A Verdadeira Face de Jane Grey – Rainha de Nove Dias

Conhecida como a “rainha de nove dias”, Lady Jane Grey tornou-se um tipo de mártir Tudor; inocente, doce, virgem e decapitada aos 16 anos de idade – em grande parte devido as maquinações de sua perversa mãe. No entanto, algo disto é verdade?

Lady Jane Grey é iconizada, até mesmo fetichizada, como uma garota inocente sacrificada no altar das ambições maternas. Porém, por trás das populares biografias desta rainha Tudor, repousa uma história diferente de misoginia e masoquismo. Ao que parece, sua notória mãe maligna, em realidade, fora a vítima.

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Lady Jane Grey.

Quando comecei a pesquisar para o livro “As Irmãs Que Poderiam Ter Sido Rainhas”, minha biografia tripla de Lady Jane e suas irmãs Katherine e Mary Grey, eu esperava ver a bem conhecida vida da icônica rainha adolescente, o que levaria a alguma compreensão de suas irmãs mais jovens, as esquecidas herdeiras de Elizabeth Tudor. Eu assumi que haveria pouco de novo a conhecer sobre a própria Jane. No entanto, conforme iniciava minha pesquisa, tornou-se claro que nada escrito sobre Jane era confiável. A primeira mulher a empunhar o poder de um monarca Tudor, foi reduzida com o passar do tempo, à uma erotizada imagem de mulher desamparada. Enquanto isto, sua convencional mãe tornou-se a personificação da crença de que mulheres poderosas são monstruosas e masculinizadas.

A história tradicional é esta: Lady Jane Grey nasceu em 1537, a filha da sobrinha real de Henrique VIII, Frances e seu marido, Henry Grey, Marquês de Dorset. Uma robusta mulher cheia de jóias em um retrato duplo por Hans Eworth, ainda é utilizada para ilustrar a natureza de Frances. “Fisicamente ela tinha uma semelhança marcante com Henrique VIII”, comentou a pesquisadora Alison Weir, em seu best-seller, “As Filhos da Inglaterra”. Aqui estava uma mulher “determinada, gananciosa e determinada em seu próprio modo, a possuir poder e riquezas”, que “governava tiranicamente seu marido e filhas, sendo no caso das últimas, às vezes cruelmente.”

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Frances Grey, mãe de Jane.

Jane então, cresceu como uma criança abusada, espancada regularmente por sua mãe insensível. Em 1553, Jane aos 15 anos, fora forçada (via espancamento) a casar-se com Guildford Dudley, um jovem de 18 anos, filho da principal figura do Conselho Privado do Rei, John Dudley. Frances acreditava que o casamento elevaria Jane ao status de herdeira do agonizante rei protestante Edward VI. Semanas depois, Edward de fato legou à Jane seu trono, em lugar de sua irmã católica Mary. Jane então, fora obrigada a aceitar, embora tenha protestado entre lágrimas, que Mary era a pretendente legítima.

Em 10 de julho de 1553, Jane foi levada até a Torre como rainha. A ruiva sorridente de lábios avermelhados era tão pequena, segundo a história, que usou sapatos plataforma para ter altura o bastante. Nove dias depois, Mary Tudor destronou a jovem, aprisionando-a na torre onde ela reinara. Julgada e condenada por traição, Jane permaneceu como prisioneira, esperando por perdão, até que seu pai liderou uma rebelião fracassada contra Mary. Embora ela não tivesse nada a ver com a rebelião, Jane foi decapitada em 12 de fevereiro de 1554, uma “usurpadora inocente”. Ela tinha apenas 16 anos de idade.

1c089cc1b3c89c74d579cdccf10142a5O mito está capsulado na pintura de 1833 de Jane por Paul Delaroche (acima – imagem principal), que a retrata vestida em branco no cadafalso, em uma representação com todos os subtons de um sacrifício virginal. Aparentemente não comovida pela execução da filha e do marido, Frances se casou dentro de um mês com o jovem servente Adrian Stokes, de apenas 21 anos. Ela pareceu viver em pleno hedonismo.

