Cristina de Pisano e o Feminismo Antes do Feminismo – Parte II [Final]

[Para compreender melhor o artigo, sugerimos que leia primeiro a primeira parte: AQUI.]

O ano de 1401, seria vital para Cristina de Pisano em sua cruzada para acabar com o ridículo rebaixamento das mulheres. Seria neste ano, que ela participaria de uma discussão literária ao lado vários pensadores do período. Tal oportunidade, permitiu-lhe sair do âmbito da Corte, para estabelecer-se como uma escritora preocupada pela posição da mulher na sociedade. Durante estes anos, Pisano deu origem à uma disputa, por questionar o mérito literário do renomado Jean de Meung, que em seu famoso ”Le Roman de La Rose”, satiriza as convenções do amor cortês, ao mesmo tempo que retrata a mulher como uma frívola, simples e fraca sedutora carnal.

Pisano opôs-se ao uso das terminologias vulgares no poema alegórico de Meung, que denegriam a função natural da sexualidade feminina. O centro de debate, passou a consistir da capacidade literária de Meung, ao descrédito da mulher nos textos literários, que segundo Cristina, afetavam o vínculo entre as mulheres. A disputa ajudou a estabelecer Pisano, como

Ilustração para o livro de Meung.
Ilustração para o livro de Meung.

uma intelectual capaz de defender suas opiniões em um âmbito literário de domínio masculino.

Ela então, escreveu o ”Epistres du débat sur le Roman de la Rose”, alegando que, se as mulheres são tão fracas e frívolas, então por que foi necessário para escritores “terem escrito estes longos tratados sobre como conquistar o amor de uma mulher – pois, por que tal habilidade e força seriam necessárias, para conquistar alguém tão fraco e fácil de tomar-se?”.

– Agora vamos analisar um trecho de sua obra, ”A Cidade das Senhoras”:

  • “Deus teve em seu eterno pensamento, a ideia do homem e da mulher. Quando quis trazer Adão à terra (…) o deixou dormindo e formou o corpo da mulher com uma de suas costelas, para significar que ela devia permanecer a seu lado, como sua companheira e não estar à seus pés como uma escrava e que ele haveria de amá-la como sua própria carne”.

Isto, que agora parece-nos normal, naquele período, significava algo revolucionário. Na Universidade de Paris, à partir do ano 1255, foi imposta a leitura das obras de Aristóteles, divulgando por todo o ocidente, sua teria sobre os sexos. Tal teoria, dizia que a mulher era considerada substancialmente inferior ao homem. As fortes alegações de Cristina, iniciaram o longo debate de três séculos sobre a situação das mulheres, conhecido como ”Querelle des femmes” (A Queixa das Mulheres); um movimento que foi desenvolvido ao longo dos séculos até a Revolução Francesa e é neste debate, que os escritos de Cristina foram determinantes ao atrever-se a combater os homens, que segundo a crença do período, seriam teoricamente superiores às mulheres. Foi a primeira vez que uma mulher defendeu seu gênero a este nível intelectual. Eram tempos obscuros, ainda mais para as mulheres. A França travara uma guerra contra a Inglaterra e então, quando apareceu outra mulher, Joana d’Arc, uma líder disposta a transcender os limites de gêneros naquela sociedade – na qual Cristina futuramente dedicaria uma de suas obras -, ela foi terrivelmente executada. Um golpe desolador.

Ilustração do livro ''A Cidade das Senhoras'', de Pisano.
Ilustração do livro ”A Cidade das Senhoras”, de Pisano.

Cristina então, viu-se sozinha em sua capacidade de comunicar-se com os intelectuais masculinos de sua época, optando às vezes, por utilizar de uma “pretensa modéstia e humildade”, o que permitiu-lhe atravessar a fechada mente patriarcal da sociedade francesa do século XV. É evidente que ela possuía uma grande tarefa em suas mãos. Ao contrário das feministas relacionais que a seguiram; que foram capazes de tentar tais proezas como, o desmantelamento das instituições patriarcais, Cristina teve que usar suas artimanhas, apenas para conseguir o respeito para as mulheres.

Ela continuou sua batalha para o reconhecimento dos atributos positivos das mulheres em 1405, com duas de suas obras mais famosas: O Livro da Cidade das Senhoras, e sua continuação, O Livro das Três Virtudes. O Livro da Cidade das Senhoras, é uma apaixonada defesa das mulheres contra os ataques misóginos dos homens, que usa a razão e a lógica, e inclui registros de importantes e famosas mulheres históricas para rebatê-los.

Ela começa o livro, por lamentar ser uma mulher, pois as mulheres são vistas como criaturas vis, porém, em seguida, prevalece razão e Cristina vê que é a sociedade e os filósofos – que debatem sobre os erros e acertos da sociedade -, que dizem que as mulheres são vis. Tais discussões filosóficas não são, naturalmente, infalíveis e para ilustrar isto, a voz da razão de Cristina, diz: “Observe como estes mesmos filósofos contradizem e criticam, uns aos outros”.

Jean de Meung.
Jean de Meung.

O Livro da Cidade das senhoras, aborda muitas questões relativas às diferenças entre os gêneros, que ainda são controversas atualmente; por exemplo, a falta de mulheres nas ciências, e as diferenças relativas de força corporal entre os sexos. Cristina verifica que a ignorância das mulheres na ciência, não tem nada a ver com sua capacidade natural de intelecto, mas sim com o fato de que a sociedade não promove a educação das mulheres neste domínio, o que resulta em estudos científicos sendo retidos à partir dos homens. Ela diz que a capacidade natural feminina, é de fato, igual a dos homens. Ela refere-se às diferenças na força dos corpos entre os sexos, como sendo de natureza compensatória, ou seja, que as mulheres podem ser fisicamente mais fracas que os homens, mas elas têm outros atributos que compensam isto.

