Ana Bolena: Seria a Vênus, morena?

O diferente exerce fascínio. Possuir os tão famosos e encantadores olhos e cabelos negros, seguidos de tez amorenada, em um período onde as mulheres mais desejadas ostentavam peles de alabastro, seguidas de cabelos e olhos claros, sem dúvida pode ter sido algo interessante. Por isto, podemos certamente dizer, que Ana Bolena não foi considerada uma beldade durante seu período. Certamente, ela não foi a rosa inglesa que muitos desafiariam apreciar mesmo com seus muitos espinhos, porém, isto não significa que ela de algum modo, não chamasse atenção dos mais ávidos e aguçados olhares.

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Francis I.

Alison Weir, em seu livro “As Seis Esposas de Henrique VIII”, afirma que:

“Até mesmo o rei Francis foi arrebatado pela fascinante Ana e escreveu;

Venus était blonde, on m’a dit:

L’on voit bien, qu’elle est brunette

Vênus era loira, eu bem vi: Agora eu vejo que é morena!”

Tal frase sempre despertou bastante curiosidade em muitos, e nunca antes, deparei-me com a informação de que Francis I, realmente referiu-se à Ana Bolena. Porém, o artigo de Susan Bordo, me fez questionar tal citação e por este motivo, resolvi procurar em fontes primárias e livros, para descobrir se o Rei Francis, realmente estava referendo-se à Ana Bolena, no momento em que falou sobre Vênus.

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Livro de Weir.

Em seu livro, Alison Weir não cita a referência, por isto é muito difícil chegar até as fontes primárias. Ela apenas nos dá uma dica: –

Sobre a duração de sua estada na França, veja: 

– A História dos Países-Baixos” de Herbert e Emmanuel von Meteren (título original em francês: Histoire des Pays Bas) de 1618;

– Epistro contendo o processo penal formulado contra a Rainha Bolena da Inglaterra” por Lancelot de Carles, Clement Marot e Crispin de Milherve (título original em frânces: Epistre contenant le process criminal fait a lencontre de la Royne Boullant d’Angleterre);

– A História Métrica de Crispin, Lord of Milherve, de 1618 (título original: Lord of Milherve’s Metrical History);

– A Grã-Bretanha segundo o parecer francês, por G. Ascoli, Paris, 1927 (título original em francês: La Grande Bretagne devant l’Opinion Francaise); 

– História da Rainha Ana Bolena – na Biblioteca Nacional de Paris, ant. 1550 – (título original em francês: 
Histoire de la Royne Anne de Boullant);

– As investigações e antiquários da Província de Neustrie, por Charles de Bourgevilles – 1583 (título original em francês: Les Recherches et Antiquites de la Province de Neustrie).

Captura de Tela 2015-11-23 às 00.13.46Em seu livro “Ana Bolena: A Jovem que seria Rainha”, Josephine Wilkinson afirma que:

“Em matéria de vestimenta, foi dito que suas escolhas foram adotadas por outras damas, embora, estamos seguros, ninguém aparentava-se tão bem quanto Ana, que foi descrita como a rival de Vênus”.      

Infelizmente, Josephine Wilkinson também não cita sua referência. Ela continua e cita a descrição de Agnes Strickland do traje de Ana Bolena, então, pareceu certo que eu fosse encontrar mais informações sobre a citação de Vênus, no livro de Agnes Strickland ”Vidas das Rainhas da Inglaterra”; porém, infelizmente não há nenhuma menção sobre a citação de Francis I.

Para mim – assim como para muitos -, a maior fonte de informações sobre Ana Bolena e sua vida, é a biografia do professor Eric Ives: ”The Life and Death of Anne Boleyn”. No entanto, Ives não refere-se à suposta citação de Francis I sobre Ana Bolena como Vênus. Porém, em sua biografia, encontramos algumas conexões entre Ana e Vênus;

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Thomas Wolsey.