Mas em qual base factual reside a crença que Frances era um monstro? As acusações de abuso infantil foram construídas por um relato de mais de uma década após Jane ser decapitada. Em “O Mestre Escolar”, um livro publicado em 1570 por Roger Ascham, um estudioso elisabetano, uma jovem Jane Grey é descrita com lendo o livro de Platão, Phaedo, no original grego enquanto o resto de sua família estava caçando. Interrompida brevemente de seu estudo, Jane explica que ama aprender pois suas lições com seu bondoso tutor, são um descanso do abuso de seus pais, que a apertam e beliscam caso não faça cada tarefa perfeitamente. “Um dos maiores benefícios que Deus concedeu-me foi o envio de pais tão incisivos e severos e um mestre escolar tão gentil”, conforme lembra-se Ascham, à partir das próprias palavras da jovem. Ainda assim, em uma carta escrita para Jane poucos meses após tal encontro, Ascham comenta sobre o orgulho de seus pais em seu trabalho. Enquanto isto, outro tutor, John Alymer, estava escrevendo cartas para um teólogo suíço, reclamando que “Jane estava naquela idade (em que) todos estão inclinados a agir de sua maneira” e pergunta sobre um bom modo para “providenciar freios a cavalos indóceis” com esta espirituosa jovem.

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Edward VI.

Na época que Edward VI estava morrendo, Jane era uma protestante excepcionalmente bem-educada, que de fato, compartilhava das intensas crenças religiosas de seus pais. Seu tutor Alymer registrou que, antes das crises de 1553, Jane havia esnobado presentes da católica Mary Tudor, os quais ela condenou ser “contra a palavra de Deus”. Não há evidência de antes da deposição de Jane, que ela se opusera ao casamento com Guidford Dudley em 1553, ou que tenha apoiado a pretensão real de Mary Tudor. E a descrição da pequena, sorridente menina sendo levada à Torre como rainha é uma fraude. Tal registro, foi escrito alguns anos antes do retrato de Delaroche ser legado à nação britânica, em 1902. A descrição da menina de lábios avermelhados pode até ter sido inspirada por ele.

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John Dudley, sogro de Jane.

Como rainha reinante, Jane empunhava em teoria, o poder do monarca sobre Igreja e Estado. No entanto, Edward escolhera Jane como sua herdeira, não somente por ser protestante, mas também, como o próprio ressaltara, por confiar na família de seu marido. O sogro de Jane, John Dudley, era Lord Presidente de seu conselho. Como um governo feminino era considerado não-natural, foi presumido que o marido de Jane ou o seu sogro, assumiriam o controle efetivo. Infelizmente para Jane, o amor de Edward pelos Dudley não era compartilhado pelo restante do país. De fato, John Dudley era amplamente odiado, considerado a raiz das impopulares políticas do governo.

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Mary I

Para reprimir o veneno público, Jane tentou anunciar sua independência dos Dudley, assinando documentos por próprio punho, insistindo que faria de seu marido um Duque e não um rei. Apesar destes esforços, o nome Dudley danificou sua causa, contribuindo para a sua derrocada. Uma narrativa contemporânea por Robert Wingfield, registrou Frances suplicando à vitoriosa Mary Tudor, que eles eram vítimas das ambições dos Dudley e insistindo que ela opusera-se ao matrimônio de Jane. Sua proximidade com a filha é sugerida pelos comentários da própria Jane, que espelham os de sua mãe. Em uma explosão, Jane amaldiçoou seu sogro por ter “comprado para mim e aos meus, a calamidade mais miserável devido sua excessiva ambição.”

