A outra Elizabeth: a filha perdida de Henrique VIII e Bessie Blount

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eliz.O ano de 1518, foi muito importante para Henrique VIII em diversos sentidos. Primeiramente, foi o ano em que sua única filha, a princesa Mary – com apenas dois anos de idade – ficou oficialmente noiva do delfim da França. O compromisso, foi o símbolo final do acordo de paz entre os dois reinos, previsto no Tratado de Londres, engendrado pelo mais fiel servidor do rei, o Cardeal Wolsey. Isto não quer dizer, evidentemente, que o rei tinha em mente qualquer tipo de união pessoal entre Inglaterra e França; afinal, a Rainha Catarina estava grávida. De acordo com a convicção otimista que cercava todas os aristocratas no período, esperava-se que ela em breve, desse à luz um menino saudável – apesar de todos os seus insucessos anteriores. Enquanto esperava o nascimento de seu herdeiro, o ansioso Henrique VIII, consolava-se com uma amante – como era habitual num período em que o sexo durante a gravidez, era considerado prejudicial para a saúde da mãe e da criança.

A escolhida para aquecer o leito real na ausência da rainha, foi mais uma vez, a jovem Elizabeth Blount. Melhor conhecida pelo apelido de Bessie, ela nasceu por volta de 1500, sendo a filha de Sir John Blount e Lady Catherine Pershall – que eram leais servos da Família Real. Em 1513, quando ela veio para a Corte servir como acompanhante da rainha, sua beleza chamou a atenção do rei, que apesar da tenra idade da garota, rapidamente tornou-se sua parceira predileta – tanto para dançar, quanto para acompanhá-lo a seus aposentos. Henrique VIII, entretanto, era completamente diferente do insaciável Francis I de França, e costumava limitar suas aventuras aos períodos gestacionais da esposa, por quem tinha um respeito romântico. Neste sentido, o affair de 1518, não seria a princípio, nada espetacular. Naquele ano, contudo, Bessie Blount ficou grávida pela primeira vez, pouco antes da rainha ter uma menina natimorta, em 18 de novembro. Em junho do ano seguinte, a própria Catarina compareceria às celebrações em honra ao nascimento da criança; reconhecida pelo monarca inglês, o saudável menino foi batizado em homenagem ao pai e recebeu o sobrenome tradicional dos bastardos reais reconhecidos: Henry FitzRoy (Filho do Rei). Ele seria o único filho ilegítimo que Henrique VIII distinguiria oficialmente, dando-lhe mais tarde o importante título de Duque de Richmond.

E normalmente, é aí que a historiografia costuma datar o término do romance entre o Rei e Bessie Blount – que teria sido substituída por Maria Bolena, pouco após o nascimento do filho. Em determinado momento, após 1522, Bessie foi casada com Gilbert Talboys, membro da pequena nobreza, com quem teria mais filhos antes de enviuvar, em 1530. Ela ainda faria um segundo casamento com Edward Clinton antes de falecer, provavelmente vítima de tuberculose, em 1540. Antes de tudo isso, porém, Bessie tivera uma misteriosa menina. Batizada em homenagem à mãe, Elizabeth nasceu cerca de um ano após Henry FitzRoy vir à luz. Não poderia, portanto, ser filha de Gilbert Talboys – uma vez que ele e Bessie só casaram-se depois de 1522.

Então, quem poderia ser seu pai? Será que estamos tratando de uma filha perdida de Henrique VIII?

A historiadora inglesa, Elizabeth Norton, acredita claramente que sim. Segundo sua argumentação, em seu livro sobre Bessie Blount – lançado em 2012 -, a menina teria sido concebida aproximadamente entre outubro e novembro de 1519, poucos meses após o nascimento de Fitzroy. Naquele tempo, o Rei ainda estava encantado com a descoberta que poderia gerar filhos homens saudáveis – em franco contraste com os repetidos fracassos de sua esposa – e visitava frequentemente o bebê e Bessie, na casa onde haviam sido discretamente instalados. Como a maioria das nobres não amamentavam seus filhos – algo que acreditavam poder inibir a concepção -, é perfeitamente possível, um intervalo de apenas cinco meses entre o nascimento de Henrique FitzRoy e o momento que seus pais conceberam mais uma criança – desta vez, uma menina. A facilidade de Bessie em ter filhos, pode presumivelmente ter acelerado o desencantamento do rei em relação à sua consorte; de fato, pouco depois, ele iria para os braços de Maria Bolena, sua próxima amante a qual muitos acreditam, ter gerado bastardos de Henrique VIII.

Existe, entretanto, uma diferença muito importante entre as duas amantes reais: enquanto Maria Bolena era casada com William Carey na época que o affair com o rei teve início, Bessie era solteira – e em verdade, só casaria-se anos depois do nascimento de sua filha, conforme visto. Embora isto pareça apenas um detalhe hoje, era uma questão decisiva no que tange à possível legitimação dos filhos de ambas; independentemente se os filhos de Maria Bolena foram concebidos com o rei, sua paternidade legal seria do homem com que ela estava casada perante os olhos de Deus, William Carey. Já as crianças de Bessie, seriam um caso bem diferente; bastaria que elas fossem legitimadas pelo rei, para poderem em tese, ter direitos de herança. Embora Henrique VIII tenha reconhecido o menino, que em um período posterior, até mesmo foi forte candidato a sucedê-lo ao trono, não o fez com a menina. Seria esta, uma contraprova da tese de Norton?

