Eleonora de Toledo – A Exumação Medici [Parte IV]

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Em 2014, ocorreu na Itália uma exumação em massa que ofuscou qualquer outra pesquisa histórica no país, onde 49 criptas foram abertas.
Foi a exumação da família Medici, uma das mais poderosas famílias da história. Seu governo começou no século XV. O objetivo da exumação era saber mais sobre as doenças que podem ter acometido os membros da família, classificar quais dos Medici foram assassinados, e também satisfazer a curiosidade sobre a vida desta polêmica família italiana.

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Cripta dos Medici

Os primeiros corpos a serem desenterrados, foram quatro membros da família de Eleonora: Cosimo, a própria Eleonora, e seus dois filhos, Garcia e Giovanni – que haviam falecido durante a adolescência.
A equipe de exumação queria descobrir se os dois jovens haviam de fato morrido por doença, ou se haviam sido assassinados, conforme sugeriam as lendas italianas proliferadas após a morte dos herdeiros. Para isto, seria necessário um exame em suas ossadas.
O que pode parecer terrível para nós, é quase um passatempo nacional na Itália, especialmente quando trata-se dos Medici. Afinal, eles os legaram Florença, uma das mais belas cidades do mundo.
Os Medici foram banqueiros, Papas e príncipes. Eles foram cúmplices e assassinos, patronos e protetores de arquitetos e artistas, cujo trabalho ecoa até hoje, entre os quais podemos encontrar Botticelli, Fillipo Lippi e Leonardo da Vinci. Quando as teorias científicas de Galileu foram consideradas heréticas, foram os Medici que deram-lhe refúgio. O peso de seu escudos, emblemas e brasões, são fortes entre o povo florentino.
Italianos e estudiosos em todos os lugares, são obcecados com esta família e tudo que ela fez. Donatella Lippi, Professora de História da Medicina e membro da equipe de exumação, disse que havia um grande senso de antecipação: –

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Abrindo a cripta

Estou tocando as pessoas que governaram Florença por muitos séculos, e acredito que este é o último presente deles à sua cidade. Porque eles deram a si mesmos.”

Todas as exumações ocorreram na capela dos Medici, em Florença, o que simplesmente marca a importância da família. Os túmulos de Lorenzo e Giuliano de Medici são agraciados por obras feitas por Michelangelo.

“Estas pessoas são deuses para os italianos. E poder descobrir novas informações sobre eles, é, penso eu, crucial.” – Disse Bob Brier, outro membro da equipe. Ele é um arqueólogo e pesquisador sênior da Universidade de Long Island, que acredita que os ossos contam a sua própria história.

“Se você souber como interpretá-los, há uma incrível quantidade de informação neles. Então, eu acho que nós podemos descobrir muito sobre os Medicis. Queremos saber o que eles comiam e que tipo de doenças tinham. Será que eles sofreram? Eu quero dizer, sabemos que eles eram ricos, mas será que estavam realmente tendo uma vida tão boa Então, com isto, estamos tentando torná-los ‘vivos novamente.”

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Crânio de Garcia

Primeiro foi descoberta a ossada de Garcia, filho mais jovem de Cosimo e Eleonora, que assim como seu irmão mais velho, Giovanni, acreditavam ter sido assassinado.
Lippi dá uma versão do destino dos dois rapazes durante o outono de 1562: “Don Giovanni e Don Garcia estavam jogando juntos e Don Garcia tinha uma faca muito afiada em sua mão. Sem intenção, este feriu Don Giovanni, que faleceu poucos dias depois, vítima de uma infecção. Irritado, Cosimo então matou seu filho mais jovem.

Segundo Brier, esta é uma história que tem circulado pela Itália durante séculos. “Porém, em seguida, no arquivo, encontramos uma carta falando sobre um dos filhos estar com uma febre alta. Seu irmão morreu algumas semanas depois, também com uma febre alta, ao que tudo indica ser malária” disse Brier. “Então, você pode perguntar: ‘O que estamos procurando?’ Nós estamos apenas recolhendo algumas pequenas amostras de ossos, a fim de buscar o agente causador da malária.”

