Seria Ana Bolena filha de Henrique VIII?

anahenriqueA vida de Ana Bolena é envolta em mitos. Talvez seja este um dos muitos motivos, pelo qual a segunda esposa de Henrique VIII e mãe de Elizabeth I, atrai tanta atenção ao longo dos séculos. Grande parte de sua história, permanece ferozmente debatida por historiadores – tudo à partir do por que Henrique apaixonou-se por ela e qual a exata razão para tê-la destruído, ocasionando seu trágico fim.

Um dos muitos mitos que cercam Ana e sua família – e talvez, um dos mais assustadores -, é o de que Elizabeth Bolena, sua mãe, envolveu-se com Henrique VIII; fazendo portanto, com que Ana seja filha e mais tarde, esposa do monarca. Dizem que certa vez, ao ser questionado se havia dormido com a mãe e irmã de Ana, Henrique prontamente respondera: “nunca com a mãe!’’

No livro de Lord Herbert de Cherbury – ‘Life and Raigne of King Henry VIII, de 1649′-, ele menciona sobre como William

Elizabeth Bolena no filme, A Outra.
Kristin Scott Thomas como Elizabeth Bolena no filme, A Outra.

Rastall, cita que o jovem Henrique VIII teve um affair com Elizabeth Bolena – quando Thomas Bolena estava fora, na França – e que desta união, nascera Ana Bolena, sua futura esposa.

Este infame boato, teve início durante o relacionamento de Maria Bolena com Henrique VIII e aprofundou-se durante o breve reinado de Ana. O biografo de Ana, Eric Ives, descarta tal possibilidade, concluindo que Elizabeth Bolena, fora provavelmente confundida com Elizabeth Blount – conhecida amante de Henrique.

Algumas pessoas foram mais longe e usaram tal boato, como modo de afirmar que a nova – e para muitos impopular rainha – era filha de Henrique. Se acreditamos na ampla e bem aceita hipótese de que Ana nasceu por volta de 1501, é importante ressaltar que Henrique, então, teria apenas 10 anos de idade quando o flerte ocorreu – que de forma alguma, escaparia dos atentos olhares de seu pai, Henrique VII; sem falar do próprio chamado de puberdade, que seria totalmente inexistente na época.

É muito mais provável, que tal propaganda caluniosa, tenha sido colocada em circulação pelos muitos inimigos dos Bolena. Conforme mencionamos acima, o próprio Henrique negou tais alegações, quando questionado.

Vamos no entanto, descobrir quais foram estas alegações e por quem foram feitas:

Alison Weir em sua biografia de Maria Bolena, cita: –

‘O Frade William Peto de Greenwich – que publicamente comentou a determinação de Henrique VIII em casar-se com Ana Bolena, em um sermão proferido frente ao monarca na Páscoa de 1532 – alertou a Henrique, que comentavam que ele havia deitado-se tanto com Ana, quanto com sua irmã e mãe’.

Em 1533, Elizabeth Amadas, a esposa de um ourives real – que tinha sido ela própria, uma vez perseguida por Henrique VIII – afirmou publicamente “que o Rei havia possuído tanto a mãe quanto a filha”, referindo-se à Elizabeth Howard e a Ana, ou Maria Bolena – que possuía a fama de anos antes do casamento de Ana, em 1533, ter sido sua amante. A Sra. Amadas também afirmou que, “meu Lord de Wiltshire [Thomas Bolena], foi cafetão tanto de sua esposa, quanto de suas duas filhas.”

Captura de Tela 2015-08-27 às 23.40.25Os rumores, no entanto persistiram e espalharam-se mais longe. Em março 1533, foi registrado que Thomas Jackson – um Capelão em Chepax, Yorkshire – havia alegado que o casamento de Henrique VIII com Ana Bolena era adúltero e que o Rei, havia “possuído a mãe e depois a filha e agora casou-se casou com ela, a quem outrora possuiu…”

O fato de que tais fofocas estavam em circulação em lugares tão distantes como Yorkshire, mostra-nos como eram fortes os boatos em torno das mulheres Bolena.

Em 1535, John Hale – o vigário de Isleworth -, repetiu entre outras calunias que, “vossa graça o rei, havia envolvido-se com a mãe da rainha [Ana Bolena]”.

A afirmação de que Elizabeth Howard e Henrique VIII, haviam sido amantes, foi repetida e reforçada mais tarde por três escritores católicos hostis: Nicholas Harpsfield, William Rastell e Nicholas Sander – cujo tratado condenando Henrique e Ana, foi publicado em Roma em 1585.

600px-Botticelligranat_bildPorém, William Camden, que alegou que Nicholas Sander O primeiro homem que abordou a condenável mentira sobre a mãe da rainha Elizabeth.“, estava errado quando proferiu tal acusação. Na realidade, o primeiro a abordar o tema, pode ter sido, Nicholas Harpsfield – cujo “Tratado sobre o divórcio entre o rei Henrique VIII e Catarina de Aragão”, foi publicado no reinado da filha de Catarina, Maria I -, William Rastell – citado acima; era contemporâneo de Maria Bolena e morreu no exílio em Louvain, durante o reinado de Elizabeth I -, ou por fim e mais provavelmente aceito, o Frade William Peto – também citado acima.

Rastell – um impressor e juiz -, foi o editor das obras de Sir Thomas, as quais ele publicou em 1557. Ele também, escreveu sobre a vida de Thomas More, porém não é provável que nenhuma de suas obras tenha sobrevivido até os dias atuais. Já Lord Herbert – cuja biografia de Henrique VIII, foi publicada em 1649 -, certamente viu alguma delas, pois refere-se a elas e diz que Rastell, afirmou que Ana Bolena era fruto de uma relação ilícita entre sua mãe e Henrique VIII.