À primeira vista, realmente pode parecer que a aparente desatenção de Henrique em relação à filha de Bessie, seria uma prova negativa da paternidade. Isto, contudo, seria pensar a realidade do século XVI, com o raciocínio do XXI. Henrique provavelmente não reconheceu a paternidade da jovem Elizabeth, simplesmente porque não era necessário; na época de seu nascimento, ele já tinha uma filha de nascimento legítimo – Mary – para utilizar no mercado matrimonial europeu. Depois, quando anulou seu primeiro matrimônio e casou-se com Ana Bolena, rapidamente ganhou a segunda Elizabeth. Tendo em vista tudo isto, quais são as provas que Norton apresenta para provar sua tese, além da data de concepção da menina?

Segundo a historiadora inglesa, Henrique VIII dedicou uma particular atenção à filha de Bessie pelo resto de sua vida, garantindo seu sustento, mesmo após seu primeiro casamento, com Thomas Wymbish, em 1539. O rei inclusive visitaria o casal, que desde o início teve uma união infeliz, em sua viagem pelo Norte em 1541; pouco depois, quando Elizabeth e Thomas começaram a ter problemas judiciais envolvendo o título do baronato Talboys – que ela herdara após o falecimento prematuro de todos os seus três irmãos – o rei a ajudaria, influenciando o tribunal, de forma bem pouco usual, a decidir a favor da filha de Bessie. Toda esta preferência, parece bastante estranha, a não ser se interpretada na ótica da paternidade real de Elizabeth Talboys, que teria sido apenas adotada pelo marido da mãe.

Porém, novamente, porque ela não foi reconhecida por Henrique VIII, em meio ao turbilhão dinástico do fim da década de 1530? Afinal, se legitimada, ela representava uma alternativa ao irmão, falecido em 1536 e às meias-irmãs declaradas ilegítimas, após as anulações dos respectivos casamentos do rei com Catarina e Ana, situação na qual permaneceriam até a morte do pai. Uma primeira resposta, é que simplesmente era tarde demais para isto; a filha de Bessie já era madura demais para que uma legitimação pudesse ocorrer sem extensa discussão. Esta resposta – um tanto insatisfatória – torna-se mais elucidativa se pensarmos nas datas de nascimento das meninas: na época do Terceiro Ato de Sucessão, em 1543 – que recolocou as antigas princesas na linha de sucessão – Mary já tinha 27 anos; a primeira Elizabeth tinha 23 anos; e a segunda Elizabeth apenas 10 anos. Ou seja, se reconhecida, a filha de Bessie Blount teria prioridade na sucessão do trono inglês, em relação à filha de Ana Bolena. É de se pensar, se o rei estaria disposto a tornar a sucessão ainda mais confusa ao prejudicar os direitos de uma filha reconhecidamente sua, filha de uma rainha coroada, em benefício de uma filha de uma antiga amante, que fora adotada por outro homem. Além disto, sempre é bom lembrar que após o nascimento do príncipe Eduardo, em 1537, as esperanças de Henrique VIII sempre ficaram no único filho legítimo, que conseguira sobreviver.

Embora tentar entender os motivos do rei para não reconhecer sua filha – apesar de nitidamente a favorecer – seja ao fim um exercício um tanto frustrante, é inevitável pensar em como a história inglesa poderia ter sido alterada se a filha de Bessie tivesse sido reconhecida por Henrique VIII antes de sua morte e acabado sucedendo a meia-irmã Mary, em 1558. Elizabeth Talboys morreu em 1563, sem ter tido filhos. Se ela tivesse se tornado rainha da Inglaterra, porém, teria sido a mesma coisa? Ou ela poderia ter vivido mais, se casado com um homem que a agradava e tido herdeiros, que eventualmente poderiam ter herdado o reino e impedido a Guerra Civil sobre a dinastia dos Stuart no século seguinte? Será que a Igreja Anglicana teria sido fundada? Será que a Inglaterra teria resistido à invasão espanhola em 1588? São muitas perguntas que não podem ser respondidas e que mostram a importância da influência de um único indivíduo na história. Afinal, Elizabeth I, a indesejada filha de Henrique VIII com Ana Bolena, causou profundo impacto na história do século XVI, qualquer que sejam as opiniões pessoais de cada um a respeito de suas decisões e de seus atos. Talvez, no final, nenhuma outra Elizabeth pudesse ter substituído a Gloriana em seu papel fundamental na história inglesa; papel este, que deixou sua marca indelével entre centenas de anos de história da monarquia britânica.

FONTES:
Artigo escrito por Fernanda Pissurno. Conheçam sua página: Casa Ducal de Braganca.
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Rio de Janeiro: Edições BestBolso, 1992.
Daily Mail: AQUI.
Royal Splendor: AQUI.
Historum: AQUI.

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