A Morte de Elizabeth I – O Registro Scaramelli

No ano de 1603, o Doge de Veneza, mandou Carlo Giovanni Scaramelli como enviado à Corte da Rainha Elizabeth I. Desde 1557, os ingleses ressentiam-se com o rompimento das relações diplomáticas com Veneza, porém agora, os venezianos tinham todos os motivos para voltar a envolverem-se: Scaramelli foi apelar à Rainha, em cercear a pirataria inglesa no Mediterrâneo.

A missão de Scaramelli, duraria apenas alguns meses, mas ele forneceria vívidas descrições de sua estada na Inglaterra. Em especial, ele deu um maravilhoso registro de sua audiência com Elizabeth I em Fevereiro, um mês antes de sua morte. Embora os pontos de vista das informações de Scaramelli sejam importantes, ele são em segunda mão.

Sem dúvidas, o detalhe mais revelador, é o comentário de Elizabeth no final da audiência. Ela e Scaramelli, parecem ter conversado na língua do diplomata, italiano, e Elizabeth finalizou dizendo: –

“Mas eu não sei se falei bem italiano, embora acredite que sim, pois aprendi quando era criança e acredito que não tenha esquecido’’– um convite ao elogio, que Scaramelli deu nos despachos posteriores, quando entusiasmou-se sobre sua habilidade em falar nove idiomas. Em qualquer ocasião, mesmo com 67 anos de idade, Elizabeth era a mais inteligente pessoa da sala.

O que veremos à seguir, vem dos registros de Scaramelli no Calendário de Documentos de Estado Veneziano (1592-1603): –

‘Supervisionado por um dos agentes da rainha, o enviado Veneziano é convocado à presença real, às 14:00 horas, do Domingo, dia 16 de Fevereiro:

Quando a hora da partida chegou, que eu e o agente aguardamos durante toda a manhã de domingo, eu fui à Richmond, apesar do mau tempo. Eu fui recebido aos pés da escadaria, por muitos senhores, que fizeram uso de expressões corteses, fora das relações para Sua Serenidade [o Doge de Veneza]. No topo da escadaria, o Lord Camareiro esperou-me e introduziu-me para a sala que eles chamam de ‘Câmara de Presença’, e imediatamente depois disto, para a sala onde Sua Majestade estava.

A Rainha estava vestida em tafetá de prata e branco, adornado com ouro; seu vestido estava um tanto aberto na frente e mostrava seu pescoço, cercado de pérolas e rubis até seu peito. Suas saias eram bastante cheias e começavam mais abaixo, que está em moda na França. Seu cabelo era de um cor clara, nunca feita pela natureza, e ela usou grandes pérolas em volta de sua testa; ela tinha uma touca arqueada em volta de sua cabeça e uma coroa Imperial, e exibia uma vasta quantidade de gemas e pérolas sobre sua pessoa; mesmo sob sua estomaqueira, ela estava coberta com ouro, girdles de jóias e gemas solitárias, carbúnculos, pedras de rubis, diamantes; em volta de seus pulsos, no lugar de braceletes, ela usou fileiras duplas de pérolas, acima do tamanho médio. Sua Majestade estava sentada em um trono, colocado em uma pequena plataforma quadrada, com dois degraus e ao redor, no chão e a postos, estava o Arcebispo de Canterbury, Arcebispo da Inglaterra, o Lord Chancellor, o Lord Tesoureiro, o Lord Alto-Almirante, o Secretário de Estado e todos os Conselheiros Privados; o restante da Câmara, estava cheia de damas e cavalheiros e os músicos que estavam tocando música de dança até aquele momento.

Em minha entrada à Rainha, avancei com reverências executadas em sua devida ordem, e alcancei-a no ato de ajoelhar-me no primeiro degrau para beijar seus trajes, porém sua Majestade não permitiu isto e com ambas as mãos, quase levantou-me e estendeu-me a direita, na qual beijei com efusão, e no mesmo momento, ela disse: “Bem-vindo à Inglaterra, Sr. Secretário. Já era tempo que a República mandasse um enviado para visitar uma Rainha, que sempre honrou-a em todas as ocasiões possíveis.” Eu retirei-me um passo ou dois e adequando meu discurso em vantagem, respondi, com firmeza, que uma variedade de circunstâncias haviam por muitos anos, impedido sua Majestade de ouvir dos lábios de um enviado, especialmente credenciado pela Serena República de Veneza…