Esperanças prematuras que Mary pudesse perdoar sua antecessora, esmaeceram-se após Jane opor-se veementemente à legalização da missa católica proposta por Mary. Em uma carta aberta à uma convertida católica, Jane condenou a missa católica como “perversa” e exortou protestantes a “retornar novamente à guerra de Cristo”. Quando seu pai liderou uma rebelião armada pouco depois, Jane foi julgada como uma ameaça contínua. Ela foi executada com aproximadamente 16 anos, em 12 de fevereiro de 1554, como uma mártir determinada, não somente uma vítima.

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Lady Dacre e seu filho, por Hans Eworth. Muitos ainda acreditam que esta pintura trata-se de Francis, mãe de Jane e seu marido.

Frances casou-se novamente, mas cerca de um ano depois. Seu novo marido, Adrian Stokes, não era um jovem inexperiente, mas um educado protestante de sua idade, que possuía uma alta posição em sua Casa como Mestre dos Cavalos. Ao não escolher um nobre, ela protegeu suas filhas sobreviventes de mais problemas envolvendo o trono inglês. A pintura de Eworth mencionada anteriormente, foi nomeada erroneamente em 1727 como sendo de Frances e do jovem Stokes; em 1980, foi provado que era um retrato de Lady Dacre e seu filho. A rainha Elizabeth I, que amava seu próprio Mestre dos Cavalos, Robert Dudley, iria admitir mais tarde que gostaria de poder casar-se, como Frances fizera.

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Lady Dacre, muitos confundem seu retrato com Francis Grey.

Então como os mitos começaram? A chave desta questão está com Jane. Ciente do dano que estava sendo feito à causa protestante pela associação dela com traição, Jane anunciou no cadafalso que, embora fosse culpada pela lei, tendo sido proclamada rainha, ela nunca procurara o trono, mas apenas aceitou-o. Destas alegações nasceriam as raízes sobre a inocência de Jane. Nos séculos XVII e XVIII, a história dela seria influenciada pela passividade feminina considerada ideal para as jovens. A dimensão sexual disto está evidente no poema de Edward Young, “A Força da Religião”, escrito em 1714 e que convida homens a observar a pura Jane em seu “gabinete privado”. Na década seguinte, o retrato de Lady Dacre seria nomeado erroneamente como sendo de Frances.

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Henrique VIII.

A efígie da magra e elegante mulher na tumba de Frances em Westminster, foi ignorada desde então em favor de espúrias comparações com Henrique VIII. Ela era bem mais útil como um arquétipo sexista; uma poderosa, sexual, ambiciosa e masculinizada mãe para ser comparada com Jane, sua filha desamparada, casta e feminina. Embora Mary Tudor tenha inspirado o ataque de John Knox contra “o monstruoso governo das mulheres”, ela era um contraponto menos útil se fosse vista como tendo sido conduzida por figuras masculinas – seu marido, padres e outros. Assim, Frances foi reinventada como tendo “dominado seu marido”.

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Efígie de Francis Gray.

Por séculos foi acreditado que mulheres no poder perdiam sua feminilidade e tornavam-se estéreis – uma teoria que vêm dos mitos gregos. As qualidades masculinas relacionadas à Frances, que em realidade tinha apenas o poder de mãe, também foram notavelmente aplicados à Elizabeth I. Rumores espalharam-se pouco após a morte da última rainha Tudor, que seus órgãos sexuais eram deformados. Em 1985, um médico chegou ao ponto de alegar que Elizabeth era geneticamente um homem; uma teoria que, aliás, ainda persiste, baseada em “evidências” como a tenacidade mental de Elizabeth. A própria tragédia de Jane, enquanto isto, tomou os aspectos de um moderno romance trágico: todos os tabus quebrados, altas vendas e falsas memórias. O epitáfio debaixo da efígie de Frances, observa que “o solitário valor da verdade, sobrevive à tumba”. Em uma próxima existência talvez; nesta, Frances está desgraçada e relegada ao mito e senso comum.

FONTES:

Artigo traduzido por Fernanda Pissuno, do original ”Debuking the myth of Lady Jane Grey”, escrito pela historiadora e pesquisadora Leanda de Lisle | 15 de dezembro 2009.
Acesse o original: AQUI.

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