O Lugar da Mulher na História – Introdução

Vivenciamos uma profusão de discussões a respeito dos direitos e papel da mulher na sociedade contemporânea. Atualmente, muitos movimentos feministas estão sendo criados e outros existentes estão sendo fortalecidos. Embora, aos olhos do senso comum este panorama pareça ser um fenômeno recente, sobretudo, devido ao crescimento da sua discussão, em grande medida, através das redes sociais, é senão resultado de uma longa trajetória de lutas das mulheres pelos seus direitos de igualdade política e social. Ao fazer esta afirmação, não podemos deixar de mencionar as pioneiras experiências do movimento

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Movimento feminista atual.

feminista, que remontam ao limiar do século XVIII. Isto porque, temos como marco na histografia feminista as lutas e ações impetradas por mulheres no decurso da Revolução Francesa (1789/1799).
De maneira didática e sucinta, este importante fato histórico, refere-se, dentre outros fatores, às constantes agitações políticas e sociais em razão da exploração às classes menos abastadas, que se organizaram para combater a opressão do sistema monárquico.

A Revolução Francesa foi fortemente influenciada pelas concepções do Iluminismo, corrente filosófica que apregoava a primazia do conhecimento científico e racional. Em termos econômicos, os iluministas defendiam a necessidade do progresso científico e tecnológico, bem como a constituição do homem moderno. Para isto, fazia-se necessário romper com as concepções das tradições herdadas do período Medieval, com destaque para, os costumes, o misticismo, as crenças e as tradições. Além da necessidade de rescindir com o poderio exercido pela Igreja e pela excessiva centralização do estado monárquico.

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Sufragistas em gravura, lutam por seu direito ao voto.

As ideias de racionalização e reestruturação do modelo político vigente ganharam ênfase a partir da difusão das percepções de vários intelectuais iluministas deste período, dentre os quais, o inglês Jonh Locke, que viveu entre os anos de 1632-1704. Locke se tornou crítico contumaz da teoria do direito divino do reis e defensor da separação dos poderes entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Para ele, um governo racional deveria estar desvinculado da influência religiosa, ou seja, defendia a separação entre Igreja e Estado. Além do Locke, podemos fazer menção ao francês Charles de Montesquieu que viveu entre os anos de 1689 a 1755, e, em consonância aos ideais de iluministas defendia além da

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O mito de gênero no período medieval.

separação entre Igreja e Estado, sustentava a primazia de um governo estruturado nos princípios democráticos.

Em meio a essa profusão de ideiais, a França encontra-se em uma situação complicada. O estado monárquico encontrava-se desgastado, em especial, devido aos privilégios que a nobreza e o clero usufruíam até então, e ao desgaste econômico que assolava o país em razão da participação da França em vários conflitos bélicos. A França havia sido derrotada na Guerra dos Sete Anos (1756 – 1763), bem como havia destinado grandes despesas relativas na sua participação na guerra de independência dos EUA (1776 – 1781). Este panorama resultou no colapso financeiro do país e no surgimento de várias revoltadas camponesas e urbanas. Posto desta forma, para os filósofos iluministas era necessário fazer uma reforma na sociedade.

Liberté_Egalité_&_Fraternité_ou_la_mortAs múltiplas revoltas que eclodiram na França, entre os anos de 1789 a 1799 resultaram na derrubada do sistema monárquico e na constituição de uma República Democrática. Essa ruptura implicou em impactos significativos não apenas ao modelo político da França, mas em várias esferas sociais, culturais e políticas de toda a Europa. É neste contexto que despontaram os pioneiros movimentos encabeçados por mulheres em prol da conquista por direitos igualitários. Tais movimentos foram diametralmente influenciados pela Revolução Francesa, este, conforme dissemos, apregoado pelos princípios do Iluminismo, isto é, a luta pela “Liberté, Egalité, Fraternité”, traduzindo, Liberdade Igualdade e Fraternidade.

Os questionamentos em torno da ordem política vigente estimularam as mulheres francesas a lutarem por melhores condições de vida em sociedade. Salvo algumas exceções, na Europa a maioria das mulheres até o século XVIII eram submetidas a uma ordem social rígida, sendo majoritariamente criadas para cuidar do lar e da família.

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Revolução Industrial.

