O Cadáver de Ana Bolena

Na manhã do dia 19 de Maio de 1536, Ana Bolena, a segunda esposa de Henrique VIII, bravamente seguiu seu caminho rumo ao cadafalso, a fim de enfrentar sua execução privada na Torre de Londres.

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Torre de Londres

Seria rápido. Levaria apenas um golpe da espada do carrasco, para que seu delicado pescoço se desligasse de seu corpo e sua alma, deste mundo.
Sua cabeça cairia sob o chão forrado de palha como um sopro, com seus lábios ainda movendo-se em uma incessante oração final.

Embora a execução de Ana tenha sido meticulosamente planejada, ninguém preocupou-se em dar-lhe um enterro e funeral apropriado. Não existia nenhum caixão para acomodar seu corpo após seu fatal encontro com a espada do carrasco. No entanto, após vasculhar em torno da Torre, alguém encontraria uma velha caixa de arcos para acomodar seu cadáver.

No artigo de hoje, exploraremos um pouco mais esta questão.

Preparativos Finais e Execução:
O veredicto fora dado; o rei ordenou que a Rainha fosse executada. Uma semana antes, ele May 10thhavia enviado a St. Omer, agentes a procura de um carrasco que pudesse cortar a cabeça com uma espada ao invés de um machado, e nove dias após o início da procura, o homem ideal foi encontrado. Tratava-se de um espadachim de Calais, com sua espada de mesma proveniência.
Dizem que então, conforme o costume, a rainha confessou-se, uma vez que morreria no dia seguinte. Ela implorou para que fosse executada dentro da Torre e que nenhum estrangeiro a visse em seus momentos finais.

O andaime foi erigido no grande pátio da torre e na manhã seguinte, eles a trouxeram para fora. Ao lado de Sir William Kingston e suas damas, Ana saiu dos aposentos onde estava confinada. Quando chegou ao cadafalso, ela trajava um vestido de damasco cinza ou negro forrado com pele, com uma saia do mesmo tecido em carmesim, um manto de arminho e um capelo de empena inglês sobre sua cabeça. Segundo Martin Hume, em suas crônicas: –

896831_1323246641814_full”Esta senhora estava deveras graciosa e possuía um longo pescoço; e quando subiu ao cadafalso, ela viu-se diante de muitos cavalheiros, entre eles, o carrasco, que estava vestido como o resto dos presentes, e não como um carrasco; ela olhou a seu redor, a fim de ver o grande número de pessoas presentes, pois, embora fosse executada dentro da Torre, havia uma grande multidão. Eles não admitiriam qualquer estrangeiro, a não ser um que havia entrado na noite anterior e que registraria tudo o que ocorreu…”

Ana então, proferiria seu famoso último discurso: –

”Bom povo cristão, vim aqui para morrer, de acordo com a lei e segundo a lei julgou-me para morrer e portanto, nada direi sobre isto. Não vim aqui para acusar nenhum

Ann Boleyn

homem, nem para falar nada sobre isto, de que sou acusada e condenada a morrer; apenas rezo a Deus para que salve o Rei e que ele tenha um longo reinado sobre vós, pois nunca existira príncipe mais misericordioso; e para mim foi sempre um bom e gentil senhor e soberano. Se alguma pessoa interessar-se em minha causa, peço-lhes que julguem o melhor. E assim deixo este mundo e todos vocês e cordialmente peço que rezem por mim. Ó senhor, tenha misericórdia de mim, a Deus, eu entrego minha alma…A Jesus Cristo eu entrego minha alma; Senhor Jesus, receba minha alma.”

Margaret Wyatt, a irmã de Sir Thomas Wyatt – o poeta, que foi um dos amigos dedicados de Ana, estava a seu lado no cadafalso. Ela receberia seu último presente, um pequeno livro de orações, trabalhado em esmalte preto e dourado. Depois disto, seu manto foi retirado por suas damas e seus olhos vendados. Após sussurrar algumas palavras, ela então, ajoelharia-se.

boleyn2Em seguida ocorre algumas divergências de relatos. Segundo alguns registros, suas damas retirariam de sua cabeça seu capelo inglês e colocariam uma touca onde seu espesso cabelo negro seria acomodado. No entanto, nas crônicas de Hume, o relato difere um pouco. Segundo Hume: – 

”O carrasco, estando a sua frente, disse em francês, ”minha senhora, não tenha medo, eu vou esperar até que você me diga quando”. Então ela disse: ”você vai ter que retirar este capelo”, e ela apontou para ele com sua mão esquerda”. 

