Rainha Elizabeth I: Um caso de Hipersensibilidade Andrógina?

603px-Elizabeth_I_(Armada_Portrait)Elizabeth I – como boa filha de sua mãe – tem sido desde que vivia, ligada à rumores, mitos e lendas sobre sua vida, sentimentos e aspectos físicos. Atingindo o patamar de imagem icônica em vida e legado, é natural que hajam certos aspectos que aflorem o imaginário popular ao longo dos séculos. Porém, a pergunta que nunca quer calar é: O que era verdade e o que era mentira?

Já falamos por aqui dos possíveis relacionamentos de Elizabeth, sua virgindade, recusa em casar-se, sua possível gravidez e até se era de fato, mulher. Porém, o assunto que abordaremos hoje, fez parte do artigo ou tese, escrita pelo Professor e Doutor R. Bakan na Universidade Simon Fraser, em Burnaby – Canadá – em 1985 – intitulado: “Queen Elizabeth I: A Case of Testicular Feminization? (Rainha Elizabeth: Um caso de hipersensibilidade andrógina?)”.

O primeiro registro relatado do AIS – como é conhecido- , pode ter aparecido em meados de 1817, quando um médico descrevera o caso de uma mulher aparentemente normal, que possuía testículos que não desceram. Tal condição, tem sido relativamente interessante para muitos geneticistas. A pessoa que sofre deste distúrbio, é sempre estéril – embora a menstruação possa ocorrer em alguns casos. Sua orientação sexual é sempre do sexo feminino; tendem a ter inteligência acima da média e desfrutar esportes menos convencionais – sabemos que Elizabeth era uma exímia hipista.

Há especulações de que tanto Joana d’Arc, quanto Elizabeth I sofriam desta condição. Uma condição que pode ter sido AIS, também foi mencionada no Talmude – livro sagrado dos judeus – em 400 a.c.

Conhecendo o  AIS:
A Hipersensibilidade Andrógina, é uma doença de desenvolvimento sexual congênita, causada por diferentes mutações no enhanced-buzz-25281-1370862035-0gene, que codifica o receptor andrógino vinculativo. Ela afeta pessoas com cromossomos masculinos (XY), mas que permanecem mulheres fenotipicamente. Os seios continuam a desenvolverem-se. A amenorréia, é a causa mais comum para a percepção de indivíduos com esta síndrome. Estas pessoas são estéreis, porém, levam um vida relativamente normal, podendo desenvolver relações sexuais.

A incapacidade de reconhecer os andróginos, envolve fatores genéticos relacionados ao cromossomo X e fatores congênitos – com 50% de chance de passar de mãe para filho. As manifestações clínicas desta condição surgem somente na puberdade, que pode ser retardada, mas que se apresenta normalmente, com exceção da ausência de menstruação e diminuição ou ausência de pelos pubianos e axilares. Externamente, a vagina apresenta-se normal, embora em certos casos haja um subdesenvolvimento dos lábios e clitóris. Internamente, a vagina apresenta-se com um fundo cego – não havendo ligação com o útero, ou trompas de falópio.

Os testículos, podem estar localizados na região intra-abdominal, no interior do anel inguinal, ou pode herniar nos grandes lábios, fator que pode levar à descoberta da desordem. A pessoa com esta síndrome, produz andróginos como testosterona, porém, eles não são identificados pelos receptores celulares ou não convertem em sua forma ativa (di-hidrotestosterona) e por isto, não geram os efeitos de virilização do organismo.

Professor e Dr Bakan:
Bakan escreve que: –

“A caracterização de pessoas com esta síndrome, é muito semelhante às descrições de Elizabeth por seus contemporâneos. Sua aparência, personalidade e comportamento descrito pelos historiadores, bem como um número de defeitos físicos específicos, nos fazem considera-la estéril e relutante em casar-se”.

1add405aea79221bc366580ec919f2abÉ no entanto, interessante mencionar, que os historiadores modernos rejeitam tal teoria. Segundo eles, a razão da recusa da monarca em casar-se, tem uma explicação psicológica, fundamentada nos conflitantes relacionamentos afetivos de seu pai com suas esposas.

Porém, quais seriam as características que descreve o Professor? Primeiro de tudo, uma pessoa com tal desordem, caracteriza-se por um crescimento elevado, são magras e atléticas, além de possuírem mãos e pés bonitos, bem torneados e com longos dedos. De acordo com contemporâneos, Elizabeth possuía tais características – porém, ela media cerca de 1,71 de altura. Suas mãos com longos dedos, eram umas de suas características mais fortes – seus retratos onde vemos segurando suas luvas com seus longos dedos, são provas disto.