– No livro de George Cavendish ‘A Vida e Morte de Cardeal Wolsey’, ele escreve sobre Ana;

‘Deste modo o Cardeal passou sua vida e tempo, dia após dia e ano após ano, em grande saúde, alegria, triunfo e glória, tendo sempre a seu lado, o especial favor do Rei; até que a sorte, cujo o favor, nenhum homem pode assegurar-se de possuir, a não ser que ela assim deseje, começou a notar algo impropero em sua favorável situação, acreditando poder operar um mal para condenar seu alto ofício; portanto, ela procurou Vênus, a Deusa insaciável, para ser seu instrumento. Para resolver seu propósito, ela fez o rei apaixonar-se por uma dama, que, após perceber e sentir a boa vontade dele para com ela, e quão diligente ele fora para agradá-la e realizar todas as suas vontades, lavrou muito descontentamento ao Cardeal; como mais adiante, seria mais que amplamente declarado. Esta dama, filha de Sir Thomas Bolena, sendo a esta altura, apenas um cavalheiro, depois, pelo amor de sua filha, fora promovido para mais altas dignidades’.

– Durante a coroação de Ana Bolena, apareceu uma citação à Vênus:

Coronation-with-orb-and-septar‘A criança então, falou o que Páris havia dito, ao anunciar que havia uma outra recompensa preparada para Ana, a coroa imperial. Ela então, saudando a Rainha com uma demonstração de providência divina, celebrou a canção de despedida para Ana, com a seguinte estrofe:

A esfera dourada
Valiosa, porém pequena,
Deve Vênus possuir,
A deusa justa,
Embora tenha sido
Muito pequena e reles
Para a sua adequada beleza
E dignidade. “

O cortesão francês, Brantome, certa vez disse que: “Sua graciosidade rivalizava com Vênus”.

NatDormer-300x225Na citação de Francis I sobre Vênus, ele diz: ‘‘Venus era loira, eu bem vi: Agora vejo que é morena!”. Embora ainda haja discussões sobre a exata tonalidade dos cabelos de Ana Bolena, seu admirador, Sir Thomas Wyatt escreveu em um de seus sonetos sobre uma misteriosa ‘morena’. Em seu livro ‘She Wolves: The Notorious Queens of England’, Elizabeth Norton afirma:

‘Esta ”morena”, é obviamente Ana Bolena, e a linha final original de Wyatt para este poema, refere-se a ‘ela que dividiu nosso país em dois’. Não há dúvida de que ele refere-se à Ana”.

O professor Eric Ives, também acredita que Ana Bolena era morena.

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Thomas Wyatt.

Então, talvez Francis I estivesse referindo-se a Ana Bolena quando falou sobre uma Vênus morena, mas não há nenhuma evidência para apoiar tal teoria. Ele talvez, pudesse estar referindo-se a uma outra dama na qual estivesse apaixonado; talvez uma de suas muitas amantes?

Outra possibilidade, é que Francis I estivesse referindo-se a uma atriz que interpretou Vênus, em 1520;

“Então, em 1520, Rainha Claude chegou em Cognac, com Ana Bolena certamente a seus serviços. Claude foi recebida por Mercúrio, que declarou que os deuses haviam descido para saudá-la e em sua cavalgada, encontrou primeiro Diana e suas ninfas e em seguida, Apollo, antes de ser preso pelas chamas da forja do vulcão. Em seguida, Vênus chegou, seguida por Saturno, Júpiter e Marte. Na ponte do rio da cidade, Netuno apareceu, escoltado por golfinhos e quando a noite caiu, Plutão, Cerberus, Caronte e as Fúrias”.

É importante também lembrar, que a deusa do panteão romano, Vênus – o equivalente à Afrodite, na mitologia grega -, não foi apenas reverenciada como a Deusa da beleza. Embora possuísse o ideal de beleza feminino, é importante lembrar que ela também simbolizava o amor. Desligando-se um pouco do conceito estético que ela poderia sugerir, isto também poderia sugerir o fascínio, devoção e interesse, que Ana despertava nas pessoas à seu redor.

FONTES:
Anne Boleyn: AQUI.
The Creation of Anne Boleyn: AQUI.
Anne Boleyn: The Young Queen To Be – Josephine Wilkinson.

 

 

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