O Carnaval na Idade Média e Renascimento

Historicamente, o carnaval faz parte da cultura popular brasileira. Do latim, a palavra carnaval significa “carna vale“, ou seja, “adeus à carne”, ou ainda, o termo ‘vale’ faz menção a palavra prazer. Deste modo, o carnaval remete a despedida dos prazeres da carne física. As festividades realizadas três dias antes da quarta-feira de cinzas, chegaram ao Brasil devido à influência portuguesa durante o processo de colonização. Todavia, nosso país sofreu forte influência dos costumes culturais dos imigrantes oriundos de países como a Itália e França, no século XVII. Nobres destes países realizavam suntuosos bailes de máscaras e utilizavam belíssimas fantasias. Acredito que muitos de vocês já ouviram falar dos abastados carnavais de Veneza, que, são realizados ainda hoje.

As festividades do carnaval foram introduzidas no calendário cristão pela Igreja Católica no século XI, no entanto, em alguns textos, encontramos informações de que, desde o c38318d0291ebd5b031eee768d266e35século VIII, estes festejos faziam parte do calendário litúrgico católico. A Igreja desejava demarcar o período anterior à quaresma, isto é, aos quarenta dias de jejum e penitência que culminam nas celebrações da Semana Santa. A quaresma pode ser considerada a celebração mais importante do catolicismo, haja vista que, após os quarenta dias de jejum celebra-se a Páscoa, como data simbólica que representa a ressurreição de Cristo. A celebração da quaresma teve suas primeiras experiências ainda no século IV. Neste sentido, a partir do século XI, três dias antes de dar início à quaresma, eram realizados variados festejos, ocasiões em que as pessoas organizavam ceias, faziam brincadeiras e, inclusive, trocavam presentes. Estas festas eram chamadas de ‘dias godos’, momentos em que os costumes e as tradições religiosas eram enaltecidas. Mas, foi somente após o Renascimento Comercial e Urbano, que se processou no decurso do século XII, que passaram a serem organizados bailes de máscaras e fantasias durante as celebrações do carnaval.

Mas, a origem do carnaval não remonta ao cristianismo. Pelo contrário, este tipo de festividade já fazia parte da cultura das sociedades da Antiguidade. Diversos reis organizam comemorações a fim de celebrar rituais que homenageavam deuses e

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Pintura que representa a população medieval no período do carnaval. Artista: Pieter Bruegel ”O Combate do Carnaval e a Quaresma”

elementos da natureza. Em meio a estas festividades, as pessoas tinham a oportunidade de se expressarem de maneira livre, tanto na dança, quanto em suas ações. Estas comemorações eram realizadas em meio a músicas e alimentos típicos. Assim, festejos que tinham como mote a liberalização dos costumes estavam atrelados a tradição ritualística das sociedades da Antiguidade Clássica. Povos do Egito Antigo e Mesopotâmia, por exemplo, realizavam festejos semelhantes ao que hoje vislumbramos na tradição católica. Ocasiões em que eram concedidas a liberdade de comportamento e estímulo a diversão. Desta forma, podemos afirmar que a Igreja Católica apropriou-se das tradições pagãs e integrou às suas práxis, nas celebrações da liturgia que antecedia a Semana Santa. Assim, o carnaval tem origem na tradição pagã e o catolicismo ‘ajustou’ estas festividades aos seus interesses.

Ao longo do tempo, o carnaval tornou-se uma manifestação popular e um significativo elemento cultural para várias sociedades. Nós vivemos o carnaval como uma ocasião em que podemos extravasar e dançar em meio a muita música e diversão. Não podemos deixar de fazer menção, ao uso de fantasias e máscaras que, seja em desfiles, seja em festas de rua, foram também adotadas pela nossa cultura.

Em meio a esta atmosfera carnavalesca o Tudor Brasil não poderia de deixar de trazer para vocês um pouco deste rico festejo popular em um dado período histórico. Assim, fazemos o seguinte questionamento: Como era o carnaval na Idade Média e Renascimento?

classpic1Quando pensamos em Idade Média, logo nos vem à mente a forte presença da religiosidade. O poderio da Igreja Católica no que se refere ao controle dos hábitos e costumes era inegável. No entanto, como dissemos anteriormente, o carnaval se tornou parte integrante do calendário litúrgico desde o século XI. Durante o período medieval o carnaval era considerado um momento em que a Igreja permitia que a população extravasasse práticas que eram consideradas pagãs sem que houvesse punição ou recriminação. Esta era uma estratégia da Igreja para que pudesse, desta forma, expandir a fé católica em meio a um contexto em que várias crenças, lendas e tradições. Assim era permitido que práticas que não estavam relacionadas ao cristianismo, mas ainda se faziam presentes no cotidiano popular fossem exercidas.

Captura de Tela 2016-02-07 às 16.46.38.pngO carnaval na Idade Média era conhecido como “Festa dos Loucos”, uma comemoração tipicamente profana. Nestas ocasiões era permitido o consumo de bebida alcoólica, danças e músicas. É importante salientar que, o carnaval na idade média era vivenciado nas ruas, onde toda a população tinha a oportunidade de, pelo menos durante alguns dias, se comportarem com maior liberdade sem as pressões das normas sociais. Podemos afirmar que, estes festejos eram tidos como uma ‘válvula de escape’ diante da vida em uma sociedade cujos costumes eram fortemente controlados.