Apenas depois disto, seria colocado-lhe uma touca mais adequada para facilitar o trabalho de seu executor. Era esperado que após isto, a vítima pagasse seu carrasco com algumas moedas e o perdoasse pelo que ele teria de fazer.

Captura de Tela 2016-01-14 às 09.16.05Ana repetidamente entoaria as seguintes palavras até seu último momento: –
“Ó Senhor, tenha misericórdia de mim, a Deus eu entrego minha alma. A Jesus Cristo eu entrego minha alma; Senhor Jesus receba minha alma.”

A espada estava escondida sob uma pilha de palha, e foi dito de antemão ao homem que estava ao lado do carrasco, o que fazer; deste modo, para que ela não pudesse suspeitar, o carrasco voltou seus passos e gritou ”traga-me a espada”. A senhora virou o rosto, seguindo o som de sua voz e o carrasco fez um sinal com a mão direita para que o garoto lhe desse a espada, e sem ser notado pela senhora, cortou sua cabeça rapidamente.

O Cadáver da Rainha:
Após os mil espectadores terem desaparecido, o corpo de Ana Bolena ainda jazia onde Captura de Tela 2015-12-09 às 00.54.53havia caído após o golpe fatal do carrasco francês. O sangue escorrendo para baixo de seu tronco e pescoço, tamborilando através das tábuas de madeira para a grama abaixo do cadafalso. Foi neste momento, que as pessoas ainda presentes, perceberam que não haviam sido dadas instruções sobre o que deveria ser feito com o corpo da falecida Rainha.

O rei havia dado detalhadas instruções de cada passo a ser dado neste processo até aquele momento, desde o tipo de tecido que ornamentaria o cadafalso, até o local escolhido, mas sequer uma palavra sobre o que deveria acontecer ao corpo da mulher que outrora havia feito sua rainha e mãe de sua filha.

Medieval_chest_ad_pic5Ninguém sabia o que deveria ser feito. Eles então, aguardaram que alguma ordem viesse de seu soberano, para por fim a tal questão, mas tudo que obtiveram de Henrique e seu conselho, fora o mais impiedoso silêncio.
Eventualmente, alguém – provavelmente Sir William Kingston, guarda da Torre – tomara a decisão. Claramente um caixão não fora fornecido para acomodar os restos de sua Rainha para seu descanso final, mas seu corpo não poderia ser apenas depositado em solo nu. Ana Bolena havia sido até instantes atrás, a Rainha da Inglaterra. Um carregamento de aduelas curvas, destinados as tropas na Irlanda, havia recentemente chegado ao arsenal da Torre, e eles então decidiram usar o baú de armazenamento, como um caixão para os restos de Ana. Ele foi então esvaziado e levado ao cadafalso o mais rápido possível.

Captura de Tela 2015-12-09 às 00.56.41Em seguida, com seu cadáver caído no chão, úmido de sangue, quatro de suas damas apareceram para retirá-lo do local. Elas pareciam sem alma, estavam tão languidas e extremamente frágeis, mas temendo que sua senhora fosse indignamente tratada por homens desumanos, elas forçaram-se a realizar o trabalho.

Àquela altura, o corpo de Ana já havia sido despojado de suas roupas, que seriam então entregues ao carrasco. As roupas de um executado, eram de prerrogativa do carrasco, como parte de seu pagamento esperado. O resto de seus pertences, como capelos, casacos, Captura de Tela 2015-12-09 às 00.57.39mantas, vestidos e jóias, que encontravam-se nos apartamentos reais, pertenciam, até segunda ordem, a William Kingston. O conselho mais tarde, pagaria-lhe 100 libras para reavê-los de volta – elas voltariam então para a Coroa (onde seriam usados pelas próximas esposas de Henrique), ou seriam herdadas à sua filha, a pequenina Elizabeth.

Ana havia retirado seu manto de damasco negro no cadafalso, antes que a espada encontrasse seu pescoço e suas damas provavelmente removeram seu vestido e saia, para entregar ao carrasco. O tecido teria sido muito volumoso para caber no baú de flechas em todo modo. As damas de Ana, passaram a Captura de Tela 2015-12-09 às 00.57.58preparar rapidamente seus restos para que sua rainha fosse enterrada. Seu corpo seria embrulhado em tecido branco encerado – um pano pesado, revestido com cera, utilizado para mortalhas – e colocado no baú, com sua cabeça aninhada em seu braço, pois o recipiente seria muito pequeno para sua colocação normal.