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Esqueleto de Eleonora. Ela tinha apenas 1.50 de altura.

Enquanto tentavam determinar exatamente o que matou os dois irmãos, outros pesquisadores estavam realizando o mesmo escrutínio em seus pais: Cosimo e Eleonora.
O Dr. Gino Fornaciari passou décadas decifrando ossos antigos, relíquias de santos e pecadores, e corpos de príncipes e plebeus. Ele é um patologista da Universidade de Pisa. No caso de Eleonora, ele também examinou seus retratos à procura de pistas. Ele cita um retrato de uma Eleonora aos 20 anos de idade, aparentemente saudável. Após algumas análises, ele encontra um retrato dela em meados de seus 30 anos, e a julgar por sua aparência, e descrições nos registros, Fornaciari suspeitou que ela estivesse sofrendo de tuberculose.
“Este é um retrato de uma mulher com uma doença grave”, declarou Fornaciari. No entanto, foram seus dentes que confirmaram o seu registro histórico. “Ela morreu por volta dos 40 anos. Ela teve 11 partos. Eleonora esteve grávida o tempo todo”, diz Brier. “E se você olhar para os dentes, verá que eles estavam horríveis. Ela deve ter sentido dor durante quase toda sua vida adulta. Pois quando você está grávida, o bebê está sugando o cálcio. E esta mulher deu à luz 11 vezes. Ela pode ter sido Eleonora de Toledo, a esposa do Grão-Duque, mas ela não teve uma vida fácil. ”

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Ossada de Cosimo.

No entanto, os ossos de seu marido Cosimo, contaram uma história diferente. “Ele era muito forte, assim como dizem os relatos” diz Brier. “…. O interessante é os registros falam sobre Cosimo ser um levantador de peso e sobre também ser um possível cavaleiro. ”
Brier diz que os ossos de Cosimo eram grossos e seu fêmur era robusto como uma arma: “Você poderia matar alguém com isto (o fêmur). É o esqueleto mais robusto que você pode imaginar. Então, ele realmente era um levantador de peso.” Observa Bier; no entanto, existem alguns detalhes descobertos, que não constam nos registros. “Por exemplo, três de suas vértebras foram fundidas” – diz Brier. “Como sabemos, não existiam fusões cirúrgicas na época. Então, ele parece ter levantado peso durante boa parte de sua vida. Acredito que o fim de sua vida foi muito difícil. ”

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Robusto fêmur de Cosimo

Porém, isto fazia parte da especulação, não da ciência. Raios-X e tomografias computadorizadas foram realizadas, e amostras de ossos foram retiradas dos dois meninos e de sua mãe e enviadas para laboratórios americanos e italianos, que buscaram vestígios de malária a tuberculose. Os Medici tiveram os melhores remédios disponíveis no período, mas Lippi diz que isto foi um grande perigo para eles. Na Itália do Renascimento, algumas curas poderiam ser mais perigosas do que as doenças em si. “Temos certeza de que as pessoas pobres que não podiam pagar médicos, tinham mais chances de sobreviver”, diz Lippi. “Muitas das pessoas muito ricas que podiam pagar os médicos, geralmente não tinham como escapar da morte”
Lippi diz que antes de morrer, Lorenzo, o Magnífico, recebeu um medicamento que foi preparado com esmeraldas da terra e pedras preciosas, por motivos astrológicos.
“Foi muito, muito perigoso” – disse ele.

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Crânio de Giovanni

Os Medici, apesar de todas as suas grandes contribuições para as Artes e para a ciência, também possuíam uma reputação absolutamente terrível. Como o próprio Brier nos diz:
“Os Medici tiveram uma propaganda ruim. (…) não resta dúvidas. Eles são os vilões da Itália, você sabe, que mataram uns aos outros e etc. A história contada a séculos sobre os dois irmãos, Don Giovanni e Garcia, em que um supostamente assassinara o outro, e então seu pai, Cosimo, em um ataque de raiva, matou o assassino, é uma delas”. Porém, conforme revelou a pesquisa, apesar de dramática, esta é apenas mais uma lenda. “Acredito que eles morreram de causas naturais. Parece que não há marcas de violência nos esqueletos dos dois irmãos. Nenhuma marca de espada, cortes, ou qualquer coisa desta natureza. Acredito que nossa pesquisa provavelmente irá tirar um pouco da imagem ruim dos Medici. Eles vão parecer um pouco melhor. Quero dizer, mais como seres humanos e menos como vilões. ”

A morte dos irmãos Medici, iria para a história como um polêmico caso de fratricídio, mas a real causa da eliminação de parte desta grande família, fora a epidemia de Malária que instalara-se em Pisa.

