História, Parcialidade, Tudors e Sangue

Quando falamos de sanguinolência, brutalidade e terror no reinado Tudor, nosso inconsciente coletivo, moldado pelo senso comum, nos leva imediatamente à figura de Maria I. Podemos citar algumas causas desta analogia: Maria foi à primeira mulher a ser coroada rainha reinante da Inglaterra e era católica; não que isto em seu período fosse algo terrível, visto que boa parte da massa camponesa e um grande grupo de nobres ainda pertenciam à “antiga religião”; entretanto, as ações do reinado de Maria, chamadas de “perseguições marianas”, foram utilizadas como um modelo a ser evitado.

Assim, é fundamental compreendermos os motivos pelos quais sua imagem foi estereotipada ao longo do tempo: Esta visão veio alguns anos após sua morte, por escritores protestantes como John Foxe e John Knox (que além de anti-católicos, eram também misóginos assumidos); no entanto, Maria I ainda assim, era conhecida como “Queen Mary of England”. O “Bloody” Mary, ao que tudo indica, surgiu na era Vitoriana, período típico onde a Europa inteira buscava criar uma identidade nacional, que tornasse cada país único e capacitado para encontrar seu “lugar ao sol” no plano de neocolonialismo da África, Ásia e Oriente Médio.

No caso da Inglaterra, sua identidade nacional, dentre outros fatores, está atrelada a determinados processos e figuras históricas. Dentre os quais, em função dos objetivos deste artigo introdutório, concentraremos nossas análises aos processos relativos à reforma religiosa e a criação do anglicanismo como religião, que influenciaram, em grande medida, na visão equivocada e distorcida de algumas figuras históricas deste período. Henrique VIII, de grande monarca de seu tempo, transformou-se em um “barba azul” assassino de esposas; Ana Bolena foi transformada em pobre vítima romântica de uma conspiração; Catarina foi transformada em uma coitada e velha fanática; Maria foi transformada em um monstro cruel e sanguinário, e Elizabeth na grande rainha, forte e gloriosa, a mãe do império de Vitória.

Qual das visões citadas acima você ainda encontra por aí? Quando falamos de História, visões criadas há 200 anos, são o equivalente a fofoca contada ontem. Maria é “sanguinária”, porque perseguiu protestantes, e parte da identidade nacional inglesa é ser protestante. Elizabeth foi transformada na “boa rainha Bess”, pois reinou durante 54 anos, e estabilizou a religião anglicana na Inglaterra pós-reforma. Henrique foi transformado no “barba azul” assassino de esposas, pois a Inglaterra vitoriana era dramática, conservadora e adorava uma áurea violenta/obscura. Ana foi transformada em vítima infausta, porque os vitorianos buscavam por uma heroína incompreendida e Catarina em velha fanática, devido a visão que muitos ingleses possuíam da Espanha, um império velho, caindo por terra e fanático aos antigos costumes.

Estes foram alguns parágrafos de introdução, para lembrarmos que na História existem versões; versões estas que são criadas, muitas vezes, com finalidade política e também religiosa. É comum escutarmos o chavão “a História deve ser imparcial”, porém não é isto que ocorre; A História não é imparcial, assim como os seres humanos também não o são. Governos moldam a História à maneira que acham conveniente ou de acordo com sua visão ideológica, a fim de “vender” verdades. Na Europa da rainha Vitória, isto era muito comum, e até hoje ainda o é. O período Tudor, nos é vendido como “Era de ouro”, quando em realidade, não passava de um reino de fundo de quintal, sendo que o império inglês nasceria três séculos depois. Atualmente, a Espanha em crise cria séries sobre Isabel e sua impetuosidade como rainha e de Carlos V, um dos homens mais poderosos de seu tempo, tudo isto para levar os espanhóis a fortalecerem-se diante dos altos índices de desemprego e dos demais agravantes econômicos. Já a Turquia, em desejo de fazer parte da zona do euro, obtendo tantas negativas, por ser um país “culturalmente diferente” (em outras palavras, islâmico), cria série sobre o Sultão Suleiman (ao lado de Carlos V, um dos homens mais poderosos do século XVI) que expandiu seu império conquistando a Hungria e impondo terror na Europa em várias ocasiões, para mostrar-se uma potência necessária politicamente.

Novamente, toda esta introdução tecida por nós, serve para mostrar que a História é utilizada para diversas finalidades. No que se refere ao período Tudor, podemos concluir que fatores políticos e religiosos influenciaram majoritariamente na constituição de versões estereotipadas de seus monarcas.

Existem aqueles que gostam apenas de ler sobre a vida e detalhes pessoais de figuras como reis e rainhas, focando sua curiosidade nas vestimentas, jóias e sem problematizar nada a respeito disto, e para nós, tudo bem. Aqueles que gostam e trabalham com a História como ferramenta investigativa (nós, da página), interessando-se por temas como política, economia, relações culturais e etc., irá compreender que é necessário pesquisar sobre diferentes períodos, ultrapassando senso comum e teorias pré-impostas e SEMPRE fazendo a devida problematização do tema, para com isto, revisar algumas características historiográficas (em nosso caso, em relação à Maria, por exemplo). Isto é História. Muitos são sanguinários, não apenas A ou B, muitos são inocentes e em sua maioria, permanecem anônimos; pessoas sem rosto, e muitas das consequências das ações de A ou B, vemos até hoje no mundo inteiro.

Agora pedimos que leiam o artigo: Elizabeth ”a sanguinária”.

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