Um Retrato, Duas Almas: Seria o famoso retrato de Ana Bolena, na realidade de Maria Tudor Brandon?

finalÉ algo comum para todos que estudam sobre Ana Bolena, a imaginarem com as feições de seu mais famoso retrato, a pintura do final do século XVI (por volta de 1533-1536) de um artista desconhecido, exposta no National Portrait Gallery, em Londres. Estes últimos anos, porém, ao conversar com uma querida amiga, a Carol da página Los Líos de la Corte, pensamos em fazer uma delicada pesquisa sobre o assunto, que pode levar a um final interessante. Vamos ver?

O mais famoso retrato que alegam ser de Ana Bolena, é claramente o exposto no NPG, porém, suas feições lembram muito mais que vagamente, alguns retratos da famosa irmã de Henrique VIII, Maria Tudor Brandon. Tal semelhança, levou não apenas nós, como muitas pessoas, a questionarem se por acaso não há alguma ligação entre as duas pinturas, ou melhor, entre uma das retratadas. Assim surge a pergunta que não quer calar: Seria o famoso retrato de Ana Bolena, na realidade de Maria Tudor?

O historiador Brett Dolman – em um podcast da BBC -, mencionou que as vestes francesas de Ana em seu retrato, juntamente com o colar com pingente B, podem na realidade, terem inicialmente sido baseadas em um retrato da antiga Rainha da França, a irmã de Henrique VIII. Ele cita, que a fonte inicial para este contexto, baseia-se em uma análise da historiadora de arte, Susan James.

Mary_Tudor_and_Charles_BrandonProcurando na internet, achei uma página onde cita o trecho de seu livro – ”A Dinâmica Feminina na arte Inglesa, 1485-1603″, onde a autora afirma que o famoso retrato de Ana, é na realidade de Mary: –

“Embora não haja retratos seguramente identificados como sendo de Jane Grey ou Ana Bolena conhecidos por copistas, ainda existe um conjunto de retratos de mulheres não identificadas, que datam do reinado de Henrique VIII. Como era comum, estas pinturas originais não foram identificadas e as identidades das retratadas, são geralmente problemáticas. No entanto, como os copistas necessitam de uma imagem, algumas pistas parecem tê-los encorajado a chegarem em catalogações especulativas. O rosto padrão geralmente escolhido para Jane Grey era Catarina Parr e para Ana Bolena, era Maria Tudor Brandon…”

O retrato por muitos identificado como sendo de Ana Bolena, foi uma cópia realizada no final do século XVI, baseada em um suposto retrato pintado em meados de 1533-36. Já o famoso retrato de Maria Tudor Brandon, foi realizado quando ela tinha vinte anos, em 1516. No retrato, a jovem Maria posa de mãos dadas com seu marido, Charles Brandon – Duque de Suffolk. Eles haviam casado-se recentemente, por amor, pouco após Maria ficar viúva de seu marido, Luis XII da França.

A semelhança, conforme denota nossa montagem acima, é arrebatadora demais para ser mera coincidência. A cor da pele, vestes, cor e aspecto do cabelo, forma do rosto, nariz e lábios, assim como os olhos, são quase os mesmos. Maria era cinco anos mais velha que Ana (isto se considerarmos que sua data correta de nascimento, é 1501). Em 1533, Maria teria 37 anos, enquanto Ana, estaria com 32.
Muitos sugerem também, que o colar de pérolas com o delicado pingente “B” , não significaria de fato ”Bolena” e sim ”Brandon”. Minha amiga Carolina (citada acima), inclusive arrisca-se a dizer que trata-se de um retrato póstumo de Maria, um réquiem – considerando que ela faleceu em 23 de Junho de 1533. Charmoso e orgulhoso como era, talvez seu esposo Charles, quisesse como forma de ostentação pessoal – algo comum no período – que sua esposa de alta estirpe, carregasse em seu pescoço, o símbolo de seu nome e ascensão social de sua família.aa_Anne_boleynBradon era de origem humilde; segundo filho de Sir William Brandon, porta-estandarte de Henrique Tudor em Bosworth Field,  ele cresceu na Corte e tornou-se um favorito de Henrique VIII, seu futuro cunhado. Nada mais natural, que diante de tamanha maré de boa sorte, ele quisesse como símbolo final de satisfação e enaltecimento familiar, que seu nome repousasse na eternidade, no pescoço de sua mui nobre, falecida esposa.