Harpsfield – um arcediago de Canterbury -, escreveu que ”havia ouvido falar, de fonte credível, que o rei conhecia a mãe de Ana Bolena no sentido bíblico”.

Podemos notar com tais alegações, que todas as fontes que possuímos sobre o caso, provém de pessoas conhecidas por irem contra a facção Bolena – sendo simpatizantes de Catarina de Aragão, ou católicos. Entendam melhor abaixo:

Nicholas Harpsfield – autor do “Tratado sobre o divórcio entre o rei Henrique VIII e Catarina de Aragão”: Era um padre católico, amigo de Thomas More e sua família; partidário de Catarina e contrário a facção Bolena.

William Rastell: Era católico e relacionado a Sir Thomas More.

Elizabeth Amadas: Era partidária de Catarina de Aragão e fez várias outras afirmações fantasiosas sobre Ana Bolena, à quem ela amargamente reprovava; sendo portanto, imprudente dar muito crédito à qualquer uma delas.

Thomas Jackson: Entusiasta de Catarina de Aragão e contra a facção Bolena.

anne-boleyn-little-girlJohn Hale: Era um conhecido apoiante de Catarina de Aragão e estava em uma missão para impugnar a legalidade do casamento do rei com Ana Bolena. Se Henrique houvesse tido qualquer contato sexual com Elizabeth Bolena, ele certamente teria pedido em 1528, uma outra dispensa ao Papa, junto com a que pediu para casar-se com a irmã de uma mulher (Maria Bolena) que havia sido sua amante; já que um relacionamento com a mãe, também teria tornado seu casamento incestuoso e portanto, nulo e sem efeito, o que na época para Henrique, não seria nada agradável.

William Peto: Era um grande entusiasta de Catarina e via Ana como uma concubina, fazendo com que seu discurso perca propriedade.

Thomas Bolena não foi enviado como embaixador na França, até 1519. Portanto, ele não estava na França quando Ana Bolena foi concebida ou nasceu. Ele foi enviado como embaixador para os Países Baixos, em 1512 e para a França, em 1519. Ele estava na Inglaterra entre 1501 e 1507 e certamente teria notado se sua esposa houvesse engravidado do rei. Além disto, seria possível que o paranóico Henrique VIII – que preocupava-se em seu casamento com Catarina de Aragão ser contrário à lei de Deus, pois ela era a viúva de seu irmão – realmente casaria-se com sua própria filha?

Durante este período, Elizabeth Howard e Thomas Bolena haviam acabado de se casar, tendo ela engravidado e dado-lhe um filho à cada ano, segundo registros do período.

Mas e se Ana nasceu em 1507?

Agora, se considerarmos que Ana nasceu em 1507, as coisas mudam um pouco de figura, afinal, Henrique já estaria em sua 11949293_1052822824758447_2790612761724476915_nmaturidade. No entanto, é interessante notar, que o Embaixador Eustace Chapuys, referiu-se à ela como uma ”mulher elegante e velha’’. É de conhecimento geral que Chapuys não gostava de Ana, mas nunca foi conhecido por ser mentiroso e inclusive, defendeu sua inocência após ser acusada de traição. Não há motivos então, para duvidarmos da veracidade de seu relato.

Henrique tinha ciência de seu bastardo Henry Fitzroy, provendo-lhe bens e títulos, além de ajuda financeira. É altamente improvável que desconhecesse se Ana fosse sua bastarda e muito menos, casar-se com ela. É importante lembrar também, que naquela altura dos acontecimentos, Henrique estava no início de seu casamento com Catarina de Aragão e bastante apaixonado. É improvável que tenha escolhido uma amante naquele período.

Conclusão:
Tais boatos incestuosos parecem ter sido amplamente alimentados durante o período Tudor, não apenas com Ana, como também com sua filha Elizabeth I – no que ficara conhecido como: A Teoria do Príncipe Tudor e atualmente, rendendo uma obra cinematográfica sobre o assunto (filme Anonymous). Nesta produção, Elizabeth I envolveria-se com o galante Edward de Vere – seu TlHaJPaRvswentão, filho bastardo com Thomas Seymour – e gerado outro bastardo, que seria conhecido e criado como Henry Wriothesley, 3 Conde de Southampton. Intrigas à parte, este caso serve para ilustrar, que estas teorias que aguçam o ávido imaginário popular, existiram e existem desde sempre.

Os Bolenas eram uma família em constante ascensão e bastante odiada por famílias rivais no círculo da nobreza. Era comum no período, inventar e disseminar boatos, como modo de desfavorecer uma pessoa ou grupo familiar, não necessariamente significando a verdade.

É bastante improvável que tal boato tenha algum fundamento sólido; não sendo nada proveitoso para Henrique, envolver-se com a filha da mulher que um dia relacionou-se e principalmente, quando esta filha em questão, também seria sua. Este é apenas mais um dos muitos curiosos boatos espalhados no período e serve para entendermos como funcionavam as maquinações e tramas familiares, durante a Dinastia Tudor.

FONTES:
The King’s Reformation; G. W. Bernard – Yale University Press, August 21, 2007.
A treatise on the pretended divorce between Henry VIII and Catharine of Aragon, Nicholas Harpsfield.
On the Tudor Trail: AQUI.
History Extra: AQUI.
Mary Boleyn: The Mistress of Kings; Alison Weir – Ballantine Books, October 4, 2011.
The Life and Death of Anne Boleyn; Eric Ives – Wiley-Blackwell, July 22, 2005.

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