Mulheres de origem humilde, quando tinham acesso a oportunidades de trabalho, geralmente ocupavam cargos com baixos salários, e relacionadas ao cuidado do lar, tais como, empregadas domésticas e faxineiras. Mesmo com o progresso técnico, as mulheres que trabalhavam nas cidades, sobretudo, no comércio e nas fábricas, recebiam baixos salários. Aquelas que recebiam algum tipo de educação podiam alcançar cargos melhores, como professoras e secretárias. Porém, no seio familiar, a mulher era considerada como propriedade privada dos homens, não tendo, pois direito a condução das suas propriedades e, em sua maioria, dos próprios destinos. As francesas lutaram não somente pelo direito de conduzir seus destinos, mas também pela participação política, em especial, através da possibilidade do acesso ao voto, a partir da organização dos movimentos sufragistas na França do século XVIII.

Ainda século XVIII, no transcurso do fenômeno inglês conhecido como Revolução Industrial, marcado pela modernização do modo de produção e pelo aumento da produtividade econômica, muitas mulheres passaram a atuar em indústrias e fábricas.

Muito embora, tenha ampliado o acesso da mulher ao mercado de trabalho, seus salários ainda eram inferiores quando comparado aos homens. Todavia, não podemos deixar de considerar que, estes movimentos estimularam o surgimento de associações e grupos feministas em diversos países da Europa, como em Portugal e Inglaterra, e nos Estados Unidos, durante o século XVIII, XIX e XX.

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Da esquerda para a direita. Carolina Beatriz e Ana de Castro. Primeira eleitora portuguesa e primeira presidente da liga das Sufragistas Portuguesas. Início do século XX.

Fizemos menção a estes contextos, mesmo que, de maneira breve, pois o nosso objetivo é destacar que o nosso objeto de estudo em vários artigos ao longo do ano será as mulheres em sua perspectiva histórica. No intuito de contribuir com a difusão dos conhecimentos a respeito da História das Mulheres, consideramos pertinente, trazer para os nossos leitores artigos que estimulem a reflexão sobre o lugar e o papel da mulher ao longo de vários contextos históricos. Para isso, recorremos a obras da histografia que tratam da temática e que são nossos referenciais.

Além disso, a nossa proposta é desconstruir perspectivas consolidadas, sobretudo, aquelas moldadas pelo senso comum, segundo o qual a mulher de ‘antigamente’ era inteiramente submissa aos ditames da regulação da estrutura social. Claro que iremos considerar o peso das regulações sociais para vida da mulher, como as tradições, a cultura e a religiosidade. Todavia, é preciso considerar que houve movimentos de resistência e que,

tais movimentos foram responsáveis pela ampliação do acesso aos direitos políticos e sociais. Muitos direitos são vivenciados por nós em nossa sociedade contemporânea, como o direto ao voto.

Para iniciar, iremos romper com a ideia da mulher de ‘antigamente’ e situar a nossa discussão em momentos históricos específicos. É provável que, muitos de vocês, em algum

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”We can do it!”- Cartaz americano de propaganda para a guerra, que servia de inspiração para elevar o moral do trabalhador.

momento da vida, já fizeram as seguintes perguntas: “Como viviam as mulheres no século passado ou em outras épocas? Como eram seus hábitos e costumes? Como era a sociedade em que vivam?”

Deste modo, os recortes temporais que iremos destacar têm como finalidade responder a estes questionamentos e mostrar o lugar da mulher em diferentes sociedades. Em outras palavras, pretendemos ampliar a visão do papel da mulher de modo a contribuir para a reflexão acerca da diversidade de comportamentos, suas condições e suas funções sociais ao longo da história. Aqui, mostramos um pouquinho das ações das mulheres na França, mas e como foi em outros contextos? Através desta perspectiva, veremos que além da diversidade de lugares, conforme o período e a sociedade em que se situam, nem sempre a mulher foi relegada a posição secundária e submissa nas relações sociais. Assim, iremos apresentar o nosso primeiro artigo, dedicado a Mulher no Antigo Egito.

CONTINUA…

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2 comentários Adicione o seu

  1. maria disse:

    Obrigada por proporcionarem artigos visando o lugar da mulher ao longo da história. Espero que continuem com o trabalho lindo. Se cuidem.

    1. Tudor Brasil disse:

      Obrigada pela opinião Maria! Ficamos felizes que tenha gostado 🙂

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