Eleonora de Toledo – A Face por detrás dos Medici [Parte III]

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Conforme visto no artigo anterior, Eleonora fora uma mulher de grande importância na Corte florentina, grande patrona das artes, mulher de negócios e mãe de uma crescente prole de herdeiros Medici.

Desde cedo na Corte de seu pai, o Vice-rei de Nápoles, ela experimentou uma rígida etiqueta religiosa, que levaria por toda a sua vida e influenciaria muito em seus trabalhos de caridade.

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Ilustração de um Padre Jesuíta.

No meio religioso, as doações e trabalhos de Eleonora foram muito importantes para os Florentinos. Em seu enorme leque de favorecidos, encontrava-se principalmente os jesuítas, que após um inicial período de desconfiança, foram muito bem recebidos em Florença. Entre eles, ela escolheu como seu confessor pessoal, o Padre Jacopo Lainez, que foi um dos primeiros companheiros de São Inácio e seu sucessor imediato na Ordem. Os Jesuítas também presenciariam a educação, caráter e rigor moral atribuídos a Corte Médici e que não sobreviveria após a morte de Elenora. Ela sempre foi muito generosa com igrejas, mosteiros, centros de caridade e eclesiásticos, tanto durante sua vida, quanto após sua morte, dispondo em testamento, entre outros legados menores, a fundação de um convento de freiras beneditinas em Florença. Este convento seria destinado as filhas da maioria das famílias aristocráticas do estado, e que deveria ser o equivalente feminino da Ordem de São Stefano, fundada por Cosimo, em 1561. Este mosteiro, que seria “o novo mosteiro na Via della Scala”, iniciou sua construção em 1568.

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Papa Pio V – amigo de Eleonora.

Eleonora nutriu uma relação muito próxima com o Papa Pio V, que em 1560, confiou-lhe a administração de Abadias, Mosteiros e outros centros eclesiásticos no território do ducado, com a obrigação de que ela doasse os lucros para a caridade. Bem como a formação de um reconhecimento definitivo para Eleonora, tal decisão também fora um meio de resolver uma longa disputa que surgira durante o pontificado de Paulo III, entre o papado e o ducado de Florença, precisamente por causa do destino da renda captada destes locais, no qual o Papa havia confiado ao coletor apostólico designado para o cargo, enquanto o Duque queria utilizá-lo dentro da jurisdição do Estado.

Apesar das inúmeras gestações e uma doença grave, identificada atualmente como tuberculose pulmonar – que a atingiu em 1558, e em seguida, retornaria a ocorrer várias vezes nos anos que seguiriam-se, deixando-a muito mais magra e abatida -, Eleonora continuou a mesma mulher ativa de sempre, compartilhando todas as atividades de seu marido: tanto as viagens de estado (como a que foi à Siena e Roma, em 1560), quanto a caça menos extenuante e pesca na Maremma Pisana e livornense, como visitas a diferentes partes do domínio, supervisões das inúmeras obras de reparo empreendidas pelo Duque, e as longas estadas de inverno em Pisa e Livorno. Além de tudo isto, ela ainda mantinha encontros sociais com artistas e escritores e praticava seus passatempos favoritos, como carteado, jogos de apostas e suas leituras favoritas – não é raro deparar-se com registros de somas substanciais, muitas vezes pagas ou recebidas para isto.

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O preço da doença. Eleonora antes e depois da tuberculose que devastou sua aparência vivaz.

Enquanto isto, seus filhos, especialmente as meninas, recebiam uma educação muito severa, muitas vezes sendo mantidas confinadas em seus apartamentos, onde viviam quase reclusas, com a companhia apenas de suas damas e confessor – seguindo muito provavelmente, o exemplo da educação que a própria Eleonora recebera na Corte de seu pai.

Mesmo com suas obras de caridade, apoio as artes e intelectuais, além do trunfo de conseguir moldar a opinião do Duque e Estado, Eleonora não era amada – embora fosse querida – pelos florentinos, que a censuravam por sua nacionalidade espanhola e posição ostensiva (que provou ser uma tática política bem sucedida para empreitadas financeiras). Eleonora sempre deixou claro, inclusive para sua Corte, que preferia a companhia de seus compatriotas, com quem as relações cordiais e entretenimentos, eram sempre promovidas (por exemplo: eles alocaram uma capela na igreja florentina de Santa Maria Novella, chamada de “capela do Espanhol”).

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Possível retrato de Maria de Medici.

No entanto, com o decorrer dos anos, a vida provou ter um amargo gosto para a Duquesa. A vida de Eleonora foi marcada por uma série de perdas em família: a filha mais velha, Maria, morreu aos 17 anos, em 19 de novembro 1557; e em 1561, morreu sua filha mais jovem, Lucrezia, pouco após seu casamento com Alfonso II d’Este. Porém, seria apenas no outono de 1562, que estas perdas chegariam a um nível insustentável para ela.
Ao realizar uma viagem a Maremma de Livorno, ao lado do marido Cosimo e dois filhos, Giovanni – que recentemente havia subido ao posto de Cardeal – e Garcia, um surto de malária devastaria o local e a família Medici.