Scaramelli atravessou as subtilezas diplomáticas, em seguida, queixou-se sobre o dano sendo feito pelos piratas ingleses. Ele apresentou uma carta do Dodge, e a Rainha respondeu de modo arrogante, suas faculdades em pleno poder. A resposta de Scaramelli foi eloquente, e Elizabeth concluiu a audiência:

Sua Majestade foi persuadida pela honestidade de minha resposta e então, quase sempre sorrindo, ela ficou em pé até o final de minha audiência. Antes de retirar-me, eu acrescentei, que assim como ela desejava, para sua melhor informação, nomear comissários, eu supliquei-a para fazê-lo de uma vez, lembrando-a que os serviços são os mais graciosos e rápidos e em primeira mão são concedidos. Para o qual a Rainha respondeu: “Sim, eu pretendo fazê-lo e farei-o saber disto. Porém, eu não sei se falei bem italiano, embora eu acredite que sim, pois aprendi quando criança, e acredito que não tenha esquecido.”

Ela então, graciosamente deu-me sua mão uma vez mais para beijá-la, o que eu fiz novamente, e proferiu estas mesmas palavras: “Eu não irei deter sua senhoria por mais tempo.” Com isto, eu despedi-me e retornei para Londres na mesma noite.

Scaramelli solicitou uma segunda audiência, mas a resposta da Corte foi de que isto não seria necessário caso ele estivesse satisfeito com a conclusão dos comissários. Em 20 de Março, algo interveio – a morte da Condessa de Nottingham – porém, Scaramelli contou que a verdadeira preocupação, pairava sobre a reivindicação de Arbella Stuart: –

”A causa do atraso na reunião dos Comissários, foi a morte semana passada da esposa do Lord Almirante. Além da elevada posição de seu marido, ela mesma era uma dama de enorme consideração e uma das principais damas do quarto de dormir da Rainha. Esta posição é considerada tão sublime aqui, que eles dizem que seu funeral deverá custar quarenta mil coroas. Eu devo também adicionar, que o carnaval, que de acordo com o calendário inglês, continuou a acontecer anteontem, tenha atrasado a reunião; apenas aqui na Corte, ele não foi observado com o usual acompanhamento de danças e comédias, pois a Rainha por muitos dias, sequer deixou a câmara. E embora eles digam que a razão para isto é seu sofrimento pela morte da Condessa, mesmo assim, a real causa é que a questão de Lady Arabella atingiu tal posição, que o filho do Conde de Hertford, a quem eles afirmam que ela é prometida, desapareceu de repente e está longe de ser encontrado, e Arabella por este motivo, foi removida da custódia da Condessa de Shrewsbury e levada para o mesmo Castelo onde a Rainha Maria da Inglaterra manteve sua irmã, a rainha atual, prisioneira, opondo seu direito à sucessão, com base em sua ilegitimidade e seu Calvinismo; inaptidões posteriormente removidas pelo Ato do Parlamento, na qual a Rainha Maria, para agradar Filipe II, declarou sua irmã capaz de suceder ao trono.

É bem sabido que este inesperado evento, perturbou bastante a Rainha, para ela ter subitamente retirado-se para si, ela que estava acostumada a viver tão alegremente – especialmente nestes últimos anos de sua vida, quando, na medida em que sua saúde estava preocupando, seus dias entretanto pareciam numerosos, mas não penosos – e para forçá-la a abrir mão de todos os cuidados, e de desfrutar a vida; agora ela permite que a tristeza supere sua força, e está tão ansiosa, que rumores deste início de dissabores não devem espalhar-se para além do reino, uma vez que ela proibiu tanto pessoas quanto cartas, para deixar os portos, embora, percebendo que esta provisão veio tarde e estava muito violenta para garantir silêncio, ela posteriormente abandonou-a. Todos estão ansiosos, e os partidários do Rei da Escócia, a parte mais poderosa, a fim de destruir a simpatia pública por Arabella, estão espalhando relatórios prejudiciais à sua personagem de mulher honesta, tanto no passado, como no presente”.


