durante o reinado de Maria, ele a retrata como uma papista tirânica e fala da sanguinolência de seu reinado. Também era muito comum pessoas que sequer encontravam-se na Inglaterra enquanto Maria era rainha, falarem do seu reinado, como se estivessem presentes. Este foi o caso de Bartholomew e muitos outros.

Enquanto Bartholomew deslegitimava a autoridade de Maria, destruindo sua imagem e retratando-a como uma “papista tirana”, outros escolhiam adjetivos diferentes para referenciar a rainha. Uma escolha muito comum foi retratá-la como uma mulher “fraca”. Uma visão um tanto contrastante com a Maria que lutou pelo trono, a rainha que não fugiu da revolta de Wyatt, e manteve-se em posição para enfrentar seus inimigos. Uma visão contrastante com a pessoa que teve de sobreviver ao perigoso reinado de seu irmão, o primeiro rei protestante da Inglaterra, Eduardo VI e também sobreviver aos altos e baixos de sua relação com seu pai, Henrique VIII. Retratar Maria como fraca, era mais uma forma de dizer: “Vejam a rainha da Inglaterra, uma mulher fraca, sem força na alma e sem força política”. Uma visão que contrastava muito com os exemplos dados por ela desde sua adolescência.

92aadbcdd1d1931b2ad20954abf04e33.jpgOutro adjetivo relacionado à Mary, especialmente pelos exilados protestantes, era o de uma “mulher monstruosa”, culpada pela execução dos “bons cristãos”, daqueles de “fé verdadeira” – como por exemplo, sua prima Jane Grey e um dos líderes da revolta protestante, Thomas Wyatt. Aqui, a tentativa é muito clara, transformar Maria em um monstro sem coração por executar sua prima e o líder de uma revolta que tentava a depor do trono. No entanto, em primeiro lugar é necessário recordar que Maria não gostaria de executar sua prima, há referências de que ela havia dito a seu conselho, que Jane estava mais para um peão do que alguém que decidisse os rumos na tentativa de coroá-la rainha da Inglaterra. O que levou Maria a executá-la, foi a participação e apoio do pai de sua prima e sogro na revolta de Wyatt. Obviamente que àquela altura, o caminho natural seria Jane transformar-se em um ícone protestante. Eliminá-la era difícil, mas necessário para a manutenção do trono de Maria. Enquanto a Thomas Wyatt, como um dos principais líderes da revolta, era natural, dentro de um contexto ultra violento como o da Europa moderna, que ele fosse executado. Maria havia perdoado a participação de todos aqueles na tentativa de roubar seu trono, se assim o fizesse novamente, seria muito preocupante para sua reputação e estabelecimento enquanto rainha.

mary_i_touching_for_scrofula_cropIgualmente importante, é chamar atenção de que era comum a reis e rainhas, executarem ou livrarem-se de seus opositores e principalmente, daqueles que poderiam ser um perigo a seu poder. No entanto, parece que apenas Maria é punida por tal atitude.

Após ser comparada a monstros cruéis, a uma pessoa fraca de espírito e a uma tirana papista, agora era a vez de atacar Maria do jeito mais natural possível, dentro de uma sociedade misógina e patriarcal; atacar sua vida sexual. Maria, sendo uma mulher com poder político, foi perseguida apenas por este fato. Logo, não demoraria muito para que ela fosse comparada à figura bíblica de Jezebel, uma luxuriosa mulher com poder político e detestada pelos cristãos. Maria também era acusada de preocupar-se mais com o Papa e com seu marido espanhol, do que com as necessidades de seu povo inglês. Bartholomew Traheram, ainda afirmou que Maria queria apenas ser vista como uma poderosa e vã imperatriz.
É fácil compreender tais caracterizações. Dentro de uma sociedade patriarcal, as mulheres são propriedades e não tem direito a voz, ao poder ou a decidir o destino de suas vidas. Maria, sendo filha de seu pai, herdou seu reino e com isto, estabeleceu uma monarquia de gênero, abrindo o caminho para que outras mulheres a sucedessem, sendo assim, uma digna pioneira política. Entretanto, quando uma mulher comportava-se de acordo com os interesses sociais, ela era bem vista, ela era a boa virgem; quando ousava manifestar-se e não aceitar sua – dita – inferioridade, ela transformava-se em Jezebel. Uma vez que Maria estava contraria ao interesse dos exilados protestantes, ela transformou-se em Jezebel, enquanto seu governo incansavelmente, trabalhava sua imagem política como a figura da boa mãe, da curadora, do bom papel feminino.