Este triste e marcante episódio Medici, iria para a história como um polêmico caso de fratricídio, mas a real causa da eliminação de parte desta grande família, fora a epidemia que instalara-se em Pisa.

O primeiro a adoecer foi Giovanni, que provavelmente já sofria também de tuberculose. Ele faleceria pouco tempo depois, em 20 de Novembro de 1562. Após sua morte, Eleonora não dormiu nem se alimentou por três dias seguidos.

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Giovanni de Medici.

Para piorar sua dor, após a morte de Giovanni, o jovem Garcia contraíra a febre. Quando Garcia começou a piorar, a própria Eleonora passou a apresentar o sintomas da malária. Mesmo assim, ela recusou-se a ser atendida por seus médicos, algo diferente dos seus costumes habituais. Após a morte de Garcia, em 06 de Dezembro, Eleonora padeceu de uma incrível angústia e desespero – segundo relataria Cosimo, tempos depois.

A febre galopante e uma tuberculose nunca totalmente curada, seguida de uma profunda depressão e angústia mental, provocadas pela morte de seus filhos, foi demais para Eleonora, que então, perdeu a vontade de viver. O embaixador ferrarense Rodolfo Conegrano, escreveria informando ao Duque d’este: ”Acredita-se que a Duquesa deixará esta vida, os médicos perderam qualquer esperança”.

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Enfraquecida, Eleonora deixaria esta vida.

E assim o foi. Eleonora morreu as três da manhã, em Pisa, no dia 17 de Dezembro de 1562.
Seu corpo foi logo preparado para o retorno a Florença, onde ocorreria o funeral. Ela foi trajada com um suntuoso vestido de cetim amarelo com um justilho vermelho de veludo por baixo e meias de seda vermelhas.

O medo da epidemia foi um constante lembrete de mortalidade a todos no local, que temendo o contágio, apressadamente a vestiram e a colocaram no caixão. Segundo a autora Caroline P. Murphy, em seu livro Isabella de Medici – A vida gloriosa e o trágico fim de uma princesa da Renascença: –

”Uma fita do justilho foi acidentalmente atada sem passar pelo ilhó; uma das meias foi vestida ao contrário, e tiras grosseiras de seda prendiam seus pulsos e tornozelos dentro do caixão…”

Após o funeral solene, seu corpo foi enterrado na Basílica de San Lorenzo, em Florença.

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Roupa funerária de Eleonora.

Cosimo reagiu quase que estoicamente a morte de sua esposa, que fora-lhe companheira e mãe de seus filhos por 23 anos. Como ele diria ao filho Francisco ”apesar do sacrifício de dois queridos filhos e de sua admirável mãe, consola-me o fato de ainda ter você, seus dois irmãos (Ferdinando e Pedro) e a Duquesa de Bracciano que está comigo”. 

Segundo Francisco, seu filho, Cosimo continuaria a viver da maneira habitual. É claro que isto pouco diz a respeito de seu luto. Cosimo era um homem político, e sabia, assim como Eleonora, que as responsabilidades envolvidas na administração de um ducado, negavam-lhe a alternativa de perder-se em lamentos.

Pouco tempo depois, Cosimo começou a cumprir os termos do testamento de Eleonora. Quase na mesma hora, os esboços do projeto para a construção do convento (citado acima) foram iniciados. Segundo Murphy ressalta: –

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Cosimo de Medici

”Esta atenção aos desejos de sua mulher e o rompante de atividades que se seguiu à sua morte, podem facilmente ser vistos e talvez com razão, como a reação de um viúvo, que através do trabalho, procura escapar da dor”.

Cosimo era acima de tudo, um homem prático e pouco a pouco, os vestígios que Eleonora em vida deixara na Corte, foram desaparecendo. Na semana seguinte a morte de Eleonora, o Duque estava preocupado em derreter velhas baixelas de prata e desfazer-se das antigas roupas de Eleonora. Conforme Conegrano registraria: –

”Sua excelência conserva a mesma mesa e as mesmas companhias do tempo da duquesa […] quer dizer isto, que o signor Paulo está lá, a senhora Isabella, don Pedrino, mas a mesa está mais bem servida e mais íntima. Ele a conserva desta maneira tanto pela manhã, quanto a noite e muitos entram para vê-lo”.

Isto mostra que ele não mais seguia os rígidos protocolos de sua esposa, que junto com sua comitiva espanhola, demoravam a sentar-se a mesa, que ficava com os alimentos frios e era bem menos farta, além de contar com uma presença muito mais restrita de convidados especiais. Por respeito e devoção a Eleonora, Cosimo assim o fez por toda a sua vida, mas agora depois de morta, ele poderia voltar a sua rotina que adquirira antes de casado.

Continua…

Acompanhe os artigos
Eleonora – Parte I
Eleonora – Parte II

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