Cristina de Pisano e o feminismo antes do feminismo [Parte I]

Era uma vez, em um reino muito distante – pelo menos para nós brasileiros -, uma mulher chamada Cristina de Pizan (ou Pisano). Cristina foi uma poeta, tratadista, escritora e política medieval. Ela enfrentou a todos os estereótipos misóginos no âmbito da arte, em um período onde o feminismo descansava e privava-se de sua existência no seio de todas as mulheres que sofriam e clamavam por seus direitos de gênero. Cristina foi a primeira escritora profissional na Europa. Seus escritos inovadores, faziam uso de técnicas retóricas e desafiavam os mais renomados escritores do período, como por exemplo, Jean de Meun – que expressava ideais misóginos em seus trabalhos literários.

No entanto, este não é mais um conto de cavalaria medieval, velado por uma jovem e caricata dama à espera de ser salva por seu galante cavalheiro em seu alazão. Esta é uma história real, sobre uma mulher real e seus ideais que moldariam o que hoje entendemos como o feminismo.

Provavelmente, muitos de vocês não sabem de quem se trata esta mulher e não seria de estranhar-se, pois falamos de alguém que nasceu há mais de seis séculos e tão pouco é mencionada historicamente.

Cristina de Pisano, escreveu um dos principais tratados em que defende-se a mulher e seus direitos, muitos séculos antes de aparecerem as primeiras reivindicações feministas, no final do século XVIII, onde tal compreensão, começou a comportar-se como uma causa comum entre as mulheres. Esta obra original e firme intitulava-se ‘A Cidade das Mulheres’, o primeiro texto feminista da história, no qual falaremos no decorrer destes artigos.

Este artigo será dividido em duas partes, para que possamos abordar detalhadamente, sua vida e trajetória na história.

Início da Vida:
Cristina de Pizan nasceu em 11 de setembro de 1364, em Veneza. A jovem era filha única e foi muito bem educada por seu MTE5NTU2MzE2MTg0MDg2MDI3pai, apesar das objeções de sua mãe – é claro que o fato de não ter possuído irmãos, ajudou-a neste quesito. Seu pai, era um médico e professor de astrologia da República de Veneza, que pouco após seu nascimento, foi nomeado astrólogo, alquimista e médico do Rei, pela Corte de Charles V da França. Foi nas redondezas do Louvre, onde Cristina satisfez seus aguçados interesses intelectuais. Lá ela receberia uma seleta educação, desfrutando da leitura de clássicos, possuindo acesso aos manuscritos reais e desenvolvendo-se em um ambiente humanista do renascimento. Ela aprendeu a falar francês, italiano e latim, com seu avô materno, Mondino de Luzzi e adquiriria conhecimentos sobre o corpo feminino ao seu lado, pois ele foi um dos primeiros a realizar uma autópsia em uma mulher grávida.

Anos mais tarde, aos quinze anos de idade, Cristina casou-se com um secretário da Corte francesa, Étienne du Castel. Parece que este, foi um matrimônio feliz e seu marido, encorajou-a para que continuasse com seus estudos. Com Castel, ela teve três filhos, dois meninos e uma menina. Porém, após dez anos de casamento, Pisano ficou viúva aos 24 anos de idade. Castel morreu em 1390, vítima de uma epidemia. A morte de seu marido, seria precedida pela morte de seu pai – três anos antes -, deixando-a sem renda ou recursos, pois foi-lhe negada uma herança que tinha direito. Sozinha, Cristina viu-se tendo de lutar por sua vida e pela de seus filhos.

Seria à partir de então, que ela dedicaria-se plenamente à literatura – embora antes, já tenha tido alguma notoriedade – para poder manter-se e a seus três filhos, convertendo-se na primeira mulher de profissão intelectual na Europa.

Preocupada e desesperada, a jovem mãe viúva ingressou na Corte francesa. Neste local, ela escreveria a biografia do Rei Charles V da França, além de inúmeros poemas. Foi através de seus trabalhos com a poesia na Corte francesa, que Cristina conheceu o Conde de Salisbury, um patrono da literatura, que ofereceu levar seu filho Jean para seus cuidados na Inglaterra, como um companheiro para seu próprio filho. Este era um modo típico dos aristocratas educarem seus filhos no período. À partir disto, Cristina acreditou que havia assegurado o futuro e educação de seu filho, através dos requintados cuidados de Salisbury. Foi então que ela escreveu o ‘Ensinamento Moral e Provérbio Moral’ para Jean, como tentativa de guiá-lo moralmente enquanto vivia longe de sua vista:

”Filho, eu não possuo nenhum grande tesouro
para fazê-lo rico, mas morais de bons conselhos
que você poderá precisar;

Eu entrego-lhe isto, esperando que tome cuidado.”

Mais tarde, no mesmo trabalho, ela aconselha-o a não acreditar em todas as coisas ruins que são ditas sobre as mulheres e espera que ele encontre uma que seja “boa e doce”.