Elas carregaram seu caixão improvisado por cerca de 65 metros, até a capela da Torre, St Peter ad Vincula, passando pelas sepulturas recém preenchidas, de Norris, Weston, Brereton e Smeaton, onde uma cova rasa fora cavada abaixo do pavimento do altar. Lá, Ana fora enterrada ao lado de seu irmão, em solo b47441b8b202bf4dde515178371820e0sagrado, mas sem ritos funerários. Ela viria a ser acompanhada por sua prima, Catarina Howard, outra das malfadadas Rainhas de Henrique VIII da Inglaterra, além de sua cunhada, Jane Parker.

Embora Ana tenha sido executada às 9 horas da manhã, seu corpo não foi enterrado até a tarde do mesmo dia. De acordo com Weir, é provável que o atraso tenha ocorrido devido a espera de alguém para levantar as pesadas pedras do pavimento da capela-mor e escavar uma cova rasa – afinal, nenhuma provisão havia igualmente sido realizada para isto.

Capela de St Peter ad Vincula:
Seu corpo, sepultado sobre uma cova sem marcação em frente ao altar da capela St Peter ad Vincula, seria esquecido pelos próximos 300 anos que seguiriam-se.

AnnesGraveNão seria até os reparos realizados na capela, em 1876, que Ana ressurgiria outra vez. Seus restos mortais foram descobertos sob o altar durante as reformas do local, em um rústico caixão de madeira.

Quando a Torre deixou de ser uma residência do soberano ou prisão de estado, a capela de St. Peter parece ter sido gradualmente considerada muito estimada para uma mera e ordinária igreja paroquial, na qual o sepultamento, não só daqueles que haviam vivido na Torre, como também dos moradores do bairro, era livremente permitido.

P1030193No período vitoriano, a capela com tantas almas, havia caído em um triste estado de negligência. A Rainha Victoria, deu então permissão para que uma restauração fosse realizada e ordenou em uma tentativa de identifica-los, que os túmulos abaixo do pavimento fossem exumados.

Ao remover as pedras do pavimento, foi encontrado o local de descanso daqueles que foram sepultados sobre estas paredes da capela, durante o turbulento período dos séculos XVI e XVII. Eles temiam que, os restos lá presentes, tivessem sido repetidamente profanados.

É verdade que os corpos daqueles que pereceram no cadafalso, ou morreram como prisioneiros sob estas paredes da Torre, foram sepultados (sem dúvidas, Captura de Tela 2016-01-14 às 09.26.03intencionalmente) “em grande obscuridade;” mas mesmo que alguma pedra ou memorial marcasse seu local de sepultamento, é questionável se isto teria protegido seus restos, como foi o caso de três Lordes escoceses (Lovat, Balmerino e Kilmarnock); embora suas sepulturas tenham sido especialmente marcadas na pedra – que ainda encontra-se preservada -, fora descoberto que seus ossos foram tão perturbados, que era impossível identifica-los. Eles inclusive temiam que, alguns dos caixões tivessem sido intencionalmente quebrados, tendo seus conteúdos espalhados e afim de abrir espaço para um novo corpo no local.

Continue lendo sobre a exumação de Ana Bolena: AQUI.

Conclusão:
Conhecer o fim dado aos restos mortais de uma das mais famosas rainhas da Inglaterra, é um aspecto muito importante a ser considerado. Geralmente as pessoas – assim como muitos dos presentes no momento – interessam-se por Ana Bolena, apenas até o momento em que a espada do carrasco pousa em seu longo pescoço. No entanto, algumas pessoas, por respeito, devoção ou amizade, arriscaram a volúvel prerrogativa real, para que esta mulher, a quem um dia chamaram de sua rainha, tivesse um descanso digno para a eternidade.
Este aspecto tão humano destas pessoas, sem dúvidas, merece ser lembrado.

FONTES:
Under these Restless Skies: AQUI.
On the Tudor Trail: AQUI.

Chronicle of King Henry VIII of England: Being a Contemporary Record of Some of the Principal … by Martin Andrew Sharp Hume
Agnes Strickland’s: Queens of England
Archives of British letters and Papers: Henry VIII’s reign

 

 

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2 comentários Adicione o seu

  1. Rafa Henriques disse:

    olá! conheci o blog recentemente e já estou apaixonada pela maneira com que é tratado tal período da história!
    gostaria de saber qual a origem das imagens de número 1, 8, 10, 11, 12 e 13! (contando a partir da imagem de uma ana vendada) reconheci a 4 do filme “A Outra”, mas as outras me deixaram em dúvida.
    Desde já agradeço!

    1. Tudor Brasil disse:

      Olá Rafa. Tudo bem?
      As imagens são da minissérie Wolf Hall da BBC Two. 🙂
      Temos imagens de Ana dos Mil Dias e A Outra também.

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