Ele aponta alguns discursos de contemporâneos sobre a monarca:

William Cecil certa vez disse: “Se hoje ela é mais que um homem, amanhã será menos que uma mulher”.

Benjamin Jonson – dramaturgo, poeta e ator afirmou:
”Ela possuía um membrana, que a tornava incapaz de ter um homem, embora para seu deleite, tenha tentado bastante. Na chegada do Duque Alençon, havia um cirurgião francês, que tentou cortá-la, embora temessem sua morte”.

O escritor francês Brantome, falou de uma mulher – que muitos acreditam tratar-se de Elizabeth:
“Ela era imprópria para ser esposa, tendo apenas a abertura maior, através da qual passava água – urina”.

6b1b60f1abd38e36562d7675617c9a28Roger Ascham: “A constituição de sua mente está isenta da fraqueza do sexo feminino e ela é dotada de um poder masculino de aplicação (…) Em toda a sua vida, assemelhou-se bastante à Hippolyte e Phaedra”.
Hippolyte – Rainha das Amazonas, vivam ser precisar de homens.
Phaedra – Era uma princesa luxuriosa e dependente de homens. 

Maria Stuart também observou em uma carta, que havia ouvido falar de Lady Shrewsbury, que Elizabeth foi tola o bastante para desejar um casamento com o Duque de Alencon, quando tal união não poderia ser consumada. Parece também que Quadra e de Feria, os embaixadores espanhóis, acreditavam que Elizabeth não podia ter filhos.

Dr. Bakan cita também, o próprio discurso de Elizabeth em Tilbury – onde segundo ele, a própria Elizabeth enfatizou repetidamente que, embora fosse mulher, possuía características masculinas: –

“Eu sei que tenho o corpo de uma frágil e fraca mulher, mas tenho o coração e estômago de um rei”.

De acordo com Bakan, Elizabeth não casou-se nem teve filhos, pois simplesmente não podia, devido sua condição. Ela também proibiu sua autópsia após a morte – será que tinha medo de que algo viesse à luz?

Refutação:
Muitos historiadores declinam tal teoria, pois tanto Ana Bolena – sua mãe – quanto sua avós e bisavós maternas, não tinham problemas em engravidar. É interessante também, citar que há registros de que a Rainha menstruara normalmente.

Queen-Elizabeth1Nos registros de contas da Rainha Elizabeth, há menções de vallopes grandes e pequenos de linho holandês, juntamente com outros itens de linho simples. – Vallopes, eram tecidos usados no período menstrual.

Novamente encontramos uma pista nas contas reais na Rainha Elizabeth, onde são listados três gyrdelles de fustão e seda negra feitos à mão e ricamente decorados. Possivelmente eram utilizados como cinturões sanitários para prenderem os Vallopes.

Ele diz também no texto, que Ana Bolena, possuía uma deformidade, um sexto dedo – prova de deformidade genética. Porém, isto nunca fora comprovado e é muito provável que sua existência, seja mais um dos muitos mitos do período. Henrique VIII tomaria muito cuidado ao escolher sua esposa – para que tais atributos físicos, não pudessem passar para seu herdeiro e presuntivo futuro monarca.

Porém, o que parece, é que muitas pessoas ao longo dos séculos, parecem se incomodar com uma questão: Por que Elizabeth nunca se casou? Por que não gerou um herdeiro para a Dinastia Tudor?

Em minha opinião, ela nunca casou-se, pois temia um marido que pudesse trata-la, como seu pai tratou suas esposas:
Catarina de Aragão: Enviada para exílio e proibida de ver a filha;
Ana Bolena (sua mãe): Acusada de alta traição e decapitada quando Elizabeth ainda era pequena;
Jane Seymour: Pressionada a gerar um herdeiro – morta por febre puerperal;
Ana de Cleves: Divorciada pouco após casar-se;
Catarina Howard: Prima de sua mãe – Acusada de alta traição e decapitada;
Catarina Parr: Vivia envolta a rompantes de bipolaridade de seu marido idoso, cansado e moribundo.