Charles V da França.
Charles V da França.

Quando foi a vez de assegurar o futuro de sua filha, Cristina viu-se perante um dilema. Ela não possuía o dinheiro para um dote – algo obrigatório para as mulheres – e, portanto, ficou encantada quando sua filha Marie foi aceita em um convento dominicano real, em Poissy. Este era um convento de prestígio, local onde as crianças bem-nascidas, eram internas somente com a autorização do Rei. O terceiro filho de Cristina, um menino, morreu sob circunstâncias desconhecidas. Como a maioria das mães ao longo dos séculos – associadas ou não ao feminismo -, a prioridade máxima de Pisano eram seus filhos.

Carreira e Protofeminismo:
Em 1393, ela escrevia baladas de amor, que chamavam à atenção dos ricos mecenas da Corte, intrigados por esta nova escritora, à quem pediam que escrevesse baladas sobre suas conquistas amorosas. Sua produção literária foi prolífica entre 1393 e 1412, quando escreveu mais de trezentas baladas e numerosos sonetos.

Foi apenas após garantir o bem-estar de seus filhos, que ela passou a pensar nas questões de gênero para as mulheres da França. Eram tempos difíceis, onde as mulheres eram severamente ridicularizadas no ‘fabliaux’ (histórias anti-feministas populares da época). Naquele período, o espancamento de uma esposa, foi autorizado por direito canônico; as mulheres eram descritas por clérigos, como “os portões do inferno”.

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Imagem onde fazem analogia à Cristina e os tempos modernos.

Ela começou seus trabalhos, com o L’Epistre au Dieu d’Amours em 1399, que foi uma defesa às mulheres, para combater as atitudes do amor cortês do período, que era em muitos aspectos, difamatório em relação às mulheres na opinião de Cristina. Neste trabalho, mulheres de todas as classes sociais, reclamaram de seus detractores para Cupido. Cristina apresenta-se como secretária do Cupido, que relata uma carta dele, que determina que todos os homens que falem falsamente de suas mulheres, sejam banidos de sua Corte. Seu argumento centrou-se nas obras específicas de escritores populares: como o misógino Ovídio, um autor clássico cujas obras permaneceram populares na Idade Média, e Jean de Meung, um contemporâneo de Pisano. De acordo com Lula McDowell no livro The Forerunner of Feminism, o argumento de Cristina é surpreendente:

”Seu método de defesa é bastante inesperado, alegando que as mulheres são iguais em inteligência, cultura e educação que os homens, ou exigindo privilégios iguais para eles, educativamente ou politicamente, ela começa por afirmar que aqueles que estão determinados em caluniar e difamar seu gênero, são culpados de ingratidão… Ela continua seu discurso, dizendo que as mulheres cuidam dos homens do berço ao túmulo e que eles deveriam ser gratos por este cuidado ao longo de suas vidas, ao invés de grotescamente falarem mal das mulheres. Claramente, o que Cristina propagou, mais tarde tornou-se uma importante parte do feminismo relacional, enfatizando os papéis complementares de homens e mulheres; longe de procurar a igualdade entre os sexos, ela apenas procurou reconhecimento e respeito pelo papel das mulheres, tais como foram construídos em sua época.”

O clero e a aristocracia, foram os principais responsáveis pela construção destes papéis para as mulheres. De acordo com Eileen Power, em seu livro Medieval Women, “a opinião expressa de qualquer período, depende das pessoas e as classes que a articulam; … Na Idade Média, o que passou para a opinião contemporânea, provinha de duas fontes – a Igreja e a aristocracia”.
Christine_de_Pisan_and_her_sonEnquanto as mulheres eram predominantemente responsáveis pela criação dos filhos e tarefas domésticas, elas também ocupavam cargos fora de casa. Muitas vezes eram esposas de comerciantes e continuavam com seus negócios após a morte de seus maridos. Na realidade, muitas mulheres mantinham profissões ativas, independente de seus maridos. O termo ‘femmes soles’, foi estabelecido para estas mulheres, que arcavam com tais responsabilidades sozinhas; ou seja, seus maridos “não poderiam ser responsabilizados por suas dívidas, como caso contrário seriam”.

Da mesma forma, nobres damas ocuparam cargos importantes, envolvendo o funcionamento de grandes casas com grandes comitivas, e também grandes propriedades familiares na ausência de seus maridos. Enquanto a maioria destes papéis confiavam à mulher o cargo de ajudantes dos homens (além de femmes soles), Cristina tentou garantir que estas mulheres fossem respeitadas por tais desempenhos, ao invés de serem pintadas com os mesmos pincéis que uma minoria de mulheres, que haviam sido frívolas e manipuladoras.
Aqui, no entanto, Cristina parece diferir das feministas relacionais da década de 1890, que viam relação a feminino-masculino como não-hierárquica. Cristina escreveu em L’Epistre au Dieu d’Amours”, que “a mulher é a sempre presente ajudante do homem”.

CONTINUA…

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