Porém, também é interessante ressaltar, que nas cartas de amor que Henrique e Ana trocaram, ela escrevia suas iniciais como “AB”. É portanto, bastante plausível que Ana adornasse seu colo com o “B”, uma vez que era o símbolo do sobrenome de sua família, os Bolena. Porém, chegamos a um impasse, no momento em que notamos que a aparência da dama no retrato, vagamente assemelha-se as descrições físicas de Ana, feitas por seus contemporâneos. No retrato, podemos ver uma mulher com pele bastante alva, cabelos arruivados e belos olhos cor de mel, uma vez que segundo o embaixador veneziano, seus olhos eram: “negros e belos”, além de referir-se a seus lábios como ”largos”. Seu cabelo era descrito como espesso, brilhante e negro e sua pele escura e amarelada.

Já Maria Tudor, era descrita em seu tempo como uma beldade, com cabelos arruivados – assim como os de sua mãe – pele bastante alva e olhos claros (provavelmente azuis). É claro que encontramos divergências em ambas as descrições das retratadas, porém, é interessante notar, que Maria preenche os requisitos de ambos os retratos, com considerável exatidão em comparação à Ana.

Vale mencionar, que as jóias contidas no retrato identificado como de Ana, nunca foram encontradas – provavelmente porque nunca foram parar no acervo pessoal de Elizabeth, ou jóias da Rainha e sim, no inventário da família Brandon, após a morte de Maria. É algo incomum, uma vez que podemos ver em pinturas e registros, várias jóias de esposas de Henrique, sendo legadas à familiares, ou a esposas posteriores.

No livro – The life and death of Anne Boleyn – Eric Ives comenta sobre uma miniatura de Ana por John Hoskins, onde ela aparece com o colar ‘B’: –

”Felizmente, a sequência também tem o efeito de corroborar com a miniatura do século XVII na coleção do Duque de Buccleuch e Queensberry. Charles I mantinha esta cópia de Ana Bolena por John Hoskins – o velho e endorsou-a como sendo ”de uma antiga original’. O quão antiga, é impossível dizer. Embora a relação do exemplar com o padrão do NPG seja evidente, talvez tenha apenas trinta anos, ou menos. É mais provável que Hoskins tenha tido acesso a imagem anterior no estilo do retrato NPG. Um retrato de corpo inteiro de Ana, foi adquirido por Lord Lumley em 1590 e existiu até o final de 1773. Pode ser que Hoskins tenha derivado sua miniatura de uma pintura pedida de Holbein?”

Refutação:
Selecionamos aqui, alguns comentários para refutar a teoria de que o retrato de Ana, é na realidade de Maria Brandon –

*A miniatura de Hoskins, foi determinada como feita à partir de um original perdido, significando que foi identificada como Ana Bolena desde o início;

*Há registros de que Ana usava colares com pingentes de suas iniciais: A, B, AB; além de inúmeros retratos com o tema.

*Maria Tudor Brandon, não tinha razões para usar um pingente com o sobrenome de seu marido, pois no período Tudor, os homens da nobreza eram conhecidos – assim como as mulheres – por seus títulos e não sobrenomes. Charles era identificado como Duque de Suffolk.

Defesa:
Agora deixaremos aqui, alguns comentários apoiando a teoria de que o retrato de Ana, é na realidade de Maria Brandon –

* A catalogação de retratos no período Tudor, é bastante precária. Sendo por isto, bem possível que muitos supostos retratos de Ana, fossem na realidade de Maria Tudor ou outra mulher da nobreza.

* Embora conotassem status, as pérolas pouco adornadas por pedras e metais preciosos, não conotam a indumentária de uma rainha consorte no reinado de Henrique VIII – vide os retratos de Catarina de Aragão e esposas posteriores – e sim, uma mulher da alta nobreza ou círculo estreito do Rei.

*Embora as pessoas fossem identificadas por seus títulos, Ana ainda assim – mesmo depois de casada – continuou usando emblemas e símbolos de seu sobrenome e família – isto não era algo incomum e sim – conforme citado acima – um modo de valorização pessoal ou familiar.

Conclusão:

Ou seja, para o sim ou para o não, nada é conclusivo. Em uma pesquisa recente com Carol, encontramos uma possível ligação do famoso retrato NPG, não com Maria e sim, com outra mulher da nobreza. Aguardem pesquisas futuras!

Não posso no entanto, deixar de destacar, que é no mínimo interessante que duas mulheres que claramente não gostavam uma da outra em vida, tenham sido ligadas pela eternidade, com este enigma entre seus retratos.

FONTES:
Página Parceira da Carol – conheçam: Los Líos de la Corte
Query Blog: AQUI.
Anne Boleyn: AQUI.
Para mais informações sobre o livro – The Feminine Dynamic in English Art – AQUI.

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