Na chamada “Festa dos loucos”, não apenas homens e mulheres comuns tinham a oportunidade de participar, mas também os membros do alto e baixo clero. A vida religiosa era alterada para vida pagã, o sagrado dava lugar ao profano. Membros do clero se vestiam como homens comuns e podiam festejar livremente. Nobres percorriam as ruas vestidos de pessoas comuns. A pesquisadora Claudiana Soerensen, em seu estudo, faz menção ao importante pesquisador deste período histórico, Mikhail Bakhtin. De acordo com Bakhtin a população tinha, no carnaval, a possibilidade de exercer uma ‘dupla’ vida, isto é, podiam experimentar situações que não eram possíveis em outros períodos do ano:

Para o estudioso russo, o carnaval constituía um conjunto de manifestações da cultura popular medieval e do Renascimento e um princípio, organizado e coerente, de compreensão de mundo. O carnaval, propriamente dito, não é, evidentemente, um fenômeno literário, mas um espetáculo ritualístico que funde ações e gestos elaborando uma linguagem concreto-sensorial simbólica. É esta linguagem bem elaborada, diversificada, una (embora complexa) que exprime a ―forma sincrética de espetáculo‖ – o carnaval – e transporta-se à literatura e é a essa ―transposição do carnaval para a linguagem da literatura que chamamos carnavalização da literatura.‖ (Bakhtin, 1981: 105) A linguagem é profunda e comprovadamente concreta e sensível pelo ajuntamento de gentes, o contato físico dos corpos, os quais são providos de sentidos. O sentimento individual é de fazer parte da coletividade, ser membro do grande corpo popular. A unidade coletiva constitui-se pela dissolução das identidades individuais. O corpo individual deixa, até certo ponto, de ser ele mesmo e se une aos demais ao travestir-se por meio de fantasia e máscara – exigência a todos os corpos individuais para formar um único corpo. (Soerensen, p.319)

 

Captura de Tela 2016-02-07 às 16.47.41.pngMediante a leitura do fragmento exposto, a autora faz menção à vida dupla, isto é, a vida oficial à vida carnavalesca. Trata-se da oportunidade das pessoas vivenciarem a liberdade social a partir do uso da fantasia e da máscara. Ainda, de acordo com Soerensen, o carnaval tanto da Idade Média quanto no período do Renascimento, era distinto do que vivenciamos atualmente. Ou seja, ele podia ocorrer em vários momentos do ano, mas sempre estava relacionado as comemorações religiosas do calendário cristão.

Nestas ocasiões uma figura ganhava destaque: o Bufão. Figura própria da Idade Média e do período do Renascimento; trata-se de um personagem que interpretavam a partir de um viés cômico, costumes e situações da vida quotidiana. Os bufões ficaram também conhecidos como bobos, atores que ‘davam vida’ de maneira crítica e cômica a personagens da sociedade. Muito embora a sua função social fosse proporcionar a diversão, a riqueza das suas críticas era bem acentuada, seja aos costumes, seja a política e a sociedade.

Algumas festividades organizadas pelo baixo clero, dentre eles padres e estudantes, havia a escolha de um indivíduo que recebia a alcunha de ‘bispo’. Este era um título simbólico que, também era denominado como “Papa dos Loucos” e, a ele era dado à autoridade de conduzir as comemorações do carnaval. Cabe ressaltar que, o carnaval era uma ocasião em que a hierarquia oficial poderia ser burlada, o que era proibido e restrito, podia ser praticado. Ainda, nas palavras de Soerensen:

Captura de Tela 2016-02-07 às 16.48.17O que se abolia, principalmente, durante o carnaval era a hierarquia. Leis, proibições e restrições, padrões determinantes do sistema e da ordem cotidiana, isto é, extracarnavalesca, são suspensas durante o carnaval: ―revoga-se antes de tudo o sistema hierárquico e todas as formas conexas de medo, reverência, devoção, etiqueta, etc., ou seja, tudo o que é determinado pela desigualdade social hierárquica e por qualquer outra espécie de desigualdade (inclusive a etária) entre os homens‖. A carnavalização adere a essa visão vasta e popular de carnaval que se opõe ao sério, ao individual, ao medo, à discriminação, ao dogmático. (Soerensen, p.320)

 Muito embora, historicamente os bailes de máscaras e fantasias estejam em nosso imaginário ligado aos realizados em Veneza, a partir do século XVII, na Idade Média as pessoas também utilizavam máscaras. Todavia, ao contrário das lindas máscaras decoradas dos nobres de Veneza, no período medieval, farta parcela das máscaras detinha aparências monstruosas. O carnaval era a ocasião para expor o grotesco, o ridículo e o cômico. Homens e mulheres trajavam roupas que eram consideradas ‘libertinas’. Os costumes recatados e reservados eram trocados por algumas pessoas pela diversão e pelas experiências carnais. Neste sentido, de acordo com Mikhail Bakhtin o carnaval na Idade Média era experimentado, vivenciado, sendo pois, uma manifestação da sociedade e não pode ser tido como uma representação, mas como uma experiência prática da vida quotidiana.

Bibliografia:
BORGES, Paulo Alexandre. Da loucura da cruz à festa dos loucos: loucura, sabedoria e santidade no cristianismo (2001) Disponível: AQUI.

PINTO, Tales Dos Santos. “História do carnaval e suas origens”; Brasil Escola. Disponível: AQUI. Acesso em 06 de fevereiro de 2016.

Soerensen, Claudina. A carnavalização e o riso segundo Mikhail Bakhtin. Revista Travessias,ediçãoXI, p.318-331. Disponível: AQUI.

 

 

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1 comentário Adicione o seu

  1. leticia disse:

    muito bom continuem assim, por que em vários sites que procurei só tinha “a origem” e não tinha explicando com era de fato na Idade Média, obrigado.

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