Scaramelli então, escreveu pouco antes da morte da Rainha (datado de 27 de Março – tenha em mente estavam em outro calendário):

”Eu estava certo, quando em meu último despacho, disse que a mente de sua Majestade estava sobrecarregada de uma tristeza que ela não poderia suportar. Isto alcançou tal ponto, que ela passou três dias e três noites sem dormir e com quase nenhuma comida. Sua atenção esta focada não apenas nos problemas de Lady Arbella, que agora está, ou finge estar, meio louca, mas também sobre o perdão que ela concedeu ao último Conde de Tyrone, líder dos Rebeldes católicos da Irlanda. Ela está considerando que o Conde de Essex, que costumava ser seu querido íntimo, pudesse ser totalmente inocente no final das contas; pois quando ele foi seu general na Irlanda, ele havia encontrado-se com Tyrone, cada um à cavalo em diferentes lados de um rio, e ele concluiu um acordo com Tyrone que foi tanto mais vantajoso para o reino e mais honroso para a Rainha, que o atual. Porém, o Conselho, condenando a conduta de Essex em vir para a Inglaterra pessoalmente, para explicar sua ação sem deixar dado, persuadiu a Rainha a colocá-lo na Torre, de onde seguiu todos os eventos que levaram para sua decapitação, no primeiro dia da Quaresma de 1601.
Tão profundamente sua Majestade deve ter sentido isto, que no primeiro dia da Quaresma deste ano, que no calendário inglês é o nono deste mês, ela lembrou o aniversário de tão comovente espetáculo e rompeu em lágrimas e dolorosas lamentações, como se houvesse cometido algum pecado mortal, e então caiu doente de uma doença que os doutores julgaram ser mortal.

O Conselho Privado foi convocado em sessão perpétua em Richmond; os nobres foram convocados à Corte com toda urgência, especialmente os católicos; os guardas foram dobrados no Palácio Real, e os soldados armados. O Conselho da cidade de Londres conheceu e tomou certas precauções para a segurança da cidade, que, como todos sabem, é extremamente rica e incrivelmente desprotegida por muralhas. Esta perturbação de uma população, composta de várias religiões e considerada um pouco inferior à Paris em números, provocou um temor universal de perigosas elevações…

A doença da Rainha é insônia, falta de apetite, dores nos pulmões e coração, a cessação dos movimentos naturais, não suscetíveis à remédios. Há um pouco de febre e falta de força; Tampouco há bons sintomas, exceto um ligeiro inchaço sobre as glândulas abaixo da mandíbula irromperem, com a descarga de uma pequena quantidade de matéria.

Há rumores de convalescença, mas a verdade permanece em dúvida, tampouco algo é certo a não ser isto, que a Rainha tem setenta e um anos de idade, e esta é a primeira doença séria que ela teve em todo o curso de sua vida”.

Em 3 de Abril (antigo calendário), Scaramelli escreveu novamente, sem saber da morte da Rainha – até o pós escrito (que coaduna-se com a história de Carey): –

”Eu escrevi para Sua Serenidade, via Antuérpia, no vigésimo sétimo dia do mês passado, dando um registro da doença da Rainha, e sobre todas as medidas que foram tomadas para para compreender os males que estavam tratando. Porém, como eu soube que os portos estavam fechados, e consequentemente nenhuma carta poderia passar, eu arrisco-me a enviar este breve despacho por muitas rotas diferentes, na esperança que ao menos uma cópia chegue até você…

A vida de Sua Majestade, está absolutamente esvaindo-se, mesmo que não esteja de fato, morta. Nos passados seis dias, ela tornou-se bastante tola e de fato, idiota.

Londres, 3 de Abril de 1603.

Pós-Escrito.—Na última noite, Robert Carey (Barão Cree) partiu rumo à Escócia para transmitir ao Rei as notícias da morte da Rainha, que ocorreu noite passada e esta noite, o Conde de Northumberland, o Conde de Cumberland e outros, irão partir para receber o Rei na Inglaterra. A proclamação da sucessão Sua Majestade [James VI] é muito esperada. Eles estão colocando sob armas quatro mil da infantaria de Londres, aos encargos públicos e suas sedes estão nas igrejas.

Scaramelli então, escreve em 7 de Abril para confirmar a morte de Elizabeth – a data corresponde a 24 de Março no calendário atual e ele cita a hora da morte como 2 da manhã.

Além dos detalhes sobre Elizabeth, o ponto mais interessante aqui, é o rumor de assassinato – não aceito por Scaramelli – pelo culpado mais óbvio, Robert Cecil, secretário-chefe de Elizabeth e campeão da sucessão de James VI.

Outra reserva, é que este registro de segunda mão das últimas palavras de Elizabeth parece perfeito para facilitar a sucessão – Será que Scaramelli ajudou o plano de Cecil para a sucessão, fazendo seu “dever diplomático”?