d5a8e17b94eef5c3a16b0a69e0e60ad5Agora, a última grande tentativa de deslegitimação de Maria por parte de panfletos protestantes produzidos por exilados políticos e não-exilados, baseava-se na velha (e atual) xenofobia inglesa.

A imagem de Maria era essencialmente ligada a de sua mãe, a Princesa espanhola Catarina de Aragão, e de seu marido Habsburgo, Filipe da Espanha. É importante lembrar que a Espanha de Isabel de Castela/Fernando de Aragão e depois de seu neto e bisneto, respectivamente, Carlos I e Felipe II, era um império, um dos grandes centros de poder no mundo, e a grande força católica do planeta. Enquanto isto, a Inglaterra era o herético reino que desafiou o Papa, decapitou duas esposas e demorou pra ter um herdeiro varão que o sucedesse. É claro que Hollywood quer que imaginemos que a Inglaterra havia sido importante desde sempre, mas o contexto era deveras diferente.

Felipe_of_Spain_and_MariaTudorAinda que o reino inglês não fosse inútil, em nada era comparável à potências como a França e Espanha deste período. Ainda que a imagem de Maria ligada à sua mãe espanhola não surtisse efeito negativo – provavelmente porque Catarina era uma figura querida pela povo inglês – sua ligação com seu marido foi vista como negativa – especialmente pelos protestantes. Todos imaginavam que Maria perderia sua autoridade e que a Inglaterra seria incorporada ao Império espanhol de Felipe. Tal imaginário mostrou-se infundado, uma vez que Felipe não detinha poder político na Inglaterra, estava fora dos termos do contrato de casamento de ambos e Maria deixou muito claro que caso seu esposo pensasse que governaria a Inglaterra, ele estava enganado.

Enquanto o governo mariano criava propagandas para mostrar a rainha inglesa, e a Inglaterra como iguais, esta tática foi distorcida pelos propagandistas protestantes e utilizada justamente de forma oposta. Em vez de entender que ali, a ideia era da Inglaterra tão importante quanto o Império Habsburgo, na distorção protestante, foi compreendido que Maria e Felipe reinavam juntos e a Inglaterra era dependente do império.

Continua…

Bibliografia:

Lorin Scott. The Vilification of Mary Tudor: Religion, Politics, and Propaganda in Sixteenth-Century England, 2014.

Judith Richards. “Mary Tudor as ‘Sole Quene’? Gendering Tudor Monarchy, 1997.

Judith Richards.EXAMPLES AND ADMONITIONS: WHAT MARY DEMONSTRATED FOR ELIZABETh in Tudor Queenship: the reigns of Mary and Elizabeth. 2010.

Anna Whitelock. Princess, Bastard and Queen, 2009.

HISTORY BBC. How bloody is Mary?2006.

David Loades. Tudor Queens of England. 2009.

Mei Trow, David Loades. The Tudors for Dummies. 2011.

 

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3 comentários Adicione o seu

  1. H. Moreira disse:

    O.k. Mas muitos sites tem outras informacoes importantes pra confrontar: http://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/102000244#h=27.

    1. Tudor Brasil disse:

      Esse site apenas reforça o que falamos no artigo. Uma vez que as fontes utilizadas são totalmente tendenciosas. Muitos ainda falarão de Maria I como uma mulher fanática, porque é algo amplamente difundido no senso comum. No entanto, a historiografia inglesa recente mostra-nos um cuidado mais amplo em como abordar este tema de um modo sensato. É o que fizemos aqui.

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