Robert Dudley, ao mencionar suas relações de infância com Elizabeth, mais tarde na vida, disse que “ele a conhecia melhor do que ninguém, a partir de seus oito anos de idade.” Ele também acrescentou: “e desde aquela idade, ela sempre dissera que nunca iria casar-se.”

henry81540c (1)Porém, seu pai não foi o único homem a deixar uma marca negativa em sua vida. O marido de Catarina Parr, Thomas Seymour, cortejou Elizabeth enquanto sua esposa estava esperando um bebê. Além disto, Elizabeth amou Robert Dudley, que era casado quando intensificou seu relacionamento com a rainha (eu usei a palavra “relacionamento”, pois não há nenhuma evidência de que eles realmente eram amantes, ou apenas bons amigos).

É possível então, que Elizabeth não quisesse nenhum homem para restringir sua liberdade ou traí-la, ou talvez, até mesmo privá-la do poder que exercia enquanto monarca. Ela experimentou uma grande sorte por conseguir ascender ao trono – um irmão que morrera jovem e sem herdeiros, seguido do breve reinado de sua irmã, também sem herdeiros – para perder tudo ao controle de um homem. Várias vezes durante seu reinado, Elizabeth expressou sua opinião sobre o casamento:

”Aqui existirá apenas uma senhora e nenhum senhor!”

“É melhor ser uma mendiga solitária, que uma Rainha casada…”

Na realidade, assim como sua irmã Maria I um dia também dissera, ela era casada e muito bem casada com o Reino da Inglaterra. Em 1559, ela falou nas câmaras dos comuns:

Captura de Tela 2015-08-31 às 04.53.12‘Eu já estou casada com um marido e seu nome, é o reino da Inglaterra (…) e não derramem sobre sobre mim, lamentos sobre a falta de filhos, pois todos vocês, ingleses, são meus filhos (…) E para mim, será de completa satisfação, tanto para minha memória quanto para meu nome e glória, se quando der meu último suspiro, for gravado no mármore de meu túmulo: Aqui jaz Elizabeth, que governou como uma virgem e morreu como uma virgem.’

Seguidas tais afirmações e registros acima, não é de surpreender-se que Elizabeth nunca casou-se ou quis casar-se. Afinal, uma pessoa com tais exemplos de relacionamentos conturbados, talvez acreditasse que nunca poderia ter um casamento bem-sucedido, ou até, talvez quisesse apenas governar como uma rainha, sem marido, para provar às futuras gerações, que uma mulher também pode ter êxito sem um homem ao seu lado. Quem sabe…

Quanto aos filhos, dada a elevada taxa de mortalidade no parto, talvez ela simplesmente tivesse medo de engravidar e dar à luz a uma criança. Existem registros de que Elizabeth temia o parto e suas complicações. Era de consciência geral, que uma mulher poderia morrer após o parto – podemos inclusive citar sua madrasta, Catherine Parr, que padecera de tal mal e com quem Elizabeth, dividiu íntimos laços.

Elizabeth sabia muito bem que ser a filha de um governante, fazia com que todos esperassem que ela fosse tão boa ou melhor que Henrique VIII – seu pai. Ela cresceu e viveu envolta a intrigas e carregando o fardo de falsas acusações e suas

Elizabeth A Rainha Virgem - por Lisa Perrin.
Elizabeth A Rainha Virgem – por Lisa Perrin.

consequências, afinal, ela não era apenas filha de Henrique, como de Ana Bolena – para muitos, a grande concubina do rei. Talvez, este destino de provações e dor, tenham feito com que ela se orgulhasse de possuir um coração masculino em meio a um período tão machista e misógino.

Não consigo compreender, porque parecia e parece para muitos, tão errado e pouco natural, que uma mulher tenha reinado e sido bem sucedida e optado por não casar-se e ter filhos. Talvez seja irritante para muitas pessoas, que uma mulher fosse tão dona de seu destino. Que pudesse governar e tomar decisões, mostrando-se superior a tantos homens.

No final, acredito que Elizabeth era apenas uma mulher que viveu sua vida e fez suas próprias escolhas – boas ou ruins – e que por ter reinado em um período de tamanhas atribulações religiosas, políticas, pessoais e familiares, tenha imortalizado-se como alguém acima das espectativas, uma sobrevivente, uma rainha virgem.

Documentário:
Aos interessados, existe um documentário – que foi ao ar na BBC, em 25 de Janeiro de 2011 – que aborda o assunto. O nome dele é: The Secrets of the Virgin Queen e encontrei no Youtube – embora não saiba por quanto tempo ficará ao ar.

FONTES:
Anne Boleyn: AQUI.
Scielo: AQUI.
Webartigos: AQUI.
Secondtype: AQUI.
Ncbi.nlm.nih.gov: AQUI.

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