Tal dedução, partiu do principio social de que “as mulheres têm corpos fracos, delicados e frágeis por natureza”. Porém, então a razão prevalece, novamente na forma da fictícia Dama Razão, que diz que a natureza as compensa por tal fraqueza, usando o exemplo de Aristóteles, que possuiu uma mente brilhante, porém, com uma deformidade física de “um olho mais baixo que o outro e uma face estranha”. Este debate de Cristina, à frente do raciocínio e senso comum do período, permanece contencioso nos dias atuais, sete séculos mais tarde. A controvérsia atual tem o benefício da investigação científica e sociológica por trás, que mostra por um lado que, “os homens têm mais fibras nas áreas de raciocínio… o que pode torná-los mais naturalmente adequados às disciplinas, como matemática e engenharia”, porém, por outro lado, “diferenças biológicas explicam tendências gerais, e não comportamentos sociais específicos”.

Captura de Tela 2015-11-16 às 04.10.19Em 1409, Cristina havia escrito suas obras mais renomadas sobre as mulheres, conhecidas, lidas e utilizadas como referência até hoje; ”A Cidade das Senhoras”, ”O Tesouro da Cidade das Senhoras’’ e o ”Livro das três virtudes”. Pisano então, buscou a colaboração de outras mulheres no desenvolvimento e criação de seus trabalhos. Ela menciona especialmente, uma ilustradora conhecida como Anastasia, a quem descreve como uma das mais talentosas de seu período. Vários estudiosos de sua retórica analisaram suas estratégias de persuasão e concluíram que Pisano criou uma identidade retórica pessoal de grande utilidade para a mulher em geral.

Anos depois, em 1418, cansada e talvez buscando relento familiar, Cristina retirou-se à Abadia de Poissy, um convento dominicano real, local onde sua filha Marie foi aceita tantos anos antes (vide artigo I). No entanto, ela continuou escrevendo e finalmente, depois de anos de silêncio, em 1429, aos sessenta e cinco anos, Cristina de Pisano terminou seu último livro ‘’A historia de Joana d’Arc”, um panegírico à famosa líder francesa.

Foi com 65 anos, após terminar seu último livro dedicado à uma mulher tão simbólica como Joana, que Cristina pôs fim a sua carreira literária. Foi no ano seguinte, aos 66 anos de idade, que ela, ao lado de sua querida filha, morreu no convento em Poissy, onde havia mudado-se anos antes.

Mas afinal, Cristina de Pisano foi uma feminista?
Considerando que o movimento feminista, tomou forma e evoluiu mais de quatrocentos anos após sua morte, claramente não.
img-11No entanto, sua visão sobre os dilemas e problemas de gênero e o modo como os tratou, é muito semelhante ao feminismo em seus primórdios, no início da década de 1890. Algumas feministas, consideravam Cristina como uma protofeminista, ou seja, uma percursora do feminismo, anterior ao feminismo atualmente existente.

Naquele período, acreditavam que haviam diferenças “culturais e fisiológicas” entre os sexos, que aderiam aos conceitos do lado feminino e masculino da natureza e portanto, uma divisão de gênero era realizada em muitos aspectos daquela sociedade. É importante ressaltar, que Cristina não procurou igualdade política ou econômica para as mulheres, porém, mais um modo de mostrar a intelectualidade e capacidade das mesmas.

Cristina foi surprendentemente reconhecida em vida, mas sua obra caiu no esquecimento, até que no início da Revolução Francesa, Louise de Keroualle, a reivindicara.

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Louise de Keroualle.

Conclusão:
Cristina falou sobre outras questões que ressoam até hoje: falta de acesso à educação para as mulheres, a decepção que alguns casais sentem com o nascimento de uma filha, a séria acusação de que as mulheres são um convite ao estupro, a ideia de que as mulheres podem ser bonitas e desfrutar de roupas finas, sem perder seu título castidade; a violência no casamento; espancamentos por maridos bêbados e perdulários e etc…

Cristina foi longe, ela defendeu as mulheres quando ninguém mais atreveu-se, ou mesmo pensou em fazê-lo. Tal visão e bravura, exibem suas fortes tendências protofeministas. No entanto, à semelhança das feministas relacionais, ela não queria a igualdade dos sexos e “não defendia a elegibilidade da mulher para cada posição comumente realizada por homens”. Ela acreditava que as mulheres deveriam exercer os papéis ditados à elas por tal sociedade, bem ao contrário das feministas modernas, que acreditam que as mulheres podem fazer qualquer coisa.
A questão é – conforme dito anteriormente -, os ideais de Cristina, não estão alinhados ao pensamento feminista moderno, mas são muito semelhantes ao feminismo relacional da década de 1890. Cristina não foi uma feminista moderna e nem poderia o ser, historicamente falando. No entanto, ela foi além da capacidade social pré-imposta para seu gênero e lutou incansavelmente por todas as mulheres nas quais os homens cansavam-se de explorar, humilhar e subestimar. Isto faz de Cristina, uma lutadora, uma mulher de convicções, mas acima de tudo, uma mulher empoderada.
Ela pode não ter sido uma feminista, em nosso sentido mais moderno da palavra, mas Cristina de Pisano, foi certamente uma das percursoras do movimento.
Muito devemos a ti Cristina, que lutou por nossas antepassadas com sororidade e coragem maior que muitas já tiveram. Sua mensagem nunca será esquecida.

Captura de Tela 2015-11-16 às 04.14.56FONTES:
Mujeres para Pensar: AQUI.
Francisco Javier Tostado: AQUI.
Pace.edu: AQUI.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Daniel disse:

    Simplesmente incrível a história dela.

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