”A Rainha, no fim de sua doença e vida, após dormir algumas horas, retornou à plena posse de seus sentidos. Em primeiro de abril, ela reconheceu que estava morrendo, e fez com que os senhores do Conselho fossem convocados a sua presença. Com lágrimas e suspiros, ela disse que via-se tão fraca e doente, que sua vida poderia durar pouco ou não muito mais. Ela exortou e ordenou-lhes que tivessem o devido cuidado para a paz do reino, e entregarem a coroa ao mais merecedor, a quem ela em seu pensamento secreto sempre havia considerado o Rei da Escócia, tanto em direito de nascimento quanto por destacar-se em seu mérito, tendo nascido um rei, enquanto ela era uma pessoa privada. Ele deveria ser ainda mais aceitável para eles, na medida em que traria-lhes todo um reino, enquanto ela, nada mais trouxe que si, uma mulher. Quanto ao montante mais importante de suas propriedades privadas pessoais, acumuladas através de um reinado de quarenta e cinco anos, (que é estimado passar de quatro milhões e meio de ouro), ela declarou que não iria fazer nenhuma outra observação sobre o assunto, e que este, devesse seguir a sucessão.

No mesmo dia, ela falou de certas coisas que pesavam em sua consciência, e recordou a morte do Conde de Essex. Em seguida, avançou para temas de religião, e disse que esteve em guerra com Pontífices e príncipes, e abordou dois principais pontos de desacordo entre a Igreja de Roma, o uso do vernáculo nas suas orações, e a questão do Sacramento; o suficiente para que à partir de suas observações e de suas orações que Deus não iria contar contra ela na próxima vida, o sangue dos sacerdotes derramados por ela, existem alguns católicos próximos da Corte, que pensam que em seus sentimentos interiores, Sua Majestade não estava longe da reconciliação com a verdadeira fé católica. Esta opinião é confirmada, pois observou-se que em sua capela privada, ela preservou o altar com imagens, os órgãos, as vestimentas pertencentes ao rito latino e certas cerimônias que são odiadas por outros hereges; também porque em seu leito de morte, ela segurou a mão do arcebispo de Canterbury até dar seu último suspiro, enquanto é quase certo que ele possuía uma inclinação ao catolicismo, uma vez que demonstrara isto em alguns sinais externos, como em sua abstenção ao matrimônio , e seu uso dos pães ázimos, ao administrar o sacramento. Tudo isto apunhala os hereges no coração, e que de bom grado silenciarão do relatório, embora todos concordem que a rainha morreu como havia vivido.

Seja como for, ela morreu uma rainha que viveu por muito tempo, tanto gloriosamente e feliz neste mundo. Com sua morte, morre a família de Tudor, originalmente de ascendência galesa. Quanto à sua aparência pessoal, ela deixa a fama do passado, embora nunca tenha perdido totalmente a beleza. Quanto a suas qualidades mentais, eles citam tantos casos de prudência, não emanados do Conselho, mas em muitos casos importantes, resultado de sua única deliberação. Ela dominava nove línguas tão completamente, que cada uma parecia ser sua língua nativa; cinco destas foram as línguas dos povos governados por ela, inglês, galês, córnico, escocês, que parte de suas posses provêm de onde ainda são selvagens, e irlandês. Todas elas são tão diferentes, que é impossível para aqueles que falam um destes, entender qualquer um dos outros. Além disto, ela falava perfeitamente o latim, francês, espanhol, e italiano extremamente bem …

… A doença da rainha veio de nada além da raiva, e como seus hábitos eram sóbrios e limpos, alguns esquecendo sua idade, acreditaram que ela poderia ter sido levada à morte. Eles até mesmo dão o nome da pessoa, e dizem que ações desta magnitude começam em perigo e terminam em recompensa…
… Tão logo a morte da rainha fora conhecida, às duas horas da manhã do terceiro dia deste mês, que o Conselho, tendo em vista as grandes dúvidas e ansiedade, manifestou-se entre a nobreza e pessoas com alguma ascendência real, dando ordens para que a proclamação solene do novo rei, ocorresse no quarto dia. James VI da Escócia e I da Inglaterra, foi devidamente proclamado nos termos sua Serenidade e irá atender a cerimônia. Esta cerimônia, embora realizada com toda a pompa, é tão monótona, que não há evidentemente nem a tristeza pela morte da rainha, nem  a alegria pela sucessão do Rei.


FONTES:
Para saber mais sobre a morte de Elizabeth I: ACESSE.
Tudor Blog: AQUI.


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