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O preço da doença. Eleonora antes e depois da tuberculose que devastou sua aparência vivaz.

Existem milhares de mistérios sobre os Medici.

Será que Pietro estrangulou sua esposa? “Acho que isto provavelmente é verdade”, diz Brier. Francesco foi envenenado por seu irmão, Ferdinando? “Poderia ter acontecido, mas não foi comprovado. ”
Isabella foi estrangulada na mesa de jantar por seu marido?
“Sim”, diz Brier. “Eu não quero defendê-los todos. Quero dizer, você sabe, eles não eram pessoas perfeitas. Mas foi uma época em que o assassinato era usado simplesmente como mais uma ferramenta política. Acredito que estas eram pessoas pensavam estar acima da lei, pois quem atreveria-se a prender um Medici?

O vestido funerário de Eleonora de Toledo:

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Roupa funerária de Eleonora.

Uma complexa restauração foi realizada ao longo de muitos anos e permitiu a reconstrução da saia em que Eleonora foi enterrada. Tendo em vista a fragilidade fragmentária das peças, não foi possível montar a peça de vestuário de uma forma tridimensional. As seções de trás da saia foram cortadas para criar mais do comboio e as inserções triangulares dos lados foram utilizadas para criar a forma cônica típica das vestes do período.

O laço duplo do corpete para os dois lados, foi feito utilizando um único cordão em cada lado. Ele foi fixado com um nó no orifício superior, e em seguida, foi atado através de ilhós alternados de cada lado do corpo. A duquesa foi claramente vestida apressadamente após a sua morte, pois o laço feito de fita de seda, não foi passado através de todos os ilhoses e uma de suas meias, fora colocada ao avesso. Acreditam que trata-se do vestido retratado na pintura variante de Agnolo Bronzino (abaixo a direita), datada de 1560.

Ao falecer vítima de malária, as pessoas encarregadas dos cuidados do seu corpo, temeram tanto o fato da doença em questão ser contagiosa, que o prepararam às pressas. O nome “Malária“, tem origem no termo italiano “mal aire”, que significa “mau ar”. Eles acreditavam que a doença era causada pelo ar insalubre de algumas regiões.

Conclusão:

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Acreditam ser este o vestido no qual Eleonora fora sepultada. Nesta pintura, ele está sendo utilizado com um casaco.

Quanto ao que matou outros membros da família de Eleonora, até agora não existe nenhum veredicto. Mas enquanto isto, existem ainda dezenas de Medici’s a serem desenterrados, mais relíquias a serem examinadas e mais lições a serem aprendidas. Observar todos estes crânios e ossos nobres, torna-se uma lição de mortalidade.

É a prova da grande sabedoria de Thomas Gray, quando ele mencionou “Que os caminhos podem ser de glória e de liderança, mas no túmulo está o que os antigos romanos chamavam de momento mori, onde um crânio era colocado sobre a mesa em festas, como um lembrete de que no meio de todo este prazer, nós todos compartilhamos um destino comum.”

E isto, pode ser a maior e mais simples verdade os Medici deixaram para todos nós.


Para complementar o artigo, sugerimos que assistam o documentário ”A Cripta dos Medicis”, onde a exumação é explicada em detalhes:

Infos:
Para saber mais sobre Eleonora, acesse:
Eleonora Parte I
Eleonora Parte II
Eleonora Parte III

Fontes:
Your Contact in Florence: AQUI.
Realm of Venus: AQUI.
CBSNEWS: AQUI.

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